O sujeito oculto

No momento em que caiu em falso depois de bater na bola, Henare sentiu uma dor no tornozelo esquerdo. Não era intensa, mas achou melhor parar de jogar vôlei naquele fim de semana. Os vizinhos, que tinham o hábito de estender uma rede no meio da rua para bater bola, continuaram brincando. Em São Mateus, bairro pobre da periferia de São Paulo, o esporte era uma das poucas opções de lazer, à qual Henare se juntava sempre que podia, tirando proveito de sua altura. Aos 15 anos, embora tivesse alguns quilos a mais, já media mais de 1,80 metro. Naquele dia, porém, decidiu voltar para casa. Horas depois, sua perna estava bastante inchada e a dor no tornozelo já incomodava muito. Levado ao hospital, submeteu-se a uma cirurgia para colocar uma placa de titânio. “Meu osso quebrou na diagonal, senti dor por semanas para colocar o pé no chão”, lembra ele. Henare precisou ficar três meses em casa, sem ir à escola, e gastou seu tempo livre com as únicas coisas que tinha à disposição: televisão e internet. Começava ali, por força de um acidente de fim de semana, a gênese de um negócio que o tiraria da pobreza e o transformaria em um caso único no universo digital brasileiro.

Caçula dos três filhos de uma dona de casa e de um recepcionista de farmácia, Murilo Henare começou a trabalhar aos 12 anos, dando expediente na lanchonete de um primo. Estudava de manhã e trabalhava até o início da noite, incluindo fins de semana. Fazia de tudo. Fritava hambúrguer, preparava açaí com cobertura de leite condensado, varria o chão. Com o dinheiro, comprava roupas, tênis, CDs e passou a bancar o próprio material escolar, mas gostava mesmo era de passar tempo no Orkut, a rede social que fazia sucesso no Brasil de então. Aos 14 anos, Henare inscreveu-se no Jovem Aprendiz, projeto do governo federal de capacitação profissional. Continuou se divertindo nas redes sociais, enquanto trabalhava nas Lojas Marisa. Guardava as roupas deixadas nos trocadores e abordava clientes na fila do caixa para convidá-los a fazer o cartão de crédito da loja. Ganhava 462,28 reais por mês. Depois, empregou-se nos Correios, onde separava caixas de encomenda. Dividia o modesto sobrado de dois quartos com o pai, a mãe e dois irmãos.