tipos brasileiros

O indignado anônimo

Dependente químico da queixa exaltada, Indignaldo pode ganhar grupo de apoio mútuo nos mesmos moldes dos viciados em álcool e drogas

Alfredo Ribeiro
ILUSTRAÇÃO: REINALDO_2007

Ele odeia o apelido que lhe caiu feito luva no botequim da esquina. “Indignaldo é o cacete!” – reagiu, bravo, às provocações do pessoal da firma no serão etílico da última sexta-feira. Neguinho faz de molecagem. “E o Renan Calheiros, hein, Indignaldo?!” Tem sempre um engraçadinho pra botar pilha na bronca do colega. Divertem-se com a cólera galopante que, a certa altura da conversa, de qualquer conversa, faz sua impaciência transbordar, feito chope tirado na pressão, frente ao estado de coisas a que chegamos. O cara é um indignado épico, caricatura de homem de bem injuriado, delirante e genérico contra tudo o que aí está, do governo Lula ao xixi na tábua, da fila do INSS à pedofilia na internet, do achaque do flanelinha ao lucro do Bradesco. O bicho está por aqui, ó, com o brasileiro. Há muito perdeu a paciência com o país. “Ô, raça!” – resmunga a cada flagrante de bandalha que testemunha.

Indignaldo é um tipo de chato que, estimulado ao exagero, tem lá sua graça, desde que observados certos limites da sacanagem. A brincadeira de fazê-lo perder as estribeiras prevê que alguém peça a conta em tempo hábil, para que seu discurso não atinja o anticlímax da infalível citação de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Isso por causa de alguém que furou a fila do supermercado, francamente, ninguém merece. O próprio já se deu conta de que a eloqüência foge-lhe inteiramente ao controle sempre que cisma de elogiar a última crônica de Arnaldo Jabor, sobretudo nos almoços de domingo, com a família da mulher. No Dia dos Pais, então, foi constrangedor. Precisou a sogra lhe dar água com açúcar, as crianças não entenderam nada. Baixou-lhe o santo do não-dá-mais-para-viver-neste-país-de-sanguessugas.

Contando assim não parece, mas Aguinaldo Gladyson dos Santos, 52 anos, Indignaldo para os íntimos, é um homem comum. Pai de três rapazinhos adolescentes, casado com a mesma mulher há dezoito anos, está prestes a quitar o apartamento que comprou em prestações quando ainda era noivo. O carrinho na garagem, ele tirou no consórcio. Indignaldo está em dia com tudo. Não exerce a função no momento, mas preserva o espírito de síndico. Sua mania de correção lhe rendeu, além de brigas com vizinhos, um sucesso relativo no trabalho. Ganhou, há três anos, um cargo de confiança, no setor de processamento de dados na instituição financeira onde trabalha desde 1992. Estaria, enfim, tudo razoavelmente certo na sua vida – não fosse seu inconformismo com a coisa errada. Das guimbas que o sujeito do 501 joga pela janela ao aquecimento global, tudo é motivo para um discurso exaltado do pobre Indignaldo.

Não tem caos aéreo, ultrapassagem pelo acostamento, crise nas bolsas de valores, latido de cachorro de vizinho, escândalo no Congresso, engarrafamento em véspera de feriado, língua negra na praia, seqüestro relâmpago, entrevista de Caetano Veloso, fila do visto no consulado americano, telemarketing, gente que fala no cinema, Dunga, piercing no bico do seio, enchente, operação da PF, Bruna Surfistinha, José Dirceu, Daniela Cicarelli, Big Brother Brasil ou manchete de prostituição infantil no Jornal Nacional que não o deixe do jeito que o diabo gosta – meio Rui Barbosa, meio Arnaldo Jabor – fazendo jus ao apelido que detesta ouvir.

Fingiu que não era com ele o quanto pôde, até aquela noite em que reagiu mal, ao cair da ficha: Indignaldo já era personagem conhecido de todos, atração do botequim há tempos. “Meu Deus, que vergonha!” O que pegou – mais ainda que a falta de respeito com a questão do fim das utopias que embalava sua falação – foi aquela sensação de que seu zelo pela coisa certa tinha virado piada, motivo de galhofa, risadinhas pelas costas.

O indignado compulsivo tem com a queixa a mesma relação do alcoólatra com a bebida. Não sabe a hora de parar, exagera na dose de correção no mundo caótico em que vive, vira um porre. A certo ponto da conversa, pode-se até confundir o discurso do bêbado com o do indignado. Com todo respeito ao Nizan Guanaes, esse papo de “e aí, nós não vamos fazer nada?” poderia muito bem ser coisa de algum pinguço resistindo à idéia de voltar para casa às 4 da madrugada. Se acrescentar um “porra” no final, então…

Deprimido, Indignaldo bateu perna com a depressão até quase amanhecer. Não bebeu nada. Tomou consciência de que não sabe mais se indignar socialmente, como o Gabeira, por exemplo, sem nunca perder a linha. Passa sempre da medida, dá uns tapas a mais, torna-se inconveniente, agressivo na exposição de seu ponto de vista, intolerante, dono da verdade. Chegou em casa com essa questão e levou a família às lágrimas ao pedir desculpas aos filhos por ter-lhes enchido o saco com esse seu jeito sempre irritado contra tudo e todos. Decidira largar a indignação. “Se precisar, paro até com o Jornal Nacional, para não cair em tentação.” Os garotos passaram do choro ao riso em instantes com seu bom humor, coisa rara no pai. Até o fim do expediente de segunda-feira, quando falou a respeito com dois ou três amigos de trabalho, sua recuperação parecia favas contadas.

Calhou de na volta para casa um motorista de van – ô, raça! – estragar tudo com uma fechada que quase joga na calçada o carro recém- quitado do novo Aguinaldo, o ex-Indignaldo. Subiu-lhe um troço mais quente que sangue à cabeça. Algo desproporcional à barbeiragem do perueiro, maior do que a bagunça do transporte público, pior do que o desgoverno… Estava pálido e desfigurado quando o filho mais novo abriu-lhe a porta de casa. “A culpa é do Lula!” – foi tudo que conseguiu falar, tentando equilibrar-se sobre as pernas, antes de desmaiar sobre o moleque. Gritaria! Veio todo mundo lá de dentro ajudar a levá-lo pra cama.

O médico diz que é estresse, mas o paciente sabe que não é só isso. Está convencido de que a indignação, pelo menos da forma nele manifesta, é um vício como outro qualquer. Não contou essa parte para ninguém, nem para o doutor Lamy, mas, depois de perseguir sem sucesso a van que desencadeou sua última crise, Indignaldo parou o carro para discutir com o padeiro sobre o peso do pão francês comprado na véspera. Não lembra direito o que aconteceu daquele momento até apagar nos braços do filho. Torce para não ter encontrado o Poodle da vizinha urinando, como de hábito, no elevador.

Desde então, faz três semanas que Indignaldo não aparece nos serões etílicos do pessoal da firma. Sem zangas. Tem aproveitado todo tempo livre para procurar, na internet, indignados compulsivos que, como ele, estejam dispostos a encarar a insatisfação generalizada como uma dependência crônica de problemas. Quer fundar a AIA, a Associação dos Indignados Anônimos, nos mesmos moldes que os alcoólicos e narcóticos criaram, em busca de apoio mútuo. Cada dia sem ficar puto dentro das calças é uma batalha vencida na guerra permanente contra o vício da lengalenga combinada com aporrinhação.

Se é o seu caso, companheiro, escreva já para indignaldo@aia.com.br dizendo que apóia e se dispõe a participar como voluntário da iniciativa. Dê um basta à indignação, mas vê lá se não exagera no que vai dizer a respeito. O pior indignado é o que se exalta contra a indignação.

Alfredo Ribeiro

Alfredo Ribeiro é jornalista carioca.

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