esquina

O pajé da baixada

Promessa de cura para 680 males

João Carvalho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Tobi Itaúna vestiu-se a caráter para ir às comemorações do Dia do Índio, no penúltimo domingo de abril. Chegou ao Parque Lage, na Zona Sul do Rio de Janeiro, com saiote de palha e cocar na cabeça. Rosto redondo pintado, tórax coberto apenas por colares, o amazonense de 67 anos e longos cabelos negros circulava à vontade pelo parque, como um peixe dentro d’água, atendendo aos pedidos de foto. Homens e mulheres de uma dúzia de etnias diferentes marcavam presença no evento, também frequentado por crianças, muitas garotas tatuadas e alguns rapazes de barba.

Dono de uma loja de ervas na Baixada Fluminense, Itaúna se apresenta como pajé e diz ser capaz de tratar mais de 680 males – inclusive alguns que acometem cachorros e outros animais de estimação, embora os humanos componham a maioria dos seus fregueses. Naquela manhã, dava consultas-relâmpago em sua farmácia improvisada sobre uma lona preta, estendida no chão.

Uma adolescente acompanhada do namorado queria saber o que o índio indicava para tosse. “Óleo de copaíba”, respondeu prontamente, “e xarope.”

E assim foi durante todo o domingo. Era impossível encontrar moléstia que o pajé não pudesse curar. A uma senhora com manchas na pele, Itaúna prescreveu o uso de sabão de raspa de juá, uma árvore típica do Nordeste. Um homem se queixou de insônia e saiu com uma das 44 ervas acondicionadas em recipientes plásticos que Itaúna levara ao parque. Aos fregueses também eram indicadas garrafadas, medicamentos líquidos feitos à base de raízes e ervas. Uma das mais vendidas era a Garrafada de 32 Raízes, que custava 20 reais.

“São 32 raízes para 32 males. Doença do fígado, do estômago, fraqueza de memória, dos nervos, fraqueza sexual, pressão alta, pressão baixa”, enumerou Itaúna, arrancando risos dos que lhe perguntavam a finalidade da beberagem. Recitava os mesmos males quando pediam informações sobre o Guaraná Tônico – mistura em pó que custava 10 reais –, ou sobre o Cura Tudo, um preparado líquido de 25 reais.

“A Garrafada de 32 Raízes, o Guaraná Tônico e o Cura Tudo são a mesma coisa. Servem para as mesmas doenças, mas recomendo cada um de acordo com o freguês. Não vou receitar um produto de 25 reais para quem só tem condições de pagar 10. É uma questão de marketing”, explicou o pajé, com um sorriso no rosto.

Além de critérios sociais, na hora dos negócios Itaúna leva em consideração a fé do cliente. O Banho de Sete Ervas, por exemplo – aconselhado para as mais variadas enfermidades, tanto do corpo quanto da alma –, só é eficaz se a pessoa se empenhar espiritualmente. “Em três quartas-feiras, você toma banho com as ervas. Depois, num sábado, vai a uma cachoeira ou praia e reza um Pai-Nosso e uma Ave-Maria para os povos dos mares”, orientou o curandeiro a uma mulher que passava por problemas sentimentais. “Se não der certo, você vai precisar de uma garrafada específica. Aí você liga para marcar comigo, em casa ou na loja.” E entregou um panfleto, que chamava de cartão, com os números de quatro celulares, um deles já desatualizado.

 

O ervanário Toca do Pajé Tobi fica em Guapimirim, a uma hora e meia de ônibus do Centro do Rio. A cidade, erguida num local onde antes havia um povoado indígena, hoje abriga 55 mil almas. Para encontrar o estabelecimento, basta seguir os cartazes com uma fotomontagem em que Tobi Itaúna aparece de braços cruzados e expressão séria, indiferente a uma cobra que parece ameaçá-lo.

Na tarde seguinte à da sua visita ao Parque Lage, Itaúna lavava um carro na frente da loja, vestindo roupas “civis” – camiseta regata desbotada e bermuda cargo presa por um cinto de fivela de caubói. O curandeiro diz ter nascido numa aldeia indígena no Norte do país, de localização incerta. Num dia explicou que vinha de Manaus; dias depois, da longínqua São Gabriel da Cachoeira. Cerca de 850 quilômetros separam uma localidade da outra. Seus pais, contou, foram obrigados a abandonar a aldeia, expulsos por posseiros, quando ele tinha apenas 5 anos de idade.

Sua etnia é igualmente enigmática. Ele se apresenta como “tupi-guarani” – que é na verdade uma família linguística, e não um grupo étnico específico. A antropóloga Bruna Franchetto, professora do Museu Nacional, explicou, contudo, que se tornou comum, nos últimos anos, indivíduos de origem indígena se reconhecerem pela língua que falam. “Por causa de diferentes histórias particulares, como a de índios que perderam seu território e seu ponto de referência, alguns acabam identificando suas etnias pelo nome da família linguística.”

A Toca do Pajé ocupa um espaço exíguo, de aparência limpa e organizada. O lugar é escuro, iluminado por pálidas lâmpadas fluorescentes. O balcão principal tem uma vitrine em parte trincada, onde estão à mostra anéis, cordões e outros acessórios indígenas. Nos fundos, um cômodo praticamente vazio serve de “consultório” para Tobi Itaúna receber seus pacientes.

No meio da tarde, uma cliente que parecia ter pressa procurou o pajé. Portava uma lista de compras anotada num papel de caderno. Entre outras coisas, queria levar pimenta-da-costa – especiaria usada em rituais do candomblé e da umbanda. Itaúna tinha o produto, mas a freguesa se assustou ao ver o preço: 20 reais. O susto passou rápido, depois que o pajé esclareceu: “Esse preço aí não é o verdadeiro. Minha mulher colocou a etiqueta para ninguém comprar. Na verdade, sai por 5 reais.”

De religião evangélica, a mulher de Itaúna reprova o comércio de produtos voltados para os cultos afro-brasileiros. Questionei se não era estranho que um pajé tivesse casado com uma evangélica e vendesse, além de poções indígenas, itens para rituais do candomblé e da umbanda. O curandeiro aspirou o cachimbo e soltou uma nuvem de fumaça, antes de responder. “Não posso deixar um cliente insatisfeito. E preciso me sustentar. É como se eu fosse uma boia, que flutua sobre as águas junto com o movimento do mar”, esclareceu, enquanto imitava com os braços o balanço das ondas.

João Carvalho

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