esquina

O homem-elefante

Lembranças inapagáveis de um ex-bombeiro

Ricardo Moreno
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

David Thomas é um atleta. De longe, não parece. De perto, também não. Cabelos ruivíssimos, calva progressiva, bochechas avermelhadas salpicadas de sardas, barriguinha apertada dentro da calça jeans, camisa social listada e sapato social. Assim uniformizado, Thomas está pronto para a largada. O juiz autoriza. Ele dispara: “Sete de espadas, seis de copas, ás de espadas, cinco de paus, rei de paus, valete de paus, ás de ouros.”. Dois minutos e 30 segundos depois, Thomas encerra: “Seis de paus”. Em alto e bom som, sem tropeço ou gaguejo, ele desfiou as 52 cartas do baralho. Um feito banal, não fosse o fato de as cartas lhe terem sido mostradas em ordem aleatória, uma só vez. Era um sábado de sol de março em Nova York e o ex-bombeiro de 38 anos participava do 10º Campeonato Americano de Memória.

A competição aconteceu em meados de março, no auditório do prédio da ConEdison, a companhia responsável pela energia elétrica de Nova York. Entre os 42 atletas do hipocampo, acrobatas da sinapse, havia competidores de toda parte dos Estados Unidos: Califórnia, Geórgia, Massachusetts, Nova Jersey, Pensilvânia, Virgínia. O contendor mais jovem, Nolan Harty, de 12 anos, viajou 1 800 quilômetros desde River Falls, no Wisconsin, na companhia do pai e dos três irmãos.

A disputa estava marcada para as 8h45. Antes das 6 da manhã, a maioria dos atletas já se concentrava na entrada do edifício. O Maracanã dos “memoristas” foi instalado numa ampla sala dividida por biombos. De um lado, noventa cadeiras dispostas de frente para o palco, no qual os finalistas se submeteriam, diante de uma platéia, às últimas e mais exigentes provas. Na outra metade do salão, doze mesas pretas retangulares, preparadas para as primeiras etapas.

O campeonato teve início com os juízes apresentando aos competidores fotografias de 99 pessoas com nome e sobrenome. A tarefa era memorizar as informações e, em seguida, ao rever as imagens, registrar, por escrito, a identidade do fotografado. Cada nome registrado corretamente rendia um ponto. Se o acerto fosse apenas fonético, faturavase meio ponto. Thomas somou 81.



Sem demora, passou-se à segunda prova. Os atletas receberam um cardápio de 25 seqüências de 40 números, a serem metabolizadas e regurgitadas pouco depois. Thomas fica tenso, nervoso. Nesses momentos, fecha os olhos e coça o lábio inferior. Lembra o Pensador de Rodin, em versão mais rechonchuda. Cerra os punhos como se pretendesse dar um soco. Assim crispado, vasculha sua caixa cerebral até encontrar a seqüência. Encontra. A tensão se dissipa. Thomas abre o sorriso. Recita sem erro quatro seqüências completas. Acerta 160 pontos, a soma mais alta já alcançada na história da competição.

Thomas comemora. Mas não exulta. Essa, afinal, não é sua maior façanha. Em 1º de maio de 1998, ele entrou para o Guinness Book depois de recitar impecavelmente 22 500 dígitos do número infinito pi, aquele do qual eu e você, na melhor hipótese, só temos notícia do 3,14 inicial. Em 2004, alcançou nova marca: confrontado com 100 baralhos, declinou uma seqüência de 5 188 cartas com os devidos naipes. Foram 65 horas de ouros, copas, espadas e paus. Só errou doze.

Para coroar um currículo assombroso, faltava apenas vencer o Campeonato Americano de Memória. Está por um triz. Dos 42 concorrentes da largada, sobraram, além dele, um engenheiro de computação, Chester Santos, e um analista financeiro, Ram Kolli, vencedor de 2005. Vem a última prova. Os finalistas têm de decorar nome, data de nascimento, cidade natal, telefone, animal de estimação, carro favorito, três hobbies e três comidas prediletas de cinco pessoas escolhidas ao acaso na platéia. Kolli e Santos titubeiam. Thomas, não.

O novo campeão americano de memória é inglês. David Thomas nasceu no Reino Unido, onde teve uma infância complicada. Por mais que pelejasse, não decorava nem a tabuada do 3. Mais tarde, foi expulso do colégio, preso por assalto e tentou o suicídio. São coisas que o memorista campeão gostaria de esquecer. Pensa que não conseguirá.

Ricardo Moreno

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