esquina

O intelectual é um urubu

Um bolo de rolo com o premiado padre-poeta Daniel Lima

Ronaldo Bressane
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

“O que faço é uma bosta”, disse o velhinho, arregalando os olhos. Ergueu de leve o pescoço ao tentar se elevar da poltrona verde onde afundava, pés descalços estendidos no pufe, num apartamento no bairro da Torre, no Recife. Sua voz estava trêmula, baixa e suave: acabara de retornar do hospital, onde se recuperava de uma pneumonia. “Logo de manhã você não sente a própria bosta? Fiz muita bosta nessa vida. Mas não ria, não, porque foi bosta da boa.” Referia-se ao seu volume de Poemas, editado no fim de 2011 e premiado pela Biblioteca Nacional. Era o primeiro livro que publicava em 94 anos.

“Você tem minha bênção para escrever bosta”, autorizou Daniel Lima, padre, professor de teologia, latim e filosofia. Vestia uma camisa listrada clara e óculos de lentes fundo de garrafa que serviam de anteparo ao olhar intenso de espanto perpétuo. “Tem bolo de rolo lá em São Paulo?”, perguntou, oferecendo uma fatia finíssima do mais famoso quitute pernambucano (depois das empadinhas de Garanhuns).

Uma longa tosse escavava sua voz fraca. Quem falava mais eram a escritora Luzilá Gonçalves e a bibliotecária Célia Veloso, fiéis companheiras do padre. Foram elas as responsáveis pela publicação dos Poemas, de modo quase clandestino: até os 90 anos, Lima era notório por fazer livros cujo único exemplar emprestava a um amigo e tomava de volta depois de um ano. Nunca quis publicá-los, por achar que era vaidade de intelectual, coisa que o horrorizava.

“O intelectual é um urubu/ que se julga vestido/ mas que está nu/ com uma pena de pavão/ enfiada/ no cu”, diz um de seus mais conhecidos poemas, recitado de cor pelas centenas de alunos que passaram pelas anárquicas aulas na Universidade Federal de Pernambuco. Célia datilografou os livros – catorze de filosofia e treze de poesia –, de nomes como O Cocô de Herodes, Deus de Anarquia, Instruções para Dom Quixote e Da Teologia ao Rol de Roupa.



Luzilá publicou a seleta em edição caprichada, sem avisar o padre. O júri da Biblioteca Nacional se impressionou com a poesia metafísica, de linguagem direta e despida de pompa, alimentada por humor leve e exaltação à vida e gozação com a Moça Caetana, que é como chamam a morte no sertão. O prêmio de melhor livro de poesia de 2011 não mudou a convicção de Lima. Ele chamou Luzilá de “traidora” e, no dia do lançamento, fechou a cara para todo jornalista que o procurasse.

Afora os escritos datilografados zelosamente por Célia, ainda há em sua casa dezenas de outros poemas e ensaios inéditos. Neles, o repúdio à vaidade e o flerte com a escatologia são recorrentes: “Deixa, Senhor, que eu blasfeme/ na danação desta hora./ Preciso ser maldito/ para sentir-me salvo.” Ou pequenas epifanias surrealistas: “Engarrafar o luar e sair por aí viajando/ de camisa listrada, sossega leão, sandálias japonesas,/ ai! meu louco sonho!/ A vida é essa mistura de flores e toucinho./ Estou bêbado de tanta leitura./ Quando voltarei de novo a ser gente?/ Queria ser agora apenas daniel (assim com d pequeno, bem pequeno).”

O miúdo padre educou gerações de pernambucanos ilustres. Sua turma de amigos incluía Ariano Suassuna, Paulo Freire e dom Hélder Câmara, que o chamava de “meu padre meio doido e meio gênio”. Genioso, Daniel Lima nunca teve paróquia, abominava freiras e beatas e era notório por ter soltado os pássaros raros do viveiro do padre Sidrônio, em Olinda – um escândalo.

Tinha hábitos incomuns, como telefonar aos amigos de madrugada para discorrer sobre molho inglês, usar peruca para sair incógnito na rua, fritar ovo com óleo de peroba e cozinhar bife no ferro de passar. Jogava giz nos alunos indisciplinados, fingia-se de doente para pegar carona em ambulância e, certa vez, para atestar que estava à beira da morte e conseguir uma licença da universidade, pediu emprestadas as fezes e a urina de um mendigo para forjar os exames. “Eu fazia isso?”, riu o padre, reagindo a mais uma anedota contada por Célia e Luzilá.

Ele tinha também costumes perigosos, como soltar bolinha de gude na rua para fazer derrapar os cavalos dos soldados, esconder estudantes perseguidos pela ditadura e criticar os militares em suas aulas na Federal. Detido para interrogatório, passou um dia todo ensinando estética a um sargento. Abusava da amizade com o general Antônio Carlos Muricy, cujo casamento havia oficiado, e lhe pedia que soltasse esse ou aquele militante.

Mas suas atividades incomodavam – e não era só porque defendia apaixonadamente a teoria da evolução nas aulas de teologia. Um amigo próximo, o padre Antônio Henrique Pereira Neto, foi mutilado, castrado e assassinado em 1969 pelo Comando de Caça aos Comunistas. Em seu bolso havia uma lista de nomes: o primeiro era o de Lima. Foi aconselhado a fugir. “Armei na cama um corpo feito de travesseiros, pus uma cabeça de coco e viajei para Natal”, contou. “Voltei uma semana depois: o telhado estava quebrado e a cama, toda atravessada por balas. Não sobrou nada do coco.”

O padre não queria que Luzilá publicasse outro livro seu. “Quando o cabra começa a falar muito nele mesmo, fede”, justificou-se. “Quase todos os intelectuais são assim: me dá abuso. E tem gente que veste casaca de escritor e até fede que nem escritor, mas não é escritor.” Leitor aplicado de Drummond, Mann e Cervantes, Lima disse que manter seus poemas inéditos foi “um ato enviesado de vaidade”. “Foi meu jeito de brilhar sem dar na vista”, completou, após mais um demorado acesso de tosse.

Mesmo assim, logo deve sair uma seleta de seus poemas fúnebres, os Sonetos Quase Sidos, com forte influência de Augusto dos Anjos: “Quando morreres ou te matares,/ come-te a ti mesmo com batatas/ e ervilhas (e um pouco de molho inglês)./ Comemora-te, ó imortal mortal:/ a tua morte bem merece/ o que a tua vida não valeu.” Daniel Lima foi poupado do dissabor de ver publicado mais um volume de poemas. Em 14 de abril, a Moça Caetana levou para sempre a verve diabólica e o sorriso infantil do religioso anarquista.

Ronaldo Bressane

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