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O tesouro de Mukeka

Um pirata moderno procura ouro na praia de Amaralina

Taisa Sganzerla

O ouro do mergulhador Mário Cortizo Andion, conhecido como Mário Mukeka, não está em terra, mas no mar. Mais precisamente, em Salvador, na praia de Amaralina, entre o quartel do Exército e o largo das baianas de acarajé – foi isso o que lhe disse uma cartomante, no ano de 1991. Conversa fiada ou não, achou melhor checar. Convenceu Carlos Alberto Silva, o Caíto, companheiro de mergulho, a procurar o baú do tesouro. Dezoito descidas depois, lá estava: uma caixa de cobre, virada de cabeça para baixo, com a tampa enterrada na areia. Como o ar do cilindro estava próximo do fim, resolveram subir, já pensando em retornar com outros equipamentos para içar a caixa, mal sabendo que aquela seria a primeira e última vez que a veriam.

“Perdi a conta de quantas vezes desci lá desde aquele dia. Vou lá todo verão. Conheço aquele fundo como a sala da minha casa”, disse-me Mário, sentado na sala de sua casa – um trailer de 8 metros quadrados construído por ele mesmo. O veículo foi feito com materiais abandonados e uma carcaça de caminhão adquirida em um ferro-velho. E é espantosamente prático e organizado. Sobre uma mesinha retrátil, Mukeka desenha um detalhado mapa do tesouro de Amaralina enquanto conversa. A decoração interna se resume a uma bandeira do Jolly Roger, o símbolo universal da pirataria.

Nascido há 59 anos no Rio de Janeiro, Mário Cortizo Andion se mudou para a Bahia com a família quando criança e, de lá, nunca mais saiu. Ainda que seja mergulhador, artesão e músico, Mário se considera mesmo um “pirata”. Isto é, um mergulhador com propósitos específicos: encontrar objetos valiosos em naufrágios.

Existem pelo menos 220 naufrágios conhecidos nos quase 1 200 quilômetros do litoral baiano, prato cheio para a proliferação de caçadores de tesouro como Mukeka. Caíto, a testemunha viva da existência da caixa de cobre, é um deles. “Quando encontramos a caixa, Mário enfiou uma faca numa fresta, entre as duas lâminas de cobre, para forçá-las para o lado. Não funcionou, mas nessa hora subiu uma poeirinha na água. Eu vejo essa poeirinha todas as noites nos meus sonhos, há vinte anos”, conta Caíto.

Segundo ele, nenhum dos dois tinha barco na época – resolveram construir uma balsa, que foi a primeira embarcação que os levou até o mar de Amaralina. “Fomos muitas vezes juntos lá, depois daquele dia. Mas agora eu não desço mais. Só se fosse com tecnologia. Mas para ficar tateando a esmo por mais dez anos, não dá.”

 

Em meados da década de 90, quando as histórias da busca infindável pela caixa de cobre do mar de Amaralina chegaram a muitos ouvidos da cidade, um amigo mergulhador sugeriu a Mário que conversasse com um tal de Orlins Santana, “um maníaco do arquivo público que sabe tudo sobre naufrágios”.

Orlins é dentista e nunca estudou história formalmente, mas é conhecido entre os piratas de Salvador como o grande entendedor de naufrágios na Bahia. Há mais de trinta anos ele pesquisa sobre o assunto no Arquivo Público do Estado. Seu método é olhar o Diário Oficial, no qual naufrágios eram relatados, e depois procurar possíveis cartas, a partir do nome do navio e da data de afundamento.

Foi ele quem descobriu o documento que prova a existência de um naufrágio do ano de 1638 em Amaralina. Trata-se, afinal, da nau São Rafael, que trazia consigo um carregamento de telhas de barro, entre outros materiais de construção, a pedido de um espanhol que vivia em Salvador chamado Franco de Villa Gómez. Vinha do norte, costeando a praia, quando se chocou contra um grande recife, o que lhe rompeu o casco. O navio permanecia navegável, mas o capitão, chamado Boaventura, teve de ir se desfazendo de sua carga pelo caminho, para que não afundasse. Tragicamente, quando chegou próximo à praia de Amaralina, se chocou mais uma vez com outro recife, e dessa vez não houve salvação. O casco partiu-se em dois, e o navio foi parar no fundo do oceano, junto com o capitão.

O tal documento encontrado por Orlins é uma carta de Franco de Villa Gómez endereçada ao governador-geral da época, Pedro da Silva, o Conde de São Lourenço, explicando as causas da tragédia. Na biblioteca de sua pequena casa na Saúde, bairro próximo ao Centro de Salvador, há centenas de cópias de manuscritos antigos como esse, todos tirados do Arquivo Público. “Eu tinha muito mais coisas, mas já dei várias cópias a outros professores de história daqui de Salvador”, conta.

Para Orlins, a caixa que Mukeka tanto procura, mesmo que ainda esteja perdida, pode muito bem ser só uma caixa de açúcar – argumento que Mukeka prontamente rebate: “Não é de açúcar. Caíto tentou empurrá-la quando encontramos, era muito pesada. Se fosse de açúcar, não teria mais nada ali dentro e seria leve. O que tem ali é ouro.”

Enquanto não encontra o tesouro, Mukeka migra com seu trailer de madeira, de terreno em terreno baldio, pela cidade. Hoje, ele está no bairro da Barra, atrás de uma antiga casa abandonada e tomada pela vegetação do entorno. A descrença de muitos, inclusive a de alguns amigos, não abalou sua persistência. Ainda hoje ele mergulha à caça do tesouro, sempre no verão, quando a visibilidade embaixo d’água é melhor. “Gostam de dizer que, de tanto eu contar essa história por aí, alguém já deve ter descido lá e levado. Mas eu sei que a caixa está lá enterrada, e um dia minha hora vai chegar.”

Taisa Sganzerla

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