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O sol bate nas pálpebras como numa porta a socos

Jaques Wagner e a maior seca da Bahia nos últimos sessenta anos

Mario Sergio Conti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Há uma calamidade em andamento e ninguém dá um pio. A desgraça é a seca no Nordeste. O governador Jaques Wagner, da Bahia, procura todas as manhãs na internet notícias sobre a chuva na região do semiárido. E há meses fecha o computador desolado: nem um pingo d’água.

Desde que a chuva começou a ser medida no Polígono das Secas, que vai do norte de Minas até o Piauí, jamais houve uma estiagem como a de agora. Das 417 cidades baianas, metade está com o estado de emergência decretado. Mais de 4 milhões de nordestinos foram diretamente atingidos. Meio milhão de vacas e cabras morreu de inanição. Começa a faltar água para fazer comida e tomar banho em cidades de até 40 mil moradores. Rebanhos foram tangidos do sertão para o Recôncavo, onde ainda há pastos. A seca é a mais ruinosa dos últimos sessenta anos.

A mudez é das emissoras de televisão e rádio, dos grandes jornais e revistas do Sudeste. Não há manchetes nem documentários ou capas sobre o flagelo. Se muito, aparecem de quando em quando reportagens burocráticas, que indefectivelmente terminam com imagens de carcaças de bestas se decompondo no solo rachado da caatinga.

Jaques Wagner, que acabou de completar 62 anos, não atribui a míngua de reportagens sobre a seca a uma conspiração da grande imprensa para esconder um problema que diz respeito em primeiro lugar ao governo federal.

“Vivemos num mundo onde as imagens contam cada vez mais”, disse ele num jantar recente no Palácio de Ondina, em Salvador. “Já não há levas de famélicos vagando pelo sertão. É cruel, mas as imagens de desabamentos provocados pela chuva em Petrópolis ou em Angra são mais poderosas que as da seca.”

Ficaram para trás, no seu raciocínio, os versos de João Cabral de Melo Neto e a prosa de Graciliano Ramos, os retirantes de Vidas Secas ou os rebeldes de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Dizem pouco os livros e filmes que, no século passado, acordaram o Brasil do seu sono de morto e soaram como um despertador acre, como sol sobre o olho, que é quando o sol é estridente, a contrapelo, imperioso, e bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos.

“As imagens da literatura e do Cinema Novo já não servem para representar o que é a seca”, continuou Wagner. “Há toda uma rede de auxílio estatal que diminui o sofrimento e evita o aparecimento das multidões que atacavam armazéns de comida. O Bolsa Família, a construção de cisternas, o investimento em açudes, a eletrificação rural e o crédito mais barato cumpriram o seu papel.” Quase 2 milhões de baianos se beneficiam do Bolsa Família.

Mas as vítimas existem. Muitos casebres e sitiozinhos do sertão estão trancados e vazios. As famílias que neles viviam foram morar com parentes em cidades distantes do seco e de suas paisagens, à espera de dias molhados. Dias que parecem cada vez mais distantes: no final de abril começa no semiárido nordestino a estação do estio propriamente dita. Se não chover forte até lá, a faca da seca aprofundará o corte na carne dos sertanejos, tornando mais difícil, mais longa, a recuperação do ferimento.

“Pior do que perder a lavoura de subsistência, o que já aconteceu, será perder as plantas”, disse o governador. “Será preciso então providenciar novas mudas, irrigar a terra e alimentar as pessoas enquanto as plantações crescem. Tudo isso custa um mundo de dinheiro. E é dinheiro que só o Estado pode dar porque não há lucros à vista.” Tocou o seu celular. Era o governador Cid Gomes, do Ceará. Combinaram uma visita à presidente Dilma Rousseff para falar da falta de chuva.

Jaques Wagner é realista. Mesmo que houvesse comoção nacional com a seca, ele acha complicado fazer com que a ajuda chegue aos flagelados. No Rio e em São Paulo, é fácil doar roupas e alimentos a quem perdeu tudo nas enchentes. No interior do Nordeste, as pessoas precisam de água, e o aumento e a circulação de caminhões-pipa dependem da logística implantada por governos. “O Estado deve ter o tamanho necessário, não adianta ficar repetindo que a iniciativa privada é mais capacitada que o poder público”, disse o governador.

As longínquas eleições presidenciais do final de 2014, admitiu, interessam mais aos políticos e à imprensa que a seca de hoje. Wagner se dá bem com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro, e considera legítimo que ele queira disputar o Planalto. Mas acha melhor ele esperar até 2018, quando, aí sim, o Partido dos Trabalhadores deveria cogitar que a aliança governamental apoie um candidato que não seja do PT. Quanto às suas próprias pretensões à Presidência, não as esconde: “Se o cavalo passar selado, monto.”

 
Jaques Wagner tem olhos azuis, a tez de uma alvura nórdica e não é baiano. Filho de uma família judia que teve que fugir do nazismo, ele nasceu no Rio. Para desgosto do pai, que militou no Partido Comunista da Polônia, ele começou a fazer política no movimento sionista carioca. “Tinha 15 anos, e era um nacionalista judeu que queria fazer a revolução em Israel quando li Marx”, contou.

Veio 1968 e a agitação política o levou à presidência do diretório estudantil da Faculdade de Engenharia da Pontifícia Universidade Católica. Entrou no Partido Comunista do Brasil e chegou a fazer treinamento para ser guerrilheiro no Araguaia. Não houve tempo para completar a formação: caçado pelos militares, escapou para Minas e depois para a Bahia.

Chegou a Salvador de ônibus. Estava com a primeira mulher, a filha recém-nascida, um saco de pano com mamadeiras e panelas e um pequeno maço de cédulas no bolso. Morava numa pensão e procurava emprego todas as manhãs. Descobriu uma fábrica onde havia vagas e disse que queria trabalhar como moleiro – que ninguém queria por ser a função mais penosa.

“Galego, você não tem jeito para moleiro”, disse-lhe o supervisor que o entrevistou. Wagner respondeu: “Amigo, é a necessidade que diz se tenho jeito ou não para o trabalho, e eu tenho um bebê de 3 meses para sustentar.”

Obteve a vaga. Trabalhava entre fornos de fundição cuja temperatura rondava os 900 graus centígrados. A fuligem o obrigava a trocar de roupa duas vezes em cada turno. Ao fim da jornada, estava preto da raiz dos cabelos às unhas dos pés. Aguentou 45 dias, e só saiu da fábrica depois de se empregar numa petroquímica em Camaçari, onde se tornou técnico em manutenção.

Sem contatos políticos, ajudou a criar o sindicato dos petroquímicos. Em 1979, conheceu Luiz Inácio Lula da Silva num congresso de trabalhadores em Salvador. Durante o encontro, Marisa, a mulher do metalúrgico, ligou para contar que o filho que esperavam nascera com uma semana de antecedência e passava bem.

Lula e Wagner comemoraram o nascimento tomando conhaque, de manhã, num boteco. O ex-presidente é produto da seca nordestina: aos 7 anos, saiu com a mãe do sertão pernambucano e foi de pau de arara para São Paulo. Morou nos fundos de um bar e usava o mesmo banheiro da freguesia.

Naquela reunião em Salvador, foi uma das primeiras vezes que Lula disse em público que só o sindicato não bastava, que seria preciso criar um partido e tomar o poder. Jaques Wagner foi o primeiro presidente do PT na Bahia. Elegeu-se deputado federal três vezes e foi ministro do Trabalho de Lula. Está no segundo mandato como governador. Não fez a revolução nos desertos de Israel: tenta atenuar os males do sol no semiárido e enxuga gelo em Salvador.

 
O Palácio de Ondina fica no alto de um outeiro, no meio de um jardim com pitangueiras. É uma casa ampla, parecida com uma sede de fazenda. Está cheia de arranjos com orquídeas. Fátima, casada com Jaques Wagner, cuida delas com desvelo parecido ao de uma moradora da casa nos anos 90, Arlete, a viúva de Antonio Carlos Magalhães.

Ao lado do palácio, na ladeira do Jardim Zoológico, há um botequim surrado e imundo. Os principais itens à venda são pinga e cerveja, que dezenas de pessoas bebem depois do trabalho e antes de se recolherem. Na parede exterior há uma bandeira do Brasil pintada à mão.

As casas da vizinhança, pequenas e mal-ajambradas, são de alvenaria. Não há maiores problemas de segurança ali, segundo moradores. Só houve recentemente uma tentativa de assalto ao bar, na hora em que um caminhão de cerveja fazia a cobrança, mas o bandido, armado, se conformou em levar uma nota de 10 reais. O que há, segundo dizem lá, é “descuidismo”: se alguém descuida e deixa o celular sem vigilância, ele é afanado em questão de minutos. No ano passado, surrupiaram assim cinco aparelhos do dono do boteco.

O problema maior no bairro é o crack. Traficado e consumido livremente, ele afasta adolescentes do estudo ou do trabalho. E gera desavenças sangrentas entre bandos de criminosos. A droga vem de Lauro de Freitas, uma cidade ao lado onde ficam os traficantes relativamente mais ricos: têm carros, ainda que velhos, e tênis da moda. Os bandidos de Lauro de Freitas se subordinam ao Primeiro Comando da Capital, PCC, a rede bandida criada em São Paulo que se espalhou pelo Brasil.

Às nove da manhã seguinte ao jantar em Ondina, Jaques Wagner participou de uma reunião do Pacto Pela Vida, um programa de governo que visa melhorar o combate à criminalidade. O assunto central do encontro também foi o crack. O Pacto ajunta representantes dos três poderes institucionais, dos diversos ramos da polícia, secretários de Segurança municipais e entidades privadas diversas.

As estatísticas da segurança na Bahia são péssimas. Na década passada, o número de homicídios com arma de fogo no estado cresceu mais de 200%. Hoje são quase 5 mil assassinatos por ano, e mais de 3 mil deles motivados pela droga: gangues que acertam contas à bala, viciados fuzilados por não pagarem dívidas, cizânias provocadas por craqueiros na fissura. São mais baianos mortos ao ano que em períodos semelhantes na guerra de independência de Angola, na civil na Somália e na Intifada palestina.

Com dezenas de participantes, todos com computador à frente, a reunião foi longa. O governador queria saber por que se matou tanto no mês passado em determinadas cidades ou distritos. Cobrou maior integração entre as polícias civil e militar. Jaques Wagner pediu licença uma hora para falar no celular com o ministro da Agricultura, Antônio Andrade, sobre a seca.

A reunião foi presidida pelo secretário Robinson Almeida, da Comunicação. Ele disse que os encontros do Pacto pela Vida são essenciais para a troca de informações, descobrir como age o banditismo e acompanhar a criminalidade no cotidiano, alocando recursos e forças policiais para lhe fazer frente.

Almeida, no entanto, não tem ilusões quanto às artes do leão de sete cabeças do crime: corta-se uma e logo cresce outra. “Acho o Pacto imprescindível para salvar vidas, mas às vezes me sinto enxugando gelo”, disse. Não só porque faltam verbas, policiais e equipamento. Ele explicou: “Vivemos uma crise de crescimento no Brasil e na Bahia. A renda das famílias aumentou e o PCC descobriu um mercado para a droga, principalmente o do crack. Seria preciso policiar os 17 mil quilômetros da fronteira brasileira para evitar o tráfico. Nem os Estados Unidos, que têm 3 mil quilômetros de fronteira com o México, conseguem fazer isso.”

O secretário usou uma analogia com jegues e motocicletas. “Antes, o sertanejo tinha um jegue, e no final do dia saía por aí montado no bicho, tivesse bebido ou não”, disse. “Agora é mais barato trocar o jegue por uma moto, comprada em sessenta prestações. Só que cair da moto é muito pior. As seções de traumatologia dos hospitais baianos estão cheias de acidentados com moto.” De cada dez acidentes de trânsito na Bahia, sete envolvem motociclistas.

 
Uma semana depois, Jaques Wagner esteve em São Paulo para um almoço da Câmara de Comércio e Indústria Brasil–Alemanha. Tinha um porte mais germânico que todos os executivos alemães presentes. Ele discorreu meia hora sobre a situação da Bahia. Usou os termos “parceria público-privada”, “modelagem”, “sinergia”, “incremento tecnológico” e falou do porto e da ferrovia que estão sendo tocados no estado. Mas disse da gravidade da seca.

Terminou o discurso e pediu que os convivas lhe fizessem perguntas. Todas elas foram sobre infraestrutura. Ninguém quis saber da seca, de quem existe nesses climas condicionados pelo sol, pelo gavião e outras rapinas.

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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