vultos da literatura

O futuro chegou

Uma leitura de Rubem Fonseca no país de Bolsonaro

Alejandro Chacoff
Rubem Fonseca é uma espécie de escritor-profeta que antecipou a linguagem do momento atual, o seu tom agressivo e perene sentimento de afronta. A sua escrita brutal, seca e violenta deriva de um senso de desolação moral e metafísica
Rubem Fonseca é uma espécie de escritor-profeta que antecipou a linguagem do momento atual, o seu tom agressivo e perene sentimento de afronta. A sua escrita brutal, seca e violenta deriva de um senso de desolação moral e metafísica CAIO BORGES_2019

Em “A coleira do cão” – conto da coletânea homônima de Rubem Fonseca, publicada em 1965 –, o policial carioca Washington se irrita com o bom-mocismo de seu chefe, o delegado. “A polícia está ficando mole”, Washington diz. “E o resultado é este que o senhor está vendo: o número de assaltos e furtos aumenta dia a dia. Eu fiz o curso de detetive da escola. Lá não tem um stand de tiro, mas em compensação ensinam psicologia e direito constitucional. He, he.” O narrador de “O inimigo”, um conto anterior, se irrita com a seriedade vagamente pomposa de um ex-amigo de infância, e brada: “Só porque você deu um golpe do baú com êxito, casou com uma loura, herdou Gobelin do sogro, assiste aula de história da filosofia, dada por um professor de titica qualquer, só por isso, seu cretino, você tá pensando que é alguma coisa. Bestalhão. Não sei onde estou que não te parto a cara.” Em “A força humana”, um halterofilista melancólico passa andando pela rua e vê um homem negro dançando. “Pensei: outro maluco, pois a cidade está cada vez mais cheia de maluco, de maluco e de viado.”

O sarcasmo raivoso e a insolência performática dessas falas têm a mesma textura de inúmeros posts espalhados pela internet. É raro que frases coloquiais de personagens inventados há tanto tempo envelheçam tão bem. O ato de ler ou reler Rubem Fonseca – sobretudo os contos do início de sua carreira, publicados nas décadas de 60 e 70 – gera uma estranha sensação de ingenuidade retrospectiva. O surpreendente, à luz desses contos, não é tanto o momento político atual, mas sim o fato de que esse momento tenha demorado tanto tempo para chegar. “Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo”, diz o Cobrador, um de seus personagens mais famosos. Difícil imaginar algo mais palpável e atual do que esse sentimento de afronta, essa sensação perene de que eles (o mundo, a classe política, o empregador, quem seja) nos devem, e muito.

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Alejandro Chacoff

Alejandro Chacoff, jornalista da piauí, trabalhou como analista político em Londres

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