esquina

O sujinho da folia

Vida e obra de um banheiro químico no pré-Carnaval carioca

Renato Terra
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Às cinco da tarde de 13 de janeiro, um domingo, cerca de 500 foliões aguardavam o início dos festejos pré-carnavalescos no Centro do Rio de Janeiro. Em meio a piratas, freiras, marinheiros e vendedores de cerveja, dezesseis banheiros químicos pintados de um laranja estridente esperavam desde as oito da manhã, enfileirados perto do palco montado em frente à Fundição Progresso, centro cultural que ocupa uma antiga fábrica atrás dos Arcos da Lapa.

Quando o grupo Toque Tambor abriu a batucada, ainda não havia filas de pierrôs e colombinas ansiosos para se livrar do excesso etílico nas cabines herméticas. Com a demanda pequena, o composto químico azulado nos sanitários desempenhava com razoável eficiência sua função de desodorizar o ambiente e dissolver os dejetos. Rolos de papel higiênico pela metade jaziam no chão dos cubículos de 2,30 metros de altura, com 1,10 metro de largura por 1,20 de profundidade. Os suportes de papel toalha já estavam vazios. As placas que distinguiam os compartimentos femininos e masculinos eram ignoradas pelos usuários.

No Carnaval de 2012, 5,3 milhões de cariocas e turistas saíram nos blocos do Rio. O banheiro químico é a alternativa ruim, mas possível, à infração cometida por foliões que improvisam mictórios em árvores, muros, bueiros e rodas de carros – e costumam ser saudados por gritos de “Pega mijão!”.

O cálculo básico dos organizadores de eventos ao ar livre é de uma cabine para cada 200 pessoas. “Calculamos a partir da nossa previsão de público. Mas há variáveis que não controlamos, como a chuva ou o calor excessivo, que interferem na quantidade de gente”, explicou Vanessa Damasco, da Fundição Progresso, responsável pelo evento pré-carnavalesco daquele domingo na Lapa. Vanessa não previu, por exemplo, que teria que acionar os seguranças para retirar usuários de crack de dentro dos banheiros antes de a aglomeração começar.



A diária de um sanitário portátil varia entre 200 e 350 reais, mas o valor diminui de acordo com a quantidade alugada. Ciosa do controle de gastos, Vanessa optou por banheiros standard, um modelo desprovido de descarga, em que os detritos misturados com a química ficam expostos pelo buraco do vaso. O privilégio de evitar o contato visual do usuário com o cocô e o xixi alheios é exclusivo dos modelos Luxo e VIP. Ambos possuem um alçapão que abre quando o visitante aciona o pedal da descarga, deixando os dejetos caírem na caixa coletora. O modelo Luxo oferece ainda um recipiente com álcool gel para a limpeza das mãos, e o VIP, o mais diferenciado dos banheiros portáteis, tem uma pequena pia de plástico. Em todos os casos, a caixa de dejetos fica abaixo do vaso, servindo-lhe de suporte. Sua capacidade de armazenamento costuma ser de cerca de 220 litros. Quando o público supera em muito o previsto, os tanques transbordam.

 

Na Lapa, as filas começaram a se formar uma hora depois de soar a bateria do Toque Tambor. O mau cheiro já tomava conta dos banheiros, reivindicando seu lugar de praxe na folia. O líquido azul apenas tingia o branco do papel, misturado ao marrom dos detritos. A fórmula do produto químico, que geralmente vem em pó e é misturado à água, é um segredo industrial. Sabe-se apenas que contém ingredientes como sulfato de magnésio, álcool, bromo e propanodiol.

Quando a festa na Lapa chegava ao final, uma chuva fina ajudou a transformar o chão dos sanitários em pequenos mangues. O papel higiênico já se tornara mais escasso que pinguim em Copacabana, e o mau cheiro espalhava-se ao redor das cabines. Segundo os organizadores, 6 mil pessoas pularam aquele pré-Carnaval. Teriam sido necessários trinta banheiros, considerada a proporção ideal – quase o dobro do que havia ali. Mas não houve transbordamentos.

No dia seguinte, por volta do meio-dia, um caminhão da empresa que alugou os sanitários chegou para fazer a limpeza. O veículo tem um tanque com capacidade para 9 mil litros de sujeira e é equipado com uma mangueira. Acoplada à caixa de dejetos das cabines, ela suga o conteúdo, a vácuo. Foi apelidada de chupa-merda.

A empresa tem que pagar para se desfazer da carga. Há lugares públicos de despejo, como a Estação de Tratamento de Esgotos Alegria, e privados, como a companhia EnviroChemie. Nessas estações, processos de oxidação e decantação transformam os resíduos num lodo biológico que, depois de desidratado, é descartado em aterros industriais ou vira adubo. A água, quase limpa, é lançada ao mar. Uma empresa de aluguel e limpeza de banheiros químicos tem de ser licenciada pelo Instituto Estadual do Ambiente, o Inea. Em geral, a mesma firma aluga o equipamento, limpa e transporta os dejetos para tratamento.

 

Mesmo com a oferta gratuita de sanitários, alguns foliões aliviaram-se a céu aberto na Lapa. Nem os alicerces dos Arcos centenários foram poupados. O número de flagrantes de xixi na rua aumenta a cada ano na cidade. Segundo a Secretaria Municipal de Ordem Pública, foram 1 014 em 2012, incluindo 114 mulheres e 4 estrangeiros. Os infratores são levados para a delegacia sob a acusação de ato obsceno e acabam, no final do processo, pagando cestas básicas ou prestando serviços comunitários.

Para o Carnaval deste ano, a prefeitura autorizou o desfile de 492 blocos e contratou a empresa Dream Factory para produzir a infraestrutura do evento, patrocinado pela Ambev. A previsão é de que, nos 28 dias oficiais de folia, iniciados em 19 de janeiro, 8 500 banheiros químicos individuais, modelo standard, e 55 contêineres com sete vasos sanitários sejam postos à disposição dos adeptos das folias momescas. As empresas que alugam os banheiros reclamam das despesas causadas pela depredação. Pichações, queimaduras das paredes com cigarros e furtos de lâmpadas acontecem com frequência.

A Desentop, que fez a higienização dos banheiros químicos do Carnaval carioca de 2012, dispõe seu estoque de 150 sanitários em um galpão em Inhaúma, na Zona Norte da cidade. Um dos funcionários que colocam a mão na massa, João Batista lista os itens que mais encontra nos cubículos: celular, saquinho de cocaína vazio, absorvente feminino, camisinha e corrente de pescoço. “Na Lapa, costumo encontrar gente dormindo dentro do banheiro. Mas o que achei de mais inusitado foi um varal de calcinha, com vários tamanhos e modelos”, contou. Rindo, lembrou que um colega se deparou com dois homens transando quando abriu a porta da cabine, e estava prestes a entrar com a mangueira de sucção.

Renato Terra

Renato Terra foi repórter de piauí e era ghost-writer do Diário da Dilma e responsável pelo piauí Herald até 2016

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