esquina

O McKassab

Como ser republicano e democrata ao mesmo tempo

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

O iPhone de Kevin Ivers marcava três da tarde quando, aplaudido por mais de 100 alunos do ensino médio, ele se levantou, agradeceu, guardou seu bloco de anotações e desceu do palco da Escola Americana, no Rio de Janeiro. Entre um degrau e outro, sorrindo e acenando, ajeitou a pequena franja loira que pendia sobre a testa.

Pela segunda vez em poucos meses, era hora de o presidente da organização Republicans Abroad, Republicanos no Exterior, braço do partido de Bush no Brasil, desencarnar o senador americano John McCain e retomar sua identidade real. Rapidamente, se desvencilhou do público que tentava cumprimentá-lo e rumou ao aeroporto Santos Dumont. Precisava pegar o vôo das cinco para São Paulo.

Por mais de duas horas, Ivers havia sido sabatinado em inglês pelos estudantes de uma das escolas da elite carioca e pelo líder da organização Democrats Abroad no Brasil, Steve Spencer. Por ter vivido experiência semelhante em junho, na União Cultural Brasil-Estados Unidos, quando defendeu o programa republicano para um grupo de jovens do mercado financeiro, portou-se como se realmente fosse a opção do seu partido à presidência norte-americana.

Respondeu com firmeza sobre o possível fim do capitalismo (“Não. Essa crise é apenas uma séria recessão”), sobre o Irã (“Não há por que sentar-se à mesa com Ahmadinejad”), sobre o ataque da Rússia à Geórgia (“Aquilo foi um exemplo claro de agressão”), sobre o Iraque (“O Bush errou. Nós vamos acertar”).



Kevin Ivers prometeu que McCain lutará pela entrada do Brasil no G7 e que reduzirá os subsídios agrícolas locais, melhorando o cenário para os produtores estrangeiros. Além disso, criticou com veemência a fabricação de etanol a partir do milho. “Nós impulsionaremos o etanol brasileiro, feito da cana, estejam certos disso”, inflamou-se, com o dedo em riste.

 

Apesar de se parecer mais com o ator Macaulay Culkin do que com o veterano de guerra que disputa a Casa Branca, Ivers convenceu os professores que acompanharam a apresentação. Na saída do auditório, alguns comentavam que se ele estivesse na disputa, o democrata Barack Obama não lideraria as pesquisas. “O Kevin fala do programa republicano melhor do que o próprio McCain!”, disse um deles.

Ivers nasceu em Nova York, numa família republicana até o último fio de cabelo. Entrou para a política no mesmo dia em que as tropas iraquianas invadiram o Kuwait, em 2 de agosto de 1990. “Enquanto meus amigos de faculdade fumavam maconha e diziam não à guerra, eu vi que era hora de ser forte e tomar atitudes sérias”, lembrou.

Com 40 anos, os dois últimos vividos em São Paulo, ele é dono de um escritório de consultoria internacional localizado, coincidentemente, na alameda Casa Branca, no Jardim Paulista. Nas horas vagas, comanda a Republicans Abroad. “O objetivo”, disse ele, “é conscientizar os americanos que residem no Brasil sobre a importância de votar e, se possível, de que o candidato republicano está mais bem preparado.”

No táxi que o levou da escola ao aeroporto, Ivers contou que conheceu John McCain há catorze anos, quando estava em Washington fazendo lobby. Desde então, passou a acompanhar a trajetória do veterano de guerra. Nas prévias presidenciais de 2000 (quando McCain perdeu para George W. Bush), ajudou o senador angariando fundos entre a comunidade católica de Long Island. Agora, está convencido da superioridade do seu candidato em relação a Obama: “São trinta anos de experiência contra três.”

O alarde em relação ao despreparo de Sarah Palin, vice na chapa de McCain, não o incomoda: “Sarah vem do mundo real. Não está contaminada por Washington. Para mim, isso é ótimo.” Após um curto silêncio, continuou: “Você vai ver. Ela vai acabar sendo como Ronald Regan ou Margareth Thatcher, que não estavam empregnados por política e tiveram clareza para fazer – e muito bem – o trabalho.”

O táxi acelerou pelo Aterro do Flamengo e, enquanto admirava a vista do Pão de Açúcar, o ativista político perguntou sobre as eleições no Rio. “O primeiro turno daqui foi tão emocionante quanto o de São Paulo, certo?” E acrescentou: “Quer ver uma coisa curiosa? Nos Estados Unidos eu sou republicano. No Brasil, democrata. Apóio o Kassab, do jeito que puder.” E reproduzindo a capacidade de encarnar políticos em campanha, comemorou, à la Kassab: “A capital paulista nunca esteve tão limpa! A criminalidade nunca foi tão baixa, o trânsito melhorou…”

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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