o mundo da mente

Você vai dormir, dormir…

A hipnose condicionativa conquista adeptos no Paraná e já chega a Portugal

Vanessa Barbara
Sinta seus pés pesados… Muito pesados… Pesados e moles, moles e relaxados. Sinta uma agradável sensação de paz interior, muita paz, tranqüilidade e calor envolvendo seus pés. Relaxe seus pés. Relaxe. Relaaaaaxe
Sinta seus pés pesados… Muito pesados… Pesados e moles, moles e relaxados. Sinta uma agradável sensação de paz interior, muita paz, tranqüilidade e calor envolvendo seus pés. Relaxe seus pés. Relaxe. Relaaaaaxe FOTO: TIME & LIFE PICTURES_GETTY IMAGES

Em 1986, a ajudante de enfermagem Nadean Cool procurou um psiquiatra para tratar de um trauma sofrido pela filha. O médico decidiu que a própria enfermeira deveria ser tratada, e a submeteu a hipnose e outras técnicas sugestivas. O objetivo era resgatar lembranças de abuso que a própria enfermeira teria, supostamente, sofrido. Nas sessões, ela foi convencida de que reprimia memórias de ter participado um culto satânico, de comer bebês, de ser estuprada, de fazer sexo com animais e de ser forçada a assistir o assassinato de uma amiga de 8 anos. Chegou a acreditar que tinha mais de 120 personalidades – crianças, adultos, anjos e até um pato. Quem conta o caso é a psicóloga Elizabeth Loftus, da Universidade de Washington, em um artigo na revista Scientific American. Dez anos depois, Nadean processou o psiquiatra, acusando-o de inoculá-la com falsas memórias. Ganhou e recebeu uma indenização de 2,4 milhões de dólares.

Elizabeth Loftus enumera casos de pessoas que acreditavam ter sofrido abusos na infância e, mais tarde, descobriram que as memórias foram plantadas pelo terapeuta quando estavam hipnotizadas. A recorrência dos casos, segundo a pesquisadora, mostra que a hipnose é indissociável da teoria da sugestão. Os fenômenos hipnóticos, diz ela, provocam efeitos psíquicos – produtos de sugestões que, intencionalmente ou não, são provocadas na pessoa em transe. Para Sigmund Freud, o conceito de hipnotismo equivale ao conceito de sugestão.

Numa sala do Museu Alfredo Andersen, em Curitiba, cerca de vinte alunos se estiram em colchonetes azuis e aprendem a hipnotizar. São psicólogos, médicos, enfermeiros, padres, filósofos, publicitários e até um piloto de avião, que optaram por conhecer uma nova linha de terapia: a hipnose condicionativa que, segundo seu criador, Luiz Carlos Crozera, revolucionará a medicina e as ciências humanas. Nascido em Jaú, no interior de São Paulo, ele não é médico ou psicólogo. Mas fundou e dirige o Instituto Brasileiro de Hipnologia.

Crozera é gordinho, usa óculos, tem bastos bigodes e fala sem parar. Segundo ele, já existem mais de 400 hipnólogos clínicos – condicionativos – formados no Brasil, Angola e Portugal. Ele conta que a Universidade Estadual de Londrina está pesquisando a comprovação científica das técnicas que inventou. O seu curso é intensivo. Começa na sexta-feira e termina no domingo. São dez horas de aulas por dia. Ele diz ter ministrado cursos em Manaus e Fortaleza, em Vassouras e João Pessoa, em Lisboa e Sintra, mas as cidades onde sempre esgota as vagas são Curitiba e Campinas.



Os três dias são mais do que suficientes para uma apresentação aos princípios básicos da hipnose condicionativa. Os inscritos vêm do Paraná, do Mato Grosso, de Santa Catarina ou de Minas Gerais, e se hospedam em hotéis próximos. Alguns moram em Curitiba e estão fazendo o curso pela segunda vez. Na sala, dezenas de cadeiras escolares e uma tela para exibir 200 slides em Power Point (que começam com os dizeres “o início da vida: aí estão as bases biológicas do ser humano”). Em cima da mesa, há suco, chá, água, bolinhos e biscoitos de chocolate. São dois intervalos de dez minutos para lanche e uma pausa de uma hora para almoçar, cada um por si. A quantidade de biscoitos por pessoa não foi estipulada, o que faz com que alguns alunos se encham de doces e, talvez, embotem o cérebro. Fica difícil de pensar, comentam os mais céticos.

A hipnose condicionativa trabalha com o bloqueio dos registros mentais negativos. Ela opera em quatro vertentes: o condicionamento interno (ligado à mente e à fisiologia), o condicionamento externo (meio ambiente), o descondicionamento, e o recondicionamento de registros mentais. A principal diferença da hipnose condicionativa para as outras linhas de hipnoterapia é que a nova técnica pretende resolver as dificuldades psíquicas do paciente sem perscrutar, longa e penosamente, os abismos da psique. Ela chegaria às causas dos problemas sem retomar traumas ou revivenciar os abalos emocionais (o que Crozera chama de “sofrologia”). Com isso, abreviaria o tratamento. Ele sustenta que é possível resolver um caso de depressão em três sessões.

O segredo do método é encontrar um meio rápido para chegar às causas e bloquear os traumas. O hipnólogo descobre a origem do problema fazendo uma espécie de rastreamento na mente, indo da vida intra-uterina até o presente num curto espaço de tempo. Trabalha-se sempre o lado positivo das coisas. “Cognitivamente, o fato fica intacto, mas fazemos um bloqueio das sensações negativas”, explica, diante da alegação de que sua técnica “apagaria” as memórias indesejáveis (tal como faz a empresa Lacuna Inc. no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças). “O abalo emocional é que vai embora.”

No primeiro dia de aula, Crozera distribui uma pedrinha para cada aluno, estende colchonetes na sala e dá início a uma sessão coletiva de hipnose para mostrar como a técnica funciona. Apagam-se as luzes e o sistema de som toca uma música calma. Como não há colchonetes para todos, alguns se deitam no chão, espremidos entre os pés das cadeiras. Aos poucos, todos param de se mexer. Ele começa a repetir, com a voz mole: “Quero que você deixe os seus problemas lá fora… concentre-se na música”. A primeira etapa do processo se destina a reduzir a ansiedade e fixar o controle de voz. Crozera comanda um vagaroso exercício de respiração para relaxar os músculos, e vai descrevendo o relaxamento da cabeça, da nuca, dos ombros e da barriga, beeeeeeem devagar. Devagar, mesmo. Devagar para burro. Muito devag…

Em seguida, começa a falar da pedrinha. “Quero que sua atenção e concentração fiquem na pedrinha que está nas suas mãos… e não na minha voz”, ele diz, pausadamente. “Sinta a textura… a forma. Enquanto sente a pedrinha, permita-se sentir uma agradável sensação de paz interior, muita paz e tranqüilidade, envolvendo o seu corpo.” Cada frase que o hipnólogo repete é seguida por segundos de silêncio, que reforçam as ordens de liberar a mente dos pensamentos e deixá-la totalmente vazia, focando apenas na referida pedrinha. Algumas tosses são ouvidas na sala. Depois de dez minutos de preliminares, tem início o relaxamento propriamente dito: “Sinta seus pés pesados… muito pesados… pesados e moles, moles e relaxados. Sinta uma agradável sensação de calor envolvendo seus pés. Relaaaaaxe”.

A frase demora vinte segundos para terminar. É uma etapa de sugestionamento, que serve para que o paciente entre no transe. “Quanto mais você relaxa, uma sensação mais profunda de paz… paz e calma… calma e tranqüilidade vai envolvendo cada parte do seu corpo.” O silêncio na sala é total. Um dos alunos aproveita para coçar o pé. “Onde você ouve apenas a minha voz… E faz somente aquilo que eu lhe disser. Relaaaaaaxe”.

Os órgãos internos da barriga, o tórax, o coração, braços, queixo, bochechas e a testa são mencionados na etapa de relaxamento, bem como as sobrancelhas, as pálpebras e até partes do corpo menos ortodoxas. “Sinta seus pulmões calmos e tranqüilos… tranqüilos e relaxados.” Essa etapa dura um tempão: de trinta a cinqüenta minutos. Aí vem uma lenta contagem de vinte-dezenove-dezoito-dezessete que tem o objetivo de baixar a freqüência mental do paciente. Ao chegar ao número um, espera-se que ele tenha alcançado o relaxamento profundo. Para fixar o nível do sono, Crozera diz a palavra “agora” (alguns alunos entendem “amora”).

Desta forma, em teoria, o sensor crítico (racional) do paciente é afastado e a voz do terapeuta tem acesso ao seu universo de registros mentais, captados de forma involuntária e não percebidos pela memória consciente. A terceira fase da sessão consiste nos condicionamentos em si, já que o paciente se encontra em transe hipnótico e está pronto para receber sugestões. (A essa altura, vários alunos estão roncando.) Crozera desenvolveu inúmeras técnicas de condicionamento mental, que ele apelidou de “espelho”, “porta”, “chuveiro”, “travesseiro”, “maçaneta” e “cofre”. São sugestões positivas que se dá ao paciente para aumentar a auto-estima, por exemplo: “Todas as manhãs, quando você se olhar no espelho, sentirá muita disposição e alegria”. Já a técnica do cofre é utilizada para bloquear os registros mentais negativos: pede-se que a pessoa mentalize um cofre sólido, com portas de aço puro, no qual irá colocar todos os sentimentos que a incomodaram, ano a ano, desde a vida intra-uterina. Depois o cofre é fechado e a chave fica com o terapeuta. Segundo Crozera, é assim que se curam os problemas que têm origem em traumas: “O cofre é um inconsciente dentro do inconsciente, onde a pessoa vai pôr o lixão dela”.

Uma etapa opcional é a “energização” – fórmula que consiste em imaginar “uma luz branca entrando pelo seu dedão do pé”, trazendo saúde para todas as células do corpo, removendo as impurezas e fortalecendo as artérias. Pode-se também energizar a pedrinha, ou qualquer outro objeto que o paciente tenha nas mãos. Concluída essa fase, o hipnólogo empreende a saída do sono terapêutico, contando (len-ta-men-te) de 1 a 10 até que os batimentos cardíacos do paciente voltem ao normal.

Nesse momento, após uma hora e meia de sessão, alguns alunos continuavam dormindo. Para Crozera, eles não estavam dormindo, e sim em transe profundo. “Você quase não sente a respiração dele”, explica, apontando para o aluno Darcy Nichetti, filósofo clínico (não se trata de erro: o curso atrai “filósofos clínicos”, aqueles que aplicam o conhecimento filosófico à psicoterapia). Todos trocam olhares, desconfiados, e alguém protesta: “Mas ele está roncando!”. O professor ressalta que o ronco é uma manifestação fisiológica, que não tem necessariamente a ver com o sono. São 11 horas da noite; a sessão termina com as luzes se acendendo e o pessoal se espreguiçando. Uma das alunas se levanta e vai correndo para o banheiro, pois está apertada. “Provavelmente ela não sabe, mas tinha uma doença que acabou de ser curada”, declara o professor. “Uma vez, quando acabou a sessão, uma aluna minha foi correndo para o banheiro fazer xixi. Ela tinha câncer no ovário, e depois da sessão estava curada.”

Sonolentos, os alunos vão embora, com a promessa de que na manhã seguinte olharão para o espelho e sentirão muita disposição e alegria.

Nas aulas, Luiz Carlos Crozera garante que a hipnose condicionativa é diferente de todos os tipos anteriores de hipnoterapia. Ele cita a hipnose clássica e a ericksoniana como pontos de partida da nova vertente, mas lembra também do pioneiro Franz Anton Mesmer, médico alemão formado pela Universidade de Viena que, no século XVIII, publicou uma tese de doutorado sobre a influência dos planetas na saúde das pessoas. Mesmer acreditava que havia um fluido universal conectando cada elemento do universo, e que as doenças surgiam quando havia um desequilíbrio dessa energia dentro do corpo. Influenciado pelas curas com ímãs do jesuíta Maximilian Hell, lançou a teoria do “magnetismo animal”, capacidade de um indivíduo em causar efeitos similares ao magnetismo mineral e promover a cura em outra pessoa. Suas técnicas consistiam em efetuar passes com as mãos e olhar fixamente para o paciente, conduzindo-o ao transe. Em 1784, as curas pelo mesmerismo ganharam o mundo e chamaram a atenção da Academia de Ciências de Paris, que nomeou uma comissão para investigar o método.

Em pouco tempo, os cientistas concluíram que o magnetismo animal não passava de charlatanice, pois não possuía validação científica e se sustentava em teorias astrológicas. A comissão anunciou que o fluido universal não existia e que as curas dependiam da auto-sugestão dos pacientes (ou do poder de sugestão do hipnotizador), não sendo, portanto, confiáveis. Mais tarde, também Freud retomou o assunto e o descartou, ao perceber que Mesmer acreditava em um fluido magnético que passaria do hipnotizador ao hipnotizado. Crozera alega que a importância histórica de Mesmer é indiscutível, apesar de tudo.

O termo “hipnotismo” surgiu apenas em 1843, em Manchester, e foi cunhado pelo cirurgião escocês James Braid, para designar o procedimento de indução ao estado hipnótico. Uma vez que hipno significa sono, a palavra em si não é adequada, já que a hipnose coloca a pessoa num estado especial do cérebro que se assemelha ao sono, mas que não é o sono. Depois veio o médico parisiense Jean-Martin Charcot, já em 1882. Ele percebeu que, por meio do hipnotismo, conseguia inculcar sintomas de histeria nos pacientes, ou seja, uma pessoa sadia passava a sentir tremores, paralisia, insensibilidade à dor e outros sintomas físicos da doença. Era possível, portanto, fazer o caminho inverso e curar os sintomas dos pacientes histéricos. A visão de Charcot era puramente somática, pois a considerava um estado fisiológico modificado do sistema nervoso, causado por estímulos externos (o toque da mão, o efeito de ímãs).

Apesar de ter sido seu discípulo, Freud discordava de Charcot em favor de uma terceira teoria da hipnose, a teoria da sugestão, de Ambroise Liébeault. O grande mérito dessa teoria foi despojar o hipnotismo de seu mistério, correlacionando-o com fenômenos conhecidos da vida psicológica normal e do sono. Com isso, o problema da hipnose foi inteiramente transposto para a esfera da psicologia, e a sugestão foi erigida como núcleo do hipnotismo e chave para sua compreensão.

Freud valeu-se da técnica durante dez anos, no máximo: entre 1886 e 1896. Mais tarde, aderiu ao método catártico, criado com Josef Breuer, que usava o transe para perguntar a origem dos sintomas a um paciente que, em seu estado de vigília, podia descrevê-los só muito imperfeitamente, ou de modo algum. Com o método de Breuer, o paciente hipnotizado era levado a expressar em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava dominado.

Com o tempo, a experiência deu lugar a dúvidas mais graves quanto ao emprego da hipnose, mesmo como um meio para a catarse. A principal foi que até mesmo os resultados mais brilhantes estavam sujeitos a ser de súbito eliminados, se a relação pessoal do terapeuta com o paciente viesse a ser perturbada. Ou seja, a relação emocional entre médico e paciente era, afinal de contas, mais forte do que todo o processo catártico, e a sugestão acabava sendo um instrumento que comprometia a origem e a significação do sintoma.

Assim, Freud decidiu abandonar a hipnose como método, embora continuasse tirando proveito de suas descobertas: em primeiro lugar, o hipnotismo era uma prova convincente de que notáveis mudanças somáticas podiam ser ocasionadas unicamente por influências mentais. Em segundo, mostrava que, na consciência dos homens, existiam poderosos processos mentais escondidos – que só se poderiam descrever como inconscientes. O inconsciente, aliás, estivera muito tempo sob discussão entre os filósofos como conceito teórico, mas naquele momento, pela primeira vez, ele se tornava algo concreto, tangível e sujeito a experimentação.

Enquanto isso, na capital paranaense – 100 anos depois de Freud e 200 após o “magnetismo animal” de Mesmer -, Crozera declara que a energia psíquica de cada um de nós está ligada à energia das outras pessoas. “Quando pensamos, projetamos nossas energias positivas ou negativas aos outros; por isso, depois de encontrar alguém cheio de problemas, é preciso fazer um descarrego”, diz. Ele ensina a importância de tirar os sapatos para descarregar as energias no solo e acusa o calçado de ser a própria fonte do stress, ao que alguns alunos decidem terminar a aula de meias. O que obriga o professor a sacar um desodorizador de ar, de tempos em tempos.

Diante de uma platéia na qual havia um neurocirurgião e uma dermatologista, ele afirmou que a maioria dos medicamentos tem efeito placebo, que o alcoolismo não é doença e que o câncer não é genético, pois é a mente que o desenvolve. Para Crozera, 90% dos casos de câncer são emocionais. “Quem não tem nenhum mecanismo de fuga tem grande tendência a ter câncer. Porque a pessoa se fecha dentro dela e absorve tudo”, explica. Segundo ele, o câncer se desenvolve na região do organismo onde houve abalo emocional. Do universo inteiro das doenças, 90% também surgiriam da mente humana, bem como a obesidade, que teria um fundo quase inteiramente emocional. É por isso, também, que ele se declara contrário à propaganda antitabagista impressa atrás dos maços de cigarro – pois não é o cigarro que mata, e sim a foto. Crozera sai para fumar durante o intervalo, enquanto confessa que acha difícil haver técnica mais eficaz para tratar problemas psíquicos.

Ele avalia que, desde 1927, não havia surgido nenhuma novidade no campo da hipnose, e que sua invenção pode ser considerada a medicina do futuro. “Com a hipnose condicionativa, podemos fazer a pessoa adorar cebola”, diz. Mesmo sob a resistência dos médicos, ele sustenta que a única maneira de bloquear os registros negativos é por meio da hipnose, que trabalha de forma direta na mente. Para ele, nenhum remédio tem eficácia no tratamento de abalos emocionais: eles apenas burlam a mente e não chegam às causas. “A medicina trabalha com o efeito placebo”, garante.

Até então, o neurocirurgião Silvio Feitosa, de 40 anos, permanecia calado. A partir desse instante, começou a suspeitar que Crozera não acreditasse naquela história de neurotransmissores, e perguntou se ele não achava que a mente era química. O professor respondeu que “mente” é diferente de “cérebro”, pois a mente estaria acima de tudo: é o seu próprio espírito. Desafiado, Crozera se considera pronto para provar sua teoria, que apresenta sem medo para todos os tipos de profissionais. “Falei alguma coisa de mais?”, pergunta, olhando para Silvio Feitosa. “Falei o que a medicina não tem coragem de falar, só isso.”

Ele acentua que a hipnose condicionativa tem a vantagem de não fazer a pessoa sofrer, como nas outras terapias. Na hipnose clássica, é preciso reviver para poder entender o trauma e se livrar dele. Já na condicionativa, logo que o paciente começa a sofrer, o terapeuta isola o sentimento e manda trancá-lo no cofre. Ao contrário da hipnose clássica, a nova técnica não é narrativa e nem investigativa, já que apenas 20% das pessoas conseguem falar durante o estado de transe (ao passo que todas são hipnotizáveis, segundo Crozera). O hipnólogo condicionativo não tem a necessidade de saber o que está acontecendo enquanto repassa um determinado ano na vida do paciente – apenas lê as reações em seu rosto calado, e manda trancar tudo o que o incomoda no cofre. Às vezes eles sabem o que aconteceu durante a sessão porque o próprio paciente lhes conta depois. Crozera narra o caso de uma mulher que tinha aversão a creolina e, em estado hipnótico, teria descoberto que o pai dera um copo do produto para que a mãe abortasse, quando estava grávida.

Na hipnose condicionativa, portanto, é possível fazer regressões até a vida intra-uterina, repassando os sentimentos negativos de forma direcionada (em uma determinada época), ano a ano ou por frações de períodos. Também é possível fazer progressões e ver o futuro – o que vai de encontro a todas as teorias do inconsciente já conhecidas. Ele narra que hipnotizou uma paciente com câncer e curou a doença, mas que ela continuava com medo de que o câncer voltasse. Crozera ressaltou que o processo era perigoso, pois podia revelar coisas que ela não queria saber. A paciente insistiu, e ele fez uma progressão até o ano de 2010. No futuro, a mulher estava saudável, descansando num sítio, cercada de netos. Muitos alunos contestaram. “Mas e se ela estivesse morta, o que iria acontecer?” Outros simplesmente descartaram aquilo como uma grande bobagem. “Algumas coisas você aproveita, outras você ignora”, disse o estudante de psicologia Francisco Benhur, de 44 anos, de Caxias do Sul, um dos mais contestadores da turma.

Crozera acrescentou que é possível fazer projeções, ou seja, projetar a mente do paciente à distância, de modo que ela entre na mente de outra pessoa. Por exemplo: se uma mãe deseja hipnotizar o filho, mas ele não está presente, ela pode pedir para o hipnólogo fazer a sessão com ela, e assim hipnotizar o filho por tabela. “A gente é racional e até ouve, mas tem coisas que não dá pra engolir”, admite a aluna Karen Beatriz Silva, psiquiatra forense de Curitiba.

Luiz Carlos Crozera conta que é formado em engenharia civil. Trabalhava como analista de sistemas e era professor de linguagem de programação antes de se interessar pela hipnose. Por influência do pai, começou a estudar o fenômeno, sem nunca ter realizado um curso sobre o assunto. A criação das técnicas, iniciada na década de 1980, demorou muitos anos, até que ele pudesse entender o funcionamento do mecanismo mental. “Numas férias com minha família no Guarujá, vendo pelo menos uma dezena de obesos malhando na academia do Spa Med, resolvi levar a proposta da hipnoterapia ao doutor Augusto Santomauro, que na época era diretor clínico do spa.” Crozera fez uma demonstração. Ele diz que não lembra o nome das pessoas que acompanharam a experiência, mas que havia uma psicóloga, o diretor de UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo, um cardiologista e mais um quarto médico de cuja especialidade, lamentavelmente, ele também não lembra.

O hipnólogo colocou um paciente em situação de risco, fazendo-o acreditar que estava amarrado em uma linha de trem. Com apenas uma palavra: “relaxe”, teria conseguido diminuir a freqüência cardíaca da pessoa de 130 bpm a 23 bpm. “Naquele final de tarde de 1993, os médicos chegaram à conclusão de que estávamos perto da descoberta de um mecanismo de controle da hipertensão”, relata entusiasmado. “Restava descobrir uma forma para que o paciente não ficasse na dependência psicológica do terapeuta, muito menos de medicamentos.” Foi assim que surgiu a técnica da pedrinha. E a hipnose condicionativa.

Segundo o método, basta que o hipnólogo estabeleça uma série de rotinas para aplicar, em voz monocórdia, de acordo com a queixa do paciente. Se a pessoa tem medo de sapos, o terapeuta trabalha “o espelho, o travesseiro e o chuveiro” para aumentar a auto-estima, e depois faz “o cofre”, em que o paciente irá localizar o acontecimento traumático e trancá-lo lá dentro. Energizando a pedrinha, ele garante que o paciente tenha uma espécie de talismã para ajudá-lo nos momentos difíceis, um objeto com potencial curativo que pode ser tanto uma pedra quanto um terço. “Estou até agora com uma dor de cabeça terrível”, reclama uma das alunas, depois da sessão. “Passou a pedrinha?”, pergunta o professor. “Passei, mas não adiantou”, ela responde.

Crozera alerta que a hipnose condicionativa só é eficaz quando considera o componente externo do condicionamento. O terapeuta deve conversar com as pessoas que possam exercer pressão na vida do paciente, para que não haja reincidência. Ele lembra do caso de um alcoólatra que parou de beber durante vários meses, mas retomou o vício quando, em uma festa, a filha duvidou que ele estivesse sóbrio. “Se a gente condiciona uma criança para ir bem nos estudos, mas vem o pai e diz: ‘seu burro’, ele acabou de destruir tudo!”, sustenta. O professor recomenda que os condicionamentos sejam reforçados na mente durante o máximo de tempo possível e que o hipnólogo oriente a família. “Você trabalha o paciente, sugere e ele sai zeradinho”, garante. “Mas aí qualquer coisinha vem e destrói.” (Ele também ensina que há palavras proibidas durante a sessão, como “não”, “medo”, “dor”, “pavor”, “barata” e “dentista”, para aqueles que têm fobia de ir ao dentista. Nesses casos, pode-se usar a palavra “profissional dentário”.)

Estas seriam algumas das falhas da hipnose. O psicanalista Renato Mezan, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, explica que, desde a época de Freud, “a sugestão não resolvia o conflito, como não resolve até hoje: simplesmente o silenciava, o recobria com a influência do hipnotizador. Cessada a sugestão, o conflito retornava tal e qual, às vezes agravado”. Ele explica que bloquear o acesso aos traumas é, na verdade, trabalhar a favor do recalque: é como empurrar a sujeira para baixo do tapete. Nem por isso o cheiro vai deixar de se espalhar. “É como se eu dissesse que, se não olhar para a coisa que dói, ela vai parar de doer”, resume o autor de Freud, Pensador da Cultura. Além disso, ele aponta que o sofrimento psíquico nem sempre tem causa linear, ou seja, não é porque alguém apanhou do pai aos 5 anos de idade que essa pessoa vai fazer xixi na cama quando adulta. É como se não existisse o deslocamento, a metáfora, o recalque. Ou como se todas as crianças que apanhassem aos 5 anos de idade futuramente tivessem problemas de enurese. “Nesta área, não dá pra dizer que A produz B. Não é uma causalidade linear simples”, avisa. Como numa equação física, existem diversas variáveis possíveis, pois muitos elementos concorrem para formar um comportamento.

Mezan lembra que uma das maiores conquistas no campo da psicoterapia foi reconhecer que o paciente se cura por sua própria atividade, por meio de uma reeducação ativa. A terapia pressupõe o diálogo. Por isso, resgatar a hipnose para curar transtornos psíquicos, nos dias de hoje, é ir na contramão do conhecimento – já que o elemento ativo, nesse caso, é o terapeuta. O paciente permanece quieto, quase como um objeto de que não se exige nenhuma participação.

Atualmente, muitos profissionais de saúde consideram a hipnose um procedimento sério e eficaz, cientificamente comprovado, que pode ter inúmeras aplicações terapêuticas. Mas observam que é também uma ferramenta perigosa nas mãos erradas, principalmente por utilizar a sugestão – por introduzir uma idéia consciente no cérebro da pessoa hipnotizada, e essa idéia ser aceita como se tivesse surgido de forma espontânea. Afastado o sensor crítico do paciente, o hipnólogo tem um poder bastante grande sobre suas crenças. Em tempos de gnomos, florais e unicórnios, não é preciso muito para acreditar que uma de suas personalidades é um pato.

O curso de hipnose condicionativa de Luiz Carlos Crozera dura três dias, é aberto para profissionais de todas as áreas e custa 900 reais. O psiquiatra Kenneth Olson, por sua vez, cobrou 300 mil dólares do plano de saúde de Nadean Cool, que posteriormente o processou. Era o preço da terapia em grupo para cada uma das 120 personalidades que ela apresentava.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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