ficção

O limpador de ouvidos

Desde que meti a chave na fechadura tudo começou a fazer sentido

Bernardo Carvalho
O prédio está cercado de gaivotas que piam, grasnam, gritam, guincham e ganem como cães, o tempo todo, mas agora, como já não há paredes, também não há refúgio
O prédio está cercado de gaivotas que piam, grasnam, gritam, guincham e ganem como cães, o tempo todo, mas agora, como já não há paredes, também não há refúgio PEDRO FRANZ_2018

PRIMEIRA SESSÃO

Já tinha até começado a me medicar, depois de consultar um psiquiatra, quando ouvi falar do Centro Espírita Brasileiro de Campanhã. Vim por indicação de um conhecido brasileiro que me pediu discrição e sigilo. Imagine se descobrem que em Portugal ele consulta centros espíritas depois de todo o materialismo que andou pregando no Brasil. Ultraliberal como eu, também não pode voltar. Também já não pode ter nada no próprio nome, graças a leis que criminalizam a iniciativa privada com impostos exorbitantes e representam mais uma ingerência abusiva do Estado na vida do cidadão, mas que em breve serão abolidas, com a benção de Deus. Não se comprometeria comigo se não tivesse percebido o meu estado e se solidarizado, porque no fundo também é humano e, ao contrário de pretos, lg não sei o quê e feministas de última hora, com essa compulsão por identidade isto e aquilo, alardeando o tal do “lugar de fala” e outras muletas, sabe o que é ter o nome emporcalhado injustamente e é capaz de se identificar com o sofrimento alheio. Vai que um dia desses lhe acontece de também começar a ouvir vozes. Desde que abri a porta do edifício pela primeira vez, como feliz proprietário de um imóvel tombado, na Baixa, nunca mais deixei de ouvir a voz. Bastou meter a chave na porta. “Tente a outra”, ela disse. Quer dizer, ele disse. Porque é voz de homem. Na verdade, deduzi o que sugeriu (experimentar a outra chave), já que não entendo nada do que ele diz. E não sei de onde vem essa voz! Ela me persegue, não para de falar. Todo mundo a quem pergunto, gente daqui mesmo, que não tem por que ter problema de entendimento com a pronúncia local, me garante que pode haver de tudo no Porto, menos fantasmas. Fantasmas, só em Lisboa. Então, que é que devo pensar? Que estou louco? Que esta é a minha punição? Que estou pagando pelo que fiz? Não me faltam motivos, com todo este calor, 40 graus à sombra, esperando, na estufa em que se converteu o imóvel tombado, na Baixa, os técnicos que deveriam levantar a planta mas saíram de férias, e a Paula, que agora também resolveu que não vem. Paula é minha mulher. Comprei o imóvel no nome dela e mesmo assim ela diz que não vem. Nem ela, nem as crianças nem os jack russells. Me fez alugar um apartamento na Boavista, para a família inteira, para poder acompanhar a obra, e agora diz que só vem quando a obra acabar. Mas se ainda não tenho nem a planta quanto mais o alvará! Não adianta eu dizer isso a ela. Como se não bastasse o que passei nas mãos do Estado brasileiro, agora, quando compro um imóvel, de boa-fé, achando que ela vai ficar contente, fica uma arara. Queria um apartamento em Cascais, ser vizinha das amigas e da Madonna. Não quer morar no fim do mundo, onde só chove e é sempre noite (nunca veio aqui, mas diz que viu no filme de um diretor português conhecido). Chegou a dizer que, se era para comprar no Porto, que fosse na Foz, como fizeram o Claudinho e a Cecília, que saíram antes de começarem os escândalos. Mas na Baixa? Digo que a tendência é a gentrificação. No meio de armazéns, de gente pobre e de turistas brasileiros?, ela rebate. Pra quê? Pra ser reconhecido e apontado na rua? O Claudinho e a Cecília saíram na hora certa. Antes de os filhos verem a foto e o nome do pai estampado nos jornais. Aproveitaram as oportunidades. Mandaram os filhos estudar em Londres e ficaram com o endereço fiscal aqui mesmo, na Foz, que ninguém é estúpido de pagar imposto em libras. A Paula diz que só um estúpido compraria um prédio industrial, tombado, na Baixa, para começar a reforma em agosto, mês de férias e de calor, e além do mais na dependência do alvará da Câmara e da Direção Geral do Patrimônio. Quem mandou? Diz que só aparece aqui quando a casa ficar pronta. Acha que não vai ficar pronta nunca. E no dia em que ficar pronta, arruma outra desculpa. Diz que a minha inteligência está ligada ao Brasil e que tudo o que ganhei lá vou perder aqui. Não está disposta a assistir ao espetáculo da minha derrocada. É o que ela diz, coberta com as joias que recebi em troca da minha inteligência e do meu sentido de oportunidade. Usufruiu de tudo o que lhe dei no Brasil, agora se recusa a fazer um pequeno esforço. As pessoas se revelam quando achamos que as conhecemos a fundo. Consegui residência em Portugal na melhor das condições, por uma pechincha, um imóvel tombado, 1 milhão de euros investidos na Baixa. Obra de arquiteto célebre dos anos 30, em zona de tendência à gentrificação. Para ela tanto faz. Tanto faz o nome do arquiteto. Mendes, Teixeira, Silva. Diz que nome de português é tudo igual. O arquiteto construiu um punhado de edifícios antes de fugir do Estado Novo, que é o que vai acontecer em breve com todos os esquerdistas do Brasil, pode escrever aí. Me puseram pra correr, agora vão ver o que é bom, vão sentir o que é não poder voltar, se conseguirem sair de lá, é claro. A Paula sabe que, se eu voltar, sou preso no aeroporto. Vou ter que esperar até darem um jeito na Justiça. Estou confiante nas eleições, mas a Paula desferiu um golpe baixo, sabe que estou imobilizado. Fiz uma ou outra coisa errada, mas quem não faz? E ela, que foi uma das principais beneficiárias, que é que queria que eu fizesse diante da oferta de um investimento excelente, um imóvel que posso reformar do jeito que quiser, com a única condição de não mexer na fachada? Estou acostumado a fazer excelentes negócios no Brasil. O materialismo é a chave de tudo. Como é que podia desconfiar de uma coisa assim, imaterial? O edifício foi construído com materiais sólidos da melhor qualidade, ferro, granito e mármore, para servir de armazém. É uma joia, mesmo se por dentro nem parece obra de arquiteto famoso, é um emaranhado irracional de salas e corredores inconclusos. Uma ruína facho-déco autêntica, mas ainda assim uma ruína, ela ironiza. Tente imaginar o preço disso no Centro de Paris ou de Londres, Paula! Não se recusa uma oferta dessas. E ainda mais num país de mão de obra barata, baratíssima, para dizer a verdade. Quando há mão de obra, é claro, porque agora os que não saíram de férias estão ocupados com as casas de outros brasileiros. Contratei uma firma de arquitetura justamente para não me aborrecer, para que levantassem a planta com a Câmara, e por precaução propus acertar adiantado, mas bastou pagar a primeira parcela para a equipe evaporar. Estão na praia. Ou foram pras suas aldeias. É esse o último bastião da esquerda no mundo ocidental, as férias do operariado. Quem mandou?, a Paula diz. Se era pra ficar na mão de gente que larga o serviço no meio e ainda finge que não entende a língua quando você começa a gritar, não precisava sair do Brasil. A Paula não grita, é uma mulher discreta e bem-vestida, mas desta vez exagerou. Está agindo por vingança. Não se conforma que eu tenha comprado um imóvel no Porto, sem consultá-la, enquanto a Betina, a Lurdinha e a Sílvia estão refesteladas na Quinta da Marinha Golf, com as babás e os filhos, assistindo às tacadas dos maridos. Não viajam sem as babás. Ela queria mesmo era um condomínio novo, com vista pro mar. Que é que eu posso dizer? O imóvel da Baixa está cercado de gaivotas. É uma alusão marinha. Agora, como é que vou explicar que, além das gaivotas, os fundos do prédio dão para a cozinha de um restaurante da moda, sempre lotado de brasileiros? Fico observando as labaredas na cozinha, pensando em como é que vou explicar os vestidos dela empesteados de fumaça de sardinha, prego e bacalhau. E enquanto observo as labaredas, a voz segue me dizendo, com a mesma urgência de sempre, coisas que não compreendo. Quando é que eu, materialista ultraliberal, podia imaginar um fantasma num prédio da Baixa? Um fantasma falastrão, numa língua incompreensível. Peço que fale devagar, que articule as palavras. Mas está aflito, come as sílabas, parece que tem algo a dizer. Deve ter pressa, ou não falava desse jeito, me deixava em paz. É por isso que estou aqui.

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Bernardo Carvalho

É escritor, autor de Simpatia pelo Demônio

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