esquina

O rei da sucata

Nas entranhas de um ferro-velho

Henrique Araújo
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

Passava um pouco das 10 horas quando a caminhonete encostou no número 668 da avenida Sargento Hermínio, na periferia de Fortaleza. Abarrotada, trazia o lote de peças para motocicletas que Francisco Alves de Oliveira aguardava desde a semana anterior. Da calçada, com uma camisa de flanela aberta até o peito e um par de chinelos gastos, o paraibano de Catolé do Rocha autorizou o desembarque da carga. Antes, se certificou de que estava tudo lá. “Válvulas, amortecedores, eixos para direção…”, dizia baixinho enquanto espiava algumas das quase cem caixas de papelão que, juntas, acondicionavam cerca de 2 mil peças. O carregamento havia saído de Manaus e percorrido mais de 4 mil quilômetros até chegar à Zona Leste de Fortaleza naquela manhã de sábado.

“Vou expandir a clientela. É muito bom diversificar”, festejou Oliveira, que tem dedicado praticamente 50 dos seus 78 anos às sucatas. Proprietário do maior ferro-velho do Ceará – “do mundo”, corrigiu –, ele sempre gostou de lidar com peças de automóveis. Recentemente, porém, resolveu abrir o leque para as de motocicletas. Não por acaso: existem mais motos do que carros no estado. São 1,32 milhão contra 1,12 milhão, segundo o Detran cearense.

Montada num galpão de 25 mil metros quadrados e três pavimentos, que ocupa dois quarteirões, a Sucata Chico Alves se tornou lendária em Fortaleza – e não apenas por atrair motoristas profissionais, mecânicos e fãs de automobilismo. O estabelecimento também comercializa janelas com basculantes (a partir de 100 reais), vasos sanitários seminovos para casa de praia (entre 100 e 200 reais), sanduicheiras da marca George Foreman em bom estado (50 reais) e mais uma infinidade de quinquilharias. Como o ferro-velho ainda não se informatizou, seus quinze funcionários penam um bocado para localizar os itens postos à venda. Oliveira parece ser o único capaz de encontrar rapidamente qualquer mercadoria.

 

Filho de uma lavradora com um cigano que negociava couro, o paraibano revelou aptidão para o comércio já na infância. Ele conta que mal havia completado 5 anos quando conseguiu trocar uma espingarda do pai por uma mula. Aos 7, ajudava a família vendendo rapadura e biscoitos em Brejo dos Santos, a 10 quilômetros de Catolé do Rocha. Em 1965, no início da juventude, deixou a Paraíba, se fixou em Mossoró (RN) e montou uma frota de táxis. Chegou a reunir dez carros. A praça, no entanto, acabou desandando e, por um triz, não levou Oliveira à falência.

Em busca de dias melhores, ele migrou novamente, agora para São Luís, no Maranhão. Lá continuou apostando em táxis e voltou a prosperar. No auge do negócio, gerenciava treze automóveis. Só que a maré virou outra vez. Os ganhos despencaram, os custos subiram, e Oliveira decidiu partir para Fortaleza, onde afinal se aprumou. Passou a ter trinta táxis rodando pela cidade. Com a intenção de baratear e apressar o conserto dos carros que viessem a quebrar, estocava peças obtidas em oficinas mecânicas e lojas autorizadas. Foi uma bola de neve.

“Comecei guardando as tralhas no banheiro de casa”, relembrou. “Juntava para-lama, radiador, para-choque… Uma hora, faltou espaço.” Os itens, então, avançaram pelo quarto e pela sala. “Minha mulher não reclamou. Ela sabia que, para viver comigo, tinha que gostar de sucata.” A paraibana Eliete Francisca de Oliveira, com quem o comerciante gerou quatro filhos, morreu na década de 90.

“Um dia, vi uma placa de ‘vende-se’ neste terreno”, prosseguiu, firmando os pés no corredor principal do ferro-velho. “Era um solo bem encharcado. Precisamos de muita areia para aterrar a área e começar a construir.” O primeiro tijolo assentado data de 1972. Por um tempo, as sucatas disputaram espaço com os táxis na economia de Oliveira. Mas em 1975 o negociante concluiu que seria mais lucrativo abrir mão da frota. Hoje, com os filhos já criados – uma advogada, uma médica, um estudante de direito e um administrador de empresas –, ele dorme e acorda no trabalho. Incansável, despacha dia e noite.

A Sucata Chico Alves recebe novos lotes de mercadorias pelo menos três vezes por semana. “Compro de todo canto”, contou o comerciante. De tão gigantesco, o ferro-velho virou um problema para a prefeitura de Fortaleza. Muitos dos itens oferecidos ali ficam ao relento e podem acumular água durante o período chuvoso. Representam, portanto, um desafio para o extermínio do Aedes aegypti, o mosquito transmissor de doenças como a dengue, a zika e a chikungunya.

De acordo com o agente de combate às endemias do município, Luís Carlos Ribeiro, o estabelecimento já sofreu diversas autuações. “Ainda não conseguimos ter acesso a várias partes dele”, lamentou. Mas também frisou que ultimamente a sucata vem procurando se adequar às regras sanitárias. Não raro, a prefeitura visita o local e borrifa larvicida nos pontos mais críticos.

 

Suado, um dos dois homens que descarregavam as peças de moto recém-adquiridas chamou Oliveira. Queria saber se poderia colocar uma caixa sobre outras dispostas no corredor do ferro-velho. De pé na calçada, o sucateiro se enfezou: “Não ponha ali, não! Vai espatifar tudo.” Era meio-dia, e o ritmo lento do desembarque aumentava a irritação de Oliveira. “Se eu não ficar em cima, não fazem nada direito.”

Dentro do estabelecimento, alguém gritou: “Seu Chico, vem até aqui. É cliente!” O comerciante se dirigiu de pronto ao freguês, que parecia desolado. Havia percorrido inúmeras oficinas à procura de uma peça para o carro enguiçado. Em vão. “Tenho um Astra. Sabe o reservatório do óleo de freio? Preciso de um”, explicou. Oliveira encaminhou a demanda para um funcionário, que enveredou pelos labirintos da loja. Voltou após quinze minutos, de mãos abanando. “A peça está em falta”, sentenciou.

Em falta?! Na Sucata Chico Alves nunca faltou absolutamente nada. “Volte daqui a alguns dias”, pediu Oliveira ao cliente. “Até lá, vamos encontrar o reservatório.” Depois, em voz baixa, resmungou: “Eu sei que tem. Basta procurar! Mas o rapaz é preguiçoso… Se eu for atrás, aposto que acho.”

Henrique Araújo

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