esquina

O mapa da incontinência

São Paulo para bexigas hiperativas

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Em Dinajpur, Bangladesh, o sujeito se agacha atrás de um arbusto e começa a fazer suas necessidades. É interrompido por um agitado grupo de crianças com apitos e bandeirolas vermelhas. Enquanto o homem sai correndo segurando as calças, eles fincam uma bandeira no monte de excremento: “Seu cocô está marcado”, gritam, num documentário transmitido pela rede BBC sobre as condições de saneamento na região.

Para a ONU, 2008 é o Ano Internacional do Saneamento. Alguns projetos não-governamentais, como o Saneamento Total Liderado Pela Comunidade, eliminaram a defecação a céu aberto em centenas de vilarejos de Terceiro Mundo. Seu líder, o indiano Kamal Kar, contou com a mobilização dos grupos comunitários para a construção de latrinas. As crianças lideraram passeatas e inventaram slogans contra a livre defecação. Seus pais ergueram banheiros públicos.

Em São Paulo, praticamente não há sanitários públicos para a população em estado de emergência. Os banheiros do centro foram fechados devido à prostituição, ao vandalismo e ao tráfico de drogas. No caso do toalete localizado no vale do Anhangabaú, a prefeitura chegou a fazer uma licitação para privatizar as instalações, mas ninguém se interessou. O lugar fica trancado e só a guarda metropolitana o utiliza. No metrô, por causa das mesmas alegações (vandalismo, tráfico), a operação dos toaletes foi terceirizada; hoje a maioria é paga. Na rua, o paulistano fica vulnerável ao xixi na calça e à dor de barriga.

Por aqui, impera a ditadura das chaves nas padarias e do “banheiro exclusivo para clientes”. No centro, onde a revolução dos bexigas-fracas chegou antes, os bares vivem cheios de gente que só entra para usar o banheiro. Nas áreas mais nobres, é preciso pedir alguma coisa para comer e retirar a chave no balcão.



Pensando no cidadão apertado e na ausência de matinho na cidade, piauí, ciosa que é das grandes questões humanitárias, prestou um serviço social elaborando o mapa dos principais banheiros femininos gratuitos na região da avenida Paulista (os masculinos ficam para uma edição por vir, ampliada e com capa dura). Tal qual um guia Michelin, os onze estabelecimentos sanitários foram classificados segundo higiene, odor, funcionalidade, conforto e materiais de apoio (papel higiênico e sabão), em notas de um a cinco. Outros requisitos também foram levados em conta, como o acesso irrestrito e a pressão da descarga.

As grandes revelações desse ranking foram os banheiros dos shoppings e do McDonald’s, tradicionalmente acessíveis à plebe com dificuldades renais. O campeão absoluto foi o do Shopping Paulista, que, asseado e suntuoso, ganhou nota máxima do júri. O reservado tem hall de entrada com quatro majestosas poltronas, espelho de corpo inteiro, mesa de mármore para anotações, vaso de flores e lustre de pingentes. O banheiro é limpo, possui vastas quantidades de papel higiênico, pendurador de bolsas, sabonete líquido em sistema de espuma (cada acionamento libera 0,4 ml, permitindo uma economia três vezes maior em comparação ao sistema convencional), máquina de papel para limpar as mãos com sensor automático e descarga de ótima pressão.

Desempenho louvável teve, também, o espaço cultural Casa das Rosas, do outro lado da rua, em cuja espaçosa cabine é possível assentar uma família de sem-terra. Mas como tamanho não é documento, o banheiro ganhou três estrelas, pois é unissex, não está sinalizado e não tem sabonete para lavar as mãos. Mesmo assim, no momento do teste, um senhor coreano saiu do reservado com ar satisfeito. Pudera: trata-se de um enorme banheiro com duas pias (uma delas com torneiras antigas), quadros, acesso para deficientes e porta com maçaneta dourada.

 

Como o alívio emergencial desconhece hora ou local apropriados, avaliou-se também o banheiro do Hospital Santa Catarina. Apesar do olhar desconfiado dos seguranças, o que se encontrou foi um recinto quatro estrelas, que estava sendo higienizado no momento exato da pesquisa. Além disso, o hospital conta com um bebedouro de galão, conveniente em termos de retroalimentação das bexigas.

Outro banheiro analisado foi o do Shopping Boulevard Monti Mare, também conhecido como “o novo Stand Center”, antiga meca de muambas eletrônicas fechada pela Justiça e que distava a 500 metros dali. O estabelecimento fica no número 392 da Paulista e possui um banheiro novo, de três estrelas. Embora a descarga peque pela pressão baixa, o recinto é limpo, com seis pias.

Uma das piores latrinas analisadas na via-sacra urinária foi a do Shopping Veneza, já próximo à avenida Brigadeiro Luís Antônio. Ganhou uma mísera estrela, porque é escuro, sujo e malcheiroso. As portas das cabines não fecham e o papel higiênico, que fica junto à pia, deve ser coletado antes do ato. O sabonete líquido possui um estranho cheiro ocre e sai em poucas quantidades. Em suma, o ideal é andar mais uma quadra e visitar o banheiro do Top Cine, um dos mais tradicionais da cidade.

O toalete em questão está localizado no 1º andar da galeria, junto a caixas eletrônicos e bebedouros. Embora seja um sanitário de duas estrelas (três cabines estreitas, desconfortáveis e malcheirosas), ganha menção honrosa por estar sempre disponível a quem precisa. O secador de mãos é um pouco lento para quem tem pressa.

Ao lado do Top Cine, no 900 da avenida Paulista, estão os cinemas da Reserva Cultural. Os toaletes localizam-se a um lance de escadas, no subsolo, e aparentam ser mais do que são: o vidro fumê das portas, o toque cítrico do sabonete e a cor branca das suntuosas pias disfarçam o fato de ser um banheiro apenas mediano, de três estrelas. Do outro lado da rua, fica o banheiro da Fnac, no 1º andar da megastore, ao lado do café e de um purificador de água. O acesso é ruim e o sanitário, quase escolar, com lixo lotado de papel. Duas estrelas.

Na frente do antigo Stand Center, há outro novo estabelecimento de venda de produtos eletrônicos, sem nome e sem placa. A galeria localiza-se ao lado da Drogaria São Paulo (no número 1227). É um dos piores banheiros analisados, com cabines depredadas e um buraco no teto, encaixando-se na categoria decadente de bathroom and breakfast.

No que tange à avenida Paulista, é melhor ter problemas na bexiga antes do Trianon. Da metade para o fim, o público conta com uma escassez de banheiros: um deles é o do Bob’s, duas estrelas por estar no fundo da lanchonete. Muito distinto do rival McDonald’s, a meca do alívio urinário, seja aqui ou na China. O líder de oferta sanitária cumpre seu papel histórico e apresenta um banheiro padronizado, de dinâmica fácil e acessível ao cidadão de qualquer nacionalidade. Ainda assim, rígido que é, o comitê julgador lhe dedica apenas duas estrelas: pecou pela tampa de privada quebrada e pela decoração de pastilhas vermelhas e amarelas. Mas justiça seja feita: os demais McDonald’s da cidade possuem toaletes bem respeitáveis.

Em suma, se você está em São Paulo e precisa atender ao chamado da natureza, não hesite: vá a Bangladesh.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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