esquina

O goleiro de Michelle Bolsonaro

Advogado da primeira-dama divide-se entre os tribunais e o Corinthians

João Batista Jr.
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

“Que absurdo!!!” “Vou deixar de ser sócio do clube.” “As árvores da Amazônia não te perdoam.” Essas e outras críticas se sucederam à postagem no Facebook de dois vídeos curtos, de menos de quinze segundos cada, na página do clube paulista Hebraica, um dos mais tradicionais da comunidade judaica do país. Nos vídeos, Jair e Michelle Bolsonaro desejavam aos sócios do clube um bom Yom Kippur (Dia do Perdão), data religiosa de grande importância para os judeus, celebrada neste ano entre 27 e 28 de setembro. A primeira-dama citou o “Livro da Vida” (no qual, segundo o judaísmo, estão registrados os nomes dos que terão direito à vida eterna) e usou termos como “misericórdia” (mantra de cristãos neopentecostais empregado em ocasiões variadas). A cizânia na Hebraica, porém, não foi provocada por questões semânticas.

O desconforto ocorreu por causa da suspeita de possível uso político do clube, fundado em 1953 e hoje com 18 mil sócios, alguns de sobrenomes como Safra, Klein e Goldfajn. Todas as críticas foram logo apagadas por ordem de Daniel Bialski, advogado e presidente da entidade desde 2018, com o objetivo de evitar a propagação de discursos de ódio no ambiente (mesmo virtual) do clube. Ele havia recebido os dois vídeos responsáveis pela ira dos sócios na manhã de 26 de setembro, pelo WhatsApp. Abafada a grita, o caso trouxe à tona a crescente influência no Palácio do Planalto exercida por Bialski, judeu de origem polonesa e romena.

Desde o início do ano, ele assumiu a função de advogado de Michelle Bolsonaro, indicado por Fabio Wajngarten, secretário executivo do Ministério das Comunicações, que também é judeu. A principal demanda jurídica de Michelle é identificar os donos dos perfis em redes sociais que insinuaram que ela teria uma relação extraconjugal com o deputado Osmar Terra (MDB-RS), um luminar do negacionismo científico. As insinuações tiveram origem numa nota publicada na revista IstoÉ, em 21 de fevereiro, oito dias depois de Terra ter sido demitido do cargo de ministro da Cidadania. “Ela está abalada com as fake news, a internet não pode promover discurso de ódio e inverdades”, diz o advogado.

Sem perfil aberto em rede social, mas vaidoso no mundo de carne e osso, Bialski, de 49 anos, tem pinta de galã. Com 1,90 metro e 104 kg, usa camisa justa para valorizar os braços fortes. Carrega no peito um colar com nove pingentes, entre eles a estrela de Davi, um olho turco, uma pedra de sal e o chai (símbolo da vida para os judeus). O advogado circula de máscara com o emblema do Corinthians e um Rolex no pulso. No escritório de sua casa, tem um armário com mais de quinhentas camisas do time, muitas delas autografadas por jogadores.



 

Antes de ser criminalista, Bialski defendia em outra seara. Chegou a jogar no time de base do Corinthians, na posição de goleiro. Mesmo depois de ter sido aprovado no vestibular da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e começar a trabalhar no escritório de seu pai, Hélio Bialski, seguiu praticando o esporte como hobby. Há cinco anos, ao defender uma bola, quebrou o dedo mindinho esquerdo. O adversário não marcou o gol, mas o advogado acabou indo para o hospital.

Em seu currículo, Bialski acumula clientes notórios. Paulo Preto, ex-diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.), condenado por operar propinas do PSDB, é um deles. Átila Jacomussi, prefeito de Mauá cuja ficha corrida inclui investigações por desvio de recursos destinados ao combate à Covid-19, está sempre no escritório de Bialski. Mas, quando associam seu nome ao de Cynthia Giglioli da Silva, o advogado não esconde a irritação. Trata-se da ex-mulher de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o líder do PCC (Primeiro Comando da Capital). Em 2008, ela contratou Bialski para defendê-la numa ação em que era acusada de tráfico e recebimento de mesada da organização criminosa (acabou sendo condenada por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro). O advogado diz ter feito somente a apelação do caso a pedido de uma prima de Silva com quem trabalhou na Comissão de Prerrogativas da Seccional Paulista da OAB. “Toda pessoa, seja vítima ou acusada, tem direito a um advogado”, afirma.

Além dos processos dos clientes, Bialski trava suas batalhas particulares. Está possesso com o desfecho de sua sociedade na rede de restaurantes Paris 6. Em 2016, adquiriu 10% do negócio criado por Isaac Azar. Com decoração e cardápio pomposos, o Paris 6 foi criado sob medida para agradar uma clientela que sai de casa focada em fazer selfies e ganhar likes nas redes sociais. Daí os pratos serem batizados com nomes de celebridades, como Fettuccine Alfredo aux crevettes à Ludmilla e Gnocchi de brie aux quatre fromages à Marina Ruy Barbosa. O carro-chefe da rede é a sobremesa Grand gâteau à Paloma Bernardi: a guloseima, que inclui picolé de chocolate belga, ganache de Nutella e leite condensado, vendeu 330 mil unidades em 2019.

Então veio a pandemia. Bialski quis sair da sociedade ainda em março, mas escutou um “não” como resposta. O motivo: não havia dinheiro em caixa para pagar a parte dele, avaliada em 300 mil dólares. A amizade entre os sócios desmoronou. Azar tuitou no dia 8 de outubro: “Ao sócio criminalista, as chantagens e ameaças serão sempre abertas ao público para que a verdade seja clara. Ele pode tentar destruir o Paris 6. E vocês, clientes, fãs e seguidores, desejam isso?” Azar apagou o post com medo de ser processado pelo ex-sócio e ex-amigo.

 

Pai de três filhos, Bialski separou-se da advogada Juliana Mendonça em 2018, após 21 anos de casamento. Nascida em família católica, ela se converteu ao judaísmo antes de se casar, instruída pelo rabino Henry Sobel. “Sobel foi um amigo muito importante na minha vida”, diz o advogado sobre o rabino que combateu a ditadura exaltada pelo marido de Michelle Bolsonaro.

Na comunidade judaica, Bialski tem grande importância. Além de ocupar a presidência da Hebraica, é diretor do Museu Judaico e ex-presidente da Sinagoga Beth-El. Seu escritório atende inúmeros judeus sem cobrar um tostão. “Eu me voltei mais para a filantropia após a morte do meu pai, por infarto fulminante.”

Hélio Bialski morreu aos 70 anos, em 2012, quando o time da família vivia uma fase de glória. Na primeira partida do Corinthians contra o equatoriano Emelec, pela Copa Libertadores, o estádio fez, antes do apito inicial, um minuto de silêncio em sua homenagem. No mesmo ano, na final do Mundial de Clubes, na cidade japonesa de Yokohama, o advogado e o seu filho mais velho, André, estenderam uma faixa na entrada do estádio em homenagem ao pai e avô. “Daniel é um grande corintiano”, diz Andrés Sanchez, presidente do clube, ex-deputado pelo PT e cliente de Bialski. O advogado é suprapartidário em sua rede de contatos. O ex-presidente Michel Temer, quatro dias após sua breve passagem pela prisão, em março de 2019, se reuniu com amigos para desfrutarem juntos umas baforadas de charutos Cohiba – entre eles, estava Bialski.

Embora tenha desagradado parte dos sócios ao mandar publicar mensagens de Jair e Michelle Bolsonaro no Facebook da Hebraica, não se pode dizer que Bialski não zele pelos interesses da entidade. Em agosto, o governo federal liberou a captação de 11,3 milhões de reais, via lei de incentivo, para o clube construir um campo de futebol e um espaço para eventos. O advogado nega haver conflito de interesses. “Dei entrada na papelada antes de ela virar minha cliente.” Questionado se seus honorários são uma cortesia para Michelle, ele afirma que a primeira-dama arca com as custas processuais. Os valores ele não revela. Alega sigilo profissional.

João Batista Jr.

Repórter da piauí, ex-colunista de Veja e autor do livro A Beleza da Vida — A Biografia de Marco Antonio de Biaggi

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