humor

O roqueiro cinqüentão

Com 1300 shows, 6200 LPs, quatro empregos, dois casamentos, sete guitarras e seis pranchas, o cara sente pena dos guris que ficam com esse lance de "juventude"

Marcelo O. Dantas
ILUSTRAÇÃO: REINALDO_2007

Tem essa não, falou. Papo de “cinqüentão”, estou fora. Maior invenção maledicente desse pessoal do samba. Roqueiro é roqueiro, não tem essa de ficar tirando onda com a idade do cara. Até porque esse lance aí de “juventude” tem suas relatividades. Energia = MC5. Se liga, meu. Quando eu tava em pleno esplendor do meus 16 anos – saradaço, pegando onda, pegando os brotos, estraçalhando geral com a minha Giannini SG vermelha e preta igualzinha à do Angus Young – qualquer um com mais de 25 velinhas no bolo ganhava de imediato o título de cidadão honorário da terra de Matusalém. Já hoje, gozando da vasta sabedoria, experiência e savoir-faire de quem lavrou no currículo 1 300 shows, 6 200 LPs, quatro empregos, dois casamentos (e um terceiro à espreita), um casal de filhotes daqueles de deixar a galera do Arpex babando de inveja, sete guitarras, seis pranchas, 58 pontos na cabeça e algumas toneladas de substâncias exóticas devidamente catalogadas, sinto até pena desses guris que têm menos horas de vida que os meus ouvidos de head-phone. Mudei euzinho? Não. Mudou o mundo? Muito menos. Quem mudou foi o calendário. O resto segue igual. Quem vem atrás é pirralho; quem está na frente, coroa. O roqueiro continua ali, reinando soberano no centro do mundo.

Não vou fazer cerimônia, nem usar de falsa modéstia. Fui criado ouvindo The Who e tenho desde pequeno esse hábito desaforado de chamar as coisas pelo nome. Digo o que penso. Quem quiser que goste. Para quem não gostou, aquele abraço. Verdade não tem duas. Pode anotar aí nos seus alfarrábios sertanejos: o roqueiro é antes de tudo um forte. E essa característica – que está na própria essência da condição roqueira – acompanha o cara por toda a vida. Se assuste não. Tem muita filosofia no que eu digo. Sol e som nunca fizeram mal ao cérebro. Experimenta passar trinta anos decifrando Bob Dylan para ver se tu não ganha uma substância. Roqueiro burro nasce morto. Essa rapaziada aí dos dois neurônios, que gosta de Iron Maiden e Sepultura, a gente chama de “os metaleiro” – assim mesmo, no singular presidencial, porque a lindeza do plural majestático ficou reservada para quem já brincava de forte apache ouvindo “Voodoo child”. A negada mais esperta.

 

Então. Qual o problema de encarar o tranco dos 50 anos? Tirando o joelho bichado e a vista cansada, a diferença é nenhuma. O fígado e coração estão ali, inteiraços! Quer dizer, falando assim, em termos genéricos. Um pouquinho de cuidado com o patrimônio não chega a ser frescura. Geração saúde total – sou a favor. Parada de se mandar por aí com os amigos todo fim de semana, em excursão aventureira estilo tomai-os-lírios-do-campo, já teve o seu momento histórico. A gente amadurece, acumula responsabilidades, fica preocupado com as crias. Não dá para sair arrepiando, cantando pneu que nem fazia aos 20. A vida é uma corridona longa, não chegamos nem na metade das voltas. A maldita está longe ainda, lá do outro lado. Mas também não é para ficar folgando com ela. Quem tem tino aprende a administrar a vantagem. Estratégia Fittipaldi, morou? Sabedoria zen – Lotus 72-D. Carrão mais maneiro de todos os tempos. Bonito feito um solo do Santana.

O único lance que me tira do sério, dia após dia, é essa brincadeira do Big Brother lá de cima com o negócio do cabelo. Barriga, a gente controla. Passa de 100 para 200 para 500 abdominais por dia, se for preciso. Corta doce, salgado, fritura, tempero, cozinha, refrigerante, empadinha, pizza – corta até o chopp com os amigos. Mas com o cabelo é covardia. A natureza inteira conspira contra o roqueiro. Não há cola que dê solução. Sempre que vejo o André di Biasi na telinha começo a me benzer. Maria Catiça, esconjuro três vezes!

Outro dia foi ainda pior. Estava surfando na net, fazendo um download ali tranqüilex, topei com uma foto do Peter Frampton: rapado, grisalho, umas entradas gigantescas. Bateu o desespero. Aquela culpa absoluta. Católica. Quinze anos de parafina. Corri pro médico: “Doutor, me ajuda!”. Daí, pra minha surpresa, o cara começou uns papos meio estranhos: injeçãozinha na testa, loçãozinha de minoxidil, vitamina hair-food, finasterida… pa! Alto lá! Cumequié? Vai afetar as jóias da coroa? Que história é essa, rapá? Ta me estranhando? Saí dali batido. Tenho esse tanto de energia para ficar jogando fora não, aí. Vou te falar um lance, papo sério: ter que optar entre ficar careca e derrubar o Kojak é prova cabal de que Deus não existe. Se existe, é argentino. Mas deixa estar. A gente segue em frente, cabeça erguida. Enquanto a Fernandinha Paes Leme for solteira, há de permanecer acesa a chama da esperança.

Quanto àquela decisão difícil, estou ainda adiando. Vou deixar para a última hora. Esperar o pessoal do Green Peace começar a fazer piquete na porta de casa, pichar muro, estender faixa dizendo que eu estou mais devastado que a mata atlântica. Daí eu vejo o que é menos pior: o corte paizão calvo, tipo mais careta impossível; ou aquela recada básica, estilo sou-boiola-e-moro-em-Nova-York. Escolha fácil não, aí. O passado pesa. Na época em que eu me eduquei moral e civicamente, essa indústria aí do cotonete de elefante era reserva de mercado do Isaac Hayes. Nego tinha que ser black – senão não rolava. Os Michael Stripes da vida só vieram fazer moda muito depois. Lá atrás era diferente. Anos 70, rapá. Pedreira. Ainda mais no Brasil. Isso aqui era país nazi-socialista, legítimo. Tu pode imaginar? O cidadão era livre para escolher entre dois tipos de queijo: queijo minas e queijo prato. Bipartidarismo gastronômico. Negócio de provolone já era subversão.

Só com muito rock pra agüentar, saca? Led Zeppelin na veia. Jim Morrison no céu, Van Morrison na terra. E os milicos só dificultando. Qualquer coisa que tivesse a ver com rock caía no valão do supérfluo: 10 mil por cento de imposto. O cara para comprar uma Fender precisava assaltar um banco ou vender a casa própria. Essas coisas ficam gravadas a ferro e fogo lá no fundo da alma. Meu segundo casamento foi pro buraco de tanto que a Suzana implicou com a história de eu pendurar uma Les Paul no canto mais nobre da sala. Mulher quando resolve torrar a paciência, rapáááá.. Não há lar que resista. Para mim, aquilo lá valia mais que um Picasso! E eu tanto tinha razão que na hora do quebra-pau o advogado dela ó, não perdoou: me deixou tocando uma Giannini outra vez.

 

Tem erro não. Vida de roqueiro é assim mermo. Quem pára quieto, cria musgo. Estou eu aqui outra vez indo ao cinema sozinho. Mas sem stress. Tipo durante a semana. Quando eu já não agüento mais escrever aqueles artigos pro jornal esculhambando o governo. Daí eu entro num desses multiplex, e vejo o que tiver passando – até filme nacional! Troço inacreditável, né. Sai ditadura, vem democracia. Sai bandinha militar, vem o recital de piano. Saem os engomados, vem a moçada do funk – e tudo que é governo continua no pagode. Eu reclamo, fazer o quê?! Roqueiro nasceu pra ser do-contra. Mas chega uma hora que nada disso importa, viu. Solzão no céu, domingão beleza: ponho o Homem-aranha e a Cinderela no carro, coloco um CD dos Stones para eles irem se acostumando, e saio por aí. Totalmente easy rider. Me sentindo o roqueiro mais feliz do mundo.

Marcelo O. Dantas

Marcelo O. Dantas é escritor e diplomata. Seu romance Podecrer! foi adaptado para o cinema pelo diretor Arthur Fontes.

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