ficção

O intervalo

O drama de nosso grupo resistente é combater o inimigo sem usar suas armas

Evando Nascimento
Eles e nós: os estrangeiros passaram da ameaça velada à explícita, exibindo cada vez mais revólveres e armamentos de que não fazíamos a mínima ideia, nem imaginávamos para que serviam –
Eles e nós: os estrangeiros passaram da ameaça velada à explícita, exibindo cada vez mais revólveres e armamentos de que não fazíamos a mínima ideia, nem imaginávamos para que serviam – CREDITO: PEDRO FRANZ_2020

Ninguém sabe exatamente quando tudo começou. Estávamos distraídos com nossos afazeres e de repente nos demos conta de que algo havia mudado. Começaram a aparecer pessoas estranhas, que foram comprando terras e habitações, instalando-se nas regiões. De uma forma geral, tendemos a acolher bem os estrangeiros. Temos nossos preconceitos, mas costumamos ser tolerantes com o comportamento alheio e acabamos por ignorar as divergências.

Inclusive meus colegas e eu, que formamos agora uma sociedade secreta, estávamos tão empolgados com nossas tarefas que saudamos aquela chegada com as melhores expectativas. Não era a primeira vez que recebíamos forasteiros com intenções de residir, alguns alugavam um cômodo em nossas casas ou construíam as próprias, fixando-se, trabalhando e constituindo família. Dizem os antigos de boa memória que foi assim desde sempre: nunca houve um grupo originalmente nascido no local. Dois ou três séculos atrás, esta era uma área ainda inexplorada do continente, que foi descoberta quase por acaso, atraindo de imediato aventureiros e curiosos.

Implantou-se aqui uma harmonia de interesses, embora, claro, houvesse no início trapaceiros, que foram aos poucos deixando de lado seus péssimos costumes. De modo que, no século passado, já formávamos uma pequena nação independente, com tudo o que é preciso para viver confortavelmente, sem enriquecimento exorbitante. E assim fomos até bem pouco tempo atrás. Ninguém desejava trabalhar em demasia porque, se isso acontecesse, sabíamos que dois problemas surgiriam. Primeiro, haveria pouco tempo disponível para diversão e, segundo, seria necessário ter cada vez mais empregados, quer dizer, escravos, para dar conta do negócio ampliado. Isso contradizia nossa índole, não nascemos nem crescemos com esse propósito.

As lideranças não tinham grande poder sobre nossas atitudes. Diria o contrário: os chefes sempre foram obrigados a se curvar a nossas aspirações. Como isso foi possível? Bem, eles não nos representavam, nem lhes delegávamos qualquer função arbitrária. Como nossa população não é muito grande, eram feitas consultas regulares sobre nossas carências, vontades, insatisfações, dúvidas, projetos e tudo o mais. A partir dessas sondagens constantes, eram traçadas metas de realização. Depois de certo tempo, eles eram obrigados a prestar conta de tudo o que foi feito para facilitar nossas vidas. Como disse, não detinham nenhum domínio sobre nós; nós é que decidíamos como eles deveriam proceder para o bem comum. Dizem que noutros lugares isso corresponderia a uma doutrina utópica. Aqui não havia utopia nem doutrina, as coisas se fizeram ao longo do tempo, e ninguém jamais desejou mudar.



Até que o curso dos acontecimentos se alterou, e aí a verdadeira história começa. Parece fábula, pois nada faria prever tal enredo, mas foi justamente assim que ocorreu, como um mau roteiro, que não foi ensaiado pelos atores, e estes foram obrigados a estrear sem conhecer o desfecho.

 

Pois bem, os estrangeiros se estabeleceram aos poucos, sem que víssemos plenamente quem realmente eram. Pareciam somente mais uns, dentro de uma vaga periódica de migrações. Difícil era ir embora daqui; durante um tempo infinito, quem chegava nunca queria partir. A temperatura, a relação entre as pessoas, a falta de ansiedades, a disponibilidade de bens, enfim, são tantas qualidades que, segundo consta, para outras nações nos tornamos um exemplo a ser imitado.

Então eles chegaram, e quando notamos, portavam armas. A princípio, discretamente. Em seguida, de modo cada vez mais ostensivo. Ora, nosso exército sempre existiu apenas para constar, como instituição inútil. Todos os militares exerciam profissão civil, e somente na juventude se preparavam para algum eventual combate, que nunca ocorreu. Jamais se cogitou uma sublevação local, não havia nenhuma razão para isso. Nossa polícia inexistia. Os poucos armamentos de que dispúnhamos estavam enferrujados. Facas e facões só tinham uso na cozinha ou na lavoura. Em suma, éramos uns despreparados para quaisquer atos violentos, alguns de nós jamais testemunharam uma verdadeira briga. Quando começava uma discussão, vinha sempre alguém intervir, pacificando os oponentes. E nós queríamos isso, que houvesse uma mulher ou um homem, de qualquer origem, para nos proteger de nossos próprios impulsos. Solidariedade era nossa palavra de ordem, sem carecer de elucubração teórica, apenas como prática cotidiana de bem viver.

De onde vieram, ignoramos. Alguns afirmaram que eram pessoas do Norte, com atitudes sabidamente belicosas. Outros certificaram que só podia ser um povo do Sul, com fama de dominador. Ou então do Leste, que desconhecemos inteiramente. A Oeste, temos apenas o oceano. O mistério era entender por que não nos procuraram antes. Talvez porque nossas fronteiras não são fáceis de atravessar, estamos cercados por montanhas escarpadas, esse nosso vale é um enclave benigno. Como nunca fazíamos comércio com outros povos, pois consumíamos o que produzíamos, sem excesso nem falta, o contato externo quase não ocorria.

Para aqui chegar, é preciso se submeter a condições climáticas extremas, arriscando a vida nos desfiladeiros; nossa costa marítima é plena de obstáculos, com risco de naufrágio. Jamais desejamos melhorar as estradas para o exterior, porque não víamos nenhum ganho nisso. Quem vinha era sempre acolhido, entrando no ambiente geral de bem-estar. Mesmo os mais tumultuosos, cedo ou tarde se adaptavam, sem que precisássemos convencê-los de nossos valores. Não tínhamos sequer consciência de nossos reais valores, que eram incorporados muito cedo, e não precisávamos aprendê-los na escola, onde o ensino era uma prática constante de relacionamento. Sei que é difícil explicar isso a desconhecidos, nem encontro as palavras exatas para descrever. Não desprezávamos vossas ciências e filosofias, achávamos tudo muito importante, mas vivíamos nossa ciência e nossa filosofia no dia a dia, sem precisar fixar normas de convivência. Éramos todos artistas, na medida em que só fazíamos o que nos dava prazer; mesmo as atividades mais árduas eram encaradas com contentamento. Pintávamos nós mesmos as moradas, elaborávamos o belíssimo artesanato, cultivávamos jardins e hortas invejáveis, sem muito esforço porque a terra é fértil. Nem tudo o que plantávamos dava, porém o que dava era suficiente para nos satisfazer, nem mais nem menos.

Diziam até que essa nossa alegria constante era genética. Balela. Se fosse assim, como explicar então que pessoas de diversas procedências adotassem, com maior ou menor facilidade, nossas disposições? Os especialistas de fora, que por aqui passavam, afirmavam que éramos uma exceção na história do planeta. Podia ser, mas como não conhecíamos o resto da humanidade, não podíamos declarar nada a esse respeito. A vida nos era doce, vencíamos cada dificuldade ao sabor das estações, como quem dança conforme a música do momento, sem se preocupar com o tempo que fará amanhã ou depois. O clima sempre nos foi favorável.

 

Até que chegaram e não se adaptaram ao nosso ritmo de vida, porque não quiseram. A única coisa que consigo discernir é isto: eles não desejaram ser como nós, nem muito menos compreender quem éramos. O mérito deles foi nunca terem escondido nem disfarçado o mau comportamento. Nós é que fingimos não ver, talvez por falta de experiência. Mal assimilaram nossa língua, no máximo algumas frases, com vocabulário restrito. Não se misturavam, apenas construíam suas residências ignorando a arquitetura local, organizavam o próprio comércio e sobretudo indagavam a respeito de nossas riquezas ocultas. Olhávamos espantados aqueles rostos inquisitivos: o que desejavam mesmo, que ia muito além de nossas preocupações habituais? Tinham ouvido falar em minérios numa parte das montanhas. Devia ser verdade, corria a lenda até de uma mina de pedras preciosas, todavia ninguém jamais se interessou em procurar, muito menos em explorar: caso fosse achada, o que ganharíamos com isso? Somente mais trabalho, mais preocupação, menos alegria.

Entretanto, eles não pensavam assim. Começaram a insinuar ameaças se não lhes fosse informado o local das jazidas, que sem dúvida existiam. Os olhos chamejavam quando pronunciavam palavras inusuais para nós: “ouro”, “diamante”, “prata”… Como nada disso nos interessava em absoluto, sugerimos vagamente uma localização. Se dirigiram para lá e, depois de alguns meses de exploração, nada encontraram. Voltaram furiosos, com ares que a maioria de nós jamais tinha visto, nem em nossas raras discussões. Passaram da ameaça velada à explícita, exibindo cada vez mais revólveres, rifles e armamentos de que não fazía-mos a mínima ideia, nem imaginávamos para que exatamente serviam.

Cansados do assédio, solicitamos a nossos chefes que fossem atrás de algum ancião que pudesse ajudá-los a encontrar o “tesouro” escondido, preciosidade sem nenhum valor para nós. Foram então localizados dois homens quase centenários, que sabiam alguma coisa. Os tais levaram ambos os anciãos e ficaram um longo tempo com eles, colhendo todo tipo de informação. Depois os libertaram. Os dois homens voltaram muito perturbados por toda aquela truculência, vindo a morrer pouco tempo depois.

O fato é que encontraram o que ansiavam, e desde então vivemos em turbilhão. Toda a pequena nação se transformou radicalmente nesse meio-tempo. Agora somos seus empregados, ganhamos relativamente bem, mas trabalhamos em dobro. Outras pessoas como eles, e até mesmo piores, vieram também morar aqui, modificando toda a cultura local. Atualmente dispomos de fábricas, bancos, farmácias, hospitais, restaurantes, delegacias, prisões, loterias e até manicômios, que tomam um tempo absurdo de nossas vidas. Alguns de nós se suicidaram por incapacidade de adaptação, outros se metamorfosearam completamente e agem como eles, a maioria se conformou e suporta o pior com medo de ser massacrada – e nós não tínhamos conhecido nenhum homicídio em mais de um século! Eles argumentam risonhamente que nossa qualidade de vida melhorou muito, não sabíamos o que era realmente viver antes daquela auspiciosa chegada. Isto sim é civilização!, é o que afirmam, zombeteiros.

Os mais conformados dos nossos tentam nos convencer de que tudo não passa de um grande equívoco: não éramos tão felizes, do mesmo modo como não somos tão infelizes agora, tudo é uma questão de perspectiva – ou falta de… Segundo eles, deveríamos aceitar este ínterim em que vivemos como definitivo e aproveitar o que de melhor possa nos oferecer; a vida é curta, não temos tempo a perder etc. Instinto de sobrevivência? Cegueira? Servidão voluntária?

Recentemente, grassou entre nós a epidemia de um mal desconhecido. Não quero me estender sobre isso, apenas conto por alto. Alguns dizem que o elemento maligno veio do exterior, trazido voluntariamente por alguns deles para nos contaminar. Outros têm certeza de que o problema surgiu aqui, provavelmente por contágio de algum animal que criamos. Nossos sábios ainda não encontraram uma solução, e estamos entregues aos dissabores da gravíssima enfermidade. Desde então, foram muitas vidas perdidas. Usaram isso para nos subjugar ainda mais, culpando-nos pelo que não fizemos e exigindo maior esforço de produção, a fim de compensar o declínio econômico causado por tantas perdas. Não desenvolvemos religião, mas agora cremos que o inferno existe – assim como tínhamos o paraíso não faz muito tempo, sem saber.

 

É muito difícil aguentar este amargo entretempo que vivemos. Os poucos que, como meus amigos e eu, conseguem refletir minimamente sobre o acontecido constatam o resultado pavoroso disso tudo. Estamos cada vez mais enredados nessa trama ruim. Tendemos a considerar nossos passivos irmãos como “gado”, porém acho uma comparação injusta: os bichos não têm culpa nenhuma de serem submetidos aos humanos. Enquanto nós, ah, nós deveríamos fazer o impossível para nos livrarmos desses invasores.

O drama de nosso pequeno grupo resistente, no entanto, é descobrir um método para combater o inimigo sem usar suas armas. Porque, se procedermos como eles, nos igualaremos ao pior, e aí a existência neste minúsculo país jamais voltará a ser como antes. Sem falar das muitas vidas que seriam sacrificadas no embate, tal como eles tanto apreciam. Mal suportamos este intervalo dramático, paralisados entre um ato e o próximo, esperando que a pausa não dure demasiado e que o desenredo ocorra a nosso favor. Aliás, o tempo escoa vertiginosamente, e se demorarmos muito a agir, o estrago que estão fazendo será irreversível. Precisamos resolver logo este impasse: nem “gado” (pobres animais!), nem truculentos queremos ser. Decidir é preciso, mas é quase impossível. Qual a saída?

Evando Nascimento

É escritor e professor, autor de escritor e professor, autor de A Desordem das Inscrições

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