esquina

O silêncio do vereador

Uma semana com Carlos Bolsonaro na Câmara do Rio

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Na manhã seguinte ao temporal que provocou a morte de seis pessoas na cidade do Rio de Janeiro, o vereador Carlos Bolsonaro tuitou às 10h22: “Alguém viu no JN algo sobre os cinco meses de tentativa de assassinato de Bolsonaro por ex-integrante do PSOL?” Seguidores do parlamentar no Twitter consideraram a mensagem descabida: “Esperava de você hoje, como primeiro tuíte, solidariedade ao povo do Rio”; “Sua cidade tá  destruída pela chuva. Você é vereador, pelo amor de Deus, faça algo pelo Rio! Esqueça a Globo, o Twitter.”

Dia 19 de fevereiro. Primeiro dia das atividades no plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A sessão começa pontualmente às 14 horas, com pronunciamentos na Tribuna Marielle Franco. Naquela terça-feira, os primeiros discursos dos vereadores repercutem os desastres ocorridos na cidade nas semanas anteriores: o temporal no dia 6 de fevereiro e o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo no dia 8.

Uma hora e quinze minutos depois da abertura da sessão, a grande porta de madeira do palácio neoclássico foi aberta, e entrou Carlos Bolsonaro, 36 anos, em sua quinta legislatura na Câmara. Ele correu os olhos pelo plenário. Evitou olhar para a imprensa, que o observava com atenção. Parou em um canto do salão, encostou-se na parede de mármore claro e ali permaneceu.

Enquanto seus colegas discursavam, Bolsonaro, do PSC, conversou com seus assessores, a cabeça levemente encurvada para baixo. Como estava próximo à porta, foi cumprimentado várias vezes. Não demorou até que se formasse em torno dele uma pequena aglomeração de assessores que pediam sua assinatura para tramitação de projetos e de vereadores que lhe davam tapinhas de boas-vindas nas costas.

Vinte minutos depois de sua chegada, Bolsonaro desencostou-se da parede para ir até sua mesa dar o voto a favor de uma proposta que concedia a Medalha de Mérito Pedro Ernesto, honraria municipal, ao vice-presidente Hamilton Mourão.

Durou 22 minutos a presença de Bolsonaro no plenário. Repentinamente, ele seguiu rumo à antessala. Repórteres correram atrás para tentar entrevistá-lo – em vão. O vereador não saiu da antessala, à qual a imprensa não tem acesso.

Foi um início de semana tumultuado para a família Bolsonaro. O segundo filho mais velho do presidente estava no centro de uma crise que ele próprio criara, ao chamar de mentiroso o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, exonerado no dia 18. Bolsonaro voltou ao plenário poucos minutos antes do término da sessão, às seis da tarde, e assim que foi anunciado o fim dos trabalhos, partiu em disparada. Naquele horário, Bebianno dava uma entrevista à rádio Jovem Pan, acusando o filho do presidente de ter feito “uma macumba psicológica na cabeça do pai”, Jair Bolsonaro.

Apesar de discreto na Câmara, o vereador disparou várias postagens nas redes sociais naquele dia: doze no Twitter, duas no Instagram e quatro no Facebook. Um total de 923 palavras, que usou para criticar a imprensa, os adversários e elogiar decisões do pai no governo.

“Ele nunca foi muito de discursos e poucas vezes o vi na tribuna”, disse um vereador da esquerda que preferiu não ser identificado. “Antigamente ia ao microfone para refutar críticas ao pai e irmãos. Mas não sobe à tribuna para defender uma ideia ou um projeto.” Um funcionário da Câmara falou sobre a atuação de Bolsonaro no dia a dia: “Sempre ficou na dele, fala pouco, não se enturma muito. Passou a receber tapinhas nas costas depois que o pai entrou em campanha para a Presidência. Antes disso, ficava avulso no plenário.” Uma jornalista que frequenta a Casa diariamente contou: “Se eu ouvi a voz do Carlos Bolsonaro duas vezes ao microfone nos últimos quatro anos, foi muito.”

A despeito do comportamento taciturno de Bolsonaro, o vereador de esquerda fez uma ressalva: “De fato ele não é o mais comunicativo entre os parlamentares. Mas é preciso ser justo. Diferentemente da persona briguenta que ele assume nas redes sociais, é um sujeito afável e educado com os colegas.” À boca miúda, é chamado pelos parlamentares de Hello Kitty, personagem infantil japonês que não tem boca e, por isso, não fala.

Dia 20 de fevereiro. Segundo dia de trabalho da Câmara dos Vereadores. O plenário convulsionava com debates sobre a reforma da Previdência enviada pelo presidente Jair Bolsonaro ao Congresso. Babá, do PSOL, proferiu palavras pesadas contra a reforma. Leandro Lyra, do Partido Novo, defendeu o projeto. O filho do presidente, porém, não acompanhou a maior parte da discussão, pois chegou às 16 horas. Aconchegou-se no seu cantinho, encostado à parede. Nos dez primeiros minutos em que ficou ali, recebeu dezenove cumprimentos. Um dos mais comuns entre alguns vereadores da bancada da bala é o beijo no rosto.

Naquele dia, Bolsonaro estava mais comunicativo. Passou mais de vinte minutos conversando com Alexandre Isquierdo e Carlo Caiado, ambos do DEM. Não desviou a atenção da conversa nem quando o nome do seu pai foi citado elogiosamente por Lyra ao microfone. Também conversou com Jones Moura, vereador pelo PSD, que defende o armamento da Guarda Municipal. No meio do papo, o celular de Bolsonaro tocou e ele saiu do plenário com passos apressados e uma expressão grave no rosto.

Quando voltou da ligação, Bolsonaro parecia meio aéreo. O falatório no plenário não despertava nele o menor interesse. Jones Moura tomou a palavra, e revelou a conversa que tivera com o filho do presidente. “Estava há pouco falando com o Carlos, e temos também o apoio do Flávio, para incluir os profissionais da segurança pública num esquema diferenciado de previdência.” Bolsonaro, sentado à mesa, olhava para o celular, como se o assunto não lhe dissesse respeito. A sessão terminou. Naquele dia, ele escreveu 474 palavras nas redes sociais.

Dia 21 de fevereiro. Terceiro dia de trabalho. Carlos Bolsonaro chegou às 15h54. Encostou-se na parede e observou a movimentação. Não foi exclusividade dele chegar àquela hora no plenário e perder os pronunciamentos na tribuna: mais da metade dos vereadores fez o mesmo.

Seria votado no dia o Projeto de Emenda à Lei Orgânica nº 25/2018, propondo que cada vereador tenha 0,06% do orçamento municipal à sua disposição para aplicar onde quiser, desde que metade desse valor vá para a área da saúde. Para a aprovação desse projeto que vai contra os interesses da prefeitura era preciso dois terços dos votos dos 51 vereadores, ou seja, 34 votos. Mas o projeto recebeu apenas trinta votos, inclusive o de Bolsonaro. Houve um bate-boca entre parlamentares, ao qual ele passou alheio, pois durante quarenta minutos não tirou os olhos do smartphone. O projeto foi arquivado. Às 18 horas, como sempre, a Câmara encerrou a sessão. Bolsonaro levantou-se rapidamente e foi embora. Naquele dia, despachou seis tuítes, quatro mensagens no Facebook e três no Instagram.

Durante a semana de três dias de trabalho da Câmara, quatro horas por dia, doze horas no total, Carlos Bolsonaro esteve dentro do plenário por cerca de três horas e quarenta minutos.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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