o reino encantado do carteado

O pinocle, esse desconhecido

Como jogar corretamente e aproveitar todas as nuances de um divertimento cujas raízes estão firmemente encravadas em solo teutônico: uma visão histórica e ortodoxa

Amelinha Nogueira
IMAGEM: BRIDGEMAN ART LIBRARY

Em abril de 1917, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha. De imediato, o chucrute passou a se chamar “repolho da liberdade”, o pastor alemão virou “pastor alsaciano” e o pinocle foi proibido na cidade de Siracusa, no estado de Nova York. Naquele ano, longe dos olhos das autoridades, cassinos de reputação duvidosa começaram a promover jogos de biriba com baralhos incompletos e combinações de ases típicas do pinocle. Casas de repouso ofereciam aos visitantes mais abonados a oportunidade de acompanhar uma partida clandestina do amaldiçoado jogo alemão, que, de todo modo, continuava a ser praticado febrilmente nos subúrbios da cidade e além da fronteira.

Foi o ano negro do pinocle. Centenas de exemplares do clássico MacDougall on Pinochle foram queimados e uma brochura de 1896 sobre as regras do jogo foi declarada imoral e retirada das livrarias. Desde então, nada mais ficou claro no pinocle. A única coisa que se sabe é que existem vários jogos chamados pinocle, e diversos jogos a ele relacionados que não têm essa denominação. Para uns, o pinocle só pode ser jogado por duas pessoas. Mas outros aceitam três ou quatro participantes. Para outros tantos, o jogo envolve leilões (auction pinochle), leitões (pignochle), baralhos maiores, jogadores imaginários, cartas viúvas e até mesmo a prática estrita de “regras da casa”.

Desde aquele louco 1917, quando o pinocle rendeu-se à desordem e passou a ser regido por indivíduos de caráter questionável – em geral, pouco tementes às leis básicas de observância do naipe –, não se tem registro de iniciativas sérias no sentido de moralizar o jogo e resgatar os brios originais do pinocle. É o que pretendemos realizar neste modesto ensaio.

As regras que aqui se apresentam são do pinocle de raiz, tal como era praticado nos idos de 1864 (coincidentemente, o mesmo ano em que José Sarney presidiu pela sétima vez o Senado, e criou a Comissão Pinoclista Secretíssima, integrada por uma sobrinha, duas misses Maranhão, dois cunhados e meio, uma prima da vizinha da tia de dona Marly que morava em Brejal dos Guajas, uma paca macho e um tamanduá fêmea). Sabe-se de sobejo que a conspurcação do jogo não tardará, caso se perpetuem os chulismos e patuscadas do período pós-1917.

Hoje já não se encontram, por exemplo, homens como Sam Marx, pai de Groucho, que, segundo o filho, “gostava de pinocle com um ardor que a maioria dos homens reserva para a fama, a fortuna ou as mulheres”. Sam inclusive preferia a companhia de Zeppo, Chico ou Harpo, pois os três eram exímios jogadores e Groucho, tal e qual Karl, era um inútil. Hoje também não se encontram homens como Chico Marx, um dos maiores pinochlers sub-70 de todos os tempos, que costumava descartar boas cartas (com a anuência dos espectadores) apenas para tornar o jogo mais divertido. Tampouco há cientistas como o professor Quincy Adams Wagstaff, de saudosa memória, que em suas conferências sobre a corrente sanguínea declarava que “o sangue corre do alto da cabeça até a sola dos pés, dá uma espiada nesses pés e corre de volta à cabeça mais uma vez. Isso é conhecido como auction pinochle“.

Duas pessoas são necessárias para jogar o pinocle, doravante chamadas de “o mão” e “o pé”. Usam-se dois baralhos formados por nove, valete, dama, rei, dez e ás (dispostos aqui em ordem crescente). Ambos os jogadores podem embaralhar, mas o pé tem o direito de fazê-lo em último lugar, se assim lhe aprouver. O mão corta o baralho e o pé fecha o corte. Após uma pausa solene, em que os jogadores refletem sobre questões de estilo, o pé distribui doze cartas a cada pinochler e vira para cima a 25ª, que será o trunfo. O ritual preparatório do pinocle é essencial para preservar a finesse do jogo, e não pode ser suprimido nem em casos de emergência ou sururu.

Durante a passagem do furacão Charley pela Flórida, em 2004, diversas partidas de pinocle foram realizadas em um abrigo na cidade de North Port, e, noblesse oblige, em nenhuma das mesas se quebraram as formalidades preparatórias. Clarence Smith, de 103 anos, permitiu-se ignorar a própria passagem do furacão, mas não admitiu que o pé cortasse o baralho, ou que o mão distribuísse as cartas. “Não dei muita bola para a ventania”, afirmou Clarence, que passou a noite jogando pinocle na cafeteria do abrigo enquanto tomava sopa de legumes.

Há controvérsias teóricas quanto à porção de cartas distribuídas por vez a cada jogador: segundo Sázio, de quatro em quatro alternadamente; já Culbertson defende a disposição de três cartas de cada vez, começando pelo oponente. Trata-se de uma das maiores polêmicas do pinocle, que, no entanto, não será discutida neste estudo por se tratar de assunto demasiado intrincado para os leigos.

Após os procedimentos cerimoniais, o mão inicia a partida jogando qualquer carta que lhe der na veneta. O pé não tem obrigação a naipe ou trunfo, bastando que jogue alguma carta antes que o oponente (inadvertidamente) cochile, o que costuma acontecer com frequência em partidas de pinocle – dada a longevidade dos praticantes. A carta de abertura e a carta jogada em seguida constituem uma vaza. O vencedor da vaza ganha o direito de declarar as combinações de cartas (meld) que tiver na mão. Para tanto, é necessário que o perdedor admita o fracasso e ordene, em alemão: “Anuncia!”, no modo imperativo da segunda pessoa do singular, podendo ou não olhar feio para o adversário.

As combinações no pinocle são predominantemente casamenteiras: damas e reis do mesmo naipe juntam-se em um matrimônio mixuruca (vinte pontos) ou em bodas reais (o dobro, quando os noivos têm sangue de trunfo), e por aí afora. No entanto, a meld mais festejada é o pinocle, algo como um noivado improvável (dama de espadas e valete de ouros, quarenta pontos), que dá ao vencedor o privilégio de chacotear livremente o oponente e de roubar seus comprimidos de vitamina C. O jogador que alcançar primeiro um total de mil pontos [1] é proclamado Mr. ou Mrs. Pinochle (os paraguaios, esses puristas, usam as denominações Guapa Señora e Distinguido Señor, o que lhes valeu o banimento de Assunção dos torneios internacionais já antes do atroz ano de 1917).

Não nos renderemos, entretanto, à ignorância e ao desleixo dos maledicentes, essas almas mesquinhas. Tampouco navegaremos à deriva dos invencioneiros de modismos e dos derrotistas do belo carteado. Não nos deixaremos levar pelas águas turvas e sebosas dos acomodatícios da incúria oficial e do desmazelo didático, dos propagandistas de tumulto, daqueles que querem melifluamente conspurcar a imagem altaneira do Senado, guardião da democracia e do bem-estar da família brasileira. Na seção a seguir, apresentaremos elementos históricos e científicos com vistas a resgatar a ilustração original deste jogo notável.

 

Nota prévia 1 (que na verdade deveria ter entrado logo no começo deste despretensioso ensaio, mas não soubemos como encaixá-la): a pronúncia afetiva do jogo é pinócle. Em inglês se diz peaknuckle, e se aceita inclusive essa grafia. Há uma menção ao jogo em O Poderoso Chefão, feita pelo personagem Clemenza (aquele gordo meio careca interpretado por Richard S. Castellano), e ele diz peaknuckle.

 

Nota prévia 2: depois de uma madura discussão, na qual terçamos armas e trocamos insultos conosco mesmos, decidimos ignorar Sázio nas questões históricas e de ortodoxia. Além da falta de objetividade e das muitas omissões que lhe são características, nota-se em Sázio disposição em atribuir um caráter romântico a todo mistério que cerca o pinocle. Debruçando-se sobre os compêndios de Sázio, fica-se com a impressão de que o pinocle tem origens místicas, quase religiosas, e que é oriundo de vontades superiores. Teóricos hodiernos – e poderíamos citar Culbertson e Resnicoff em nosso socorro, se de socorro necessitássemos – já superaram essa funesta idiotia, e neles encontramos subsídios para nossa investigação.

 

Nota prévia 3: a idéia de que o pinocle é uma “divisão” da família besigue e de que sua autonomia enquanto jogo é apenas geográfica, como defende o estulto Culbertson, é no mínimo tola, mas se encontra disseminada como uma praga na verdejante fortuna crítica do jogo. Ao contrário de fazer graçolas em matéria de carteado e difundir histórias especiosas (e, ao fim e ao cabo, não genuínas), deveriam esses chocarreiros estudar um pouco mais de pinocle, em suprimento do acanhado poder de raciocínio. Ironicamente, o único que se preza a defender o pinocle como uma evolução do besigue é Sázio.

Ao assunto: o pinocle tem a infelicidade de ser singularmente desconhecido na Europa. Na França, tem o direito de ser uma variação menor do besigue, porque passa por bom divertimento alemão. Na Alemanha, goza da reputação de ser um jogo antipatriótico, porque passa por uma das mais vigorosas formas do besigue francês. Nós, que não somos alemães, consideramos o Tratado de Versalhes um equívoco e tampouco apreciamos o besigue, gostaríamos, data maxima venia, de protestar contra esse duplo erro.

Mas, a fim de evitar o pinoclês hermético que é comum aos iniciados, pouparemos o leitor das discussões menores e da fofocaiada acadêmica que em geral acompanha o debate histórico – entendeu, fräulein Sigfrida? Isso posto, consideremos primeiro a origem do besigue – e seus laços ancestrais com o pinocle – em Culbertson. O Completo Manual nos diz que o besigue surgiu na Escandinávia de Ibsen e que de lá tomou Paris de Dumas e depois a Alsácia do fondue e da raclette, sem desdouro para os seus vinhos brancos. De suas vinte variações, apenas uma teria atingido a condição de jogo autônomo – eis o pinocle. Do dia em que o besigue se tornou popular na França até sua total evolução ao pinocle, passaram-se quatro anos, dois meses, sete dias e algumas horas.

Enquanto isso, o besigue se desmembrou em outras vinte modalidades, cada uma com mais cartas do que a anterior. Até hoje, jogadores sérios de besigue desenvolvem estranhas técnicas para segurar suas cartas, que envolvem inclusive as orelhas e os dedos do pé. Jogadores aplicados de pinocle discutem estratagemas, meandros insidiosos. Em pouco tempo, o pinocle superou o besigue no cenário internacional, a ponto de ganhar, em 1880, seu próprio baralho. O problema desse raciocínio, no entanto, é que, na visão ignara e simplista (para não dizer estúpida) de Culbertson, toda a história do pinocle se resume a uma mudança de nome. O Completo Manual ainda sugere, de maneira sinistramente velada, prenhe de insinuações escabrosas, que o besigue só teve que adotar a alcunha de pinocle porque ganhou autonomia nos Estados Unidos, onde não teriam acatado a influência francesa. É como se o autor tapasse os olhos – não se sabe se por falta de caráter ou discernimento – para a controvérsia que cerca as raízes germânicas do pinocle. E, graças ao prestígio de que goza nos círculos de eucre [2] e bridge, Culbertson ainda arrastou consigo toda uma geração de teóricos incautos para o obscurantismo.

Pois há aqueles que recusam a idéia de que o pinocle é apenas o enfant terrible da família besigue. Philip Hal Sims foi o primeiro a afirmar, no seminal Pinochle Pointers, de 1935, que “não deveríamos nos esquecer de Baden-Württemberg, região sul da Alemanha”. Lá, segundo o autor, imigrantes suíços e refugiados franceses, na companhia de sete alemães, inventaram o binokel, um pinocle primevo que teria sobrevivido até os dias de hoje sob a alcunha de Jaß. É um argumento admirável e, além disso, encontra respaldo no trabalho de muita gente bem-intencionada.

Dado que as regras do pinocle em nada se assemelham às do binokel e que, nesse campo, o parentesco com o besigue é inegável, Hal Sims e sua alcatéia deletéria nos querem fazer crer que o pinocle se deu ao trabalho de imigrar da Suíça para a Alemanha. Ali, teria travado um improvável encontro com refugiados franceses e conheceu o besigue, em vez de surgir na França de vez, sem a interferência sabidamente perniciosa dos suíços, e com o conforto de se encontrar refugiados franceses por toda a parte (os chamados emigrados internos). Tendo em conta que o pinocle não é jogado na Europa e que só se tornou popular nos Estados Unidos, sabemos apenas que, em algum momento, imigrantes falando alemão – ou iídiche, as fontes diferem – cruzaram o Atlântico com brochuras nas malas, a cabeça cheia de sonhos e a febril determinação de jogar pinocle.

Embora muito tenha sido dito sobre a origem e as rotas migratórias do pinocle, e sobretudo da influência que teve na cultura americana, [3] não há registros claros de sua chegada à Ucrânia. Sabe-se que foi num sábado, que duas pessoas participaram do jogo e que, por um erro na tradução para o russo do Completo Manual, de Ely Culbertson, o primeiro pinocle ucraniano foi jogado com as cartas de número oito do baralho. Como a tabela de pontuação não comportava oitos de naipe algum, os dois visionários pinochlers – cujos nomes, reza a tradição, desconhecemos – ficaram extremamente confusos.

A partir daí, há versões, umas mais dramáticas e outras quase místicas. Em todos os relatos, conta-se que a partida não chegou ao fim, em circunstâncias mal esclarecidas. O fato é que, apesar dos reis, rainhas e valetes, de seus casamentos e de toda a pompa e realeza inerentes ao jogo, não há evidências de que os ucranianos não sejam grandes pinochlers, tampouco de que o jogo em si não desfrute de popularidade entre os locais. Se, como disse o Westminster Papers (Vol. III, 1870), a calabrasella é “o jogo nacional italiano”, então o pinocle é o jogo nacional da Ucrânia.

 

[1] Há diversas nuances à regra, inexprimíveis em tão curto espaço e sem os diagramas adequados.

[2] O eucre foi o primeiro jogo a usar o curinga, fato que Culbertson narra com destreza: “Junta-se um curinga ao baralho.”

[3] Segundo o New York Times, os Clinton são grandes jogadores, tendo aprendido o pinocle com Bill Cosby. Segundo certas fontes (vá lá: o Google), o pinocle é praticado em 90% das casas de repouso norte-americanas, perdendo apenas para o bingo.

Amelinha Nogueira

Amelinha Nogueira é escritora e colaboradora das revistas Tricô Moderno e Bolos Brasil. Traduziu A Casa dos Beijinhos, da Companhia das Letras.

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