teatro

O levante popular

Nossos ricos são muito ricos e nossos proeminentes, muito proeminentes

Roberto Schwarz
ILUSTRAÇÃO: ZUCA SARDAN

Cientista maluco e glória do reino, Simão Bacamarte inventa um conceito ampliado de loucura. Unindo a teoria à prática, ele manda construir um asilo, a Casa Verde, ao qual passa a recolher todos os doidos de Itaguahy e arredores. Como o número de presos cresce rapidamente, a cidade é tomada pelo terror. O sindicato dos sapateiros, contra o voto de padeiros e carpinteiros, propõe aos notáveis da cidade uma ação conjunta para derrubar o novo ditador e sua “Bastilha da razão humana”. Os notáveis preferem agir sozinhos e tentam uma composição pelo alto com o doutor Bacamarte. Os pobres respondem com o levante. A ação se passa num período colonial de fantasia. A cena a seguir é a 11ª das treze que compõem a nova versão, revista e editada, da peça A Lata de Lixo da História, escrita em 1968.

CENA 11

Um cidadão alcoolizado sobe numa cadeira e discursa para a rua vazia.

CIDADÃO: Nossos ricos são muito ricos e nossos proeminentes, muito proeminentes. Sinto, sinto que lhes falta o calor humano. Se estivessem pendurados num poste, talvez ouvissem com mais vagar as nossas queixas. (Desce da cadeira e sai trocando as pernas.) Se estivessem dependurados, seria outra coisa, tenho quase certeza.



Entram dois notáveis.

UM: É sobre-humano. Eles não dormem! Ontem, quando fui deitar, estavam na rua gritando. Hoje cedo estavam lá, gritando outra vez.

OUTRO: Talvez não sejam sempre os mesmos.

O PRIMEIRO: É, pode ser que não. Têm todos a mesma cara. Mas nesse caso são mais numerosos.

O OUTRO: Para mim isso cheira a pólvora. Eu vou para casa enquanto estão desarmados.

Entram cinco, marchando.

EM CORO: Capacho dos ricos, tirano dos pobres! Capacho dos ricos, tirano dos pobres!

UM DOS CINCO: O arsenal! Vamos achar o arsenal!

O OUTRO NOTÁVEL: Vem! Vem!

O PRIMEIRO: Só mais um bocadinho. É um dia histórico.

Entram mais pessoas.

UM: Bacamarte é um déspota, um violento!

OUTRO: Um Golias!

OUTRO: Um caga-regras enfunado!

OUTRO: Bacamarte é um Nero, um verdadeiro Calígula!

OUTRO: Um verdadeiro Hitler! Um Pinochet!

Volta o primeiro cidadão, sobe na mesma cadeira e começa o mesmo discurso.

CIDADÃO: Nossos ricos são muito ricos e nossos proeminentes, muito proeminentes.

Silêncio.

ALGUÉM: Isso é verdade e me comove até as lágrimas. (Vai, arranca e rasga um cartaz no qual está escrito “Itaguahy é uma grande família”.) Quando me comovo, em geral quebro alguma coisa.

CIDADÃO: Sempre senti que lhes falta calor humano.

OUTRO ALGUÉM: Também isso é verdade. São frios como um peixe morto. Eu, por exemplo, considero o meu patrão como a minha segunda mãe. Mas ele não corresponde, jamais correspondeu.

UM TERCEIRO: E isso, companheiros, nos comove e deprime profundamente. (Quebram várias coisas encontráveis no palco.)

Silêncio.

UM QUARTO (sentado no chão): Que tristeza, meu Deus, que tristeza abjeta! Vamos fazer alguma coisa, (berrando) e vai ser depressinha! (Bate com os pés no chão.)

Pausa.

OUTRO: Se eu fosse poeta, acharia palavras para o meu ressentimento.

OUTRO: Ninguém exprime os nossos sentimentos mais baixos. (ao público) Vocês não imaginam como está o nosso saco. O inverno até que foi ameno, o verão foi bonito, mas os notáveis como sempre estragaram tudo. Isso é chato, é chatíssimo. Se eu não me exaltar imediatamente, vou ficar deprimido.

BARBEIRO CANJICA (subindo numa cadeira): Paz aos nossos lares, guerra à Casa Verde! (Não tem eco.)

UM DOS ANTERIORES (meditabundo): Nós vamos derrubar a Casa Verde, não tem dúvida. Mas acho que não vai ser suficiente. O que estou sentindo é uma azia complexa, geral, exigente – uma azia da alma.

OUTRO DOS ANTERIORES: Eu quero – vingar o meu saco, o do meu pai, dos meus avós. Eu quero vingar o saco da minha classe social.

UMA VOZ: Paz aos casebres, guerra aos casarões!

TODOS (em uníssono): Paz aos casebres, guerra aos casarões!

O BARBEIRO: Paz aos nossos lares, guerra à Casa Verde!

UMA VOZ: Nada disso. Paz aos casebres, guerra aos casarões!

BARBEIRO: Exatamente. Marchemos sobre a Câmara dos Notáveis!

UMA VOZ: Viva o barbeiro Canjica, o nosso porta-voz!

BARBEIRO (sempre sobre a cadeira, agradece): À Câmara!

Aplauso.

VOZES: Marche! Ao assalto!

UM PREGADOR (corre à frente da massa e sobe numa cadeira, excitadíssimo): Irmãos, pelo que é santo, esperai! Escutai: Daniel, na furna dos leões, não foi morto nem comido. Por quê?

UMA VOZ: Porque ele estava magro. Olha a frente!

O PREGADOR (aplica o pé ao peito do contendor, que vai parar na outra ponta do palco): Sacrílego, tripa podre! Não foi comido porque o anjo de Deus impediu. Quem invoca o nome de Deus é salvo, aleluia! Deus é nosso abrigo, e não a força!

O DA AZIA: Lógico, lógico. Enquanto o abrigo dos notáveis é a força e não Deus. Se não contássemos essas histórias, não sentiríamos essa azia – anormal em quem não almoçou. Meu santinho, não seja inocente!

BARBEIRO: No momento, a paz convém: a todos do lado de lá, e do lado de cá só aos medrosos.

Silêncio.

O PREGADOR: Guerra aos casarões! Guerra aos casarões! (Aplauso; ele sai correndo, volta e recita🙂

Sou homem de gabinete

mas é dia do cacete

vou buscar meu capacete.

*

Do outro lado do palco, assembleia dos notáveis.

UM NOTÁVEL: Repito, vamos depor Bacamarte, antes que o povo o derrube. Pois se a própria multidão depõe Bacamarte, parecerá que não precisam de nós. Podem pensar mesmo que não servimos para nada. E neste caso, como ficaria a cidade? Acéfala!

OUTRO NOTÁVEL (de vigia, sobre uma cadeira): Calma, calma! Não corram! Eles nos elegeram, não vão nos fazer nada!

Chegam barbeiro Canjica e seus seguidores.

MULTIDÃO: O poder está nas ruas! O poder está nas ruas!

BARBEIRO (adianta-se): Tenho mandato do povo sublevado, eu, barbeiro Canjica, para destruir a Casa Verde. Simão Bacamarte deve ser preso e deportado.

UM NOTÁVEL: Coincidência das coincidências. É o que dizíamos neste recinto, é a minha opinião também.

O PRIMEIRO NOTÁVEL: Quieto, seu. Não dizíamos nada disso. Barbeiro, desde quando o povo sublevado emenda a ciência? A ciência não se emenda a voto, muito menos a grito. Voltai ao trabalho, é o conselho que vos damos. A ciência é como Deus e a ordem social: uma instituição intocável.

Silêncio.

BARBEIRO (de chapéu na mão): Vossa Excelência não compreendeu, levou a mal. Vossa Excelência –

UMA VOZ NA MASSA: Pxxx, o barbeiro deu para trás. Não vai acontecer nada. Companheiros, não vai acontecer nada!

Sai alguém da massa e imita um notável, com gestos e entonações grandemente exagerados.

O IMITADOR: Que pessimismo mais injusto! De-e-e-eixem por nossa conta, por conta dos notá-á-á-áveis. Fi-i-iquem mansinhos! Com paternal carinho e jeito acalmare-e-e-emos Bacamarte. Mas dentro da lei. E enquanto isso vocês trabalham, vão adiantando o expediente. Ou vocês querem ganhar sem trabalhar? Nós somos os dirigentes, as classes produtoras. Se vocês não correspondem, prejudicam a produtividade, o output de nosso esforço.

OUTRO IMITADOR: Quem é este moço? Fala bem, coisas ju-u-u-ustas!

O PRIMEIRO NOTÁVEL: Hó-hó-hó. Quanto espírito. Entretanto, um notável pode fazer o mesmo. (Toma as atitudes mais contorcidas, para ridicularizar o que diz.) – Eu quero pão, sem pão não posso viver! – Escola para a minha filhinha, tão magrinha! – Donde vem todo o mal? Do Senegal e dos notáveis. – E se eu for preso, porque roubei um queijo, minha família ficará ao relento? – Abaixo a repressão! – De pé, ó vítimas da fome! De pé –

O IMITADOR ANTERIOR (interrompendo): Quem é este moço? Fala bem, coisas justas. (Puxa o aplauso.)

A multidão aplaude, e agarra o notável para erguê-lo nos ombros.

O NOTÁVEL: Não me linchem! Não! Eu não faço mais!

A MASSA (em uníssono): Ele-é-dos-nossos! Ele-é-dos-nossos!

ALGUÉM (adiantando-se): Um caso raro. Deixou os privilégios de sua classe para unir-se aos oprimidos. Contra o seu próprio interesse, afirmou que precisamos de pão. É a favor da escola pública, mesmo que saia cara. E abandonou a teoria clássica segundo a qual todos têm um pouco de culpa e um pouco de razão; na opinião dele, a causa de tudo são os notáveis, e ponto final. Um homem extraordinário!

A MASSA (lançando o notável três vezes aos ares): Ele é bom! Ele é bom! Ele é bom!

O NOTÁVEL (choroso): Houve um mal-entendido. A minha intenção era outra!

A MASSA (uma voz para cada linha):

Mas qual? Qual?

Fala, homem; fala.

Nada nos interessa tanto

quanto saber ao certo

qual era essa intenção.

Não vá nos decepcionar!

O BARBEIRO (de chapéu na cabeça, aos notáveis): Senhores, é enorme a nossa irritação, como veem. Há circunstâncias em que ninguém responde pela massa. Bacamarte será deposto imediatamente, se for necessário à força. À frente estarão a Câmara e o representante do povo, que sou eu. Em seguida governaremos em conjunto. Uma forma renovada de democracia.

ALGUÉM: O barbeiro já está se vendendo outra vez. Não vai acontecer nada, e eu vou para casa.

VÁRIAS VOZES (cantando): O barbeiro não é mais aquele –

OUTRA VOZ: Psssiu! Silêncio, que ele está negociando.

OUTRA VOZ (cantando): Barbeirinho, não vá nos enganar –

O BARBEIRO (tirando o chapéu): O que eu ofereço é uma revolução sem revolução. (Bate num boneco.) Sai daí! O que eu ofereço, repito, é uma revolução sem revolução.

Silêncio.

UM NOTÁVEL: O que o barbeiro nos oferece não é pouco, pois não muda nada, mas mesmo assim é demais. Eu reconheço que o barbeiro transformou-se muito nestes minutos. Ele agora é claramente pela ordem. Mas o passado pesa. Ele não diz “ordem”, como nós. Ele diz “revolução sem revolução”. É prejudicial. Há palavras assim, que tumultuam. Mal se pronunciam, é como um cachorro que ouve o nome. As esperanças mais vulgares relativas à felicidade terrena vêm logo pulando. Então é melhor não dizê-las. Por outro lado, se é pela ordem, por que quer o barbeiro governar?

BARBEIRO: Verdadeira multidão de Itaguahy! Mobilizando esta grande massa, tentei levar a razão aos notáveis. Falhamos. Fomos excessivamente cordatos. Entretanto, se a invejável gramática dos notáveis – ó povo de Itaguahy – garante, sim, que estiveram na escola, não garante que defendam nosso interesse. Justamente acabamos de ver, com lágrimas nos olhos, como espezinham mesmo um vira-casaca, se for barbeiro. Recusam-me um lugar no governo! É intolerável. Povo de Itaguahy, faremos nós o que os notáveis não fazem. Assaltemos a Casa Verde!

ALGUÉM DA MASSA: Eles são inteligentes demais, acabam mesmo nos enganando. Agora, por exemplo, o barbeiro nos convenceu de que estaríamos no governo se ele estivesse lá. Mentira dele. Mas talvez seja por caridade, é o que penso às vezes. (meditabundo) A ciência parece que já provou, ou vai provar, a inferioridade das raças populares. Que humilhação para nós, já pensaram? (hipotético) Neste caso o barbeiro, que é talvez um bondoso notável disfarçado, faria de conta que nos engana e explora, não para nos enganar e explorar, mas para nos dar a ilusão de que somos homens iguais aos outros, embora vítimas da injustiça social. Assim, contentes e felizes, pois o ressentimento de classe é sempre mais agradável que a inferioridade racial, faríamos o nosso trabalho de animais de carga. Mas reconheço que tudo isso é um pouco especulativo.

OUTRO: Fato é que o Canjica mudou. Eu vou para casa jogar xadrez.

OUTRO: Não vá. Durante a baixa é preciso ser forte. (sem convicção) Barbeiro no governo! Barbeiro no governo!

OUTRO: Esse barbeiro me impacienta. Viva o Canjica, guerra aos casarões!

*

Bacamarte, a massa e o barbeiro, defronte da Casa Verde. Depois, os dragões do rei.

MASSA (em uníssono):

O passado nos ensina

Bacamarte na latrina.

BACAMARTE (acuado, contra a parede):

É injusto! Injusto e inoportuno!

Escutem, para a ciência todos os homens são iguais!

Também a ciência luta contra o privilégio!

Sabem, querem saber, a proposta que ouvi dos notáveis?

Propõem que a ciência estude e prenda miseráveis somente, nunca

[proprietários.

Mas a ciência não conhece o oportunismo e a exceção. Pela ciência,

[pela igualdade.

VAMOS ASSALTAR A CÂMARA!

ALGUÉM: Viemos depô-lo, e ele quer ser o nosso chefe.

OUTRO: É um grande homem, não tem vergonha alguma.

OUTRO: E o seu passado é impressionante. Os notáveis puseram veneno em seu copo. Um agente estrangeiro veio partir-lhe a cabeça. Um rochedo caiu tarde em seu caminho.

OUTRO: Um inimigo dos notáveis e difícil de matar. É um homem recomendável.

OUTRO: Mas todo inimigo dos notáveis é nosso amigo?

Clarim.

BARBEIRO: Os dragões!

Os dragões. O seu chefe está vestido de índio.

O CACIQUE (aos dragões, que se alinham): Atenção! (à massa) Onde fica o puteiro nesta cidade?

BARBEIRO: Nossa causa é justa, não nos dispersaremos.

CACIQUE: Preparar! (Os dragões põem as mãos na cintura.) Mas não tem puteiro nesta cidade?

BARBEIRO: Não disparem, é o povo!

BACAMARTE:

Os dragões do rei! O rei

garante a ciência contra

os homens de baixa extração social!

As águas sujas

finalmente voltarão

ao esgoto. Dragões do rei!

As águas sujas estão fora

do seu lugar no esgoto!

CACIQUE: Fogo!

MULTIDÃO (em uníssono desanimado): Estamos fritos. Estamos mortos.

UM DRAGÃO: Nesta peça não há tiro e ninguém morre. Só trouxemos as espadas. (Todos sacam as espadas.)

ALGUÉM: É a vantagem do assunto antigo.

CACIQUE: Não tem do que rir! Eu mandei atirar! Não me faltou coragem nem civismo. Em condições ideais, estariam reduzidos a papa. Carreguem de espada!

OUTRO DRAGÃO: Eu não.

CACIQUE: Por que não? Mas você é um criminoso! Matem o criminoso!

OUTROS DRAGÕES: – Que esperança. – Vejam só. – Leviano. – (uníssono) O nosso cacique não vale nada! (Passam-se para o lado da multidão, que afronta Bacamarte e o cacique )– Agora ninguém mais manda em nós, nem nós assustamos mais ninguém. Que alívio.

A multidão e os dragões confraternizam. Musiquinha breve.

UMA VOZ: Estamos no poder, não é?

BARBEIRO: Sujo Simão. Dizia-se defensor da igualdade, mas era assecla dos dragões do rei.

UM DRAGÃO: Pode falar. Nós não somos mais do rei.

UMA VOZ: Então vou ler um informe que caiu do bolso de um notável. É tão objetivo que dá vontade de bater palmas. É ouvir e aprender. Aspas: “Primeiro, nós dizíamos que Itaguahy é unida como uma grande família. Depois, achando que podíamos lucrar, quisemos aproveitar a ciência do Bacamarte para forçar os trabalhadores a trabalhar mais. Acontece que o doutor Simão não queria mandar só nos pobres, mas em todo mundo. Quando entendemos que a Casa Verde não era só para os outros, mas também para nós, entramos em pânico. Os sindicatos dos trabalhadores perceberam a brecha e nos propuseram uma ação conjunta contra o ditador. Foi quando nos demos conta de que tínhamos menos aversão à ditadura que à participação dos trabalhadores no governo. Assim, foi para se defender que eles, os trabalhadores, assaltaram a Casa Verde por conta própria. Nós, por nosso lado, não tivemos dúvida e chamamos os dragões do rei, para acabar com a desordem. Quanto a mim, esse é o resumo da ópera.” Fecha aspas.

UMA VOZ FEMININA: Companheiras e companheiros, peço a máxima atenção possível. Começa aqui uma era diferente, em que tudo vai depender de nós. A baixeza dos notáveis ficou clara. Mas e daí?, pergunto eu, e daí? A baixeza deles prova o quê? Ela prova que eles são uma porcaria, mas não que nós temos a solução. Isso nós é que temos que provar. Agora toca a nós mostrar que somos capazes de alguma coisa nova, nova e superior. Sem a luta por um sistema superior, fica tudo na mesma, não é isso? Precisamos conversar, usar a cabeça e nos organizar. Acabou o tempo amargo em que trabalhávamos para os outros. Daqui para a frente vamos trabalhar juntos, para nós mesmos. Procuremos entender, não é fácil.

OUTRA VOZ: E os escravos, para quem vão trabalhar?

OUTRA: Para quem seria? Só pode ser para nós, que os herdamos de seus donos anteriores.

OUTRA: Não acho tão claro. Vamos ver o que eles acham.

NOVA VOZ: Paz à senzala, guerra à casa-grande!

OUTRAS VOZES: Paz à senzala, guerra à casa-grande!

OUTRA VOZ: E essa agora, o que é?

BACAMARTE: É o dilúvio. Os abolicionistas.

BARBEIRO: Povo de Itaguahy! A nossa frente, histórica desde já, comporta no máximo escravistas de esquerda. Abolicionistas, não. Quem falou? (Adianta-se um tipo, de punho erguido; o professor alemão vem por trás e amassa-lhe a cabeça.) Doutor Bacamarte, lá para dentro. Logo falaremos.

*

Na outra ponta do palco, o barbeiro e Bacamarte.

BARBEIRO: Trate-me por “Excelência”, pois todos os homens são iguais.

BACAMARTE: Vamos tratar-nos por “você”; é mais íntimo.

BARBEIRO: Esta conversa é informal. Salvamos a Casa Verde?

BACAMARTE: Mas eu queria oferecer o prédio ao governo popular!

BARBEIRO: Bacamarte, apelo para o seu patriotismo. Amadureci muito, ultimamente. A generosidade do povo é um mito, creia-me; inveja e materialismo é tudo o que encontrei. Não vejo outra saída. Talvez, talvez o terror da Casa Verde possa ainda infundir respeito, algum sentimento nobre nessa massa dos descontentes. – São de uma inconstância!

BACAMARTE: Quem leu história sabe. Aclamam pela manhã e enforcam ao cair da tarde.

BARBEIRO: Excelência, eu sou um pobre barbeiro, tenho só dois escravos. (chorando) O abolicionismo.

*

Noutro canto do palco, a multidão. Depois os dragões e os notáveis.

ALGUÉM: O barbeiro está vendido, está no bolso do Bacamarte.

OUTRO: O oportunismo político de um combinou-se ao despotismo científico do outro.

OUTRO: Será uma ditadura nauseabunda.

UNÍSSONO: Fora os dois!

OUTRO: Viva a Abolição!

OUTRO: Abaixo o terror, fora os notáveis, não ao trabalho escravo! Abaixo Bacamarte, nota zero para o barbeiro, não aos ideólogos do escravismo! Viva a República, e viva a Abolição!

MULTIDÃO: Viva a República e viva a Abolição!

Clarins. Entram os dragões, seguidos pelos notáveis.

NOTÁVEIS:– Pedro Álvares Cabral! – A estratosfera! – O passado e o futuro! – As nossas mais caras tradições! – Goiabada feita em casa! – E os avós!

CACIQUE: Trovão, faça um barulhão daqueles!

Colossal trovoada. Na multidão, metade cai de costas, fulminada, a outra metade cai de joelhos, fazendo grandes mesuras. Os notáveis caem todos de joelhos, em sinal de afinação ideológica. De dentro da Casa Verde sai Bacamarte, coroado. A seu lado forma o barbeiro, já preso entre dois enfermeiros. Do outro lado, três enfermeiros novos.

BACAMARTE: Este é o momento culminante da história de Itaguahy; sua entrada na idade moderna. Aplicaremos, sem desfalecimento, além de minha própria teoria, a teoria econômica do padre Branquinho Teixeira Gonçalves de Oliveira Campos, meu pranteado mestre e figura humana incomparável.

Roberto Schwarz

Roberto Schwarz é crítico literário. Publicou Martinha versus Lucrécia, pela Companhia das Letras, entre outros. O texto foi lido no debate de lançamento do livro de Sérgio Ferro, Artes Plásticas e Trabalho Livre, no Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, em março de 2015.

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