cartas políticas

O mundo nas cordas

Ao se aproximar do fim da vida, o autor de A Canção do Carrasco não se considerava mais um esquerdista, mas, inconformado, continuava a fustigar os poderosos

Norman Mailer
Reflito sobre a minha vida, depois
de ter completado cinqüenta anos
de literatura, e sinto que todas as coisas pelas quais trabalhei e
lutei estão em decadência. O que
eu via como o inimigo e, com grande otimismo, como o inimigo que haveria de ser derrotado, acabou por nos vencer
Reflito sobre a minha vida, depois de ter completado cinqüenta anos de literatura, e sinto que todas as coisas pelas quais trabalhei e lutei estão em decadência. O que eu via como o inimigo e, com grande otimismo, como o inimigo que haveria de ser derrotado, acabou por nos vencer ILUSTRAÇÃO: DAVID LEVINE

Escrever, para o autor de A Canção do Carrasco, era como lutar boxe – um exercício ao mesmo tempo furioso e metódico que serve para exorcizar os demônios internos. Em suas cartas, ele treinou o pugilismo literário até o fim. E estava mais em forma do que nunca, depois dos 80 anos, quando caminhava com duas bengalas, mas não perdia uma chance de bater no governo de George W. Bush, como se visse no presidente dos Estados Unidos a encarnação de tudo o que ele detestava e temia no século XXI. Esta segunda parte de sua correspondência vai do período em que os americanos estavam metidos na guerra do Vietnã até a época em que se atolaram no Iraque.

 

A CARLOS FUENTES

13 de outubro de 1971

Caro Carlos,



A vida política daqui ficou tão imensamente complexa que tendemos a questionar qualquer perspectiva política, e a ver diante dos olhos apenas uma feijoada. No momento, por exemplo, o presidente Richard Nixon deslocou-se para a esquerda com a desvalorização do dólar, a estruturação de preços e salários e o flerte com a China. Diante dos passos cuidadosamente calculados que vem fazendo para a esquerda, estão começando a dizer que, no fim das contas, um republicano talvez seja mais capaz de levar adiante um programa progressista que os democratas. No meio desse interessante ensopado, em qual sentido devemos exercer a nossa influência? Reafirmar que Nixon continua a ser o ogro ou saudar seu deslocamento para a esquerda? Como a política convencional não tem, a meu ver, finalidade mais substancial que purgar as animosidades e os impulsos ditatoriais frustrados de cada um, a influência política do intelectual americano foi reduzida à capacidade de mobilizar os sentimentos dos seus leitores, e confirmar os preconceitos de esquerda que já possuíam.

Você pode responder que tudo isso é a conhecida merde da política convencional. E a juventude? O que dizer da juventude americana? Quando penso nos nossos reluzentes jovens garanhões da salvação revolucionária, sinto-me duplamente atarantado. Porque o enigma da América de hoje é se estamos diante de uma verdadeira revolução, que vem ardendo em silêncio nas raízes, à diferença de qualquer revolução anterior, ou se tudo não passa da fumaça dissipada de uma revolta que nunca chegou a pleno fogaréu e nunca irá chegar – não nos tempos que correm. Simplesmente não sei a resposta para essa questão. E acho que ninguém sabe na América. Sem dúvida, a deriva nos leva a alguma forma de revolução. Sem dúvida, nenhum americano convencional pode continuar a viver satisfeito com a concepção do sistema que tínhamos dez anos atrás. Por outro lado, que exército revolucionário! Quase totalmente movido a drogas, suas visões do futuro são totalmente fragmentadas, e híbridos monstruosos de tecnologia e budismo brotam no ar contaminado. Vivemos tempos curiosos. Desconfio que daqui a cinco anos, onde quer que eu me situe politicamente, minha visão retrospectiva deste período será de um tempo em que a política perdeu todas as vantagens, e jazia esfriando num lodaçal metafísico.

As épocas de transição são piores do que túneis para criadores de slogans como eu.

Tudo de bom,

Norman

 

AO CRÍTICO JOHN LEONARD, EDITOR DO NEW YORK TIMES BOOK REVIEW

1º de junho de 1972

Caro John,

Sabemos todos que o Times ainda vive em 1951, e não publicaria as palavras fuck you nem que fosse para salvar o Estado de Israel. Mas, se você examinar a quarta coluna da resenha de Mel Watkins sobre E Pelas Praças Não Terá Nome, de James Baldwin, no New York Times de 28 de maio, irá deparar-se com o seguinte:

“E talvez por Baldwin e o movimento pelos direitos civis terem exigido dos americanos ‘uma generosidade, uma clareza e uma nobreza que eles sequer sonhavam em exigir de si mesmos’, ou talvez devido à sua promessa de um apocalipse em Da Próxima Vez, o Fogo, ou ainda devido à admoestação de Mailer, segundo quem Baldwin ‘parece incapaz de dizer … you’.”

Transmite-se ao leitor a idéia de que, segundo Mailer, o bom e velho Baldwin, tão articulado, nem é capaz de dizer “you”. Acho que já está na hora de o Times tomar coragem de entrar na grande abertura com F.

John, esta carta é tão gentil que eu lhe pediria para publicá-la. Os leitores do Times já têm uma idéia suficientemente estranha e confusa de mim para ainda serem forçados a encarar uma frase de minha autoria que diga: “Sabemos todos que o Times ainda vive em 1951 e não publicaria as palavras … you mesmo para salvar o Estado de Israel.”

Humildemente, como sempre,

Norman

 

A JEAN MALAQUAIS

1º de junho de 1972

Caro Jean,

Nixon em Moscou! Terão jamais existido em todo o mundo dois seres tão feitos um para o outro como Nixon e Brejnev? Na verdade, é uma esplêndida comédia. Só mesmo um republicano, para ser o primeiro a se aproximar da Rússia e da China. Mas, agora que o passo está dado, o capitalismo de Estado, que você tanto ama, vai sofrer uma forte aceleração se George McGovern ganhar, e você sabe que eu acho que ele vai vencer. McGovern é a encarnação mais absoluta do que há de melhor e pior por aqui – de um lado, o homem do século XX, idealista, inocente e ingênuo; do outro, o homem como simples categoria técnica e sociológica, sem cheiro e sem cor. Ainda assim, seria animador se McGovern se elegesse, mesmo que só para liquidar certas ilusões que a esquerda produz para si mesma. Embora, na verdade, eu ache que sua eleição deveria acelerar uma tomada de consciência de novas alternativas que ninguém começou a discutir.

Tudo de bom,

Norman

 

A RAMSAY CLARK[1]

22 de fevereiro de 1974

Caro Ramsey Clark,

Acho que sua idéia de não aceitar mais que 100 dólares de cada doador é esplêndida, e creio que os democratas não terão nada de melhor a fazer por sua campanha ao Senado. Ainda assim, vejo-me profundamente constrangido. Este ano, pela primeira vez na minha vida política, estarei apoiando um candidato republicano ao Senado. Sim, eu sei que o senhor ficará entusiasmado de saber que decidi afinal apoiar abertamente meu velho e respeitadíssimo amigo Jack Javits. Embora tenha tomado a decisão antes de ouvir falar da sua candidatura, não posso fazer de conta que ela me teria feito mudar de idéia. Depois de tantos anos aproveitando a porta aberta de Javits, e tendo concluído que, como político profissional atuante, ele era um dos cinco ou dez melhores senadores da Casa, pareceu-me, em sã consciência, que eu finalmente devia apoiá-lo. Sei, por experiência própria, que nada é mais irritante para um candidato do que os votos de boa sorte de alguém sentado do outro lado da cerca política, de maneira que nem me darei a esse trabalho, e me contentarei apenas em lhe dizer que, de outra vez, concorrendo a este ou algum outro mandato, acho que eu teria grande prazer em apoiá-lo.

Sinceramente,

Norman Mailer

 

AO JORNALISTA HARPER BARNES

25 de fevereiro de 1974

Caro Harper Barnes,

Eu gosto do Village Voice. É um jornal que aprovo. E confesso haver ocasiões em que ele se torna o meu jornal predileto, embora para isso possa contribuir minha condição de acionista da empresa. De qualquer maneira, o Voice corresponde plenamente à minha idéia de jornal. Seus textos são parciais, tendenciosos, repletos das idiossincrasias e dos fanatismos de cada autor, exatamente como devem ser. Não me ocorre maldição mais ameaçadora para o jornalismo do que a objetividade, cujo único efeito é ocultar de nós as preferências do autor, que nos permitiriam reinterpretar o que ele escreve e, assim, fazer alguma idéia do que realmente terá ocorrido. Em vez disso, o que nos passam são as preferências, sem as pistas. No caso do Voice, o leitor não precisa hesitar para decidir se gosta ou não da pessoa que escreveu e concluir se ele ou ela está ou não falando um monte de asneiras ou mentiras. E assim podemos formar uma idéia das circunstâncias. No caso, uma visão do mundo a partir do território de Greenwich Village. Que mais um jornal pode trazer? E por isso confesso que gosto dele, talvez até demais, porque corresponde totalmente à minha idéia de como deve ser o jornalismo.

Sinceramente,

Norman Mailer

 

A EIICHI YAMANISHI, TRADUTOR DE MAILER PARA O JAPONÊS

7 de julho de 1975

Caro Eiichi,

Você me pergunta sobre as reações ao fim da guerra do Vietnã aqui na América. Acho que a melhor coisa a fazer é enviar-lhe um exemplar de um simpósio da New York Review of Books, contendo os pontos de vista de muitos escritores, intelectuais e políticos de esquerda. Entre eles está a minha contribuição, que escrevi ao final de quatro dias de jejum completo (uma coisa nada tem a ver com a outra: o prazo para a entrega do artigo estava acabando e eu vinha jejuando para perder peso). Você haverá de perceber o quanto isso afetou meu estilo, pois eis-me de repente totalmente objetivo, vigoroso, desprovido de ornamentos. Quem me considera incapaz de escrever sem muita pompa ou sem tom bombástico deve ter ficado surpreso com o estilo direto desse texto político. Quanto ao estado de espírito reinante no país, não me lembro de nada parecido. Não que seja dramático. Ao contrário, revela certa apatia. Mas um estranho desconforto invade todos os cantos, como se em toda parte as pessoas constatassem pela primeira vez que a política pode não ter respostas mais concretas que as da metafísica. É como se minha jovem nação, como uma criança, finalmente reconhecesse que um dia vai morrer; é assim que a vida americana vem sendo invadida aos poucos pela consciência de que podemos não continuar sendo a maior potência do planeta até o fim dos tempos. Que período singular! E nem conseguimos saber se isso é conveniente ou representa uma ameaça.

É como se a repulsa subterrânea à CIA ao longo desses anos tivesse chegado a um ponto tal que agora todo mundo faz questão de se apresentar e expor novos aspectos da história. Por meu lado, acabei convencido, com base em novos indícios recém-revelados, de que talvez Marilyn Monroe tenha sido assassinada. Uma idéia espantosa, mas a essa altura é quase impossível explicar de maneira plausível como ela teria se suicidado. De qualquer modo, essas questões são as que mais me fascinam, devido à maneira como parecem demonstrar que a História vem ficando afinal mais extravagante que a literatura.

Afetuosamente,

Norman

 

A EIICHI YAMANISHI

5 de dezembro de 1975

Caro Eiichi,

A situação política anda estranhamente sem graça por aqui. Não se vê muita animação em parte alguma, e parece haver um retorno ao centro na moral, nos modos e nos costumes. Um número cada vez maior de jovens radicais, meus conhecidos, que viam o sexo, por exemplo, como uma atividade totalmente racional, destinada ao prazer, agora estão tomando o rumo oposto, e falam em tom expectante da procura de um parceiro, em cuja companhia possam sofrer e morrer. A única coisa que parece certa na vida americana é o efeito pendular. Devo dizer que sempre fui especialmente sensível a esse pêndulo, pois pareço estar sempre me deslocando na direção oposta.

Quando protestamos contra o indizível desperdício da Guerra do Vietnã, as várias farras dos campos de petróleo, a dissipação absoluta de energia em todos os aspectos da vida empresarial, internacional e financeira da América, é possível sentir o retorno da velha indignação. Tenho, com freqüência, a discutível e curiosa satisfação de ser parado nas ruas de Nova York por gente que me diz: “Devia ter votado em você seis anos atrás. Você é um profeta.” Ao que sempre respondo com risos, e digo: “Escute, se me elegessem, hoje vocês estariam pondo em mim a culpa de todos esses problemas.”

Afetuosamente,

Norman

 

A MARY BANCROFT, ESPIÃ NA II GUERRA

18 de outubro de 1976

Querida Mary,

Acho difícil sentir o que você sente por Jimmy Carter, porque é só eu pensar em Gerald Ford ou – Deus proteja o meu rabo! – Ronald Reagan, para me perguntar como você, uma conservadora respeitável, consegue, mais uma vez, mergulhar a caneca no caldeirão de bile. Sim, acho que Carter é ambíguo feito o diabo e, sim, ele poderia ser o próprio demônio e, sim, ele certamente pode ter me enganado e, sim, os democratas vão nos levar à guerra antes dos republicanos e, sim, pode ser o maior erro que jamais cometi. Mas só posso lhe dizer que, com o passar dos anos, aprendi a ser mais simples. E decidi que, no fim das contas, nunca é por acidente que gosto ou não de uma pessoa. Na verdade, tudo que me aconteceu, ao longo dos 53 anos que carrego, está nessa conclusão. Quando conheci Carter e realmente gostei dele, guardei do encontro um lampejo positivo. Não é muita gente que me produz esse efeito. Como isso, pelo menos, para mim é incontestável, preciso reconhecer que, se ele é o diabo, eu também sou, e que o tal lampejo foi a afinidade dos demônios, quando se deparam uns com os outros em altas posições ou locais secretos.

Quanto a Ford, Reagan e o resto do navio pirata – Mary, eles são asquerosos. São horrendos. Você não sabe  o que eles fizeram com este país? Admito que Johnson foi um monstro trágico e nos fez entrar no Vietnã dez vezes mais que Kennedy. Mas diante do que Nixon fez, deixando de nos tirar de lá por mais quatro longos anos, é inqualificável, e do que Ford e Reagan fazem, nessa economia comandada por sujeitos que andam por aí em carrinhos de golfe, e a corrupção, e a lama – ah! eu sinto a sua falta. Por Deus! Sinto a sua falta. Mary, por que eu nunca vou visitá-la?

Amor,

Norman

 

A JOHN EHRLICHMAN[2]

17 de janeiro de 1977

Caro John,

Só um bilhete, para lhe desejar feliz Ano-Novo. Gostaria de poder dizer que não fiquei constrangido com todas aquelas xoxotas que nos cercavam na Chic, mas a verdade é que só agora tomei coragem de escrever. Peço que você acredite que também fui levado na conversa, e não sabia que a revista era de Larry Flynt, e nem mesmo que tinha fotos de garotas. Só tinha ouvido dizer que era uma revista nova, e que pagava bem.

De qualquer maneira, achei que devia lhe mandar o seguinte trecho de uma carta: “A entrevista está cheia de percepções inteligentes sobre o governo e as suas personalidades. É a melhor troca de idéias que li nos últimos três anos, mais ou menos. Ehrlichman é notável. Daria um romance curto.” Como o autor desta carta é um sujeito muito dado à literatura e só vê virtudes nas pessoas quando elas merecem ser transformadas em personagens de contos curtos e longos, novelas e romances, acho que você recebeu uma nota bastante boa de quem, normalmente, não seria um dos primeiros a se tornar seu amigo.

John, passei curtos períodos na prisão, e a melhor lembrança que guardo dela é a de um lugar onde comia doze fatias de pão por dia e quase mais nada, certamente nada que não saísse de uma lata. Eu ganhava peso e vivia deprimido. E o pior da prisão era pior ainda do que isso. Claro que nunca cumpri pena. De qualquer maneira, se você sentir vontade de escrever, ou se eu puder fazer alguma coisa por você, mandar livros, ou o que for, me avise. Gostei muito da manhã que passamos conversando.

Tudo de bom,

Norman

 

À CRÍTICA LITERÁRIA DIANA TRILLING

23 de novembro de 1977

Querida Diana,

Tornei a ler sua carta inteira e, se eu fosse um desses grandes advogados que comandam iates imensos em mar aberto, ela me traria uma sensação razoavelmente boa. Pois me daria a entender que há terra à vista, sem muitos recifes pela frente, embora seja preciso contorná-los com cuidado, e que o barco irá chegar ao porto em perfeitas condições, sem que mais ninguém precise assumir o timão. Mas, claro, não sou advogado nem comandante de longo curso, e você, meu amor, está longe de ser um escolho. Já não tenho mais a perícia de antes no manejo de metáforas e analogias. Temos de ficar com essa mesmo.

Depois de reler a sua carta, me sinto bem. Acho que podemos chegar ao fim do nosso desentendimento ou, pelo menos, que dá para reduzir a divergência a ponto de podermos viver com ela, sem engolir o intragável.

Vou abordar as suas questões pela ordem. Leio a sua carta de 3 de outubro e não encontro nada que me preocupe, até a frase: “Foi depois do seu encontro com Lillian Hellman que você reescreveu sua opinião sobre o meu livro com menos carinho.” Ora, Diana, tentei reescrevê-la com mais e com menos carinho. Acho que, se você olhar as duas versões, vai ver que a segunda é superior à primeira. A primeira tinha um certo bom-mocismo horroroso. Admito que, depois da discussão com Lillian – e pode acreditar que foi uma discussão de feira livre; na verdade, foi a discussão mais violenta que Lillian e eu jamais tivemos, e eu disse coisas bem fortes para ela, e ela para mim –, voltei à minha frase no dia seguinte com a sensação de que precisava estar pronto para assumir plenamente o que dissesse. Diana, reli minhas palavras e não fiquei satisfeito. Numa certa medida, é verdade, ter sido pelo que você chama de pressão da parte de Lillian. Não foi uma pressão do tipo que me inspirasse medo, mas talvez fosse aquela pressão que a pessoa sente quando pode perder um amigo, e se pergunta se as palavras valem a perda. Por outro lado, a essa altura nada iria me impedir de dar minha opinião sobre seu livro.

Você se queixa de que minha primeira reação, ao ler sobre o seu desentendimento com Lillian no Times, não foi pensar: “Que coisa horrível para Diana, que coisa horrível para Lillian.” Na verdade, esses aspectos me afetaram pouco. Admito, obviamente, uma ampla carência de compaixão imediata pelas minhas amigas, ou de genuína preocupação com seus problemas, e não com os meus. Foi egoísta da minha parte. Mas claro que já convivo com o meu egocentrismo há tantos anos que, a esta altura, ele não produz mais em mim um choque tão grande quanto nas outras pessoas.

Também senti que, se havia um abismo verdadeiro, honesto e final entre você e eu, é por não vermos aqueles tempos do macarthismo com os mesmos olhos. Conheci vários comunistas e simpatizantes que sofreram naquela época, e acho que foram incrivelmente estúpidos, mas, ao mesmo tempo, tocantes como vítimas. Reconheci a contragosto que, nesse ponto, eu estava do lado de Lillian. Ou seja, existe aí um abismo político entre você e eu, que eu nunca quis discutir em particular, porque sempre achei que, à diferença de muitas pessoas a quem estava ligada, você foi sincera. Mas, Diana, já não posso dizer a mesma coisa de muitas das pessoas a quem você era ligada na época. O medo delas era realmente asqueroso. De qualquer maneira, nunca quis falar disso com você, porque sentia que não havia necessidade. Temos um fortíssimo sentimento de amor e respeito um pelo outro. A esta altura, você sabe que eu a considero parte da minha família há quase vinte anos.

Não sei se já lhe disse, mas cresci numa família em que tinha, além de uma mãe amorosa, quatro tias amorosas e quatro primas amorosas. Muitas vezes achei que você era parecida com uma ou duas das minhas primas, que me amavam quando eu era moço, mas hoje cresceram, e se tornaram inteligentes, complicadas e positivas como você. Isso explica por que nunca quis lhe falar dessas coisas. Mas ali, espremido contra a parede, pisando num plano inclinado em vez do chão, reconheci que havia um abismo político entre nós. E que ele não podia ser ignorado. Se, por um lado, eu queria elogiar o seu livro, por outro, não queria aprovar a sua postura política. Por isso reescrevi minha opinião, para tentar dizer essas coisas no compasso de um texto curto, e fiquei mais satisfeito com a segunda versão que com a primeira.

Quando você me acusou de ceder  à pressão de Lillian, quando você deu a entender que alguém que esteve naquele jantar tinha-lhe feito um relato do meu comportamento, sem me dizer quem tinha sido, eu rebati com a palavra “desprezível”. E me arrependo. Se o termo é duro demais para você, e você dá a entender que é, eu o retiro. Posso chamar o que você fez de indigno da nossa amizade, ou qualquer outro sinônimo à sua escolha. Retiro o desprezível. Acho inclusive que usei aquela palavra expressamente para atingi-la, pois ficara magoado com a suposição de que eu tivesse cedido diante de Lillian. Você precisa entender que parei de ter medo de Lillian muitos anos atrás. Ela não é mais jovem, está quase cega, tem pavor da morte, é como um tigre velho e ferido, e me sinto ligado a esse tigre que existe nela. Mas não tenho mais medo.

Claro que eu respondi atacando, porque você se deixou levar por uma intriga. Acho que fiquei magoado por não ter havido alguma coisa em você que tenha dito na mesma hora: “Norman é incapaz de agir dessa maneira. Assim como acho que eu teria reagido, espero, se ouvisse alguém dizer: “Vi Diana Trilling fazendo trottoir numa esquina.”

Amor,

Norman

 

AO ESCRITOR JACK ABBOTT, QUANDO CUMPRIA PENA DE HOMICÍDIO

5 de agosto de 1978

Caro Jack,

O principal motivo de eu não ter mantido como deveria a correspondência com você é que estou miseravelmente preso ao livro A Canção do Carrasco. Não preso ao tema, que me fascina e pelo qual sinto respeito – coisa que nem sempre se pode dizer sobre o livro em que se está trabalhando –, mas tomado de uma certa angústia profissional, diante da quantidade de trabalho que ainda resta a fazer em tão pouco tempo. Não sei se já lhe expliquei, mas a princípio achei que pudesse escrever o livro num prazo de três a seis meses, o que me deixaria algum tempo de folga. Não sei o que você leu nos jornais, mas recebi metade de meio milhão por este livro, 250 mil dólares, que podem parecer uma soma monumental até você se lembrar da prisão singular em que eu próprio me meti – ou seja, de ser o único arrimo de catorze pessoas. Não tenho pena de mim por estar nessa situação, porque ela é inteiramente de minha responsabilidade. Fui amplamente advertido ao longo do caminho, e ainda assim continuava a me casar e me divorciar. A esta altura, para me manter em dia e continuar vivendo da maneira como vivo, que é bem simples, preciso ganhar exatamente esse montante, um quarto de milhão de dólares por ano, o que me obriga a escrever depressa. Recebo grandes somas por livro, mas preciso escrevê-los correndo ou não consigo ficar em dia com minhas despesas. Como disse, achei que conseguiria escrever o livro em seis meses, guardando meio ano só para mim. Mas, no fim das contas, o livro me tomará dois anos do começo ao fim, isso se eu conseguir terminá-lo até janeiro do ano que vem. No momento, o dinheiro que peguei emprestado, pois acabei me endividando para fazer as coisas direito, termina em 30 de setembro. E lhe conto isso tudo para explicar que estou trabalhando neste livro como um verdadeiro stakhanovista, escrevendo o tempo todo, muitas vezes sete dias por semana, e nem me importando muito com isso, mas sentindo uma inquietação progressiva diante da quantidade de questões que não conseguirei explorar direito. É possível que o assunto deste livro seja tão relevante quanto praticamente o de qualquer outro livro que jamais escreverei, ou do que todos os livros que já escrevi. Por isso não tenho o menor prazer em produzir um trabalho descuidado.

Tudo de bom,

Norman

 

A JACK ABBOTT

18 de abril de 1979

Caro Jack,

Acabei o livro. Em dezembro, ele somava 1 969 páginas de texto em espaço duplo, e eu não estava muito satisfeito com o estilo de boa parte da obra, de maneira que reli tudo, tentando deixá-lo mais denso, e acabei com 1 681 páginas. Se é bom, e o quanto, não sei, mas acho que, na pior das hipóteses, é bem razoável, e muito contido no estilo, coisa que me deu bastante trabalho. Muito desapaixonado na superfície, no que também trabalhei muito. Existe alguma coisa na história que me tocou. Achei que ela podia constituir uma referência importante para os americanos, uma coisa que, idealmente, milhões deles podiam acabar lendo, dando-lhes algo em comum para conversar e discutir.

Há pouca coisa sobre os doze anos que Gary Gilmore passou na cadeia. O livro cobre os nove meses e nove dias entre o dia em que ele deixa a penitenciária de Marion, no Illinois, em 9 de abril de 1976, e o dia em que é executado, em 17 de janeiro de 1977. Acho que você vai perceber nesse período os ecos de algumas coisas que escreveu para mim. Há inúmeros ecos da sua experiência na prisão, e em parte minha compreensão dessa experiência veio das suas cartas. Mas acredito que Gilmore sentisse as mesmas coisas que você. A seu modo, ele era um homem profundamente religioso, mais suave que você, muito mais tolerante com quem via como o inimigo, com uma crença inabalável no carma, e tão diferente de você quanto dois bons presidiários podem ser.

Cheguei à conclusão de que não queria que Gilmore tivesse algo de fictício. Em outras palavras, eu não poderia pôr na boca de Gilmore nem na sua cabeça nada que não tivesse a certeza de que ele sentisse. A meu ver, o livro precisava ser mais verossímil do que qualquer livro do gênero jamais escrito. Você vai ver quando ler. Não há qualquer tentativa de ornamentar, de amplificar, de sublinhar, de desenvolver, de exagerar ou mesmo de tirar proveito natural das coisas, o proveito que o romancista sempre pode tirar. É um documento terrivelmente sóbrio, duplamente sóbrio, porque os elementos da história são excepcionais, dolorosos e engraçados, ocasionalmente nobres e às vezes sórdidos. Confesso que espero com impaciência a sua leitura e as suas reações, muito embora isso ainda vá levar meses. Enquanto isso, vamos continuar a nos corresponder.

Quero dizer, acho que vamos nos corresponder. Existe entre nós um abismo ideológico tão profundo que não sei por quanto tempo poderemos continuar conversando de intelectual para intelectual. Entenda, fui marxista por muitos anos, não um marxista tão bom, nem tão rigoroso, ou sem dúvida tão devoto quanto você, embora o meu amigo Malaquais esteja mais do que à sua altura em matéria de cultura marxista, e eu tenha sido discípulo dele por algum tempo, afastando-me finalmente porque o achava – e sei que o adjetivo vai deixá-lo enfurecido – insuportavelmente árido. Nas suas idéias, eu encontro as dele, com a diferença de que você explicita o que ele jamais conseguiu reconhecer – que a lógica leva à violência e a violência, na verdade, é o único resultado da lógica.

Não que eu seja uma dessas pessoas que dizem: “Oh, que horror! Estamos falando da violência!” Sei bem que uma certa dose de violência é uma das emoções fundamentais presentes em qualquer comportamento humano, uma das emoções impossíveis de erradicar, como o sexo e a paixão pela justiça. Mas a violência no bojo de um sistema intelectual sempre me assusta, porque eu sinto que seu desdobramento lógico pode ser encontrado nos atos dos niilistas parisienses do início dos anos 60 e do final dos 50, que punham bombas de explosivo plástico nas caixas de correio, reguladas para explodir duas horas depois, matando todo mundo que estivesse naquela esquina, inclusive, possivelmente, a mulher ou os filhos de algum amigo deles. Como você pode saber quem iria estar naquele ponto na hora marcada?

Você pode me responder que a violência de que fala é totalmente diversa: tem finalidade e motivo lógico. Só posso lhe responder que a experiência me ensinou que qualquer sistema intelectual baseado na idéia de que a violência é uma arma especial à sua disposição, e que a destruição dos sistemas é o preço a pagar pela existência futura, acaba, necessariamente, como o niilismo. Eu me atolei no que considero o horror ainda maior de me ver obrigado a viver no mundo como ele é, o que você classificaria como fraqueza e auto-indulgência de intelectual burguês. Judeu, sem dúvida, porque sou judeu. E você me lançaria um olhar de desprezo.

E eu lhe diria que, a meu ver, o mais perturbador em suas idéias é que tudo o que lhe compraz você adota, e adapta imediatamente a seu esquema intelectual. Você precisa de drogas para aliviar a monotonia da prisão, que aniquila a alma, e por isso as drogas fazem parte do seu sistema. Mas eu, se tomo drogas, sou só um merda, um intelectual burguês fraco e mole. Você fala de Cuba como se o país devesse mamar em qualquer teta do mundo para manter-se vivo, e até concordo com isso. Mas você não dá o passo seguinte, e não diz que um animal que subsiste de leite de loba tende a assumir as características do lobo. Você encara Cuba, no fundo, com mais compaixão do que tem por nós, intelectuais burgueses que lutam contra a ordem vigente, ao mesmo tempo em que vivem nela. Você atribui virtudes à China que não reconhece no Vietnã. Ou será o contrário? Como se explica que eu saiba, sem conversarmos a respeito, que na guerra que ocorreu entre a China e o Vietnã um dos dois estará obrigatoriamente certo e o outro totalmente errado? E me pergunto qual dos dois você escolheria. Na verdade, isso me deixa curioso, Jack.

Mas o que eu sei, de qualquer maneira, é que você não se dispõe a admitir que um bando de gênios, idiotas, trapalhões, de soldados bons e corruptos esteja enfrentando outro bando precisamente igual, ou que os anjos e os demônios estejam em guerra com os diabos e os santos. As condições da sua existência foram tão árduas que eu nunca sonharia em submetê-lo a meu juízo. Você se gaba de ter suportado o que outros homens jamais conseguiriam suportar, e deve ter razão. Acho que sim. Não tenho certeza de que eu seria capaz de suportar a metade do que você viveu. Ainda assim, isso deve tornar impossível termos uma verdadeira conversa e entendermos um ao outro, porque jamais irei travar diálogo com um homem cujas idéias eu não possa, até certo ponto, mudar. Entro nas discussões com a idéia de que o outro vai mudar meu pensamento enquanto eu mudo o dele, e que é por isso que estamos travando uma conversa. Mas, com você, essa possibilidade está ausente. Você é como meu amigo Malaquais, com quem estive ontem à noite. Ele passou duas horas perorando. Disse as mesmas coisas que vem me dizendo há vinte anos. As idéias dele não mudaram, só os nomes das partes em disputa. Existe uma diferença profunda entre nós. Finalmente, farto daquilo, eu lhe disse: “Você parece um macaco que perdeu os braços e as pernas, mas ainda usa os dentes para trepar no galho mais alto.”

Não posso discutir com um homem cujo espírito seja feito de aço. O aço não é material próprio para o espírito, no meu entender. Por exemplo, descubro que você apóia a União Soviética contra Israel. Não sou exatamente um sionista automático e ferrenho, e não acho que Israel seja a resposta para todos os problemas da Terra. Não tenho aquele reflexo automático de perguntar diante de qualquer situação: “Isso é bom para Israel?” Nem de longe. Mas acho que, em termos estritamente humanitários, sem nada a ver com as questões de classe, se existem algumas centenas de milhares de judeus sofrendo na Rússia que pudessem sofrer menos em Israel, deviam deixar que eles partissem. Ainda assim, você apóia um país como a União Soviética, que você chama de “social-imperialista”, se me lembro corretamente dos seus termos. De qualquer maneira, esse país é uma perversão do socialismo que você defende, e se opõe a outro país, Israel, que é outra perversão do socialismo ou da social-democracia. E o que você deixa de fora do quadro é o horror que existe por trás disso tudo. Assim como eu não sei como é viver na porra da prisão, você não tem a mínima idéia do que é ser judeu. Você não sabe o que é ter 6 milhões de pessoas do seu povo mortos, quando só existiam 12 milhões no planeta. Você não conhece a profunda e fundamental deformação da existência que invadiu as células sangüíneas de todo judeu, depois que Hitler fez o que fez.

É fácil para você assumir um ar de desprezo e dizer: “Eis Israel fazendo o trabalho de lacaio para os Estados Unidos contra as bravas e destemidas nações árabes” – as quais, como você sabe muito bem, têm as prisões mais hediondas da história da existência civilizada. Ainda assim você continua a ter os mesmos reflexos automáticos, e um deles é sempre apoiar os árabes contra os israelenses. E eu sei que não podemos conversar sobre essas coisas, ou mil outras. Sei que não posso lhe dizer que, no começo, era marxista, mas hoje sou um existencialista religioso, e tenho crenças paralelas às suas, porque acho que podemos até vir a compartilhar um importante papel, se o mundo não melhorar, e não melhorar dramaticamente, provavelmente graças à intervenção de idéias profundas e visionárias, que envolvam uma vasta mudança nas próprias raízes das coisas. Caso contrário, o mundo irá piorar profundamente.

Mas duvido muito que possamos discutir essas idéias. Você tem uma visão marxista-leninista, e eu vivi o suficiente para saber que essas idéias são as que mais custam a morrer. Essa minha última observação, é claro, só irá convencê-lo da força e da correção das suas idéias, mas confesso que prefiro idéias que sejam frágeis e delicadas, e precisem sobreviver a cada dia e ser recriadas a cada dia nas condições mais difíceis. De qualquer maneira, você foi generoso o bastante para me comunicar o que pensa, e agora lhe dei uma noção do que penso.

Tudo de bom,

Norman

 

A LILLIAN HELLMAN

19 de janeiro de 1983

Querida Lillian,

Tenho pensado muito em você ultimamente. Tive uma boa conversa sobre a sua incomparável personalidade, seu coração amoroso e sua alma de fogo, de maneira que eu não podia deixar passar o Ano-Novo sem lhe mandar minhas mais carinhosas palavras. Escute, meu amor, ouvi dizer que você não está disposta a ver as botas de ninguém entrarem pisando duro em seu quarto. Apesar disso, na primeira boa ocasião em que se sentir em condições de receber gente, adoraria ir visitá-la, e ver se tenho alguma piada para lhe contar que você ainda não conheça. Você já deve ter ouvido falar do desejo mais profundo de Lech Walesa, que é ver os comunistas chineses conquistarem três vezes a Polônia. E lhe perguntaram: “Mas por que é este o seu desejo?” “Porque isto significa que os chineses teriam de atravessar a Rússia seis vezes”, respondeu Lech Walesa.

Todo meu amor, Lillian,

Norman

 

A JACK ABBOTT

26 de abril de 1984[3]

Caro Jack,

Estou voltando da Rússia, sei que você anda ansioso para saber o que eu achei de lá, mas estou tentando escrever um artigo para a revista Parade, que dirá o que achei. Por enquanto, só vou lhe dizer que na minha impressão, assumidamente superficial pois só estive lá por duas semanas e viajei como um turista solitário, trata-se de um país duro e abrasivo para se viver, e muito difícil pelo número de frustrações que é preciso enfrentar para fazer as coisas mais simples. Mas não é tanto um Estado policial quanto uma sociedade terrivelmente oprimida e opressiva. E por isso as pessoas lá são muito comoventes.

Os russos, especialmente os mais velhos, parecem veteranos boxeadores, que tomaram murros tremendos durante a carreira no ringue e, depois de se aposentar, ainda foram atropelados três vezes por um caminhão. Mas devo dizer que não vejo a Rússia como um país em guerra. É mais um lugar totalmente fodido e, como você sabe muito bem, cheio de desespero. Ainda assim, quando se compara o que o país atravessou com o que temos aqui, ficamos um pouco incomodados, como americanos, por sermos tão mimados. Um “nós” em que você naturalmente não está incluído – pois não acho que você tenha sido mimado pela vida (é uma piada, meu filho).

Você me pediu um gravador e fitas cassetes para aprender a falar hebraico. Se ninguém ainda tiver lhe dado o gravador, diga como faço para mandá-lo legalmente, através das autoridades, e você receber. Eu lhe mando o gravador com o maior prazer, e também as fitas. Só quero avisar, Jack, que você vai receber fitas de hebraico moderno, e que, embora isso vá lhe ensinar a falar hebraico, não sei bem até que ponto ele será clássico. Houve grandes mudanças no hebraico, no hebraico moderno, para que pudesse ser transformado numa língua viva capaz de lidar com a tecnologia etc. Por isso, não sei o quanto ele conservou da antiga sonoridade, embora tenha o palpite de que ainda seja em boa medida o mesmo, ou tenha ficado provavelmente mais suave, muito mais fluido e rápido. O hebraico antigo, o hebraico clássico, como você imagina, tem um som magnífico e é de fato uma língua muito masculina, cheia de sonoridades ásperas, fortes e vigorosas, sons de pedras se chocando, de pedras se partindo. Não é uma língua muito fluida, mas sim arquitetural, esculpida. Os sons se materializam ao serem pronunciados, o ar troveja na garganta de quem fala. Estou exagerando para deixar claro o que penso, é claro que o som não é tão forte assim. De qualquer maneira, me mande notícias sobre os cassetes. Eu ajudo, com todo o prazer.

Saudações,

Norman

 

A JEAN MALAQUAIS

23 de abril de 1986

Caro Jean,

Gostaria de ter respondido antes, mas passei algum tempo no Chile. País estranho. É uma ditadura total, como você está cansado de saber, mas não, até onde dá para perceber, um Estado policial. Uma vez fiquei só duas horas na República Dominicana, esperando na sala de embarque do aeroporto, e fui embora com a certeza absoluta de que era um dos piores lugares do planeta. Todo policial e soldado que passava tinha cara de bandido. Não podia haver dúvida de que aquele era um lugar brutal. Já Santiago do Chile parece muito com Madri. As pessoas ostentam el duende – uma tristeza, uma austeridade, um melancólico sentido espanhol de dever para com a família e uma disposição essencial para se decepcionar na vida, e aceitar o fato como a sina que cabe a cada católico. Pode-se dizer que é um dos países católicos sombrios, onde a melancolia é o nutriente básico do sistema emocional, consumido diariamente. Naturalmente, como costuma ocorrer em lugares assim, as pessoas se comportam com grande dignidade, e não costumam se alegrar por pouco. Não existe um legislativo, um único jornal, nenhuma ponta solta nos escalões superiores. Mas no plano da classe média, da classe trabalhadora e dos boêmios, não se vive o mesmo tipo de terror que caracteriza a Turquia, como suponho, ou certamente a Rússia.

Sem contar que, ao entrar no Chile, passei pela aduana. Entregaram-me um papel para preencher no último instante, pois me deram o formulário errado no avião, uma bobagem de rotina, porque nenhum dos dois papéis podia ser mais simplório. E, como eu não estava com os meus óculos de leitura, não consegui enxergar as letras, que eram muito pequenas, e entreguei meu formulário em branco ao rapaz da alfândega. Ele tinha 22 ou 23 anos, e preencheu para mim, copiando as informações do meu passaporte e, no fim, perguntando onde eu iria me hospedar – o que era uma das perguntas, talvez a única pergunta diferente do novo formulário. E eu não tinha a menor idéia do endereço.
E foi o que disse: “Ih”, gaguejei, “minha filha vem me pegar. Ela mora em algum lugar de Santiago.” Então o rapaz desenhou um grande ponto de interrogação no lugar do endereço e me devolveu o papel carimbado. Nenhum problema. Eles não têm meios de manter uma polícia secreta muito rigorosa. É um país estranho.

A notícia sobre Jean-Luc Godard está absolutamente correta. Ele quer fazer uma versão moderna de Rei Lear e você pode ficar seguro de que “versão” é a palavra certa. E eu vou ser a caixa de ressonância dele, o escritor de plantão a cada noite, rascunhando as cenas que serão filmadas no dia seguinte, e eu devo fazer o papel do Rei Lear, com a minha filha Kate no papel de Cordélia. Tudo indica que o verão vai ser uma loucura, mas pelo menos tenho muito respeito pela obra de Godard, e talvez aprenda alguma coisa sobre como se faz um filme. A Suíça, quero deixar claro, não pode ser de todo má, se produziu um Jean-Luc Godard.

Kate Mailer, diga-se de passagem, estava incrível no meu espetáculo, a peça sobre Marilyn Monroe chamada Strawhead [Cabeça de Palha]. Depois lhe mando um exemplar da revista que falou bem dela. Talvez daqui a um ano a gente apresente a peça em algum teatro off-Broadway. Pode acreditar, Jean, fiquei espantado com o talento de Kate. Ela criou uma Marilyn adorável, frágil, sensível e totalmente enlouquecida, mas com um faro instintivo para superar a própria ignorância. Uma linda criação. Muita gente que conheceu Marilyn me procurou depois, balançando a cabeça, dizendo que era uma coisa sobrenatural. Ninguém na família conseguiu acreditar, todo mundo dizendo: “Mas, a nossa Kate…?” É difícil mesmo de aceitar. Nunca sabemos nada sobre os filhos. Como Gary Gilmore me disse uma vez: “Eles apenas passam através de nós.”

Tudo de bom, amor,

Norman

 

A RICHARD STRATTON

Janeiro de 1987

Querido Rick,

Norris[4] e eu fomos convidados a Moscou para uma conferência promovida por Mikhail Gorbachev. Rick, vou lhe dizer, é incrível: está acontecendo alguma coisa por lá. É como um urso, velho, fedorento, coberto de feridas, obeso, manchado pela própria corrupção, mas há uma certa expressão no olhar do urso: ele quer voltar para o circo, ele quer ser um urso amestrado e receber aplausos, ser admirado pelos outros animais. Talvez seja uma forma muito enrolada de dizer, mas na verdade acho que tenho ruminado sobre a Rússia desde o lançamento de Os Nus e os Mortos, porque passei pela mesma experiência que tanta gente da minha geração, considerando que os russos se saíram muito bem na Guerra Mundial, respeitando o exército e a infantaria deles como só um soldado da infantaria americana poderia respeitar, além dos sacrifícios que fizeram, mas tendo mergulhado logo depois na Guerra Fria, quando todos os sinais foram trocados. Não confiei em mais ninguém depois disso, especialmente nos russos, com o stalinismo e os verdadeiros horrores que existem por lá.

Há uma diferença crucial entre os russos e os americanos: nos Estados Unidos, estamos sempre correndo de nossa culpa. Conseguimos nos manter a salvo dela graças à técnica, a cada novidade da moda. Somos psicanalisados, tranqüilizados e robotizados, submetidos à nouvelle cuisine, “yuppificados”, mantemo-nos a salvo da nossa ansiedade e da nossa grande culpa, e assim conseguimos evitar a questão. Os russos não. Estão confinados em sua culpa, e são raros os russos que não sentem alguma culpa, porque sua história passou trinta anos exigindo que cada um entregasse os seus amigos – não abertamente, talvez, mas através de gestos de omissão, deixando de prestar ajuda a perseguidos pelas autoridades. E as próprias autoridades vivem atoladas em sua má consciência, que é enorme. Os russos, a meu ver, vivem mais próximos da sua alma do que nós, porque são culpados, e não tenho como lhe dizer o quanto é emocionante que a própria alta burocracia tenha finalmente reconhecido que precisa mudar e ter um governo mais humano.

Rick, posso lhe assegurar uma coisa: se eu fosse o tipo de pessoa que reza, acho que pediria a boa vontade dos céus para as coisas inacreditáveis que Mikhail Gorbachev está tentando fazer na Rússia e, meu irmão, estou torcendo por ele. Posso me enganar muito facilmente, mas se a coisa der certo, este país, o nosso país, a América, vai precisar se livrar de boa parte da bullshit que ainda predomina aqui e, se o comunismo se tornar democrático, encarar de frente a idéia de que as nossas cavalariças também estão transbordando. E a bosta já está chegando na altura das nossas narinas.

Três hurras,

Norman

 

A DON DELILLO

25 de agosto de 1988

Caro Don,

Que livro maravilhoso é Libra. E preciso lhe dizer que o li um pouco a contragosto. Estou com um romance horrivelmente comprido sobre a CIA, e claro que encontrei coincidências suficientes entre eles para ficar dizendo “esse filho-da-puta está tocando a minha música”. Mas fiquei impressionado, e impressionado pra cacete, o que me acontece muito raramente. Acho que continuamos escrevendo porque nunca permitimos que o cerne de nossa vaidade sofra um arranhão, se pudermos evitar, mas dessa vez eu não me safei totalmente ileso. Trechos de virtuose por toda parte e, mais ainda, acho que você cumpre a tarefa que quase esquecemos por completo, a de que estamos aqui para transformar as obsessões americanas – esses buracos negros do espaço – em mantras com os quais seja possível viver. E o que você nos deu é uma visão abrangente, crível, de como era Lee Oswald, e de como era Jack Ruby, algo que pode ter de fato acontecido. Se a história irá concluir que você estava mais errado que certo, quase não importa: o que conta é que você devolveu vida a um campo de nossa imaginação que sobrevivia esses anos todos como terra calcinada, ou seja, mal e mal. É tão raro que a literatura nos apresente uma determinação tão profunda e juro, Don, eu o saúdo por isso.

Tudo de bom,

Norman

 

À ESCRITORA CYNTHIA OZICK

22 de abril de 1989

Cara Cynthia,

Quando vi seu nome no endereço do remetente, pensei, “Que bom”, e tive uma visão passageira em que aparecíamos, você e eu, no mesmo pódio, lendo trechos de Os Versos Satânicos, caso a maldição esperada recaia sobre Salman Rushdie, e outros escritores precisem tomar o lugar dele. Vinte segundos mais tarde, depois de ler o seu billet doux, redescobri uma vez mais que posso facilmente concorrer ao posto de maior romântico do mundo.

Devo dizer que fiquei acachapado com o seu estilo epistolar. Para uma escritora de talento, a sua carta tem uma composição muito infeliz. Já tinha visto você empregar antes essa veia impiedosa e carregada de jargão, e suspeito que ela se deva à intensidade dos seus sentimentos. No entanto, queria lembrá-la de que uma das provas da nossa competência é conservar nosso estilo mesmo em estado de agitação.

Tudo de bom,

Norman

 

A GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

20 de junho de 1991

Caro Gabo,

Mando anexa a carta que acabo de enviar ao premier Castro através da delegação cubana junto à ONU. Ela deve explicar por que eu vinha tentando entrar em contato com você. Nem preciso dizer que um telefonema seu a Fidel dará um poderoso impulso à roda.

Obrigado, caro grande romancista,

Norman

………………………..

Caro Fidel Castro,

Espero que concorde em aceitar uma entrevista comigo para a revista Vanity Fair. Não irá tomar mais do que uma hora da sua atenção, embora, claro, eu vá estar disponível para bem mais. O cerne da dificuldade, porém, é que precisaríamos nos encontrar no próximo fim de semana, nos dias 22 ou 23 de junho, porque depois dessas datas ficarei preso por conta de uma série de promessas que fiz de estar em determinados lugares e escrever determinados textos (não quero aborrecê-lo com os detalhes), e muitos meses vão se passar antes que eu tenha outra possibilidade de abordá-lo. Peço desculpas por essa súbita invasão do seu tempo, mas, na verdade, venho tentando marcar um encontro por todo este mês de junho e esta é a carta que eu talvez devesse ter-lhe escrito semanas atrás.

Quero acrescentar que Vanity Fair é uma excelente revista para o diálogo que lhe proponho. Não só tem um número de leitores que vem crescendo rapidamente, como é a única das grandes revistas americanas que pode se gabar disso neste momento, e deve alcançar muito em breve uma circulação de um milhão de leitores. Acho justo dizer que é lida avidamente pelo establishment de Nova York e de Washington, e sempre pude dizer o que quis em suas páginas, com toda a liberdade, tomando o rumo que quisesse. Não precisarei comentar suas declarações com ponderações de terceiros. Posso lhe garantir que as suas idéias serão mostradas de maneira honesta, e hão de atrair muita atenção dos outros meios de comunicação. Prometer mais seria hipérbole, mas só acrescento que existe hoje na América uma atmosfera de incerteza, e os ventos políticos podem mudar depressa (para a direita, devo acrescentar, com a mesma facilidade que para a esquerda), o que faz dos dias de hoje um momento em que acredito que sua presença pode produzir um autêntico efeito nos nossos meios de comunicação.

Sinceramente seu,

Norman Mailer

 

AO BIÓGRAFO THOMAS W. FISKE

14 de outubro de 1993

Caro Tom Fiske,

Estou em Minsk, escrevendo um livro sobre Lee Oswald, que me manteve na Rússia pelo outono, o inverno e a primavera passados, e só agora estou pondo em dia minha correspondência atrasada, o que me obriga a percorrer às pressas cartas boas, que mereciam respostas mais longas.

Sou paranóico na conta certa para acreditar que o presidente George Bush pode ter desejado que o golpe na Rússia desse certo, porque assim o inimigo continuaria vivo. O comunismo talvez voltasse com tudo que acarreta – lucros e privilégios da Guerra Fria na América. Eu até imaginaria que o fim da União Soviética foi orquestrado pela CIA. Mas, tendo passado seis meses na Rússia, concluí que ninguém conseguiria orquestrar nada neste país, por excesso de indivíduos e excesso de ineficiência. Algumas tramas particulares, uns bons nacos de lucro, alguns golpes em grande escala, tudo isso, sim. Mas a capacidade de articular um movimento hegemônico, não creio. Acho que decisiva realmente foi a economia da Guerra Fria. Sabíamos que acabaríamos arruinando os russos, e sim, vigiávamos de perto o que faziam, e sim, acho que algumas pessoas na CIA fizeram uma bela fortuna com a queda da União Soviética, mas foi só de passagem, da mesma forma que um rio cheio acaba arrancando uma ponta ou outra de terra. A história verdadeira, à medida que for surgindo, pouco a pouco, vai ser feia.

Tudo de bom,

Norman

 

A BILL CLINTON

28 de dezembro de 1994

Caro Sr. Presidente,

Na sua carta de 6 de dezembro, o senhor me pergunta quais seriam afinal os temas, caso eu o entrevistasse para a Esquire, e como não sou um tipo de respostas fáceis, vou ver se consigo definir o terreno para o diálogo, traçando seu contorno. Anos atrás, tendo escrito um livro sobre o vôo da Apolo 11 à Lua, eu ainda tentava convencer Neil Armstrong a conversar comigo. Finalmente, deixei de lado toda a modéstia e lhe disse numa carta que muita gente me achava o melhor jornalista da América, e por analogia lembrei que ele jamais deixaria um piloto comercial, por melhor que fosse, assumir o controle do módulo destinado a pousar na Lua, mas mesmo assim estava disposto a deixar que bons repórteres sem brilho escrevessem a respeito dele. Armstrong me respondeu, dizendo: “Caro sr. Mailer, seus argumentos são muito pertinentes, mas a resposta ainda é não.”

Bem, uma vez filósofo, sempre perverso: estou usando novamente a mesma tática. Acho que o senhor deveria permitir que um dos melhores escritores americanos – eu mesmo, aqui indicado com toda a modéstia – fizesse uma tentativa de interpretar a sua presidência, e o senhor mesmo. O sentimento que me domina é de que o público precisa de uma visão nova. Se tiver tempo, e sei bem como lhe sobra pouco tempo para diversão, proponho que leia o meu artigo na Esquire sobre Madonna, que escrevi num ponto em que a carreira dela estava um tanto em baixa, e garanto que lhe fiz algum bem, porque no artigo ela aparecia com toda a sua independência, com uma inteligência surpreendente, combativa e engraçada; em suma, uma mulher de verdade. E a questão é que era um olhar diferente sobre ela, pois tenho um modo próprio de ver as pessoas, que prefiro de longe ao olhar dos jornalistas.

E assim eu proponho um diálogo com uma hora de duração, idealmente duas, em que poderemos discutir uma série de tópicos, muitos deles preferentemente não políticos, mas amplos e abertos o suficiente para que o senhor possa ser visto em toda a medida dos seus interesses, das suas preocupações mais intensas, das suas preferências, das suas maneiras de ver o mundo – deixando que o público possa percebê-lo como um ser humano, mais que como político ou ocupante de cargo público.

Na minha opinião, conversaríamos e depois transcreveríamos a conversa, e o tom, embora no geral amigável, estaria longe de ser o de um sicofanta. Naturalmente, tenho discordâncias com o senhor, e algumas delas são sérias, como Cuba, mas acho que no todo o senhor não só vem sendo tratado de maneira abominável pela imprensa, como há motivos sociais profundos para a onda de rancor na vida americana que acabou por escolhê-lo injustamente como alvo, e quero dar a isso a minha atenção de escritor. E o senhor nem teria de se comportar como um queixoso ativo em relação a esses pontos – eu é que fico indignado com o tratamento que o senhor vem recebendo. Na verdade, gostaria de começar a conversa com a seguinte piada: “O papa e Bill Clinton estão num bote a remo, e o vento arranca a mitra branca da cabeça do papa. Bill Clinton pula do bote, sai andando por cima das águas, recupera o chapéu do papa e anda de volta até o bote para devolvê-lo. No dia seguinte, a manchete de todos os jornais é a seguinte: BILL CLINTON NÃO SABE NADAR.”

Se formos mesmo levar isso adiante, proponho qualquer dia de janeiro, ou das duas primeiras semanas de fevereiro.

Tudo de bom,

Norman Mailer

 

AO CRÍTICO ED MCALICE

9 de maio de 1995

Caro Ed,

Suas idéias sobre o que eu penso às vezes acertam na mosca, mas muitas vezes você passa muito longe, como era de se esperar. Você ficaria surpreso se lhe dissesse que vejo o catolicismo com mais simpatia do que supõe, e que não me considero mais um esquerdista? Na verdade, não mesmo. Eu me defino como um conservador de esquerda, e seria ainda mais conservador se, em geral, eles não fossem tão horrendos e os piores caça-níqueis não estivessem no comando do espetáculo. Mas os esquerdistas fizeram muita merda, e quase nada lhes sobrou. A verdade é que estou com medo, achando que o nosso amado país está tomando um caminho sem volta rumo a versões sutis, mas muito feias, do fascismo. Quanto mais envelheço, mais tenho dificuldade para entender este país. Mas uma coisa eu compreendo de cima a baixo: o diabo existe, e acaba de obter pleno controle sobre a televisão. Se você nunca tiver aparecido nela, Ed, posso lhe dizer que ela não é um meio de comunicação, mas uma válvula de controle, e as pessoas que trabalham para o diabo passam melhor por essa válvula do que os demais.

Tudo de bom,

Norman

 

A BRUCE DEXTER

6 de maio de 1997

Caro Bruce,

Faz algum tempo que não respondo as suas cartas, e por isso tenho três à minha frente: a de 1º de março, a de 14 de abril com a notícia do seu derrame, e a notícia melhor de 28 de abril, de que você se recuperou bastante. Só me ocorre mover meus lábios em silêncio saudando esse fato. A idéia de um derrame é muito assustadora para todos, mas especialmente para nós, que gostaríamos de continuar sendo escritores, e na verdade me lembra um aspecto curioso da filosofia popular judaica. Uma vez assisti à palestra de um homem versado em estudos hebraicos, que dava aulas para adultos – acho que foi na época em que eu estava escrevendo Os Nus e os Mortos, e estava curioso acerca do que ele teria a dizer. Primeiro, minha mulher Beatrice e eu fomos à sua aula. E, no primeiro dia, ele falou sobre as várias teorias da história. Depois, falou detalhadamente sobre o marxismo, o keynesianismo, o hegelianismo, e mais e mais. Abordou todas as teorias da história. E finalmente disse, com modéstia: “Mas acho que nós, os judeus, temos uma outra teoria da história, que eu chamaria de teoria catastrófica da história.” Ou seja: quando as coisas parecem normais e a vida vai bem, de repente acontece uma catástrofe – uma história que os judeus conhecem muito bem.

Imagino que um derrame deve ser assim, e sinto em relação a isso uma inquietação que provavelmente me causa desconforto psíquico ou espiritual, mais concreto que a própria idéia da morte. A morte é a transformação maior e mais final que pode acontecer, mas passamos a vida toda pensando na morte, ou pelo menos tentando, ao passo que o derrame nos empurra de repente para um desvio. Assim, por alto, você pode perceber que ando solidário.

Tudo de bom,

Norman

 

AO CRÍTICO PETER BALBERT

1º de fevereiro de 1998

Caro Peter,

Entre as coisas que temos em comum está a depressão cultural. Reflito sobre a minha vida, especialmente depois de ter completado cinqüenta anos de literatura, e sinto que todas as coisas pelas quais trabalhei e lutei estão em decadência. O que antes eu via como o inimigo e, com grande otimismo, como o inimigo que haveria de ser derrotado, acabou na verdade por nos vencer. E embora eu nunca vá sentir nenhuma simpatia por um tipo como o ex-secretário de Estado John Foster Dulles, devo admitir que ele reuniu duas palavras poderosas, “angustiante reavaliação”.

A questão diante de nós dois é: onde está a culpa? Estava em nós? Por nunca termos feito o suficiente, por mais que achássemos que sim? Ou estará na abstração que chamamos de “natureza humana”? Teremos ajustado as nossas crenças a um conceito de homens e mulheres que não se adequava aos fatos rasteiros?

Às vezes me pergunto se isso não será puro elitismo de minha parte, e se a verdadeira premissa da democracia, a de que os sem-banho tenham acesso a sabonete barato, desodorante e roupas de plástico, como um dos degraus da escalada a um nível mais alto, não seria o que está acontecendo. Ou se, como temo, estaremos recaindo numa sociedade do homem e mulher medíocres onipresentes, governados por altas mediocridades. Porque, se isso for verdade, a resposta final só pode ser um tecnofascismo, que será mais sutil e penetrante, mais associado ao plástico do que qualquer outra coisa que o mundo já viu, e sabe Deus quando conseguiremos livrar-nos dele.

Tudo de bom,

Norman

 

AO POETA BOXEADOR SAL CETRANO

28 de março de 1999

Caro Sal,

Nunca conversamos sobre o seu republicanismo porque, nas poucas vezes em que tivemos a sorte de compartilhar uma refeição, quem iria querer trazer esse assunto à baila? Só vou dizer – e ainda não escrevi a respeito – que enquanto os democratas, com Clinton à frente, me enojam com o que chamo de sua “política de butique” (um pouquinho aqui, um pouquinho ali, servida com uma generosa cobertura de bullshit espalhada por cima de tudo), os republicanos são uma monstruosidade psicótica. Por um lado, defendem Deus, a bandeira e a família – embora muito poucos fossem capazes de reconhecer Jesus Cristo se ele ocupasse o mictório ao lado, mijando junto com eles; um número espantoso nunca serviu nas Forças Armadas nem ouviu o som de uma bala; e, depois que entram para a política, mentem e enganam as suas mulheres e famílias como coelhos. Mas e daí, de que vale ser político se o sujeito não puder ganhar a vida sendo hipócrita? O que eu quero dizer é o seguinte: o Partido Republicano é esquizofrênico. De um lado, os republicanos são, como eu disse, por Deus, a bandeira e a família. Mas, do outro, pela expansão sem freios do capitalismo, e assim deixam de fora uma coisa que ainda pode ser importante para você: a noção de que Jesus, como Karl Marx, achava que o dinheiro acaba com todos os outros valores. O que é verdade. Se o país inteiro está indo para o ralo, e sem dúvida é o que vem acontecendo, dá para fazer o gráfico de seu declínio não só moral, como também do conceito social de fama e dos padrões de comportamento coletivo: bem ao lado da alta do índice Dow Jones, quanto mais alto o Dow, mais baixos os padrões morais. O dinheiro destrói todos os demais valores. Posso até respeitar os republicanos de direita, por defenderem certos valores, como defendem, mas eles nunca atacam o capitalismo que, sem controle, é o pior flagelo da condição humana que temos hoje. Pode ter havido uma época em que o comunismo foi um flagelo pior, mas hoje estamos muito à frente, e sugiro que você pense em conviver com a idéia de que o partido da sua preferência sofre de paralisia dos centros morais.

Se é assim, por que esperar mais dos seus meninos pretos? Eles podem nunca ter conhecido aquilo de que você fala. Quanto a Clinton, deixe que seja julgado pelos céus. O crime dele não foi ter aprontado na Casa Branca – afinal, a pessoa entra para a política apertando mãos. E só consigo imaginar Hillary sendo generosa, nessa matéria, quando distribui sopa para os pobres. Mas o verdadeiro crime dele foi pôr fim à Previdência Social “como conhecíamos”, sem acabar com a Previdência Social como não conhecemos – ou seja, a Previdência Social como negócio. Para mim é uma monstruosidade poupar dinheiro repreendendo os pobres e puxando o saco dos ricos. Como diz a velha canção, “não faz bem a ninguém”.

Tudo de bom, velho amigo,

Norman

 

AO EDITOR DO BOSTON GLOBE

13 de março de 2002

Não podemos esquecer que o cotidiano de uma democracia também pode depender do uso correto e honrado da língua, e não da manipulação doentia de palavras como “mal” e “amor” por nanicos intelectuais do calibre do nosso presidente.

Norman Mailer

 

A SAL CETRANO

17 de junho de 2003

Caro Sal,

Li cuidadosamente a sua carta de 1º de abril e devo dizer que não está à altura da sua inteligência. Embora você seja um conservador convicto, e republicano, por favor desista da idéia de que George W. Bush é um bom sujeito. Francamente, Sal. A mim parece que o melhor que se pode dizer dele é que é um merda completo, raso, manipulador, mas tem a sorte do diabo trabalhando a seu favor, para que suas decisões não resultem num desastre total.

Tudo de bom,

Norman

 

A SAL CETRANO

11 de agosto de 2003

Caro Sal,

Às vezes, acho que a única maneira que temos de atravessar a vida é conseguir um controle perfeito sobre a nossa raiva. Uma das coisas que mais me incomoda é acordar enfurecido no meio da noite. Por existir alguém que eu quero matar, mas não posso. Os objetos desse tipo de exaltação apaixonada vão desde George W. Bush a um ou outro ex-amigo bilioso, que venha armando alguma trapaça ou contando uma mentira, e assim prejudicando a mim – e isso, no sonho, vira “EU!!!”. Está melhor do que costumava ser quando eu era mais moço, mas só a disciplina me permite manter com o mínimo de ordem toda a merda, grande e pequena, que trago na cabeça.

Motivo pelo qual, acho eu, só 98% de mim detestam George W. Bush. Dois por cento até gostam do cara, porque ele me permite escrever bem a respeito dele. De passagem, recomendo a Harper’s de julho, que traz um artigo chamado “O romance do Império”, de um escritor muito bom que eu nunca tinha lido antes, Thomas de Zengotita, que realmente consegue mostrar qual é a do Bush.

Imagino que vamos discordar a respeito de Bush. Na pior das hipóteses, fico com medo de que ele ainda vá superar o pior que Nixon, Reagan, Clinton – qualquer um – pôde fazer. Aceitar um incompetente no cargo faz parte do jogo. Mas não um incompetente que se acha genial.

Tudo de bom,

Norman

 

AO MÉDICO EMMERICH KUSZTRICH

26 de janeiro de 2005

Caro Imre,

Foi muita gentileza da sua parte me mandar o artigo sobre a artrite dos joelhos. Com a passagem do tempo, descobri que consigo viver cada vez mais facilmente com a doença. Duas bengalas – e não estou só tentando fazer graça – acabam sendo mais ou menos divertidas, quando você aprende a dominar certos recursos. O maior prazer é poder imaginar que está praticando esqui de fundo e avançando com os bastões, o que é bastante burlesco. Além do mais, nunca preciso ficar muito tempo de pé; alguém sempre me oferece uma cadeira.

Espero voltar à Alemanha no ano que vem, e visitar você e Gertrude. Então, poderemos falar sobre a cirurgia. Não sinto no momento uma necessidade profunda de me operar, mas essas coisas mudam de uma hora para outra. Será uma das centenas de assuntos que temos para conversar. Li o recorte do Financial Times que você me enviou, e achei sinistro. Não sei para onde estamos todos indo. Este é o primeiro século que nos esmaga como um íncubo. No século XX era o terror de que acabássemos todos pulverizados pela guerra nuclear. Parecia surrealista. Agora, no século XXI, muita gente se pergunta, com um peso na alma, se conseguiremos ou não chegar ao próximo século desse jeito. Na minha idade faz pouca diferença, mas o caso é que tenho nove filhos e muitos netos, e esse futuro não lhes promete muitas alegrias. Perdoe esta minha visita ao fim do mundo. Acho que me deixei levar, sinto muito. Mas também quero repetir o que já disse antes; mal nos conhecemos e, no entanto, sinto que somos bons amigos.

Tudo de bom para você e Gertrude, e – será que posso dizer? – um pouco de amor.

Norman

 

A ARIANA HUFFINGTON, DONA DO SITE THE HUFFINGTON POST

21 de junho de 2005

Cara Arianna,

O que se segue é só para o estômago do blog:

Na esteira de todos os fluviais obséquios fúnebres que a mídia despejou quando Ronald Reagan deixou a Terra, senti-me obrigado a observar que ele foi o presidente mais superestimado da história americana, e o segundo mais ignorante. E então perguntei quem adivinharia qual era o mais ignorante de todos. Metade da platéia aplaudiu, a outra ficou indignada, gemendo as dores dos autênticos patriotas.

Como George W., além de ser uma cavalgadura, ainda é vaidoso e dado a platitudes, mal temos como deixar de perceber que ele também vem atuando (com toda a devida incandescência interior) como o enviado de Deus à América.

Seu,

Norman Mailer J

 

[1] Ativista na luta pelos direitos civis e procurador-geral da União na presidência de Lyndon Johnson.

 

[2] John D. Ehrlichman (1925–1999), assessor de Richard Nixon, condenado por perjúrio, obstrução da justiça e conspiração no caso Watergate, cumpriu pena de dezoito meses de prisão.

 

[3] Em 1981, depois de uma campanha liderada por Mailer, Abbott conseguiu a liberdade condicional. Seis semanas depois, ele esfaqueou e matou um jovem de 22 anos numa briga de bar e retornou à prisão, de onde não saiu mais – suicidou-se em 2002.

 

[4] A atriz Barbara Norris, última mulher de Mailer, que vendeu à Universidade de Harvard sua correspondência amorosa.

 

Norman Mailer

Norman Mailer (1923–2007), escritor americano, autor de O Castelo na Floresta e O Super-Homem Vai ao Supermercado.

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