despedida

O Khan de Montalban

Apenas em A Ira de Khan, o filme de 1982 da série Jornada nas Estrelas, o latin lover mexicano que fez sucesso com A Ilha da Fantasia esteve à altura de seu grande talento

Pauline Kael
Apesar do talento, do rosto fotogênico, do físico de dançarino, da bela voz e
do imenso encanto pessoal, jamais foi dado a
Montalban um papel capaz de convertê-lo em astro do cinema
Apesar do talento, do rosto fotogênico, do físico de dançarino, da bela voz e do imenso encanto pessoal, jamais foi dado a Montalban um papel capaz de convertê-lo em astro do cinema FOTO: A MARCA DO RENEGADO_UNIVERSAL PICTURES COMPANY, INC._1951

Ricardo Montalban, que nasceu no México em 1920, é um desses atores de grande potencial a quem jamais deram o papel capaz de convertê-lo em astro do cinema. Parecia ter todo o resto – um rosto esplendidamente fotogênico, o físico de um dançarino bem treinado, talento, uma bela voz (sabia inclusive cantar), calor humano e um imenso encanto pessoal. Esse charme pode ter sido contraproducente – dando-lhe um ar simpático demais, sem muita personalidade (o que, no entanto, não impediu o sucesso de Charles Boyer).

No primeiro filme de Montalban em inglês, Fiesta, produzido pela MGM em 1947 [lançado no Brasil como Festa Brava], com Esther Williams no papel de uma toureira, ele aparece dançando com Cyd Charisse. Em seguida, a Metro o escalou para dançar ao lado de Charisse e Ann Miller em um filme com Kathryn Grayson e Frank Sinatra chamado Beijou-me um Bandido [The Kissing Bandit]. Dizem que as cenas de dança foram acrescentadas pelos executivos do estúdio depois de verem o filme, num esforço para apresentar alguma coisa substancial à freguesia.

Ele continuou a trabalhar – em filmes como Numa Ilha com Você, ao lado de Charisse e Esther Williams, A Filha de Netuno e México dos Meus Amores [Sombrero], estrelado por Vittorio Gassman, além de produções baratas como Sem Pudor [My Man and I], em que interpreta um zelador sensual e exibe os peitorais, e Meu Amor Brasileiro [Latin Lovers], em que conduz Lana Turner pela pista num número de tango. Fez papéis secundários em Sayonara e em Aventuras de um Jovem, além de Crepúsculo de uma Raça [Cheyenne Autumn], imprimindo convicção a todo personagem a que alguém poderia emprestar alguma convicção. No entanto, após quase vinte anos em Hollywood, lá estava ele em Dominique [The Singing Nun], estrelado por Debbie Reynolds e, novamente ao lado de Lana Turner, em Madame X.

Em seguida, parece ter vivido uma (lucrativa) história de horror, especialmente quando nos lembramos dos seus comerciais na televisão e do seu sorriso fixo na série A Ilha da Fantasia. É possível que o Khan do episódio de 1967 de Jornada nas Estrelas na tevê , intitulado “A Semente do Espaço”, tenha sido o melhor papel importante que jamais conseguiu. E a continuação do personagem em A Ira de Khan, de 1982, foi a única confirmação que ele teve de seu poder de dominar a tela grande.

Não há dúvida de que Montalban é o astro de A Ira de Khan. Seus modos majestosos parecem inclusive contagiar William Shatner, o capitão Kirk, com certa eletricidade. No papel do super-homem encanecido que, quando derrotado, exclama para Kirk “Do coração do Inferno invisto contra ti!”, Montalban talvez seja o mais elegante e romântico de todos os vilões da ficção científica. E a tendência de Khan a citar Melville e Milton (o que remonta a “Semente do Espaço”) em nada prejudica essa aura.

O peito largo de Montalban também é reconfortante – ele parece um sacerdote inca – e o ator ainda exibe ímpeto e se contém na sua ânsia de atuar: desempenha a vilania até o limite, ostentando um sorriso sombrio enquanto opera suas maldades. (Ele e seus seguidores, bárbaros de cabelos louros, aparecem vestidos como piratas ou uma gangue de motociclistas dos anos 60.)

No desempenho de Montalban não se encontra nenhum vestígio de A Ilha da Fantasia. É de um total desassombro, puro panaché. Embora Montalban não ostente plumas no chapéu, não há dúvida de que estão presentes. Sabe aquela risada que sempre nos inspiram os floreados que pontuam o final de um número de flamenco, mas nunca soltamos em respeito aos dançarinos? Montalban não tem medo do riso de ninguém. Suas bravatas são de uma comicidade grandiosa.

Khan julga ter nascido príncipe e, ao longo dos anos em que lhe negaram o seu legado (para ele, sempre por culpa do capitão Kirk), sua cólera nunca parou de crescer. Acaba transformando-a em mania; e não há nada que o impeça de se entregar totalmente a ela. Suas palavras e gestos são um longo suspiro de alívio: finalmente pode extravasar seu ódio. Esse homem, para quem a procura de vingança é igual à do capitão Ahab, deixa o pobre Kirk ainda mais envergonhado de sua pretensão pomposa. Kirk é a baleia branca do Khan de Montalban, e sabe que não tem como mostrar-se à altura do papel – não é digno da ira de Khan.

Pauline Kael

Pauline Kael (1919–2001), crítica de cinema, americana, escreveu na The New Yorker por mais de duas décadas.

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