esquina

O livreiro discreto

Acabou-se o que era doce para os jornalistas paulistanos

Rodrigo Levino

Luis Alberto Piazza deixou São Paulo para trás. No primeiro sábado de junho, dia 6, ele tomou a direção do litoral sul do estado, o pedaço de Brasil que escolheu para se aposentar. Se fosse o caso de levar apenas um livro para a Ilha Comprida, não teria hesitado: Soy loco por ti, América! de Marcos Rey.

Aos 65 anos, 42 deles trabalhando como livreiro, o risonho palmeirense – que, apesar de filho de espanhol, carrega o sotaque dos italianos – decidira que, dali em diante, nada mais de livros para os outros: “Agora é a vez dos livros que eu nunca consegui ler por falta de tempo”, disse, feliz da vida.

A tristeza se espalhou pelas redações da imprensa paulistana.

Na véspera de partir, Piazza realizou seu último périplo pelas mesas de jornalistas da editora Abril, fechando uma rotina iniciada em 1974. Ele conheceu praticamente todas as redações de São Paulo, viu revistas nascerem e morrerem, testemunhou embates épicos de egos monumentais e fez centenas de amigos.

A longevidade do negócio resultou de esforço tenaz e empenho sincero em conhecer cada um dos seus clientes. “Perdi a conta de quantos livros dei de presente. Pagava do meu bolso. Na visita seguinte a pessoa já se animava a fazer um pedido maior. Quer dizer, eu perdia dez aqui para garantir cinquenta lá na frente”, contou, enquanto tirava os livros da bolsa e os espalhava sobre as mesas da redação da Playboy.

Piazza trabalhou nas livrarias Nobel, Brasiliense e Cultura. Quando mudava de endereço, muitos clientes iam atrás. Não era só o tino comercial que lhe garantia sucesso, mas também a leitura em dia, que lhe permitia indicar com conhecimento de causa os livros mais interessantes surgidos na praça. Ajudava o fato de muitos autores terem se tornado amigos seus. Marcos Rey, João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, Lygia Fagundes Telles e Raduan Nassar são pessoas de quem se lembra com carinho.

Foi em 1982 que Piazza decidiu tentar a sorte por conta própria. Abriu uma livraria na Alameda Santos, a Agrados Primos. O nome era uma homenagem ao livro Gradus Primus, de Paulo Rónai, uma gramática básica de latim. A livraria durou dezesseis anos e passou boa parte do tempo sob os cuidados de um sócio, pois o grande prazer de Piazza era mesmo o roteiro das redações, batizado por ele de “venda externa”. “O esquema era simples: eu pegava os lançamentos e levava de redação em redação. Geralmente vendia tudo numa tarde. Anotava as encomendas e levava na semana seguinte. Às vezes saía com duas, três malas cheias de livros, e voltava com todas elas vazias.”

 

Piazza visitou desde sempre as redações de Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e da Folha de S.Paulo. Daquela época resta um cliente muito antigo – “o melhor de todos, o que me compra mais livros até hoje.” O nome ele prefere guardar, para não melindrar os demais. No abrandamento da ditadura, viu a revista Homem ser rebatizada de Playboy, nome americano que feria os brios nacionalistas dos militares. Acompanhou a transformação da Capricho, de revista de fotonovelas em revista de adolescentes, e o nascimento, vida e morte da Bizz.

A convivência com jornalistas fez dele um homem bem informado sobre os últimos acontecimentos literários e políticos. E também sobre disputas de poder nas grandes redações. “Se eu fosse contar o que soube e o que vi ao longo desses anos, nem todos os livros que vendi seriam suficientes”, diz, sem revelar segredos. Mas depreende-se que intrigas palacianas não se restringem a palácios. Diante dos olhos do livreiro, da noite para o dia, redações inteiras vieram abaixo porque um desafeto da antiga administração fora alçado ao poder.

Uma das coisas que sempre desgostaram Piazza foi recolher em sebos livros e mais livros com dedicatória do autor a ilustres conhecidos da política e do jornalismo. “Quer dizer: uma deselegância. Se a pessoa não quer mais, se vai levar para um sebo, tenha ao menos a decência de rasgar a páginas autografada, não é mesmo?” Nomes? “Eu jamais direi nenhum.”

A discrição lhe permitiu frequentar as redações por décadas sem jamais ouvir uma reprimenda. Era conhecido em todas as portarias e não precisava de autorização para subir. Afeiçoou-se não só aos clientes, mas também ao trabalho deles. “Convivendo com jornalistas, me apaixonei pelo novo jornalismo americano. Depois do conto, o perfil virou o meu gênero favorito.” Abrindo a coletânea Os Cães Ladram, de Truman Capote, nas páginas (“Extraordinárias!”) sobre o ator Marlon Brando, Piazza disse: “Li muito romance na vida, mas vou te contar: o que essa turma do Capote, do Tom Wolfe e do Gay Talese fez não tem outro nome – é alta literatura.”

Em 1998, com o fim da Agrados Primos, Piazza se viu obrigado a diversificar o negócio. Além de livreiro de lançamentos, tornou-se um exímio caçador de títulos raros, descobertos em sebos de São Paulo e Rio de Janeiro. Tomou gosto pela coisa e nunca mais pensou em abrir outra loja.

O livro mais difícil que já caçou não foi nenhum romance clássico ou primeira edição do século XIX. “Foi Aos Olhos da Multidão, do Talese. Saiu no Brasil, em 1973, com uma tiragem mínima e ficou quase uma década sem reedição. Virou um fetiche entre os jornalistas. Eu tinha a missão de encontrá-lo. Cheguei a levar quatro anos procurando um exemplar para atender um cliente.”

 

Épocas diferentes produzem demandas diferentes. “Livros proibidos por razões políticas ou de disputa judicial vendiam como água”, contou. Durante a ditadura, Piazza contrabandeava para dentro das redações campeões de bilheteria tais como A Ditadura dos Cartéis: Anatomia de um Subdesenvolvimento, de Kurt Mirow, a Revista Civilização Brasileira, com textos de Lukács, Carlos Nelson Coutinho e Darcy Ribeiro, Feliz Ano Novo, o livro de contos censurado de Rubem Fonseca, ou títulos vários de Hannah Arendt, Florestan Fernandes e Jorge Amado, este último tido como pernicioso à pátria e à família brasileira. Os jornalistas, que nunca foram de levar vida acomodada, gostavam.

Numa caderneta surrada, Piazza registrou a última encomenda do dia. Quem faria o livro chegar às mãos do cliente seria o filho mais velho do livreiro, Rodrigo, responsável por tocar os negócios dali por diante. Mas não haveria um novo Piazza circulando pelas redações, explicou o pai: “O Rodrigo abriu uma loja na internet, no site Estante Virtual. Agora os livros vão ser mandados pelo correio.” E assim foi com Meridiano de Sangue – Ou O Crepúsculo Vermelho no Oeste, romance épico do americano Cormac McCarthy, o último pedido anotado na longa e distinta carreira do livreiro dos jornalistas.

Rodrigo Levino

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