diário

O rio subterrâneo

Veremos o que acontece com a minha vida. Talvez este ano seja decisivo, embora não haja anos decisivos

Ricardo Piglia
Os únicos que acreditam nas notícias dos jornais, diz meu pai, são os jornalistas. É verdade, diz minha mãe, contente, muito participativa: só quem escreveu acredita no que leu
Os únicos que acreditam nas notícias dos jornais, diz meu pai, são os jornalistas. É verdade, diz minha mãe, contente, muito participativa: só quem escreveu acredita no que leu FOTO: ESTELLA HERRERA

Aos 3 anos intrigava-o a figura de seu avô Emilio sentado na poltrona de couro, ausente num círculo de luz, os olhos fixos num misterioso objeto retangular. Imóvel, parecia indiferente, calado. Emilio o menino não entendia muito bem o que estava acontecendo. Era pré-lógico, pré-sintático, era pré-narrativo, registrava os gestos, um por um, mas não os associava; simplesmente imitava o que via fazerem. Então, naquela manhã, subiu numa cadeira e pegou um livro azul numa das estantes da biblioteca. Depois foi até a porta da rua e sentou-se na soleira com o volume aberto sobre os joelhos.

Meu avô, disse Renzi, saiu do campo e foi morar conosco em Adrogué quando minha avó Rosa morreu. Não trocou a página do almanaque, que estacionou no dia 3 de fevereiro de 1943, como se o tempo tivesse parado na tarde da morte. E o apavorante calendário, com o bloco dos números fixo nessa data, esteve anos lá em casa.

Vivíamos num bairro tranquilo, perto da estação ferroviária, e a cada meia hora passavam por nós os passageiros que haviam chegado no trem da capital. E eu ali, na porta, me exibindo, quando de repente uma longa sombra se inclinou e me disse que o livro estava de cabeça para baixo.

Acho que deve ter sido o Borges, dizia Renzi, rindo, naquela tarde no bar da esquina da Arenales com a Riobamba. Na época ele costumava passar os verões no hotel Las Delicias – porque quem mais, senão o velho Borges, poderia ter a ideia de fazer essa observação a um menino de 3 anos?

 

Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor? Não se trata de uma vocação, que ideia mais esdrúxula, nem de uma decisão; é mais como uma mania, um hábito, uma dependência… se a pessoa não faz aquela coisa se sente muito mal, mas precisar fazê-la é ridículo, e no fim a coisa se transforma num modo de vida (como qualquer outro).

Lembro-me de onde estava, por exemplo, quando li os contos de Hemingway: tinha ido até o terminal rodoviário acompanhando Vicky, que na época era minha namorada e ia viajar, e ao lado da plataforma, numa galeria envidraçada, sobre uma mesa de saldos, dei com um exemplar usado de In Our Time na edição da Penguin. Não faço ideia de como o livro fora parar ali, talvez um viajante o tivesse vendido, talvez um inglês com chapéu de explorador e mochila seguindo viagem para o sul o tivesse trocado, digamos, por um guia Michelin da Patagônia – vai saber. O que eu sei é que voltei para casa com o livro, me atirei numa poltrona e comecei a lê-lo, e fui indo, fui indo enquanto a luz ia mudando e terminei quase no escuro, no fim da tarde, iluminado pelo reflexo pálido da luz de fora filtrada pela cortina da janela. Eu não saíra do lugar, não quisera me levantar para acender a lâmpada para não quebrar a magia daquela prosa. Primeira conclusão: para ler é preciso aprender a parar quieto.

A primeira leitura, a noção, sublinhou, de primeira leitura é inesquecível porque nunca se repetirá e é única, mas seu caráter de epifania não depende do conteúdo do livro e sim da emoção que ficou gravada na lembrança. Associa-se com a infância: por exemplo, no capítulo de Combray em Swann, Proust regressa à paisagem esquecida da casa da infância transformado outra vez em menino e revive os lugares e as deliciosas horas dedicadas à leitura que começavam pela manhã e iam até o momento de ir para a cama. A descoberta se associa à inocência e à infância porque perdura depois que esta acaba. Perdura até além da infância, repetiu, a imagem perdura com a aura da descoberta, em qualquer idade.

Estudo inglês com miss Jackson, viúva de um alto funcionário da Ferrocarriles del Sur, que mora sozinha num sobrado e publicou no La Prensa duas ou três traduções de Hudson. Ela nos dava aulas particulares (ganhava a vida assim porque não dava para saber se a pensão ia ser paga em dia, queixava-se). Nossa primeira leitura – assistidos por ela – é o livro de Hudson sobre as aves da região do rio da Prata. Uma tarde, acompanhados por ela, visitamos Los Veinticinco Ombúes, casa natal do escritor, a poucos quilômetros de Adrogué. Fomos de bicicleta, ela com sua bela saia parecia ir de perfil, como se cavalgasse de lado, a saia de meio-luto ao vento. Oh, a imaginação, oh, as lembranças, recitou Renzi, àquela altura já um pouco bêbado.

A inglesa sente falta de Londres, mas principalmente da África do Sul (Rodésia, diz), onde o marido passou cerca de dois anos. A savana infinita, os macacos de cara branca e os pelicanos de elegantes patas avermelhadas. Mostrava-nos fotos de seu casarão de troncos perto do rio, ao lado de um trapiche; deveríamos descrever em inglês o que estávamos vendo.

Era uma mulherzinha simpática, irascível, nada convencional: se algum de nós soltava um peido – sorry –, punha-nos em fila e cheirava nosso ass. Um por um, até descobrir o culpado, que era levado no ato pela orelha até o pátio. Parece uma cena de Dickens, uma troca súbita de tom num romance de Muriel Spark. Guardo até hoje a velha edição de Birds of la Plata, com notas escritas à margem por miss Jackson. Há um círculo em torno da palavra peewee e ao lado, com sua minúscula caligrafia de formiga, ela anotou a definição: A person of short stature.

 

Tinha um método imediato e cálido de criar intimidade, o Borges, disse Renzi, sempre foi assim com todos os seus interlocutores: era cego, não os via, e falava com eles como se fossem próximos, e essa proximidade está em seus textos; ele nunca é paternalista nem assume ares de superioridade, dirige-se a todos como se todos fossem mais inteligentes do que ele, com tantos subentendidos em comum que não há necessidade de sair explicando o que já é sabido. E é essa intimidade que sentem seus leitores.

Encantou-o o convite de ir a La Plata, pensava falar sobre os contos fantásticos de Lugones, o que eu achava?, disse, perfeito, respondo, aliás, Borges, veja só, a gente vai lhe pagar, não sei qual era a quantia naquele momento, digamos que uns 500 dólares.

“Não”, diz ele, “é muito.” Fiquei sem saber o que dizer, veja, Borges, digo a ele, a grana não é nossa, não é dos estudantes, a Universidade nos deu um dinheiro. “Não tem importância, vou cobrar 250.”

E continuamos conversando, ele continuou conversando, já não me lembro se sobre Lugones ou sobre Chesterton, mas o que sei é que me senti tão à vontade, tão próximo dele, com aquela sensação de leveza, de inteligência plena e de cumplicidade, que depois de algum tempo, quase sem me dar conta e falando do final dos contos de Kipling, digo a ele, encorajado pelo clima de intimidade e grato pela sensação de estar falando com alguém de igual para igual: “Sabe, Borges, acho que há um problema no final de ‘A forma da espada’.” Ele ergueu o rosto para mim, atento.

“Um problema”, disse ele. “Caramba, o senhor quer dizer um defeito…”

“Tem uma coisa sobrando.”

Ele olhava para o ar, agora, jovial, expectante.

O conto narra com uma técnica que Borges já utilizara em “Homem da esquina rosada” e voltaria a utilizar depois: é contado por um traidor e assassino como se fosse outro. O sujeito que conta tem o rosto marcado por “uma cicatriz rancorosa” e circular. Em certo momento da história, ele enfrenta um adversário que lhe marca a face com uma espada curva. Nesse momento o leitor se dá conta de que o traidor é ele, porque a cicatriz o identifica. Borges, porém, vai em frente com o relato e o encerra com uma explicação: “Eu sou Vincent Moon, agora pode me desprezar.”

“O senhor não acha que essa explicação é desnecessária? Ela está sobrando, na minha opinião.”

Houve um silêncio. Borges sorriu, compassivo e cruel.

“Ah”, disse. “O senhor também escreve contos…”

Eu tinha 20 anos, era arrogante, era mais idiota do que sou hoje, mas me dei conta de que a frase de Borges queria dizer duas coisas.

Normalmente, se alguém o abordava na rua para dizer-lhe “Borges, sou escritor”, ele respondia “Ah, eu também”, afundando o interlocutor no nada. Um pouco dessa delicada maldade e um pouco de tranquila soberba tinha a frase “Esse mocinho impertinente imagina que escreve contos…”.

A outra afirmativa era mais benévola e talvez quisesse dizer: “O senhor já lê como se fosse um escritor, entende o modo como os textos foram construídos e quer ver como são feitos, ver se consegue fazer algo parecido ou, na melhor das hipóteses, algo diferente.” Escrever, dizia-me ele, modifica sobretudo a maneira de ler.

 

 

PRIMEIRO DIÁRIO (1957–58)

SEGUNDA-FEIRA_Minha mãe tem um bruxo particular, chama-o de dom José mas eu, para provocar, chamo-o de Yambo, o sujeito não me agrada nem um pouco. Pele pálida, olhos de peixe, deve ser meio umbandista (um pai de santo). Mamãe já o consultava em Buenos Aires; o sujeito avisou-a em setembro que papai seria preso, mas ele não levou a informação a sério e ela não o perdoa por isso. Agora veio especialmente até Mar del Plata, tem clientes por aqui, está no hotelzinho perto de casa, na España quase esquina da Moreno. O sujeito fala e faz previsões. Não põe o tarô, não olha a bola de cristal, diz o que lhe vem à cabeça. À noite, jantando, mamãe diz que ele lhe disse que ela iria morar num lugar frio. Em Ushuaia enquanto papai continuar em cana, digo-lhe. Ela acha graça. “Não me venha com lorotas” (quando está esquisita usa essas palavras doidas). Agora está lendo Knut Hamsun (a coleção encadernada em azul da Aguilar em papel-bíblia com cinco ou seis romances por volume). “Fome, vocês (pluraliza) precisam ler (diz sem fazer referência a ninguém em especial) para entender o que é apertar o cinto.” (“Você pode me dizer o que a gente está fazendo nesta cidade ignominiosa?”) Cidade ignominiosa, nada mal.

QUINTA-FEIRA_Se estou entediado e passo o dia sem falar com ninguém, deixo-me levar por impulsos assassinos. Hoje empurrei um velho meio capenga em quem tropecei na rua Mitre. “Não fique na minha frente, por favor”, eu disse a ele, e enquanto ele se desculpava amavelmente apliquei-lhe uma cotovelada de viés estilo judô que o deixou arfante e meio abaixado ali perto da igreja; ainda há pouco arremessei o gatinho na parede, ele quicou como uma bola e soltou um miado de pavor, com todos os pelos arrepiados e as quatro patas abertas a 1 metro do chão, e assim que caiu mergulhou embaixo da cômoda (onde está até agora), e isso que o gato é meu, Fermín, e gosto do jeito como ele fica olhando um tempão para o teto. Não respondo à pergunta de mamãe e ela fica furiosíssima. Veja bem, Emilio, não é do seu interesse se fazer de engraçadinho comigo. Ela fala Emiiliiio quando está brava, como se estivesse raspando um vidro (Emiiliiio), do contrário me chama de Filho ou de Nene ou de Em e me diz “o senhor” (e isso me deixa enfurecido). Em minha família é muito comum uns chamarem os outros de senhor, sempre dá a impressão de que estão de gozação com você. “De vez em quando o senhor nos mande seus pareceres”, me disse tio Mario quando me despedi.

DOMINGO_No bar do Ambos Mundos com o pessoal do cineclube está o Inglês, alto, de chapéu, gabardine branca (um disfarce), fala com muito sotaque, trabalha no porto numa empresa norte-americana exportadora de peixe; embarcou no Alasca, dizem que é um escritor conhecido em Nova York, Steve M. Sempre fala de brincadeira. Ontem à noite mostrou uma carta de seis páginas e disse que era de Malcolm Lowry. Parece que sua tese era sobre À Sombra do Vulcão, escrita em 1953, na Columbia (a primeira tese do mundo sobre o romance, disse, como se fosse um ato heroico). Aqui ninguém conhece esse livro, embora Oscar Garaycochea, que é um gênio, tivesse se lembrado de Farrapo Humano, o filme de Billy Wilder, porque havia uma referência a Lowry na revista Sight & Sound. “É verdade”, disse Steve, “o Lowry quase ficou maluco quando esse filme entrou em cartaz.” Conheceu-o pessoalmente, visitou-o no Canadá, e Lowry passou uma semana no apartamento de Steve no Brooklyn. Era preciso esconder o uísque, segundo Steve, que enquanto isso vai se embriagando devagar. Lowry bebeu seu frasco de loção pós-barba. Mente? Pode ser, é brilhante, muito divertido, e já traçou todas as garotas do 5º ano do Nacional que frequentam este local à tarde.

Anotei algumas coisas que ele falou: “Lowry não era um romancista, era um escritor autobiográfico puro, escrevia diversos diários pessoais, frenético escritor de cartas.” De À Sombra do Vulcão, fez sete versões. Disse que vai nos dar o romance se a gente ler no bar. “Alugo ele”, disse, “proibido emprestar.” O romance se passa no México.

21 DE MAIO DE 1958_Notícia nos jornais de hoje. Lado A: “Um submarino de nacionalidade desconhecida foi atacado pela marinha de guerra argentina no Golfo Novo. A embarcação avariada conseguiu escapar.” Lado B: “O almirantado britânico anunciou que o submarino Avhros foi avariado em águas do oceano Atlântico por um avião não identificado.” Os únicos que acreditam nas notícias dos jornais, diz meu pai, são os jornalistas. É verdade, diz minha mãe, só quem escreveu acredita no que leu. Ultimamente ela está genial, a Ida, mais contente, muito participante. No outro dia, disse: “Meu cérebro funciona frio, por conta própria, como se estivesse na geladeira.”

QUARTA-FEIRA_Fui à escola, me recusei a participar da cerimônia da bandeira. Na aula de francês, a professora me emprestou A Náusea, de Sartre. Leio até a metade, num impulso, na saída, no bar. Notável a cena da maçaneta da porta, Roquentin olha para ela como se ela fosse um bicho, tem vida e é uma coisa (morta). Não tem coragem de encostar a mão nela.

DOMINGO_Steve se interessa ao saber que meu pai é médico e que já esteve na prisão. Só quem já esteve na prisão pode falar em doença, diz. Quer que meu pai seja seu médico particular. Os dois começam uma conversa fantástica sobre o álcool. Incidentalmente, diz meu pai, tudo o que já se escreveu sobre a bebida é absurdo. É preciso começar de novo desde o início. Beber é uma atividade séria, desde sempre associada com a filosofia. Aquele que bebe, diz Steve, procura desarmar uma obsessão. Primeiro é preciso definir a magnitude da obsessão, diz meu pai. Não há nada mais belo e perturbador do que uma ideia fixa. Imóvel, estática, um eixo, um polo magnético, um campo de forças psíquico que atrai e devora tudo o que encontra. Alguma vez o senhor já viu uma luz imantada?, pergunta Steve. Engole todos os insetos que se aproximam dela, trata-os como se fossem de ferro. Vi uma mariposa voejar interminavelmente no mesmo lugar até morrer de cansaço, diz meu pai. Todos falam em obsessões, diz Steve, ninguém as explica exatamente como são. A obsessão se constrói, diz meu pai, vi obsessões sendo construídas como castelos de areia, não é preciso mais que um acontecimento que altere nossa vida drasticamente. Um acontecimento ou uma pessoa, diz meu pai, que sejamos incapazes de concluir se mudou nossa vida para o bem ou para o mal. A estrutura de um paradoxo, diz Steve, um acontecimento dúplice ou vacilante em seu ser. Nos marca, mas é moralmente ambíguo. A pessoa se move na direção do futuro, diz meu pai, descentrada, sem orientação, fora do caminho no qual se moveu no passado. Uma amputação, diz meu pai, do sentido de orientação. A obsessão nos faz perder o sentido do tempo, passado e remorso se confundem.

A prisão é uma fábrica de relatos, diz meu pai. Todos contam, repetidamente, as mesmas histórias. O que faziam antes, mas principalmente o que vão fazer depois. Uns ouvem os outros compassivamente. O que importa é narrar, não importa se a história é impossível ou se ninguém acredita nela. O oposto da arte do romance, diz Steve, apoiado na ilusão de transformar os leitores em fiéis. Seria preciso estar fora do mundo da prisão, diz meu pai, para interessar-se pelo relato dos presos. Mas são justamente esses os relatos destinados aos que partilham a prisão. Também nisso eles se distanciam da arte do romance, diz Steve. As histórias pessoais só devem ser contadas aos estranhos e aos desconhecidos.

 

SEGUNDO DIÁRIO (1959–60)

2 DE NOVEMBRO DE 1959, SEGUNDA-FEIRA_Viajamos para o litoral antes do começo do verão; nada como o finzinho da primavera, quando os dias escuros do inverno se foram e a praia está vazia. Sempre vou para La Perla, sigo direto pela Independencia até o litoral. Fiquei amigo de Roque, um ex-banhista, um salva-vidas aposentado que continua indo para a praia e que fica atento para que ninguém corra perigo. Manca de leve e anda se requebrando um pouco, mas quando está na água nada feito um golfinho, é elegante e veloz. “Teríamos de viver na água”, me diz, e fica elucubrando. “Dela viemos e cedo ou tarde voltaremos a viver nos oceanos.”

Toma conta de um hotel desativado que fica na colina, na frente do parque, um grande edifício pintado de azul: Hotel del Mar. Fui visitá-lo uma ou duas vezes, são quartos e mais quartos vazios ao longo de um corredor. Dorme em diferentes camas; assim, ao que diz, mantém os quartos arejados. Anda sempre com um rádio portátil Spica, que ouve o tempo todo. Me diz que quando jovem foi cantor, me mostra um cartão-postal onde aparece vestido de gaúcho, de chapéu, tangendo um violão; no alto, no canto esquerdo, há uma bandeirinha argentina. Na legenda está escrito: Agustín Peco, Cantor Nacional. Isso foi nos anos 40, quando havia um “número ao vivo” nos cinemas, e artistas de diferentes áreas, de cima do palco, distraíam o público no intervalo entre uma sessão e outra. Roque cantava o repertório de Ignacio Corsini, milongas e canções campeiras com letra de Héctor Blomberg, com temas da época de Rosas. Uma vez, na praia, um pouco alto depois do almoço, ele cantou para mim, ao sol e a capela, La Pulpera de Santa Lucía, que é uma das canções favoritas de meu pai.

4 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_Ontem uma mocinha, estendida sobre uma lona amarela na praia vazia, olhava para mim. É de Buenos Aires, veio com a mãe passar uns dias. Nos entendemos num instante. O nome dela é Lidia, é bonita e simpática. Beijei-a na escadaria que leva até a casa, onde havíamos nos sentado. “Não se apresse, passarinho”, ela me disse, e depois, como se falasse sozinha: “Um beijo de amiga não aumenta a barriga.”

DEZEMBRO, QUARTA-FEIRA_Li ontem à noite O Capote, de Gógol (“Todos nós saímos do Capote de Gógol”, disse Dostoiévski), com seu tom de uma oralidade raivosa, inesquecível. Mas Kafka também vem daí: o drama cômico gira em torno de um casaco. É um pouco como os sonhos, nos quais um objeto insignificante – perdido, encontrado, vislumbrado – produz efeitos demolidores. A menor causa gera consequências brutais. Grande estratégia narrativa: os fatos não importam, o que importa são suas consequências. Aqui a espera nas repartições públicas é narrada com o espanto alegre de uma épica legendária.

24 FEVEREIRO DE 1960, QUARTA-FEIRA_Continua na área, circulando, o bruxo particular da minha mãe. Ela se diverte dizendo que ele é muito mais barato do que um psicanalista e que quase sempre prevê exatamente o que ela deseja que aconteça. Dom José, a quem dei o apelido de Yambo como se ele fosse um feiticeiro africano, tem a pele muito branca, um jeito de sorrir inclinando o corpo para a frente, joias nos dedos e no pescoço, maneiras perigosamente suaves e uma certa loucura oculta que o envolve como um tule. Hoje sentou-se à mesa conosco para almoçar e enquanto conversava começou a pregar e a prever meu futuro em La Plata: segundo ele, já comecei muito bem o ano passado e este ano as coisas vão ficar ainda melhores. Está convencido de que meu interesse central não é só o estudo, mas também um rio oculto que vê com nitidez mas que não sabe descrever. Devo tomar cuidado com os ativistas políticos e ser amável com as mulheres. Agradeci o diagnóstico e lhe disse que ia anotá-lo em meu caderno com urgência, hoje mesmo, para consultá-lo daqui a alguns anos (que é o que farei). Espero que o rio subterrâneo seja uma metáfora da literatura, mas não sei.

26 DE FEVEREIRO, SEXTA-FEIRA_Estou em apuros, penso o tempo todo nas consequências dos meus atos mais cotidianos e triviais. Os trajetos que percorro sem saber o que pode acontecer comigo. Pensamentos impossíveis, sem solução: “Se eu não tivesse sido parado por aquele carro ao atravessar a rua, se não tivesse dobrado a esquina…” A vida é uma cadeia de encontros casuais, mas tratamos de explicá-los para nós mesmos como se as opções tivessem sido nossas desde o começo. Caminhos que “parecem” casuais mas que são o resultado de todo um estilo de vida. Se pensarmos em tudo o que aconteceu de novembro para cá, desde que conheci Lidia, veremos com clareza que os acasos foram rigorosamente programados por mim para obter exatamente aqueles resultados.

Obviamente saí a sua procura pela cidade inteira, espécie de caminhada dostoievskiana que culminou na esquina do hotel a que sempre íamos. Depois, ao voltar na direção do litoral, na frente do edifício das sacadas pendentes, vi-a passar de novo, vestida de branco e com ar distraído. Moral da história: ela existia para mim durante todos os momentos do dia desde que se fora, vê-la era secundário. Eu havia “deixado de ser” para ela desde o momento de sua partida: era lógico que ela hoje olhasse “através de mim”, sem me ver, como se eu fosse uma cadeira, ou uma árvore, porque eu estava mergulhado na contingência, já que ela havia resolvido se casar e mantinha uma relação “necessária” com o mundo. Para mim, ao contrário, o que importava dela era sua presença em mim.

O que eu não suporto é pensar que no dia 16 Lidia telefonou e eu estava lendo idiotices na biblioteca. Claro que ela poderia ter ligado de novo. Mas prefiro pensar nas oportunidades perdidas por acaso. Já falei que ela não me convém (afinal de contas, acaba de se casar), mas quem é que me faz entender isso? Se eu pudesse fazê-la desaparecer e ficar sem nenhuma esperança, pararia de pensar nela e viveria só o momento presente. Por outro lado, hoje eu não deveria ter saído à sua procura, mas saí. Saí às quatro da tarde, depois às seis e por último ainda há pouco, querendo encontrá-la.

Que importância tem agora tudo o que li? Que importância tem escrever e saber, se não estou com ela?

27 DE MARÇO, DOMINGO_Fui votar. Ambiguidades da consciência. Entrei no colégio decidido a votar em branco como os peronistas e meu pai, que seguem a “ordem de Perón”. Quando estava sozinho na cabine escura tive a certeza, ou, melhor dizendo, tive a convicção de que era um socialista, e então tomei a decisão de votar na chapa da esquerda.

28 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA_Em poucos dias estarei morando em La Plata, mudando de conversa, mudando de amigos e de endereço. Hoje falei por telefone com Jorge S., que já está na cidade e me relata as novidades da faculdade e dos programas deste ano. De vez em quando acho que deveria estudar filosofia.

31 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_Chegamos depois do meio-dia. Hoje na faculdade me inscrevi no curso de história. Tudo ainda é muito confuso, as ruas largas demais. A cidade muito tranquila. Como sempre, sensação de precariedade, de estar de passagem. Tenho dificuldade de aceitar que vou morar aqui sozinho durante vários anos. Privação voluntária de âncoras que se transforma em nostalgia retrospectiva (sempre: pensar em Adrogué). Perto de mim, alguém fala pelo telefone. Se queixa de não ter sido esperado e de ter viajado à toa. Estou vazio e neutro, distante, como sempre. Estranha sensação de liberdade.

29 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA_Hoje estive com Vicky, nos encontramos por acaso no bar da esquina da faculdade e ficamos juntos. O divertido é que depois ela quis ver os contos que estou escrevendo, então lhe passei o caderno e disse que podia lê-los tranquilamente, que me devolvesse quando nos encontrarmos depois da semana de férias.

30 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_Estou arrasado, por engano (?) entreguei um destes cadernos à mulher de cabelo vermelho, convencido de que era o caderno onde estava escrevendo meus contos. São meus lamentos por e com Lidia, de 1959. Então… será que eu queria que ela ficasse sabendo? Não posso aceitar o “acaso” desses erros. A mera ideia de que neste momento ela pode estar lendo o que escrevi me assusta.

A confusão começou quando, ao procurar os contos que havia escrito, revirei todos os cadernos. Suponho que, sem perceber, peguei um que não era o que eu queria e ontem, na pressa, levei-o comigo. O mais patético é que estou paralisado. Não posso dizer a ela “me devolva o diário, que te entreguei por engano”. Melhor seria dizer-lhe que o diário é um romance e dar uma de indiferente quanto à opinião dela. Foi escrito na primeira pessoa, mas acho que meu nome não aparece em lugar nenhum. Acho que não escrevi “Emilio fez isso ou fez aquilo”.

Tampouco posso esperar que ela o leia e me apareça na faculdade dizendo “suas anotações não estão aqui”; eu poderia dizer-lhe “são sim minhas anotações, só que para outra coisa”. Também imagino uma situação em que ela me diz: “Não. Não sei ler. Sou cega. Não entendo castelhano. Esqueci no ônibus. Não tive tempo de abri-lo. Te amo, este caderno demonstra que você é o homem que eu estava procurando.” Vende-o, vai ser publicado em fascículos no jornal El Día de La Plata.

Para completar, não faço ideia de que tipo de garota ela é, enigmática e belíssima. Passamos só uma noite juntos. Vicky, me mande o caderno sem abrir.

Medo do ridículo.

Também digo para mim mesmo “não é para tanto”. Ou realmente quero acreditar que escrevo só para mim mesmo?

São nove da noite, acabo de jantar. Antes fui à faculdade, falei com Vicky. Expliquei a história do diário. Sorrindo, ela me disse que não o havia olhado (mentira). Me perguntou o que era, e eu lhe disse: “Bom, uma coisa pessoal demais, imprópria para senhoritas de cabelo vermelho.” Ela caiu na risada e disse: “Li tudo e me diverti muito.”

 

DIÁRIO DE 1962

 

7 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Uma vez, há não muito tempo, amigos me convidaram para uma pescaria no Tigre e então, para entrar no clima, eu, que nunca havia pescado nem me interessara por essa atividade tão particular de ficar imóvel e em silêncio com um caniço na mão esperando o beliscão de um peixe, comprei manuais de pesca (um deles se chamava Como Pescar Peixes de Rio) e no dia seguinte, na ilha do Tigre, pesquei mais peixes do que todos os meus amigos, que praticavam a arte da pesca desde crianças. Fui o campeão absoluto do torneio amistoso de pesca no rio Paraná. De modo que virei marxista porque lera alguns livros no curso de Sánchez-Albornoz sobre as origens do capitalismo na Inglaterra.

 

DIÁRIO DE 1963

 

10 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Preocupa-me minha predisposição a falar de mim como se estivesse cindido e fosse duas pessoas. Uma voz íntima que monologa e divaga, uma espécie de trilha sonora que me acompanha o tempo todo e que às vezes se infiltra no que leio ou no que escrevo aqui. Ontem me ocorreu que seria preciso ter dois cadernos separados. O A e o B. No A estariam os fatos, os acontecimentos, e no B os pensamentos secretos, a voz retida. Por exemplo, hoje no trem comecei a pensar: tenho que desembarcar e fugir para longe daqui, a paga do meu avô está aqui no meu bolso, eu podia ir para o Uruguai no Vapor de la Carrera, alugar um quarto num hotel barato da 18 de Julho e desaparecer para sempre, sem precisar prestar contas a ninguém do que faço ou deixo de fazer. Nada disso era coerente com o que acabo de escrever, pensando que não havia sintaxe, só blocos de palavras. Por exemplo, fugir, uns dias, Hotel Artigas, uma garota uruguaia, uma vadia, uma oriental, a avenida 18 de Julho, CX8 Rádio Sarandí, Montevidéu, da cabine de imprensa do Estádio Centenário. Será que enlouqueci?

12 DE JULHO, SEXTA-FEIRA_Com ela a garota de cabelo escuro, Graciela Suárez, muito joyciana. Comecei a seduzi-la ou a tentar seduzi-la sem ver, sem me lembrar de que ela estava saindo com meu amigo Yosho, e quando consegui o primeiro encontro e levei-a comigo a Adrogué para conhecer meu avô e dormir comigo, ela me disse: “E agora, como a gente vai falar para o Yosho?”, e só naquele momento me dei conta de que havia roubado a mulher de um amigo. Isso é o que chamo de ação suicida, não vejo nada, só vejo o objeto desejado.

13 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_Sinto um horror que vem do passado por todo excesso retórico. Para mim, essa é a primeira das virtudes: usar a linguagem com precisão e clareza.

 

DIÁRIO DE 1964

 

JANEIRO_Um ano que começou com uma caminhada pela Diagonal, fresca à sombra das árvores, com alguns policiais tomando genebra de uma moringa atrás de um tablado, e a imagem de um homem de muletas, ao sol, e a seu lado um mendigo na esquina contemplando a chamazinha do isqueiro, que segurava com a mão esquerda porque era canhoto, e finalmente dois homens velhos, a 2 metros de distância um do outro, querendo vender a mesma guloseima, que levavam numa bandeja pendurada no pescoço, a um grupo indiferente de pessoas que esperavam o ônibus. Imaginei que nenhum dos dois estivesse disposto a abandonar a área, e o resultado é que passavam horas observando-se um ao outro.

“A linguagem é a realidade imediata do pensar”, Marx.

5 DE JULHO, DOMINGO_O capitão Ahab não é um personagem (como Madame Bovary, por exemplo), mas uma força verbal que não existe sem a baleia branca. Mais que um indivíduo, é um composto de energias que apaga todos os demais protagonistas que giram em torno dele, sem vontade própria, atrelados à obsessão de Ahab. O navio, os arpões também fazem parte de seu corpo. Só Ismael, que é quem narra a história depois que a história acabou, tem vida própria.

23 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA_Estou em Mar del Plata, vou à praia; época luminosa ao sol e no mar, onde não é preciso pensar.

 

DIÁRIO DE 1965

 

2 DE JANEIRO, SÁBADO_Veremos o que acontece com a minha vida. Talvez este ano seja decisivo, embora não haja anos decisivos.

25 DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA_Fui a Buenos Aires e em seguida a Piriápolis para me encontrar com Inés na casa dela. Acabamos a noite no clube, com os barcos ancorados no cais; curiosamente todos aqui sabem tudo a respeito de todos e me veem como alguém que ainda necessita ser narrado. Os amigos e os antigos colegas de Inés se aproximavam da mesa onde estávamos para verificar disfarçadamente com quem ela estava e quem eu era. O passado vinha à tona, e com isso ela era uma desconhecida para mim, muitos dos que estavam ali sabiam segredos seus que eu ainda ignorava. Inés ria, alegre, quando eu tentava lhe explicar o que significa sentir ciúmes do passado. “O passado não existe mais”, disse ela, mas não acreditei.

30 DE JANEIRO, SÁBADO_Como sempre, de repente me vem uma agressividade que sai de algum lugar que desconheço. Hoje briguei com um funcionário da biblioteca que me respondeu mal e que estive a ponto de atacar fisicamente, mas Inés pôs as mãos nas minhas costas e isso me acalmou na hora.

Pensei muito em minhas fantasias sobre o passado de Inés, tem a ver com o fato de que ela é uruguaia. Não faz sentido pensar assim, mas não é um pensamento, e sim um modo pessoal de sentir o que Inés significa para mim. No fim, minha única conclusão foi que a sensação de perda está ligada ao fato de que a vivencio como uma estranha de quem só conheço o presente. Mesmo assim, a “solução” (se é que há uma solução) é uma só, preciso entender que apenas minha literatura interessa e que tudo o que se opõe a ela (em minha cabeça ou em minha imaginação) deve ser deixado de lado e abandonado, como sempre fiz, desde o início. Essa é minha única lição moral. O resto pertence a um mundo que não é o meu. Sou um cara que nunca teve a menor dúvida sobre o que queria fazer na vida.

Existem duas tendências em disputa quanto a vanguarda e política. De um lado, a versão Lênin–Gramsci: eles recuperam da tradição cultural tudo o que consideram útil e produtivo (Tolstói para Lênin, Pirandello para Gramsci); do outro, Fanon e Sartre, que propõem a oposição direta e a destruição da outra cultura (os escritos de Sartre contra Flaubert). Uma, a primeira, fala a partir da tradição, enquanto a outra atua de fora e parte da terra arrasada das culturas antagônicas.

20 DE FEVEREIRO, SÁBADO_Um conto. Um operário peronista está internado num hospital em terapia intensiva enquanto do lado de fora estoura a revolução de 1955. Convalescente, ele toma conhecimento parcial dos fatos que foram se infiltrando enquanto estava num estado de semi-inconsciência. Os sonhos, bem como suas ideias e convicções, levaram-no a acreditar que a revolução foi derrotada. Quando sai para a rua e vê uma manifestação, acha que se trata de uma marcha de apoio a Perón, que fugiu da cidade há vários dias, já.

Alguém faz alguma coisa, mas conta o fato como se fosse outra coisa e a recuperação do sentido ausente fica a cargo do leitor. É como se o narrador não soubesse o nome das coisas que devem ser nomeadas, de modo que seu tom é de estupor diante daquilo que narra, mas o estupor está ligado a sua dificuldade para designar os fatos pelo nome, mais do que aos fatos propriamente ditos. Ele não consegue hierarquizar os acontecimentos e narra com a mesma distância um crime ou o fato de beber um copo de água num bar. No gênero policial, todos os personagens são abomináveis e eficazes.

Às vezes tenho visões de Inés, como se antecipasse seus atos, que na minha fantasia são sempre condenáveis e têm a forma da traição. Devo pensar que esse modo de ver é um efeito necessário do amor, ou é seu oposto?

4 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Bar Iguazú. Fugindo daquele povoado voltamos ao quarto diminuto e muito alto, de novo felizes na cidade. Num esconderijo entre os livros encontrei 4 mil pesos que havia esquecido ali havia algum tempo.

Agora retomo a leitura de Proust, os longos parágrafos, sua magnífica cadência: “Relembrando os lugares, as pessoas que neles conheci, o que percebi delas e o que me contaram sobre elas.”

Outro símile, ou melhor, outro parentesco: tanto em Proust como em Kafka o poder é impensado e irracional e é sempre paterno e tem um caráter não humano. “O comportamento de meu pai para comigo conservava alguma coisa daquele feitio de coisa arbitrária e não merecida que o caracterizava”, M. Proust.

11 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_Viajo de trem para o Tigre, vagão atopetado, perto de mim um homem gordo e imenso, de certa idade, que tomava cerveja “para não ir para a cama de cara limpa”, depois de passar catorze anos nos Alcoólicos Anônimos e virar abstêmio, “sem beber coisa nenhuma, nem Coca-Cola”, voltou a beber e está “assustado pela morte” mas certo de que não vai morrer como um cão porque tem dinamite debaixo da cama e dorme com uma espiral mata-mosquitos acesa mesmo que faça frio e não haja mosquitos porque diz que basta aproximar a brasa “para que tudo exploda”.

29 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA_A questão seria esta: destruir – tentar destruir – deliberadamente o destino pessoal que se manifesta na repetição. É sabido que repetimos para não lembrar. Nesse caso, a questão seria relembrar deliberadamente alguns fatos do passado, uma e outra vez. Pode ser um fato isolado – por exemplo uma tarde jogando xadrez no clube –, recordado na intenção de reconstruir tudo o que cerca aquela cena. Outra alternativa é reler estes cadernos, escolher alguma história neles registrada de que não nos lembramos mais, e tentar fazer aquela mesma coisa, ou seja, reconstruir tudo o que está em torno daquele acontecimento. É claro que não há garantia de eliminar a repetição (por exemplo, em meu caso, a tendência ao isolamento, que se repete desde minha infância) por meio da memória, mas de todo modo os fatos adquiririam uma nova dimensão. É como a reação de um gato que dá uma unhada ou morde quando pisamos nele sem querer. A memória funciona desse modo, pisamos no pé de uma lembrança e lá vem a unhada e o sangue. Mesmo assim, não parece haver solução, é impossível retificar o passado. E é no passado que se localiza o fato que esquecemos mas que se repete de outra maneira – porém igual a si mesmo – repetidamente.

SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Encontro com Borges. Sensação de estar diante da literatura, ou melhor, de ver em ação uma máquina maravilhosa de fazer literatura. Fala devagar, com estranhos cortes no interior da frase. Absurdamente, eu me sentia tentado a antecipar suas palavras, como se ele se interrompesse porque não as encontrava. Ele sempre acabava por utilizar uma palavra diferente da que eu imaginava, mais bela e mais exata do que a minha. Me fez tocar sua cabeça para sentir a cicatriz do acidente que deu origem a “El Sur”. Não foi possível perceber nenhuma marca, mas senti que para ele o ato era, de alguma maneira, um ritual. Quando me despedi, a mesma coisa: reteve minha mão por um longo momento e fiquei com medo de ser eu a reter a dele, mas no fim ele diminuiu a intensidade do aperto e tornou a sorrir. É menos alto do que na minha memória e mais bonito: olhos cinzentos, sorriso suave. Impossível fazê-lo dizer outra coisa que não o que sempre diz, o que não altera a magia que constrói ao falar para dizer a mesma coisa que já lemos. Emocionado toda vez que o ouvia utilizar um tom sentencioso e grave para recitar textos seus ou de outra pessoa. (Mãos pequenas e feias, sapatos absurdamente velhos e uma entonação inesquecível ao falar.)

17 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_Interessa-nos a literatura norte-americana porque ela nos dá a oportunidade de ver como grandes artistas (Salinger, F. O’Connor, Truman Capote, Carson McCullers) também são populares. Único caso na literatura contemporânea. Há duas razões, acho. A amplitude do sistema de ensino, que inclui obras na lista de leitura obrigatória, e uma indústria literária muito desenvolvida. O segundo motivo é a grande tradição narrativa, que consegue incorporar a experimentação formal à tradição romanesca.

24 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_Ontem à noite me embriaguei sem me dar conta. Percebi hoje de manhã, quando acordei com uma mulher desconhecida na cama. “Oi, lindo”, ela me disse, e eu olhei para ela (era loura de olhos claros e peito grande) e perguntei: “De onde mesmo você é…?” Ela se ofendeu e foi embora, de modo que fiquei sem saber seu nome. Tenho lembranças fugazes, o táxi ou o elevador, o travesseiro. O resto é silêncio. As lembranças se apagaram como se tivessem sido escritas com lágrimas.

 

DIÁRIO DE 1966

 

26 DE JANEIRO, QUARTA-FEIRA_Leio Stendhal e leio Melville para encontrar o que já havia de nós no século XIX.

A solenidade da prosa de Sabato leva-o – sem trégua –, repetidamente, ao ridículo.

6 DE FEVEREIRO, DOMINGO_Ontem no cinema um filme de James Bond, figura contemporânea essencial que conjuga o aventureiro, o dândi e o conquistador romântico. “Um gentleman da vida”, como ele próprio se define (mulheres, paixão pelo jogo, boa comida), esquecendo – e fazendo esquecer – que se trata de um espião, 007, com licença para matar, e que vive uma vida dúplice. Parece uma reencarnação do Super-Homem, mas atualizado para o mundo do consumo moderno. O herói é um consumidor refinado e um guerreiro secreto que defende não só o próprio estilo de vida como também um modo de vida social.

14 DE FEVEREIRO, SEGUNDA-FEIRA_Estou em Piriápolis, na casa dos pais de Inés. Muito calor, cerveja demais. Tenho a sensação de estar no meio de um mundo que sempre quis negar para poder viver. Como se todos os diques tivessem se rompido e a água tivesse inundado tudo.

Nestes dias, evoco a lição de outras épocas: o trabalho, a literatura – desgraçadamente – não está descolada da realidade. Não pode ser uma “cura”, nem um corte, nem uma realidade paralela.

De certo modo o equívoco fundamental dos narradores argentinos pode ser detectado em suas metáforas “tremendas” e falsamente literárias. Elas sempre fornecem uma definição de cada situação, ou seja, sempre definem e explicitam as ações dos personagens à medida que elas ocorrem.

3 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_O difícil das manhãs é encontrar uma razão para sair da cama.

16 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_No bar Florida. Encontro meu pai, sempre tensões surdas. Tento encontrar nele gestos que tomo por virtudes quando os vejo em outros.

18 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA_Ontem jantei com papai no El Dorá, no Bajo. Depois de falar um pouco de política e de Perón, de repente – como se fosse um estranho para mim – ele começou a me fazer confidências e a me falar de sua relação com outras mulheres com uma falsa naturalidade que me incomodava mais do que o conteúdo de suas histórias. Estávamos muito afastados, desde a época em que fui para a universidade (já faz anos), pouco a pouco recuperamos certa cordialidade e certa confiança, mas hoje desmoronou tudo outra vez. Um homem que conta a outro suas aventuras amorosas é um imbecil, e se ainda por cima ele é o pai da pessoa, essa idiotice infantil se transforma numa coisa sinistra.

1º DE ABRIL, SEXTA-FEIRA_Às vezes eu gostaria de voltar a certas épocas da minha vida para vivê-las com a consciência que tenho hoje. Por exemplo, começar de novo a história em 1956. É uma ilusão estranha, porque não seria nada se não fosse pelo modo como vivi aqueles tempos; essa superstição é um efeito da literatura, na qual sempre é possível recomeçar uma narrativa. Ao mesmo tempo, é um grande tema romanesco: Lord Jim, de Conrad, que trata de mudar o passado, regressar ao dia em que agiu como um canalha e alterá-lo. Borges tem um texto semelhante que se chama “A outra morte”, um soldado que agiu como um covarde numa batalha faz um pacto fáustico e volta ao combate para morrer como um herói. Também é esse o tema de O Grande Gatsby, de Fitzgerald: um homem pobre, que no passado foi repelido por uma mulher, trata obstinadamente de enriquecer para reencontrar a moça sendo um homem abastado e dessa forma conseguir mudar o destino. Em suma, trata-se de pensar o passado com as categorias que usamos para imaginar o futuro. O possível pretérito.

16 DE ABRIL, SÁBADO_A literatura é experiência, e não conhecimento do mundo.

São quatro da manhã e, como sempre, quando escrevo entendo melhor minha própria concepção da literatura. Ela é o resultado, e não a condição do trabalho de um escritor. As ideias não são a condição, mas o resultado da escrita. O sentido da literatura não é comunicar um significado objetivo exterior, e sim criar as condições para um conhecimento da experiência do real.

4 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA_No monólogo de Hamlet do fim do segundo ato há uma teoria do imaginário próxima do bovarismo, ou seja, uma teoria da ilusão ou, em todo caso, uma maneira de pensar o modo como as ficções intervêm na realidade. O príncipe se lembra de ter ouvido dizer que criminosos, ao assistir a um espetáculo teatral, sentiram-se tão profundamente impressionados pelo feitiço da cena que no ato revelaram seus delitos. Daí a frase que cito agora de memória e que traduzo assim: “O drama é o laço com que hei de capturar a consciência do rei.” Retomando minha nota de alguns dias atrás sobre o modo como somos vistos pelos outros, seria possível afirmar que não só a cena teatral é o lugar da representação – ou seja, da identificação –, como que toda a vida, num sentido secreto, é pura representação (para os outros), o que não significa que ela não seja verdadeira.

Na cena II do ato III, Hamlet pensa que a finalidade da arte dramática, desde sua origem até a atualidade – diz –, foi, e é, apresentar, por assim dizer – segundo o príncipe –, um espelho para que os homens vejam seu verdadeiro rosto. O peso das ilusões na realidade. O que chamamos real é, no caso, uma trama de ilusões.

6 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_O difícil não é perder alguma coisa (Inés, por exemplo), mas escolher o momento da perda. Trata-se sempre de uma lenta retirada, como quando se começa a visitar cada vez menos um amigo, a ler cada vez menos um poeta, a ir cada vez menos a um bar, fazendo a retirada devagar para não sofrer. Como quem retrocede por um corredor escuro tateando e retrocedendo, sempre olhando para o rosto de quem o olha afastar-se e sorrindo, sem se despedir.

No começo as mulheres sempre gostavam dele e o admiravam, depois alguma coisa as fazia perceber o vazio e recuavam – pensara –, e ele facilitava sua retirada, abria a porta para elas, para que saíssem sem sobressaltos.

27 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Como saber qual é a melhor dentre todas as possíveis histórias que se apresentam enquanto estamos no ato de narrar? Trata-se sempre de tomar decisões, narrar é tomar decisões. Nunca sei como vai ser a história enquanto não a escrevo. E enquanto a escrevo, deixo-me levar pela intuição e pelo ritmo da prosa.

21 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Ontem com Beatriz Guido, sempre extravagante e divertida. Vertiginosa em sua casa barroca, móveis antigos e conversas circulares. Lá estava Edgardo Cozarinsky, que me passou o original de um romance de Manuel Puig.

Preparo sete cópias do livro de contos para mandar para o concurso da Casa de las Américas. Um trabalho de doido, com papel-carbono que a máquina portátil só permite em pequenas levas. De modo que preciso passar todo o livro a limpo três vezes. Escolho o título do volume, Jaulario (me incomoda a semelhança com o Bestiário de Cortázar e o Crepusculário de Neruda, mas não encontro nome melhor e não quero usar o título de um conto para o livro inteiro) (por que não?).

 

DIÁRIO DE 1967

 

2 DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA_O melhor destes últimos dias é uma carta que recebi de Julio Cortázar: no tom falado de O Jogo da Amarelinha, ele comenta os contos que havia me enviado e me deixa a imagem nítida de um cotidiano sem sobressaltos incômodos, uma vida construída em função de seu trabalho.

7 DE JANEIRO, SÁBADO_Me deixo levar pelo olvido e pela nostalgia (que é uma falsa memória) toda vez que ando por Buenos Aires. Esqueço os fatos mas recordo com nitidez excessiva os sentimentos que reencontro e recupero com os lugares que me trazem “histórias pessoais”. Por exemplo, hoje, as calçadas amplas, os bulevares arborizados de Cerrito, com as mesas na calçada, eu sentado ao ar livre tomando cerveja. Ou igualmente nas caminhadas noturnas e nas ceias na madrugada com homens e mulheres que vivem sem horários e tentam fazer a noite não acabar nunca e andam pelos bares querendo que a manhã não chegue; a rampa da Corrientes descendo até o rio, as luzes que cercam a praça San Martín e o som distante dos sinos da Torre dos Ingleses; ou as livrarias abertas até o amanhecer (as livrarias que imagino abertas até o amanhecer).

3 DE FEVEREIRO, SEXTA-FEIRA_O romance como investigação da realidade. Tão distante do enredo tradicional quanto do romance sem argumento, no sentido de que a história já está no real e é preciso poder reconstruí-la e narrá-la como se não a estivéssemos inventando. Não se copia a realidade, copia-se – transcreve-se – uma história fictícia, contando-a como se fosse verdadeira, ou melhor, fazendo-a passar por real.

6 DE FEVEREIRO, SEGUNDA-FEIRA_Carnaval. Há um desfile na Diagonal e consigo assistir da janela. Antes me entusiasmavam esses dias de liberdade garantida, ia aos bailes, fantasiado para que ninguém me reconhecesse e para poder, então, imaginar-me com outras atitudes e outras palavras. Mas essa fase já passou e agora saio para a sacada, ouço o estrondo, vejo passar bandinhas patéticas e analiso com a certeza de ser outro enquanto escrevo.

13 DE FEVEREIRO, SEGUNDA-FEIRA_Às oito da manhã fui acordado pela campainha da porta. Um carteiro com um telegrama da Casa de las Américas. “Seu livro primeira menção no Prêmio Casa. Será publicado nos próximos meses. Felicitações.”

Sem dúvida, sei melhor que ninguém, essas alegrias são sempre incômodas, “sociais” demais, e no fundo não servem para nada. De toda maneira, é o que eu quis, o que eu mesmo almejava, um acesso, uma ponte para a “literatura” entendida como um território distante da escrita. Digamos que sou duas pessoas, o que escreve e o que espera publicar. Para o segundo de nós, aparecem agora alguns reconhecimentos: um prêmio (que não é um prêmio, mas uma menção) e uma dupla edição garantida: o livro sairá este ano em Havana e em Buenos Aires. Eu estava à espera desse reconhecimento (o telegrama que chega às oito da manhã anunciando que fui “mencionado” no mundo da literatura) antes mesmo de ter escrito o livro. Talvez por dá-lo por escrito, não entendo agora se ele tem algum outro sentido além desta vaga sensação de irrealidade. As coisas sempre me foram dadas com excessiva “facilidade”, parece que efetivamente há uma estrela que me protege, ou a supersticiosa convicção de que sempre estarei a salvo.

Mas ele não é tão mágico quanto eu mesmo quero desejar. Se olho o livro com cuidado encontro as razões: um livro concreto, com uma poética lacônica e nada fácil nem complacente.

12 DE MARÇO, DOMINGO_Estive pensando ultimamente na noção de prazo. Ter um prazo, uma fronteira futura que não se pode eludir… em inglês são chamados, muito acertadamente, de deadlines. Não se desprendem da imaginação do que está por vir, mas têm a peculiaridade de ter sido fixados por um estranho. Alguém nos dá um prazo definido para fazer determinada coisa, para completar ou saldar um acordo num momento futuro. É possível uma pessoa acreditar nos prazos que ela própria se impõe? Difícil, enquanto as outras tarefas ou vencimentos parecem inevitáveis ou inexoráveis. Então o tempo adquire outra dimensão e é muito difícil “deixar-se levar”, viver os dias em si mesmos e não como a promessa ou a condenação de algo que está por suceder. Esse sentimento se encarna culturalmente no mito do pacto com o diabo. “Tan largo me lo fiáis”, como diz a comédia espanhola de Don Juan. (A noção de vencimento.)

Aparentemente, as pessoas que me conheceram antes não perdoam o fato de eu ter realizado o que desejei – por assim dizer. Daí certo rancor e certa agressividade, que percebo nos amigos antigos, que me veem como sendo diferente do que haviam imaginado que eu fosse. Os que ficam me conhecendo agora só veem em minha vida o que faço como uma virtude, e não como uma surpresa, que os enche de inquietação, ao deparar com um desconhecido que apesar de tudo continua sendo, para eles, “familiar”.

14 DE MARÇO, TERÇA-FEIRA_Uma coisa que acontece comigo é que meus amigos ou meus conhecidos começam a me confessar que, para além de suas vidas concretas, o que querem mesmo é ser escritores. Nestes últimos dias Frontini, West, Lacae. A literatura parece uma saída ao alcance de todo aquele que tenha aprendido a escrever na escola. Claro que escrever e redigir são duas coisas diferentes. Concordo que todo aquele que escreve pode ser escritor, não acho que existam “eleitos”, só que sempre haverá escritores muito bons e também escritores muito ruins.

23 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_Meus sonhos eróticos mais constantes são divertidos: faço amor com a filha na frente da mãe, tudo em meio a risos e piadas sobre a tradição grega.

27 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA_Estou em La Plata no Don Julio; esse bar tão estudantil, a meia quadra da faculdade, provoca em mim introspeções que ultimamente me recusei a ter para viver mais ativamente este lindo verão, sem parar para pensar. Mas eu costumava me sentar aqui há sete anos, e mais uma vez a recordação assume a forma de um instantâneo em que vejo a mim mesmo naquela época, mas simultaneamente sou aquele que olha a imagem. Naquele tempo eu estava numa realidade desconhecida, vivendo sozinho e ao mesmo tempo acompanhado por uma rede de relações novas, e também confuso, sem saber com clareza como encontrar o que procurava, mas seguro de meu triunfo final. Essa certeza, que não tinha garantia nem lógica, foi um amparo firme em minha nova vida. Hoje tenho quase tudo o que podia desejar naquele tempo, mas estou diante de uma nova encruzilhada. Digo isso brincando, porque as coisas não são tão claras e na verdade eu só quis reciclar a coincidência de uma imagem na lembrança com minha presença no local da lembrança.

29 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Tecnicamente, Borges está ligado à mais pura narrativa em língua inglesa: a mesma justificação do material narrativo, a presença definida de um narrador comum a toda a obra (o próprio Borges), a moldura que prepara a ação. Sua inteligência consiste em construir sobre essas estruturas de sentido mundos complexos e irreais. Outra qualidade de Borges é que a realidade nunca está dada, ela sempre é obscura e intrigante, por isso se transforma em objeto de uma investigação, daí as buscas (sobretudo bibliográficas, no caso dele) que completam os fatos. Sua “humildade” o transforma num transmissor perfeito de livros escritos por outro, de histórias que já existem, de personagens fantasmagóricos que encontra, reconstrói e torna visíveis. O exemplo mais perfeito desse procedimento é “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, a melhor coisa que Borges escreveu. Uma mínima reconstrução bibliográfica desemboca num mundo paralelo. A história montada conscienciosamente, com exatidão geométrica, se confunde, cai no vazio, na irrealidade, no sonho e no pesadelo. O que há de mais valioso em Borges é o caminho que sobe pela ladeira do mundo na direção dessa comprovação irreal e mágica.

6 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA_No bar Florida, com rajadas de vento porque esta mesa perto da janela está ao lado da porta de vaivém. Eu havia enfiado na cabeça que ia aquecer meu quarto à força de paciência, mas a encarregada do hotel aproveitou um descuido meu para se enfiar no quarto e abrir as janelas e limpar, e transformar meu local de trabalho num iglu. Por isso estou agora neste bar tão adorável, trabalhando calmamente na carta para Cabrera Infante. Comecei ontem a ler Cem Anos de Solidão, o romance de García Márquez que acaba de ser lançado.

Num certo plano – ainda indefinível para mim – o romance de García Márquez me faz pensar no Borges de História Universal da Infâmia. Aqui se trata da história universal das maravilhas do mundo, um romance otimista, que mantém a perspectiva e a distância mítica e assombrada entre aquele que narra e os heróis, também presentes no livro de Borges. Os protagonistas são heróis, aqui da felicidade e nos contos de Borges da ignomínia. Ambos têm isto em comum: os personagens que já estão dados e que agem de acordo com uma convenção que só o narrador conhece. Por exemplo, García Márquez narra o cotidiano como se fosse fantástico (por exemplo, a excursão para ver o gelo) e narra o extraordinário como se fosse trivial (as mulheres voam sem o menor problema).

11 DE JUNHO, DOMINGO_Fiz algumas anotações sobre Cem Anos de Solidão, um romance de que todos estão falando e que li muito depressa e com sensações mistas. Por um lado, ele me parece latino-americano demais – profissionalmente latino-americano: uma espécie de cor local festiva, com um pouco de Jorge Amado e também de Fellini. A prosa é muito eficaz e também muito demagógica, com fechos de parágrafos muito estudados para produzir um efeito de surpresa.

4 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Ontem à noite no edifício de cúpula dourada situado na Carlos Pellegrini, do outro lado da Rivadavia, depois de subir uma escada em espiral que se abria desde a rua, reunião organizada por Álvarez e Pirí Lugones para homenagear García Márquez. Muita gente, muitos amigos, Tata Cedrón cantou alguns tangos, muito uísque, pouco espaço. Numa das voltas pelo apartamento me vejo cara a cara com García Márquez. Fomos apresentados por Rodolfo Walsh, que entrou no joguinho competitivo, à la Hemingway, e me anunciou como uma promessa do boxe nacional, como se eu fosse um peso médio com muito futuro e com a missão secreta de derrotar os campeões da categoria, entre eles García Márquez e o próprio Walsh. Um estilo amistoso e “viril” de apontar para a competição desenfreada que define o mundo da literatura. Imagino que esse estilo seja também o de García Márquez.

13 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Se é verdade que mataram Che Guevara na Bolívia, alguma coisa mudou para sempre na vida de meus amigos e também na minha. Semana agitada, com notícias confusas. Choveu o tempo inteiro. Lembro-me de estar andando pela rua Libertad na companhia de Ismael Viñas, pulando as poças de água, utilizando pontes improvisadas quando tivemos a notícia. Grande comoção.

Ricardo Piglia

Ricardo Piglia, crítico literário e escritor argentino, é professor emérito da Universidade de Princeton

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