diário

O maior beberrão da crise

Uma cronologia de vida e morte do Hummer, o sinistro jipão americano que foi fuzilado pela crise mundial

Katharine Mieszkowski
Concebido para não ser discreto nem econômico, e
ostentando suas origens militares, o
utilitário Hummer, da General Motors, deixará órfã uma legião de adoradores. Apontado como vilão pelos abraçadores de árvores, esse peso-pesado do asfalto é a primeira vítima de 4 rodas da crise
Concebido para não ser discreto nem econômico, e ostentando suas origens militares, o utilitário Hummer, da General Motors, deixará órfã uma legião de adoradores. Apontado como vilão pelos abraçadores de árvores, esse peso-pesado do asfalto é a primeira vítima de 4 rodas da crise FOTO: ANTHONY ROBSON_CITYCYCLING.CO.UK

“Mom, apple pie and a Chevy” (Mamãe, torta de maçã e um Chevrolet) já foi sinônimo de vida americana. Fundada em 1908 e há 77 anos na liderança mundial na venda de automóveis, até perder o posto para a Toyota no mês passado, a General Motors Corporation, fabricante do Chevrolet, foi durante décadas sinônimo de Estados Unidos. Por isso mesmo, a montadora não poderia escapar da explosão econômica que, a partir de setembro, derreteu primeiro as bolhas artificiais do sonho americano e depois passou a queimar o que o país tinha de mais sólido.

Com perdas da ordem de 58 bilhões de dólares nos dois últimos anos, e uma queda de 30% nas vendas em dezembro nos Estados Unidos, a GM, assim como a Chrysler e a Ford, foram a Washington pedir socorro ao Congresso. Pouco conseguiram, além de críticas à gastança obscena de seus principais executivos. Numa segunda ofensiva, foram bater à porta de George W. Bush, que, no apagar das luzes de seu mandato, concedeu um empréstimo de 17,4 bilhões de dólares para poderem respirar.

Foi em meio a esse cenário que Rick Wagoner, o presidente mundial da GM, ofereceu em sacrifício um dos ícones da era do desperdício desenfreado: o Hummer.

Durante mais de vinte anos, os vários modelos do dinossauro 4×4 simbolizaram tanto a cultura do excesso quanto o fetichismo militarista que se seguiu ao 11 de Setembro. Sem falar na despreocupação com questões ambientais e na indiferença dos abonados com as oscilações ciclotímicas do preço do combustível.



O Hummer, filho legítimo de um veículo de guerra, nasceu com dimensões de treze geladeiras gigantes e com peso equivalente a uma elefanta adulta. Ou, como contabilizaram os ecochatos que elegeram o Hummer inimigo número 1 do planeta, ele é mais pesado do que 265 bicicletas (das antigas, bem pesadas). Foi, portanto, com gáudio e congraçamento de “missão cumprida” que o movimento de resistência ao Hummer festejou, no início de 2009, o anúncio de que a GM aposentaria a marca.

Segue uma breve cronologia da vida desse carro tão odiado pelos ambientalistas e endeusado por uma tribo eclética – que vai de Arnold Schwarzenegger ao rapper 50 Cent.

MARÇO DE 1983_O Hummer é apenas um brilho metálico nos olhos do Pentágono. Quando o Departamento de Estado destinou 1,3 bilhão de dólares para a AM General desenvolver um veículo capaz de suceder o jipe militar tradicional, que datava da Segunda Guerra, a montadora produziu as primeiras 55?mil unidades, desdobradas em dezessete modelos. Nascia, assim, o HMMWV, ou Humvee, providencial apelido para o tortuoso nome genérico da invenção – o High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle, ou Veículo Multifuncional e de Alta Mobilidade.

OUTUBRO DE 1985_Com Ronald Reagan instalado na Casa Branca, a IX Divisão de Infantaria do Exército, baseada em Fort Lewis, estado de Washington, torna-se a primeira unidade a adotar o novo jipão militar.

NOVEMBRO DE 1989_A queda do Muro de Berlim prenuncia o colapso do bloco soviético. Os Estados Unidos são a única potência mundial.

JUNHO DE 1991_Proclamado “o veículo vitorioso da operação Tempestade no Deserto”, que enxotou o Iraque do Kuwait, o Humvee encontra seu primeiro comprador civil: o ator Arnold Schwarzenegger. O conceito de elegância marcial vira fashion e inspira várias celebridades. Entre os proprietários famosos que seguiram a preferência de Schwarzenegger estão Paris Hilton, Shaquille O’Neal, Hugh Hefner, David Beckham, Mike Tyson e o rapper 50 Cent.

OUTUBRO DE 1992_Chega às concessionárias o H1, a primeira versão civil do artefato militar. Com direito a nome próprio: Hummer. Seu rendimento médio é de pouco mais de 5 quilômetros por litro de gasolina, com preços a partir de 40 mil dólares.

SETEMBRO DE 1996_O rapper Tupac Shakur, também conhecido como “Pac”, é assassinado com quatro tiros em Las Vegas. Maior fenômeno de vendas de gangsta rap em todo o mundo (mais de 75 milhões de CDs), ele tinha sido um dos primeiros proprietários do H1 nos Estados Unidos. Don’t Sleep, uma canção de sua autoria cuja letra celebra o passado militar do veículo (“Meu Hummer entra em cena/ evacuando soldados presos/ Estratégia interna/ Expressão do estilo militar”), é lançada no disco póstumo Pac’s Life. O Hummer H1 preto que dirigia, apelidado de Eliminator, foi posto à venda no eBay, postumamente, por 500 mil dólares.

NOVEMBRO DE 1996_Notícias sobre a produção das primeiras limusines da linha Hummer, fabricadas sob medida, ouriçam os aficionados.

DEZEMBRO DE 1999_A GM adquire da AM General os direitos de produção e comercialização do Hummer.

SETEMBRO DE 2001_Ataque suicida da Al Qaeda às Torres Gêmeas e ao Pentágono. O presidente George W. Bush declara guerra total ao terror.

JULHO DE 2002_Chega às concessionárias o Hummer H2, versão menor e simplificada do modelo original, com preço básico de 48 mil dólares. A autonomia do utilitário é de 4 a 7 quilômetros por litro de gasolina. Ele consome mais energia na fabricação, e mais combustível nos primeiros 40 mil quilômetros rodados do que o Toyota Prius híbrido ao longo de toda a sua vida útil.

Desde 1996, um pacote de isenções fiscais oferecia vantagens aos compradores do Hummer. Mas em 2002 o New York Times publicou uma reportagem revelando que, devido a novas regras tributárias estabelecidas pelo governo Bush, os compradores podiam deduzir até 35 mil dólares do preço básico do veículo.

O clipe da música Wanksta, do rapper 50 Cent, que destila desprezo por carros pequenos e homens insignificantes, exibe imagens do cantor desfilando com uma frota deles. A letra de Wanksta é ilustrativa: “Você diz que é gangsta/ Mas você nunca atirou em ninguém/ Na verdade você é um wanksta [aquele que finge ser da pesada]/ E tem que parar de nos imitar/ Você vai à concessionária/ Mas nunca compra nada/ Precisa parar de botar banca.”

A GM exige que as concessionárias Hummer reformem seus salões de vendas de maneira a parecerem instalações militares. Os estandes devem ter “muito aço escovado e dobradiças aparentes no seu interior”. Um protótipo construído em Milwaukee exibe na porta da frente um “H” de 10 metros de altura.

MARÇO DE 2003_George W. Bush invade o Iraque.

JULHO_O Sierra Club, centenária entidade americana de defesa do meio ambiente, lança o site HummerDinger [trocadilho com humdinger, gíria para "coisa chique”], dedicado a zombar da tecnologia retrógrada do jipão. O site também cria o anúncio de uma buzina especialmente fabricada para o Hummer.

Entra no ar o site FUH2.com, abreviação de “fuck you and your H2”, guerrilha interneteira de combate ao jipão e a seus proprietários. Nele, conclamam-se os militantes a adotar a “saudação oficial ao Hummer”, que consiste em levantar o dedo médio para o carro e seus motoristas. Em pouco tempo o site é inundado por milhares de fotos enviadas de todos os cantos dos EUA. “Missão cumprida”, alegra-se o site.

AGOSTO_Ecoterroristas atacam concessionárias do vale de San Gabriel, no sul da Califórnia, desfigurando e incendiando dezenas de Hummers. Deixam pichação nas paredes: “Americanos Gordos e Preguiçosos.” Numa só concessionária de West Covina, vinte carros novos, na maioria Hummers H2, são queimados. A Frente de Libertação da Terra, ampla coalizão de militantes ambientalistas, assume a autoria dos ataques.

SETEMBRO_Em resposta aos atentados, o FBI detém certo Josh Connole, vegetariano radical que morava numa comunidade de San Gabriel, vivia de instalar painéis de energia solar, usava apenas carros elétricos e participou de protestos contra a guerra no Iraque. Parecia figura suspeita. Mas Connole não tinha qualquer ligação com os ataques. Solto quatro dias mais tarde, recebeu uma “carta de desculpas” do FBI e embolsou 100 mil dólares a título de compensação.

O rapper Wyclef Jean vence um concurso de carros modificados para celebridades com seu Hummer dotado de um aquário e de uma motocicleta de Homem-Aranha.

Xzibit, outro nome de peso do hip-hop americano, torna-se apresentador do programa Pimp My Ride, da MTV, no qual volta e meia aparece ao volante de seu carro-tanque.

JUNHO DE 2005_Chega às concessionárias a terceira geração de Hummers, o H3. Mais comedido que os antecessores, custa 30 mil dólares e roda mais de 8 quilômetros por litro de gasolina.

JUNHO DE 2006_A GM interrompe a produção do modelo Hummer mais agressivo, o H1. O H2 e H3, em contrapartida, continuam a atrair consumidores, com vendas de mais de 100 mil e 50 mil unidades, respectivamente.

NOVEMBRO_Estréia o filme Borat, com o repórter pretensamente ingênuo do Cazaquistão interpretado por Sasha Baron Cohen. Ele pergunta a um vendedor americano de automóveis que tipo de carro ele deveria comprar para atrair “uma mulher raspadinha lá embaixo”. “Bem”, responde o vendedor, “acho que um Corvette. Ou um Hummer.”

NOVEMBRO DE 2007_Depois de anos de serviço como porta-voz extra-oficial do veículo urbano de assalto, Arnold Schwarzenegger, reeleito governador da Califórnia, denuncia o aquecimento global e ordena que um dos sete Hummers da sua frota pessoal seja convertido para o consumo de hidrogênio. Num esforço suplementar de comedimento, o governador reduz sua frota para apenas três unidades. Eles raramente saem da garagem. Schwarzenegger passa a se locomover em carros oficiais da Patrulha Rodoviária da Califórnia.

As vendas do Hummer caem 22%.

JUNHO DE 2008_Com as vendas 50% abaixo do ano anterior, Rick Wagoner, o presidente mundial da GM, anuncia um plano de “revisão” da marca.

SETEMBRO_Colapso do Lehman Brothers, quarto maior banco de Wall Street. A dimensão da crise fica escancarada.

OUTUBRO_Stephen Colbert, um dos mais cáusticos comediantes da tevê americana, satiriza os membros do National Hummer Club. Qualifica-os de “conservacionistas” por resistirem à extinção do seu “carro de combate pela liberdade”. “Se conseguirmos salvar o Hummer, ainda poderemos salvar a América”, proclama, mão no peito, um dos convidados de Colbert.

DEZEMBRO_No seu pedido de socorro ao Congresso, a General Motors admite que diminuirá o número de suas marcas e modelos. Anuncia também que poderá desistir da linha Hummer, seja através da eliminação pura e simples, seja pela venda da marca. Seu fabricante original, a AM Motors, mostrou-se interessado. O grupo Changfeng, fabricante de automóveis da província de Hunan, admite uma eventual parceria, uma vez que seu principal cliente, o exército chinês, planeja renovar parte de sua frota de 4×4.

2009_Não desanimem, defensores da liberdade, de cavalgar um Hummer: as vendas continuam em alta na Rússia! Pode ser que algum plutocrata pós-soviético ainda salve a marca e ela continue disponível na terra de Marlboro, ainda que seja como carro importado.

Katharine Mieszkowski

Katharine Mieszkowski é jornalista americana. Artigo originalmente publicado no site Salon.com.

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