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O iluminista light

Autoajuda, privacidade e internet com Alain de Botton em Lisboa

Paulo Nogueira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Um proverbial calcanhar de Aquiles da filosofia é que, às vezes, quando o filósofo tem a bondade de concluir sua resposta, ninguém mais se lembra de qual era a pergunta. Alain de Botton procura evitar a complicação sem sacrificar a complexidade. Reciclando a proposição de Montaigne de que filosofar é aprender a morrer, o ensaísta quer que aprendamos a viver – um pouquinho melhor, se não for pedir muito.

Nascido na Suíça e radicado na Inglaterra há muitas luas, De Botton estava sentado no terraço de um hotel no centro histórico de Lisboa, no largo do Chiado. A poucos metros de distância, diante do café A Brasileira, bandos de turistas e de pombos combatiam por um lugar ao colo da estátua de Fernando Pessoa (que, convincentemente, se fingia de morto).

De Botton foi precoce em duas coisas: na escrita e na calvície. Por volta dos 30 anos, já publicara As Consolações da Filosofia (transformado em série de televisão pela BBC) e tinha tanto cabelo quanto uma casca de ovo. Num livro recente, dissecou a demanda obsessiva por status nas sociedades contemporâneas, com os lúgubres efeitos colaterais: Angst, ressentimento, neurose. A receita dos livros dele é sempre a mesma (não se mexe em time que está ganhando): bibliografia copiosa, jovialidade cativante e sensibilidade de sismógrafo para detectar o gosto das gentes.

O que nos levaria à pergunta algo impertinente se o que ele faz não seria autoajuda metida a alta cultura. Sem uma careta ou mesmo um sorriso amarelo, ele respondeu: “A palavra ‘autoajuda’ é, tal como a pergunta sugere, baixa cultura. Os livros de autoajuda têm frequentemente capas e conteúdo cor-de-rosa. E muitas vezes são escritos por americanos bregas. Claro que tais obras são ridículas. Porém, creio que há uma boa ideia por trás da própria ideia de autoajuda: a noção de que um livro pode contribuir para que superemos uma dificuldade concreta e penosa, ainda que eventualmente de natureza espiritual. Na verdade, é uma sacada antiga: podemos incluir nesta perspectiva autores como Platão, Sêneca ou Montaigne, que escreveram obras sérias e profundas e, ao mesmo tempo, se preocuparam em ajudar os leitores a vencerem as adversidades.”

Podemos dizer, então, que nos últimos séculos a filosofia se tornou mais técnica e menos humana? Ele franziu a sua longa testa, que vai quase até a nuca. “De certa forma, sim”, disse. “Mas eu diria que a filosofia contemporânea está menos preocupada com a psicologia humana e mais interessada em questões abstratas, próximas da matemática. Se você entrar hoje numa faculdade de filosofia e proclamar que o seu objetivo é se tornar mais sábio, os filósofos residentes resmungarão que isso é um objetivo muito estranho e que você está no lugar errado. No entanto, acredito que existe um papel e uma função para a antiga visão filosófica, que é formular grandes perguntas sobre temas da vida cotidiana: morte, dinheiro, amor, amizade – questões bastante respeitáveis e que também merecem atenção.”

A aparência de guru seráfico pode ser equívoca. Há dois anos, na New York Times Book Review, o crítico Caleb Crain baixou o sarrafo no seu livro Os Prazeres e Desprazeres do Trabalho. De nada adiantou Crain, anteriormente, ter escrito ditirambos sobre Como Proust Pode Mudar Sua Vida, na finada revista Língua Franca. De Botton saltou de paraquedas no blog do crítico e disparou um comentário belicoso: “Irei odiá-lo até o dia da minha morte e desejar o pior em cada momento de sua carreira. Estarei assistindo a tudo com interesse e Schadenfreude [alegria pelo infortúnio alheio].” (Caleb Crain continua vivo e firme, embora bem mais pobre que De Botton.)

Como o repórter piauiense gosta de viver perigosamente, cuspiu fogo: “Até a sua ficção revela uma costela ensaística, como no romance O Movimento Romântico. Outro romance seu, Ensaios de Amor, traz esse gênero no próprio título. O senhor é sobretudo um autor de não ficção, sem muita imaginação romanesca?” De Botton fez que sim com a cabeça, lentamente: “Creio que sim. O gênero ensaio é o que mais me motiva. O que me atrai nele é o fato de ser pessoal, intimista, sensorial – mas também permitir a discussão de ideias bastante abstratas. Numa passagem dos Ensaios, Montaigne pode falar de Aristóteles, para na página seguinte nos contar o que comeu ao almoço. Este tipo de conexão me fascina.”

Uma pomba intrometida que rondava o filósofo com um olhar de segundas intenções se afastou, voando inofensivamente rumo ao estuário do rio Tejo. Um bom pretexto para mudar de assunto: a internet veio para atrapalhar a filosofia? O ensaísta ajeitou os óculos, piscou os olhos azuis-safira e disse: “A internet encontra-se ligada à questão de se estar só. Torna-se cada vez mais difícil uma pessoa ficar sozinha com seus pensamentos, articulando suas ideias independentes. Antigamente, quando anoitecia ou escurecia, o mundo se recolhia consigo mesmo e suas ruminações. Hoje temos a eletricidade, a televisão, saímos de casa etc. Assim, podemos estar o tempo todo com outras pessoas, com outras coisas acontecendo. Suspeito de que todo esse frenesi pode nos impedir de desenvolvermos a nós próprios e a nossas ideias. Somos permanentemente bombardeados pelas opiniões alheias. E a internet é mais um passo naquela direção: tudo e todos estão lá. É como agora os aviões incluírem pequenas televisões em cada cadeira – já não podemos ficar com as nossas divagações ou simplesmente contemplando a paisagem. Há sempre alguém por perto.”

Por falar em privacidade, e na falta dela, e já que o ensaísta estava em Portugal, é de se lembrar que, na página 149 de As Consolações da Filosofia, De Botton escreveu: “No verão de 1933, L. e eu viajamos para o norte de Portugal para uns dias de férias. Seguimos ao longo das aldeias do Minho e finalmente passamos alguns dias ao sul de Viana do Castelo. Foi aqui, na última noite das nossas férias, em um pequeno hotel com vista para o mar, que eu cheguei à conclusão – quase sem aviso – de que já não era capaz de fazer amor. Dificilmente poderia ter sido possível ultrapassar, até mesmo mencionar a experiência, se não tivesse, alguns meses antes, lido o 21º capítulo dos Ensaios de Montaigne. Nele, o autor conta que um dos seus amigos ouvira um homem explicar como perdera sua ereção quando se preparava para penetrar uma mulher.”

Uma vez que a pomba bisbilhoteira se retirou, o entrevistado abordou com o entrevistador a sua vicissitude portuguesa (mera curiosidade científica). Porém, em off. Fofoca, ainda por cima picante, só em privado. Podemos, entretanto, afiançar que o mal foi passageiro.

Paulo Nogueira

Paulo Nogueira, jornalista e escritor brasileiro radicado em Lisboa, é crítico literário do semanário Expresso. Autor de O Amor É um Lugar Comum, da Oficina do Livro.

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