esquina

O tesouro da casa 1698

Às vezes, encontrar dinheiro pode ser o início de um pesadelo

Rodrigo Levino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

O assalto à agência do Banco Central em Fortaleza, em agosto do ano passado, entrou para os anais do crime como um dos maiores assaltos a banco do mundo e, seguramente, o maior da história brasileira. A 550 quilômetros dali, para três adolescentes e suas famílias, o episódio virou sinônimo de tormento.

Um ano depois do assalto, grande parte dos 164 milhões de reais roubados continuava desaparecida. Em Natal, na zona norte da cidade, Roberto, 13 anos, Carlos, 14, e Tadeu, 14 (os nomes são fictícios), disputavam mirim na Rua Praia Grande, em frente à casa de número 1698. A regra do jogo é simples: dois driblavam, e a cada três gols o goleiro ia para a linha. Num chute mal calculado, a bola foi parar dentro da casa. Ao buscá-la, deram com uma porta mal trancada. Como a casa estava abandonada, entraram. Na cozinha, jogada entre ferramentas, encontraram uma bolsa. Dentro dela, 82 mil reais.

Os meninos voltaram eufóricos para a casa de Roberto. “Estamos ricos, estamos ricos!” Pensavam no videogame PlayStation II que comprariam, “desses que tocam até DVD”. Alarmada, a mãe de Roberto exigiu que os meninos devolvessem o dinheiro e não falassem mais no assunto. A polícia foi contatada. Sob o piso falso da cozinha, encontrou mais 336 mil reais.

 

Segundo a mãe de Roberto, o que se seguiu foi um pesadelo. Além de repórteres, vizinhos, colegas de escola e desconhecidos faziam campana dia e noite, à cata de informações. Muitos começaram a desconfiar que os meninos haviam ficado com parte do dinheiro. A rotina da família virou de cabeça para baixo. Os dois irmãos mais novos deixaram de ir à escola. O pai, motorista de buggy na praia de Genipabu, afastou-se do trabalho para ficar com a mulher e os filhos. Com medo da quadrilha de assaltantes, todos passaram a dormir no mesmo quarto, inclusive a cadela de estimação.

Carlos e Tadeu se refugiaram no interior do estado. Roberto foi para a casa da avó, em outro bairro, mas a notícia o seguia por toda parte. Acabou indo para o interior também, a convite de uns primos. Ali as perguntas eram poucas e ele se sentia mais à vontade. Passava as tardes andando a cavalo.

Hoje, só Roberto e sua mãe se dispõem a falar sobre o que aconteceu. O menino conta que, ao regressar a Natal, quase um mês depois, soube por colegas de escola que uma turma de garotos maiores o esperava para um “acerto de contas”. Diziam que estava escondendo parte do dinheiro devia compartilhá-lo. A mãe conversou com o diretor da escola. Ouviu que só poderia haver garantia de proteção ali dentro. Fora da instituição, o menino continuaria a correr perigo. Cansado de se ver chamado pelas pessoas de “o menino do dinheiro”, Roberto avisou à família que queria recomeçar do zero. Mudou de escola.

Os primeiros dias de aula foram um alívio. O garoto pensou que tinha voltado a ser anônimo. Em pouco tempo, se deu conta do engano. Um dia, na hora do intervalo, percebeu um grupinho de meninos que apontava na sua direção e ria. Dito e feito: era de novo “o menino do dinheiro”.

Nos dois meses seguintes, Roberto teve sucessivos pesadelos. Não conseguia dormir sozinho nem sair de casa. Tinha medo de que os bandidos voltassem para pegar o dinheiro. Imaginava vingança. Sonhava que a polícia invadia a casa do assalto e o encontrava lá, ou que jornalistas insistiam em falar com ele a todo custo. Ele apenas “fugia, fugia, fugia”. Hoje os pesadelos rarearam. Ainda assim, às vezes desperta no meio da noite, ofegante, e procura o quarto dos pais. Não sabe exatamente por que se assusta, mas sabe que acorda “por causa do barulho”. Barulho do quê? “Ah, das sirenes, dos carros, do povo na rua.”, responde acanhado.

As perguntas a respeito do dinheiro ainda incomodam. A tática do garoto é desconversar. “Dinheiro? Que dinheiro?” As más línguas continuam a repetir a história: ele ficou com uma parte. A mãe é taxativa: “Dizem isso por maldade. Aquilo era dinheiro sujo, não foi Deus que mandou. Se Ele tiver que mandar, não vai ser dinheiro de roubo, vai ser do nosso trabalho!”. A mãe lembra que até hoje o poder público não fez um só gesto em relação aos meninos. Não ofereceram ajuda de psicólogo nem de assistente social. “Nem um ‘obrigado’ das autoridades. Já pensou se a gente não tivesse sido honesto? O dinheiro nunca teria aparecido.”

 

Os três meninos continuam inseparáveis. “Eles não se desgrudam. No sábado, saem de casa logo cedo, só voltam para comer e desabam no mundo de novo. Vão jogar bola, videogame, vão andar de bicicleta”, diz a mãe. Aflita, ela redobrou a atenção. Vai com freqüência à rua para se certificar de que está tudo certo. Ainda tem medo dos carros desconhecidos que, volta e meia, são vistos rondando a região. Mas a família não pensa em sair da casa onde mora há treze anos: “Não devemos nada a ninguém. Por que sair daqui?”.

Os meninos jogam mirim, agora bem longe do número 1698 da Rua Praia Grande. Ainda não ganharam um PlayStation II. “É caro demais e não sobra dinheiro,” diz Roberto – e, em voz baixa, completa: “Era melhor que nada disso tivesse acontecido”.

Rodrigo Levino

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