Gilberto Molina (à direita) socorre um ferido numa passeata em 1968. Coube a ele contar aos pais que o irmão fora morto. O pai perguntou: “Por que mataram se ele já estava preso?” CRÉDITO: EVANDRO TEIXEIRA_1968_ ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES
O inconformado
Um irmão morto e um homem que nunca aceitou “não” como resposta
Angélica Santa Cruz | Edição 231, Dezembro 2025
Foi um deus nos acuda chegar de carro ao Cemitério Municipal Dom Bosco, na Zona Norte de São Paulo, naquela tarde quente, abafada e de trânsito pesado de 24 de março. Sentado no banco do carona, o engenheiro aposentado Gilberto Carvalho Molina recebia mensagens por WhatsApp de funcionários do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. “Você já está vindo?”, perguntavam. No volante, a diretora de Recursos Humanos, Paula Molina, a segunda de suas quatro filhas, avisava: “Pai, ainda vamos demorar mais uns vinte minutos pra chegar.” E, no banco de trás, outra filha, Marcia Molina, uma guia de turismo recém-chegada de viagem, ia colocando calças compridas mais adequadas para a ocasião enquanto avançava em uma marmita feita às pressas pela irmã. Ao longo do caminho, o trio perpetuava uma tradição familiar herdada do avô paterno: a de encarar situações difíceis com piadinhas distensivas. Tiravam sarro do atraso, do calor, do cheiro de comida no carro, de tudo.
Quando a trupe enfim chegou ao cemitério, o carioca Gilberto Molina foi cercado por um grupo de pessoas e imediatamente levado para um palco montado embaixo de uma tenda. As duas irmãs se entreolharam, surpresas. “Meu pai sempre foi muito discreto. A gente sabia que ele estava em São Paulo para receber uma homenagem por sua luta pela reparação aos parentes dos desaparecidos na ditadura militar, mas não tinha ideia de que ele representaria todas as famílias no evento”, lembra Paula Molina. “Até brincamos: parece que temos uma celebridade aqui.”
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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