questões vultosas

O golpista encalacrado

O homem está do tamanho do capitão e do sargento do Riocentro

Fernando de Barros e Silva
CREDITO: LÉZIO JUNIOR_2021

Jair Bolsonaro é hoje muito menos candidato à reeleição presidencial do que candidato a golpista. As duas personas obviamente se confundem, mas à medida que o caminho até as urnas (eletrônicas) se torna mais difícil, a fantasia da ruptura da ordem democrática ganha espaço na retórica, nas ações e nos cálculos do presidente, essencialmente um arruaceiro.

A corrosão da institucionalidade que ele promove começa pela linguagem – Bolsonaro faz a política do “E daí?”. Não tem partido, não costura alianças estaduais, não discute ideias, não constrói nem articula nada. Entregou ao Centrão uma fatia gorda do poder, assinando um contrato em branco com a única finalidade de se ver livre da ameaça do impeachment. O valor do aluguel que paga a Arthur Lira e seus bravos rapazes da corretagem parlamentar apenas para continuar frequentando o Palácio do Planalto é cada vez mais abusivo. E daí? O que realmente não tem preço para o Messias que não faz milagres é estar na companhia de seus três “emes”: militares, milicianos e motoqueiros. O resto? Todo mundo vai morrer um dia. E daí?

A pouco mais de um ano da eleição, Bolsonaro deixou de ser um candidato competitivo. Isso ainda pode mudar, mas a dúvida que se coloca neste momento diz respeito à sua viabilidade como golpista. Que forças sociais e políticas, quais interesses econômicos dariam sustentação ao delírio bananeiro que ele vislumbra? Em outras palavras, será Bolsonaro um golpista competitivo?

Se reunisse condições para ir às últimas consequências, o presidente não se contentaria com o inédito pedido de impeachment que enviou ao Senado contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Ele simplesmente invadiria o STF dirigindo aquele tanque movido à fumaça de óleo diesel. Levaria a tiracolo Sérgio Reis e seu berrante, além de Roberto Jefferson, o pistoleiro-canastrão, empunhando numa das mãos um fuzil e na outra um taco de beisebol verde e amarelo. Depois de destituir os onze ministros do Supremo, Bolsonaro mandaria destruir a estátua da Justiça, na praça em frente ao tribunal, para colocar no lugar uma daquelas réplicas em miniatura da Estátua da Liberdade, como as que enfeitam as lojas Havan. Seria a substituição da utopia modernista pelo kitsch distópico – uma metáfora da promessa de felicidade, que um dia a capital encarnou, sendo devorada pela ferocidade do país real. Nem tudo é como a gente quer.

Com a Câmara dos Deputados no bolso e o Senado presidido por uma figura de temperamento pusilânime, que oscila entre a omissão imperturbável e as convocações protocolares ao entendimento universal, é o Poder Judiciário que tem barrado a sanha assassina do presidente. Foi por determinação de Luís Roberto Barroso que Rodrigo Pacheco cumpriu a lei e mandou instalar a CPI da Covid. Foi também Barroso quem assumiu, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a liderança da defesa intransigente do sistema eletrônico de votação.

Se dependesse de Augusto Aras, refestelado no topo da cadeia alimentar do Ministério Público, as redes bolsonaristas de propagação de notícias falsas e incitação ao crime estariam funcionando livremente. E daí? Só não estão porque Alexandre de Moraes atropelou a desídia do procurador-geral da República e decidiu enfrentar as milícias digitais que operam com conexões, já documentadas, dentro do Palácio do Planalto.

 

Ao forçar a mão no enfrentamento com os ministros do STF, Bolsonaro toma um caminho sem volta. Está determinado a deslegitimar a cúpula do Judiciário e a lisura do processo eleitoral até o fim. Na sua fabulação, além da urna eletrônica, agora também o ministro que presidirá o TSE no período eleitoral não é confiável. Mas há algo mais imediatista nessa estratégia. Ao apontar suas armas contra o Judiciário num ambiente crispado como o atual, Bolsonaro dá a seus seguidores, entre os quais muitos policiais, uma espécie de senha para precipitar confrontos nas ruas. A superposição das crises institucional e social é tudo o que ele quer. Criar o caos e posar de vítima para em seguida se oferecer como fiador da ordem.

Bolsonaro age exatamente como faziam os órfãos da linha dura militar no começo dos anos 1980, quando explodiam bancas de jornal e planejavam atos terroristas com o intuito de promover o pânico e responsabilizar a esquerda. O presidente da República tem o tamanho do capitão e do sargento que participaram do atentado frustrado do Riocentro, em 1981. A bomba, que seria colocada dentro do centro de convenções onde milhares de pessoas participavam de um show em homenagem ao Dia do Trabalhador, explodiu dentro do carro, no colo do sargento, que morreu, e deixou o capitão gravemente ferido.

No tempo que lhe resta de mandato, Bolsonaro continuará a promover badernas e a perseguir pessoas e instituições. É quase certo que sua atitude provocará tumultos e a morte de inocentes. Esse parece ser também o limite do golpe que ele é capaz de executar. Podemos discutir se nessa história o presidente termina como o sargento ou como o capitão do Riocentro (atenção: é uma metáfora), mas muito dificilmente o caminho da sabotagem lhe trará a vitória política.

Nem Bolsonaro nem os militares que se desmoralizam ao seu redor têm forças para implantar um regime de exceção no país. Precisariam ganhar nas urnas em 2022 para completar o serviço de sufocamento gradual e descaracterização das instituições. A opção do golpe abrupto não teria hoje sustentação interna ou internacional. Se já somos párias no mundo, uma quartelada nos jogaria de vez na sarjeta da civilização, com consequências econômicas nefastas – represálias, boicotes, pressões de toda ordem. E o próprio mercado, enfim, começa a desembarcar de Bolsonaro, não por convicções democráticas – isso não existe na elite brasileira, salvo uma ou outra exceção –, mas porque ganhou corpo o diagnóstico de que o ano que vem será frustrante para a economia e Paulo Guedes não tem mais como lhes garantir a rapadura.

O golpe que descarrilha na verdade já aconteceu. Penso aqui não só em 2016, mas na predação anárquica e na destruição metódica de tudo, essa mistura perversa entre brutalidade espontânea e desmonte planejado do país que caracteriza o bolsonarismo. Em 1946, falando sobre os nazistas, Theodor Adorno escreveu que “eles e seus seguidores se excitam com a ideia da ruína inevitável, sem sequer diferenciar claramente entre a destruição de seus inimigos e a de si mesmos”. Pois é.

Fernando de Barros e Silva

Repórter da piauí e apresentador do podcast Foro de Teresina

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