esquina

O mundo encantado do crime

Três andares de pura bandidagem

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Falta de museu em Washington é que não era. Há mais de 100 anos a capital americana se orgulha de abrigar o mais grandioso complexo museológico do mundo – a Smithsonian Institution, que hoje engloba, além da majestosa National Gallery of Art, dezoito outros museus de grande porte, todos com entrada franca, sem falar nos nove centros de pesquisa atrelados à entidade.

O que, então, veio fazer na cidade o Museu Nacional do Crime e do Castigo, cujo ingresso custa 18 dólares e é criação de um forasteiro chamado John Morgan, que veio de Orlando, Flórida, a terra da Disneyworld? “Nós americanos somos fascinados por crime e não havia nada no país que contemplasse direito esse nosso fascínio”, explica o empreendedor sulista, que investiu 21 milhões de dólares no projeto. A idéia lhe ocorreu durante uma viagem a São Francisco, na Califórnia, quando tentou conhecer a ilha–presídio de Alcatraz, hoje desativada e vazia. Descobriu, com espanto, que havia uma espera de oito dias para conseguir ingresso. Tratou de furar a fila mediante o repasse de algumas notas de 100 dólares, e chegou à conclusão que ali havia um filão a ser explorado.

Apostou certo. Desde a inauguração, em maio passado, o prédio de três andares e aparência velhusca, situado a treze quarteirões da Casa Branca, tornou-se uma das atrações turísticas mais populares da cidade. Aberto 12 horas por dia, sete dias por semana (com exceção do Dia de Ação de Graças, Natal e Ano-Novo), o Museu do Crime espera comemorar a marca dos 700 mil visitantes ao completar um ano de vida. Estava particularmente abarrotado na véspera do dia da posse de Barack Obama devido ao influxo de turistas de outros estados.

Já no saguão de entrada, junto à bilheteria, está exposto – ou melhor, escancarado, com suas quatro portas abertas ao fascínio do visitante – um dos troféus mais reluzentes do acervo: o opulento automóvel Terraplane de 8 cilindradas bordô metálico com o qual John Dillinger empreendeu uma de suas fugas mais espetaculares da cadeia. O mesmo Dillinger, cuja folha corrida de assaltos a bancos e escapadas teatrais fascinou a América da Grande Depressão, tem direito a uma ala própria no 2o andar. É ali, também, que repousa a máscara mortuária em gesso do gângster que tanto trabalho deu ao diretor do FBI da época, o igualmente lendário J. Edgar Hoover.

Mas é o lado parque temático do museu, que convive sem conflitos com o acervo histórico, o grande responsável pelo sucesso do empreendimento. Para começar, metade dos mais de 700 artefatos, peças e objetos espalhados pelos 2 600 metros quadrados do casarão de três andares é réplica. Passa-se, assim, do autêntico canivete Bakelite utilizado pelo Estrangulador de Boston para aterrorizar mulheres (matou 13), para o Ford V8 cravejado de perfurações usado não pelo casal de salteadores Bonnie e Clyde, mas por Warren Beatty e Faye Dunaway no papel da dupla, no filme de Arthur Penn. A impactante cadeira elétrica em carvalho claro e correias de couro gasto, fabricada pelos presos da penitenciária de Nashville, no Tennessee, e batizada de “Churrasquinho” (Old Smokey), é autêntica. Foi aposentada em 1960, após eletrocutar 125 condenados à morte. Já a sinistra câmara de gás em tamanho natural, com cadeira no mesmo tom gelo metálico, é falsa. O visitante é informado que, devido a seu alto custo de fabricação (cerca de 300 mil dólares a unidade) e ao perigo de vazamento, esse método de execução sobrevive em apenas quatro dos 50 estados americanos.

 

Para narrar a história do crime na América, o curador Paul Burns, egresso do programa de televisão Acredite se Quiser, atirou para todos os lados, amealhando fatos e artefatos que nem sempre têm relação com o propósito original, mas que acabam alimentando a curiosidade dos visitantes. Famílias inteiras podem ser vistas preenchendo sofregamente um questionário que testa conhecimentos sobre a última refeição pedida por vilões famosos. Saddam Hussein? Acerta quem responde frango cozido, arroz e água com mel. Timothy McVeigh, o terrorista americano que em 1995 explodiu um prédio em Oklahoma City, matando 168 pessoas? A resposta correta é 1 litro de sorvete de chocolate com menta. Ele era vegetariano.

As 28 estações interativas do museu, nas quais se pode brincar de bandido ou mocinho, costumam ter fila de espera. Algumas delas são curiosas, como o simulador de situação de tiro – em que momento dar o primeiro disparo? – utilizado no treinamento de agentes do FBI. Ou o simulador de perseguição policial, empregado nas academias de polícia. Para quem se habituou às cenas de faroeste urbano no Brasil, a mesura americana parece estranha.

O museu também ensina a arte de quebrar o segredo de um cofre por meio do uso científico do som, e demonstra quão precária é a nossa memória no momento de reconstituir uma cena testemunhada poucos minutos antes. Em outro andar, uma detalhadíssima cena de crime, montada numa réplica de quarto de casal, serve para mostrar as várias etapas de uma investigação policial.

As salas reservadas à ciência forense também são interativas: balística, toxicologia, impressões digitais, reconstrução facial e dentária, aplicação de teste de DNA, autópsia com direito a um “cadáver” do sexo masculino estendido numa maca de necrotério, nada falta.

 

Para garantir o caráter edificante da empreitada, o setor dedicado ao castigo e às consequências do crime tem pretensões educativas. É possível, aí, sentir o desconforto diante de um polígrafo, submeter-se à simulação de ser preso numa delegacia ou admirar a galeria dos heróis do combate ao crime. Para a criançada há caixinhas com perguntas-surpresa instaladas por todo o museu. Exemplo: Quando eu incluir um nome na minha lista de amigos, o que é importante? a) Botar muitos nomes para mostrar que sou popular. b) Só botar quem conheço. c) Botar quem pedir para entrar na minha lista, para eu parecer bonzinho.

As crianças, claro, preferem correr para o estande de tiro da seção faroeste, fornida de carabinas de época e marcada por uma trilha sonora de tiros, cavalgadas e relinchar de cavalos.

O museu criado por John Morgan em parceria com John Walsh, o idealizador do programa America’s Most Wanted (que há vinte anos dramatiza crimes não solucionados e já ajudou na captura de mais de mil fugitivos), é sob medida para uma sociedade que toca a vida carregando o peso de ter o maior número de presos do planeta. Pela primeira vez na história do país que tem 5% da população mundial e 25% de todos os presos do mundo, quase 1 em cada 100 americanos está atrás das grades.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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