negócios da África I

O tesouro, o mercador, o ditador e sua amante

Como um bilionário israelense conquistou o controle de uma jazida colossal na Guiné e o dividiu com a Vale

Patrick Radden Keefe
O solo vermelho das montanhas Simandou, na paupérrima Guiné, revela uma das maiores reservas de ferro do mundo; objeto de uma investigação de suborno e de uma disputa internacional que envolve grandes mineradores como a Rio Tinto e a Vale, a jazida permanece inexplorada
O solo vermelho das montanhas Simandou, na paupérrima Guiné, revela uma das maiores reservas de ferro do mundo; objeto de uma investigação de suborno e de uma disputa internacional que envolve grandes mineradores como a Rio Tinto e a Vale, a jazida permanece inexplorada FOTO: RIO TINTO

Uma das maiores jazidas mundiais de minério de ferro ainda inexploradas se encontra sob um maciço coberto de florestas na pequena República da Guiné, na África Ocidental. No sudeste do país, longe de qualquer cidade ou estrada relevante, as montanhas Simandou se estendem por mais de 110 quilômetros, elevando-se acima da selva como uma imensa coluna vertebral de dinossauro. Alguns dos picos receberam apelidos dos geólogos e engenheiros de minas que trabalharam na região; um é o Iron Maiden, outro é conhecido como Metallica. O minério de ferro é a matéria-prima do aço, e o minério de Simandou é de uma riqueza incomum, podendo ser levado quase diretamente aos altos-fornos após um processamento mínimo. Ao longo da década passada, à medida que megacidades se erguiam por toda a China, o preço desse minério disparou e os investidores saíram à procura de novas fontes da matéria-prima. A poeira vermelha que reveste a vegetação ao redor de Simandou, concentrando-se em filões por entre as pedras das montanhas, tem um valor fabuloso.

A extração do minério de ferro é um processo complicado, que demanda grandes somas de capital. Simandou, a cerca de 650 quilômetros da costa, fica em meio a uma floresta tão impenetrável que os primeiros equipamentos de perfuração foram transportados de helicóptero. O território permanece praticamente em seu estado natural – a extração do minério não começou. O transporte até a China e outros mercados irá exigir não só a abertura de uma mina, mas também a construção de uma ferrovia robusta o suficiente para suportar o peso de vagões abarrotados de minério. Também será preciso abrir acesso até um porto marítimo de águas profundas, que não existe no país.

Com pouca indústria, eletricidade escassa e raras estradas transitáveis, a Guiné é uma das nações mais pobres do planeta. As instituições do Estado quase não funcionam, mais da metade da população não sabe ler. “O nível de desenvolvimento é equivalente ao da Libéria ou de Serra Leoa”, disse-me um conselheiro do governo em Conacri, a precária capital litorânea do país. “Mas nunca tivemos guerra civil.” Essa situação crítica, porém, não seria inevitável, uma vez que o território conta com grande abundância de recursos naturais. Além do minério de ferro da serra de Simandou, a Guiné possui uma das maiores reservas mundiais de bauxita – o minério que, depois de duas etapas de refino, resulta no alumínio – e quantidades significativas de diamante, ouro, urânio e, no mar territorial, petróleo.

À medida que se deparam com o rápido esgotamento de suas reservas, os países ricos voltam-se cada vez mais para a África, onde trilhões de dólares em petróleo e outros recursos minerais continuam debaixo da terra. Segundo uma avaliação recente, o continente africano reúne 30% de todas as reservas minerais do planeta. Paul Collier, codiretor do Centro de Estudo das Economias Africanas, em Oxford, vê “uma nova corrida à África” em andamento. O comércio bilateral entre a China e a África, que em 2000 totalizava 10 bilhões de dólares, ultrapassou 200 bilhões em 2013. Atualmente, os Estados Unidos importam mais petróleo da África do que do Golfo Pérsico.

O mundo ocidental sempre viu a África como um território a ser espoliado: de diamantes, borracha ou escravos – visão consagrada nos próprios nomes da Costa do Marfim, vizinha da Guiné, e de Gana, conhecida pelos colonizadores ingleses como Costa do Ouro. Durante a era vitoriana, a exploração foi especialmente brutal no continente; a voracidade do rei Leopoldo II da Bélgica para obter borracha causou a morte de mais de 10 milhões de pessoas no então chamado Estado Livre do Congo. A nova corrida internacional pelos recursos africanos pode resultar em mais uma história de horror, mas pode também representar uma oportunidade inédita para o desenvolvimento econômico do continente. Collier, que anos atrás escreveu um livro de grande vendagem sobre a pobreza global, The Botton Billion [Os Milhões da Pobreza, edição portuguesa], acredita que países como a Guiné podem se beneficiar bem mais da extração de recursos naturais do que da assistência estrangeira. A jazida de Simandou, por si só, tem potencial de gerar 140 bilhões de dólares de renda ao longo do próximo quarto de século, mais que duplicando o Produto Interno Bruto do país. “O dinheiro em jogo torna todo o resto insignificante”, diz Collier. Como a mina de prata do romance Nostromo, de Joseph Conrad, as reservas de Simandou encerram a promessa de tudo o que é mais necessário para a Guiné: “Lei, boa-fé, ordem e segurança.”

Como no caso da extração de petróleo em águas profundas, ou do envio de missões espaciais, a exportação de minério de ferro requer tanto investimento e tamanha especialização que poucas empresas conseguem se dedicar à atividade. Em 1997, os direitos exclusivos de exploração e desenvolvimento de Simandou foram concedidos à gigante anglo-australiana Rio Tinto, uma das maiores produtoras mundiais de minério de ferro. No início de 2008, o então diretor-executivo da empresa, Tom Albanese, revelou a seus acionistas que Simandou era “sem dúvida a maior reserva mundial inexplorada de minério de ferro de alta qualidade”. Mas pouco depois o governo da Guiné declarou que a Rio Tinto vinha operando com muita lentidão e, enumerando os progressos que a empresa deixara de fazer, deu a entender que ela se limitara a entesourar a jazida de Simandou – mantendo-a fora do alcance da concorrência enquanto explorava minas em outras regiões.

 

Em julho de 2008, a Rio Tinto perdeu parte de sua licença e, em seguida, as autoridades guineanas concederam a exploração de metade da jazida a uma empresa bem menor, a Beny Steinmetz Group Resources, ou BSGR. Algumas estimativas apontam Beny Steinmetz como o homem mais rico de Israel; segundo informações da Bloomberg, sua fortuna pessoal chega a 6,4 bilhões de dólares. Steinmetz, que fez nome no comércio mundial de diamantes, raramente fala com a imprensa, e a estrutura corporativa de suas várias empresas é tão tortuosa que fica difícil avaliar o montante de suas posses. O contrato de Simandou representou um acréscimo surpreendente à carteira de Steinmetz, visto que a BSGR não tem qualquer experiência no ramo. O executivo de uma empresa de mineração na Guiné fez a seguinte declaração: “Você pode sair de uma mina de diamantes com os bolsos cheios de pedras. No caso do minério de ferro, precisa de uma infraestrutura que resista a várias décadas de uso.”

A Rio Tinto, irritada, protestou contra a decisão. “É surpreendente que uma empresa neófita em operações de mineração de ferro tenha sido premiada com parte da nossa concessão”, declarou um porta-voz da companhia. Dirigentes se queixaram junto à embaixada dos Estados Unidos em Conacri, e um deles chegou a sugerir que Steinmetz não tinha a intenção de explorar diretamente a mina, na verdade planejava passá-la adiante – “Obter a concessão e depois vendê-la com grande lucro”. Para a Rio Tinto, Steinmetz – de quem se diz à boca pequena manter estreitos laços com serviços de informação israelenses – era um aventureiro suspeito. Segundo um despacho diplomático vazado pela WikiLeaks, o diretor-geral da Rio Tinto revelou à embaixada dos Estados Unidos que não se sentia confortável em comentar os negócios de Steinmetz por um telefone celular “desprotegido”. Alan Davies, importante executivo da Rio Tinto, disse que a empresa havia investido centenas de milhões de dólares na área, avançando com a rapidez possível num projeto que demandava décadas de preparação. “O episódio foi muito chocante para a nossa empresa”, concluiu.

Em abril de 2009, o Ministério das Minas, em Conacri, ratificou o acordo com Steinmetz. Um ano mais tarde, o empresário fechou negócio com a brasileira Vale – uma das principais concorrentes mundiais da Rio Tinto. A Vale concordou em pagar 2,5 bilhões de dólares por uma participação de 51% na operação da BSGR em Simandou. Foi um acordo que caiu do céu: como é praxe nas licenças de exploração, a BSGR – que até então só investira 160 milhões de dólares no projeto – ainda não havia pagado nenhum tostão ao governo guineano. Em menos de dois anos, o negócio da BSGR em Simandou passara a valer 5 bilhões de dólares. A essa altura, o orçamento anual do governo da Guiné totalizava apenas 1,2 bilhão de dólares. Mo Ibrahim, bilionário sudanês da área das telecomunicações, traduziu a impressão de muitos observadores quando, num fórum realizado em Dacar, perguntou: “Será que os guineanos responsáveis por esse negócio são idiotas, criminosos ou as duas coisas?”

Steinmetz demonstrava orgulho pela transação. “As pessoas não gostam do sucesso”, ele declarou ao Financial Times, numa rara entrevista, em 2012. “Sentem-se incomodadas quando o pequeno Davi provoca o gigantesco Golias.” Disse ainda que a estratégia da BSGR era “procurar oportunidades de maneira agressiva”, e acrescentou: “É preciso sujar as mãos.”

Em Conacri, corriam rumores de que Steinmetz teria obtido a concessão em troca de subornos. Segundo a Transparência Internacional, a Guiné estava na época entre os países mais corruptos do planeta. Um relatório da Human Rights Watch sugere que, quando Steinmetz adquiriu sua concessão sobre parte de Simandou, a Guiné era na prática uma verdadeira cleptocracia, em que os governantes patrocinavam “uma infiltração  cada vez maior do crime no Estado”. Relatório recente do Africa Progress Panel, organismo presidido por Kofi Annan, insinua que estrangeiros ligados a pessoas importantes nos governos locais muitas vezes adquirem bens lucrativos no continente a preços muito inferiores ao valor de mercado, em troca da oferta de “incentivos” às ávidas elites nacionais. “A riqueza do continente jamais reverteu em benefícios para a vasta maioria dos africanos; ao contrário, propiciou que as minorias privilegiadas construíssem imensas fortunas”, diz o texto. O relatório destaca os bilhões de dólares que a Vale concordou em pagar a Steinmetz, assinalando que “o povo da Guiné, que parece ter perdido muito com a avaliação modesta do valor da concessão, não terá qualquer participação nesses ganhos”.

Em 2010, meses depois do anúncio do negócio com a Vale, a Guiné realizou suas primeiras eleições plenamente democráticas desde a independência, rompendo com um ciclo de meio século de governos autoritários. O novo presidente, Alpha Condé, prometeu aos eleitores maior transparência no setor da mineração. Quando tomou posse, porém, era possível que as transações concretizadas já tivessem despojado a Guiné do mais valioso de seus patrimônios minerais. Ainda assim, o presidente recém-eleito não podia, com uma penada, anular concessões anteriores. “Existe a continuidade do Estado”, ele me disse. “Eu não tinha como simplesmente reconstituir a situação anterior – a menos que tivesse a lei do meu lado.” A BSGR, por sua vez, negou qualquer malfeito: “Essas alegações são falsas e fazem parte de uma campanha para caluniar a empresa”, disse-me um porta-voz da BSGR. Se a licença para a exploração de Simandou tivesse sido obtida em troca de suborno, o negócio poderia ser desfeito. Mas Condé e seus conselheiros precisavam de provas.

 

“Herdei um país, mas não um Estado”, disse o presidente quando nos encontramos pela primeira vez, em janeiro de 2013, na suíte de um hotel em Davos, onde ele estava por ocasião do Fórum Econômico Mundial. Condé é um homem alto, com a testa ampla e uns olhos pequenos que se iluminam, divertidos, quando escuta o interlocutor. Vestia terno marrom e gravata vermelha. Instalado numa cadeira de espaldar alto e largo, durante nossa entrevista pendia ligeiramente para a direita, como se a coroa lhe pesasse.

Ao ser eleito presidente, Condé tinha 72 anos e passara boa parte da vida no exílio. Jovem, foi embora do país quando a Guiné ainda era colônia francesa e acabou por instalar-se em Paris, onde se tornou líder do movimento estudantil pan-africano da década de 60. Estudou direito, lecionou na Universidade de Paris e estabeleceu-se como a figura talvez mais importante de toda a oposição guineana. E por isso foi julgado à revelia e condenado à morte pelo primeiro déspota a governar o país depois da independência; o segundo o encarcerou por mais de dois anos, em 1991, quando Condé voltou à pátria para concorrer, sem sucesso, à Presidência da República. As eleições de 2010 foram muito disputadas – seu principal adversário, Cellou Dalein Diallo, havia sido primeiro-ministro da Guiné quatro anos antes. Depois de finalmente tomar posse, Condé prometeu que seria o Nelson Mandela da Guiné.

Primeiro, coube a ele enfrentar o legado de um “estado de anarquia” que já durava várias décadas. O governo de Conacri tinha algo de farsesco: uma profusão de burocratas se apresentava diariamente para trabalhar em instalações administrativas esbodegadas, mas a capacidade institucional efetiva era mínima. “O Banco Central estava imprimindo dinheiro falso”, contou Condé. Mas nem assim o novo governante podia demitir os funcionários do primeiro escalão; precisava resignar-se a um alto funcionalismo que só conhecera suborno e extorsão. “Quase todo mundo com algum grau de especialização estava com o rabo preso”, revelou-me um dos conselheiros de Condé. “Por isso, só lhe restava conciliar, de um lado, a continuidade do emprego de pessoas competentes, mas com o rabo preso, e de outro, a nomeação de pessoas corretas, mas inexperientes.”

Condé logo tomou a defensiva quando lembrei os muitos anos que tinha morado no exterior: “Conheço a Guiné melhor do que muita gente que nunca saiu de lá.” Além do mais, sua condição de expatriado o exime de qualquer envolvimento com os escândalos dos governos anteriores. Tendo passado boa parte da vida na França, ele se mostra incrivelmente à vontade em lugares como Davos. O embaixador americano em Conacri, Alex Laskaris, me disse nunca ter encontrado chefe de Estado africano “com tal círculo internacional de contatos e conselheiros”. Bernard Kouchner, ex-ministro do Exterior da França, estudou com Condé no curso secundário e é seu amigo. Kouchner apresentou Condé a George Soros, o financista bilionário que acabou por se transformar em conselheiro informal do presidente e fez a ponte entre ele e Paul Collier, o economista de Oxford. Collier, por sua vez, apresentou Condé a Tony Blair, que lhe ofereceu ajuda por intermédio da organização que dirige, a Africa Governance Initiative.

Esses ocidentais enxergam em Condé a tábua de salvação da Guiné. Collier me disse que, antes de mais nada, o país carecia de “integridade nos escalões mais altos”. Condé pode ser desagradável – com seu ar professoral, parece estar sempre dando aula aos interlocutores. E, depois de toda uma vida de eterna oposição, não era evidente que ele se sairia bem no papel de governante. Desde o início enfrentou dificuldades. Tomou posse com a promessa de completar a transição democrática do país e convocar eleições parlamentares, que só vieram a ocorrer em setembro de 2013, devido a dificuldades operacionais. O atraso levou a oposição a se rebelar em Conacri, e a capital foi palco de uma série de confrontos violentos entre manifestantes e forças de segurança do governo.

Apesar de todo o tumulto, os amigos e conselheiros estrangeiros de Condé mantêm a fé em seus princípios éticos. “Ele é absolutamente incorruptível”, garantiu-me Kouchner. “Não é dado a luxos. Não gosta de viagens. À noite, costuma comer batata fria!” Corinne Dufka, pesquisadora titular no Human Rights Watch, não perdeu a esperança no sucesso de Condé como reformador. “Há muito a ser feito para a Guiné superar seu legado de governos arbitrários”, ela disse. “O poder continua extremamente concentrado no Executivo e, sem um Judiciário vigoroso ou um Parlamento democraticamente eleito, na prática não existe a fiscalização de que o país tanto precisa. Mas Condé conseguiu alguns avanços concretos ao enfrentar os gravíssimos problemas legais e de governança que herdou.”

Não é fácil transformar um país corrompido de alto a baixo. Durante os primeiros meses de governo, Condé promoveu uma espécie de triagem. Com a ajuda da Revenue Watch Institute – organização patrocinada por Soros que estimula a transparência na indústria extrativa –, ele criou um comitê para rever os contratos de mineração vigentes e apontar eventuais problemas. Ainda não conhecia Steinmetz – “Eu não conhecia ninguém na área de mineração”, declarou com orgulho –, mas o acordo de Simandou apresentava elementos que justificavam uma investigação. “Estranhei que eles tivessem investido 160 milhões de dólares e já fossem lucrar bilhões”, comentou Condé. “Era um tanto…” – e com um sorriso e um dar de ombros, num gesto bastante gaulês, não concluiu a frase.

 

Beny Steinmetz, que tem 57 anos, não parece ter domicílio fixo. A bordo de seu jato, costuma viajar entre Tel-Aviv (onde sua família está instalada, numa das casas mais caras de Israel), Genebra (onde reside oficialmente, por questões fiscais) e localidades distantes (onde concentra seus interesses em diamantes e mineração, da Macedônia à Serra Leoa). Tecnicamente, não é um dos executivos do conglomerado que leva seu nome, mas apenas o principal beneficiário de uma fundação para a qual convergem os lucros da empresa. O que não passa de uma precária cobertura legal. Ehud Olmert, ex-primeiro-ministro de Israel e seu amigo, descreve Steinmetz como um one-man show. E continua: “Não entendo muito os aspectos jurídicos da coisa – só sei que ele é capaz de trabalhar sem interrupção, e se deslocar a qualquer momento, de um lado a outro do planeta, assim que fareja um negócio promissor.” Steinmetz tem ótima forma física e se exercita diariamente, esteja onde estiver. Com olhos azuis, cabelos claros revoltos, uma preferência por roupas informais e um bronzeado intenso, parece menos um magnata que um agente de Hollywood.

“Cresci num lar onde só se falava de diamante”, disse-me Steinmetz. O pai, polonês, aprendeu a lapidar diamantes na Antuérpia, antes de se estabelecer na Palestina, em 1936. Uma foto de família de 1977 mostra o jovem Beny sentado a uma mesa, junto aos dois irmãos mais velhos e ao pai, que encara a lente com ar severo enquanto o caçula avalia uma pedra preciosa. Naquele ano, Beny, tendo terminado o serviço militar, partiu para a Antuérpia, encarregado de expandir os negócios internacionais da empresa. Segundo The Steinmetz Diamond Story, uma história dos negócios da família publicada por iniciativa particular, Beny iniciou suas atividades na África à procura de novos fornecedores de pedras brutas. O plano da empresa não era operar minas, e sim negociar diretamente com garimpeiros locais.

Cerca da metade dos diamantes do planeta se origina na África subsaariana, e muitos ocidentais ambiciosos já se aventuraram no rastro de Cecil Rhodes – o fundador da De Beers – à procura de fortuna no continente. “Infelizmente, não existem minas de diamantes em Piccadilly”, declarou Dag Cramer, que supervisiona os interesses comerciais de Steinmetz. “Não foi lá que Deus pôs as riquezas.”

Os diamantes, na verdade, costumam ser encontrados em países assolados pelo subdesenvolvimento, pela corrupção e, muitas vezes, pela guerra. E só isso já bastaria para meter medo em muitos investidores. Mas não em todos: certos empresários são atraídos pela irresistível combinação de incerteza política, perigo físico e ganhos potencialmente astronômicos. O embaixador Laskaris, que já serviu na Libéria e em Angola, compara o comércio de diamantes em boa parte da África à mal frequentada cantina do filme Guerra nas Estrelas. “É uma atividade que atrai toda a escória da galáxia”, ele diz. “São poucas as barreiras de entrada, e a corrupção é recompensada – assim como certo grau de brutalidade.”

Steinmetz mergulhou nas águas traiçoeiras da política africana. Na década de 90, já era o maior comprador de diamantes de Angola; mais tarde, tornou-se o maior investidor particular em Serra Leoa. Hoje, é o maior comprador de diamantes brutos da De Beers, e um dos principais fornecedores da Tiffany & Co. E diversificou seus interesses investindo em imóveis, minerais, petróleo e gás, entre outras atividades, com negócios em mais de vinte países. Uma página que o próprio Steinmetz colocou na Internet o descreve como um “verdadeiro visionário”, que usou sua “rede de contatos no continente africano” para construir “um império de muitas facetas”.

Paul Collier, entretanto, não vê com bons olhos empresários como Steinmetz, que detêm o direito de exploração de recursos naturais, mas talvez não tenham a efetiva capacidade de explorá-los. “A competência técnica dele é o mapeamento da rede social”, diz Collier. “Quem tem o poder de tomar a decisão? A quem eu posso chegar? E é essa especialidade deles – saber como obter uma concessão.” (Cramer refuta essa caracterização, reiterando que Steinmetz faz investimentos sustentáveis em todos os lugares onde opera: “A BSGR nunca foi uma empresa dedicada à obtenção de concessões para depois passá-las adiante.”)

Apesar do tamanho da fortuna, Steinmetz vive com extrema discrição. Em 2013, depois que o noticiário da tevê israelense HaMakor dedicou todo um programa à batalha que ele vinha travando com as autoridades fiscais de Tel-Aviv, o magnata acenou com a ameaça de um processo, conseguindo impedir que o programa fosse postado na internet. “É um sujeito muito reservado”, disse-me Alon Pinkus, amigo de Steinmetz que já serviu como cônsul-geral de Israel em Nova York. “Só pensa na família – e nos negócios.”

Os negócios de Steinmetz com diamantes, porém, já foram objeto de publicidade criativa. Patrocinadora de provas de Fórmula 1, vez por outra sua empresa oferece aos pilotos capacetes e volantes incrustados de diamantes. Numa prova automobilística realizada em Mônaco, em 2004, um imenso diamante Steinmetz foi afixado no nariz de um Jaguar de corrida. Ao fazer uma das curvas muito fechadas do circuito, o piloto perdeu o controle e o carro chocou-se contra o guard-rail. O diamante nunca foi recuperado.

 

O general Lansana Conté, ditador que presidiu a Guiné antes da eleição de Alpha Condé, era um notório corrupto: referia-se a seus ministros, não sem algum carinho, como “meus ladrões”, e certa vez declarou: “Se fôssemos fuzilar todos os guineanos que já roubaram o país, não sobraria ninguém.” Em 2008, ao final de mais de duas décadas no poder, Conté ficou doente e praticamente não foi mais visto em público; em suas raras aparições, chegava amparado por guarda-costas e cercado de auxiliares que muitas vezes faziam questão de cochichar ostensivamente em seu ouvido, mesmo quando era óbvio que o velho ditador estava dormindo.

Foi nessa época que Steinmetz desembarcou em Conacri para reunir-se com Conté, na fortaleza onde vivia o general. O presidente sabia da existência da BSGR porque a empresa já tinha adquirido os direitos de exploração de duas pequenas áreas contíguas às montanhas de Simandou – locais cujo potencial não havia sido vislumbrado por outros empresários da indústria de mineração. Em 2006, um dos funcionários de Steinmetz ligou para o chefe do topo de uma montanha, usando um telefone via satélite, e disse: “Beny, você não faz ideia da quantidade de ferro que existe no morro em que estou.” O general Conté passou a acalentar a ideia de redistribuir as concessões da jazida de Simandou. Logo após seu encontro com Steinmetz, o ditador cassou parte da licença concedida à Rio Tinto e concedeu à BSGR o direito de explorar metade da área das montanhas de Simandou. Duas semanas depois de ter assinado o contrato, o general Conté morreu.

Em questão de horas, um golpe militar instalou no governo um jovem e instável capitão do Exército, Moussa Dadis Camara. A junta sob seu comando representou um período de pesadelo para a Guiné. Em setembro de 2009, durante um comício da oposição num estádio da capital, soldados do governo massacraram mais de 150 manifestantes. Os americanos evacuaram a maior parte do pessoal de sua embaixada, e o Tribunal Internacional de Haia descreveu o episódio como um crime de lesa-humanidade. Ainda assim, a posição da BSGR jamais foi ameaçada. Certa feita, Steinmetz desembarcou em Conacri, com dois de seus filhos, para convidar o capitão para o casamento de sua filha, em Israel – uma festa que reuniu mais de mil convidados. (Dadis lamentou não poder comparecer.)

Para Steinmetz, a amizade com a junta militar só demonstra o empenho inabalável de sua empresa em manter-se na Guiné. “Pusemos dinheiro lá numa época em que todos achavam que estávamos loucos”, ele declarou ao Financial Times. A BSGR e a junta militar acabaram chegando a um acordo quanto à maneira como a empresa exportaria o minério de ferro. Para o seu transporte, não seria mais necessário construir um porto de águas profundas ou uma ferrovia até o litoral da Guiné. Havia uma opção mais barata para a BSGR: enviar o minério através da Libéria, país vizinho que já dispunha da infraestrutura necessária para tanto. (Isso depois de o governo da Guiné passar muitos anos recusando projeto semelhante da Rio Tinto.) Como contrapartida, a BSGR concordava em gastar 1 bilhão de dólares na construção de uma ferrovia para o transporte de passageiros na Guiné.

Em dezembro de 2009, um ajudante de ordens deu um tiro na cabeça do capitão Dadis, que sobreviveu e fugiu do país. Outro governo provisório foi formado. Mais uma vez, Steinmetz resistiu ao período de caos e, em abril de 2010, desembarcou no Rio de Janeiro a fim de fechar o negócio com a Vale no valor de 2,5 bilhões dólares. De lá seguiu viagem até o Chile, para verificar in loco a quantas andava a construção de um iate de luxo que havia encomendado a um estaleiro local.

 

Quando o presidente Condé anunciou uma faxina em regra na indústria mineradora da Guiné, encontrou um generoso aliado em George Soros. “Eu tinha uma ideia da magnitude do problema e queria muito ajudar”, contou-me Soros. Num primeiro momento, o empresário recorreu à Revenue Watch em busca de apoio técnico para a revisão do Código de Minas. E também aconselhou que se contratasse Scott Horton, advogado da firma americana DLA Piper; Horton já havia comandado dezenas de investigações sobre corrupção em todo o mundo.

“Para enfrentar um sujeito como Steinmetz, o governo de Condé precisava de ajuda externa”, disse-me Horton. Uma dificuldade adicional advinha do fato de tantas autoridades terem ocupado posições centrais em administrações anteriores. “Não posso mandar que meus homens apurem os fatos”, observou Condé para seus conselheiros. “De um modo ou de outro, é inevitável que eles acabem se deparando com membros de suas próprias famílias.”

Na primavera de 2011, Horton começou a investigar as concessões de Simandou. Para tanto, recorreu aos préstimos de Steven Fox, dono de uma firma de avaliação de risco chamada Veracity Worldwide, com sede em Nova York. Quando grandes empresas estudam ampliar seus negócios em países sujeitos a instabilidade política e corrupção, a Veracity lhes dá suporte para avaliar se o investimento será prudente – e viável, sem fugir à letra da lei.

Fox tem entre 40 e 50 anos, e os modos de um homem que só se sente realmente confortável quando está de terno. Fala baixo, escandindo cada sílaba. Num encontro em seu escritório, no centro de Manhattan, ele me contou que até 2005 trabalhou para o Departamento de Estado, atuando como funcionário diplomático na África. Segundo Eamon Javers, em seu livro Broker, Trader, Lawyer, Spy [Atravessador, negociante, advogado, espião], lançado em 2011, sobre a indústria privada de informações, Fox trabalhava para a CIA. Reparei que uma de suas estantes estava repleta de volumes de John le Carré e Alan Furst.

Quando funcionários do governo guineano começaram a examinar as concessões de Simandou, não encontraram nenhum indício de malfeito. “Limitaram-se a ouvir os boatos dominantes”, contou-me Fox. Ele esteve com Steinmetz uma vez, em Londres, e o achou tranquilo e ponderado, embora tenha ficado com a impressão de que recorria a outras pessoas para abrir o seu caminho – “Batedores avançados, pontas de lança agressivos”. Concluiu que sua primeira tarefa seria identificar os agentes de Steinmetz na Guiné.

Logo localizou seu primeiro candidato: Frédéric Cilins, um francês bronzeado e comunicativo, de cabelos ralos, que morava na Riviera, perto de Cannes, mas passava boa parte do tempo na África. Cilins tinha sido informante da BSGR na Guiné. Quando perguntei a Fox como chegou ao francês, sua resposta foi enigmática: “Conhecíamos um círculo de pessoas que conhecia um círculo de pessoas.” E me disse, a respeito de Cilins: “Ele é um facilitador – é a melhor maneira de descrever o que ele faz.” O papel do francês na BSGR é estabelecer contatos e mapear as estruturas de poder que importam. Desse ponto de vista, pensa Fox, eles dois se parecem: o forte de ambos é cair de paraquedas em países estrangeiros e descobrir “como as coisas funcionam”. (Cilins recusou-se a dar entrevista para esta reportagem.)

No outono de 2011, Fox foi a Paris e teve uma reunião com Cilins. Haviam sido apresentados por um conhecido comum e, pelo que Cilins entendeu, Fox trabalhava para um cliente interessado em saber como a BSGR conseguira o contrato de Simandou. Ao contrário de algumas equipes de espionagem empresarial (e certos espiões de fato), a Veracity Worldwide não recorre a “pretextos”– não emprega ardis para abordar uma fonte potencial. Ainda assim, Fox não admitiu na conversa que seu cliente era o novo governo da Guiné.

Fox e Cilins se encontraram numa sala de reuniões, em seguida foram almoçar num restaurante. Cilins, muito afável, mostrou-se de uma franqueza surpreendente. Enquanto Fox tomava notas, o francês contou que tinha visitado a Guiné pela primeira vez em 2005, depois de um executivo da BSGR em Joanesburgo lhe informar que a empresa queria “tentar chegar à Lua” – expressão que, no entender de Cilins, indicava as reservas de Simandou. Passou os seis meses seguintes em Conacri, hospedado no Novotel, o preferido dos executivos da área mineral. Ficou amigo dos funcionários do business center do hotel, convencendo-os a lhe entregar cópias de todos os faxes que os hóspedes recebiam ou enviavam. E foi assim que ficou sabendo da insatisfação do regime do general Conté com a Rio Tinto.

Cada vez que Cilins desembarcava na Guiné, chegava carregado de presentes – MP3 players, celulares, perfumes –, que distribuía entre seus contatos. Um ministro lhe informou que a única pessoa que contava era o general Conté – e que o caminho que levava a ele passava por suas quatro mulheres. (A poligamia é tolerada na Guiné, país de maioria muçulmana.) Depois de mais algumas pesquisas, Cilins se concentrou na quarta e mais jovem das esposas do general, Mamadie Touré – considerada muito bonita, era uma mulher corpulenta, de olhos amendoados e menos de 30 anos. “Não se tratava exatamente de uma pessoa brilhante, mas era bastante desenvolta. O mais importante é que o presidente lhe dava ouvidos.”

Cilins contratou o irmão de Mamadie Touré para ajudar a promover os interesses da empresa na Guiné, conseguindo em seguida ser apresentado diretamente a ela. Logo depois, Cilins e outros funcionários da empresa obtiveram uma audiência com o presidente. Nesse encontro presentearam o general Conté com um relógio incrustado de diamantes Steinmetz. Numa reunião posterior, o ministro das Minas recebeu uma miniatura de carro de Fórmula 1, também incrustada de brilhantes Steinmetz. Dali a pouco, o irmão de Mamadie era nomeado diretor de Relações Públicas da BSGR – Guiné.

Fox deu de ombros quando lhe perguntei por que Cilins lhe revelara tanto. “Por arrogância”, respondeu ele. “Ou absoluta ingenuidade. Por acreditar que a empresa simplesmente fez o que devia ser feito, e que tudo bem.” O francês parecia orgulhoso de seu trabalho em Conacri. E contou a Fox que, a seu ver, a partir de então a história da Guiné se dividiria em dois períodos – “antes e depois da BSGR”.

Para Cilins, os mimos seriam apenas o preço que se paga em transações com países como a Guiné. Muitas nações combatem acirradamente a corrupção doméstica, mas se mostram bem permissivas quanto a propinas pagas fora do país. Até pouco tempo, empresas francesas podiam declarar como despesas dedutíveis os valores que desembolsavam à guisa de suborno em negócios no exterior. Recentemente, porém, as normas internacionais começaram a mudar. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos intensificou a observância da Lei de Práticas Corruptas no Exterior; o Reino Unido aprovou uma lei própria e igualmente severa; a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico instituiu uma convenção contra o suborno, e várias dezenas de países – entre eles Israel – assinaram o acordo. Empresas de primeira linha, como a Siemens e a KBR, responderam a investigações de corrupção pagando multas no valor de centenas de milhões de dólares. (A Rio Tinto também se viu às voltas com casos de corrupção; em 2010, quatro representantes da empresa foram condenados por terem aceitado suborno na China.) Muitas empresas multinacionais reagiram ao aumento da vigilância contra práticas corruptas criando departamentos internos destinados a controlar a atuação de seus funcionários. A BSGR afirma agir de acordo com os padrões éticos onde quer que opere, e um representante da empresa assinalou que nem Steinmetz nem sua empresa jamais foram acusados de suborno. Mas a BSGR não tem um departamento nem qualquer funcionário cuja responsabilidade principal seja monitorar o comportamento da empresa no exterior.

Pouco depois da morte do general Conté, Mamadie Touré deixou o país. Fox e seus colaboradores descobriram que ela estava vivendo em Jacksonville, na Flórida. O Banco Mundial calcula que 40% da riqueza particular de cidadãos africanos estejam depositados fora do continente. Num processo recente contra o filho do ditador da Guiné Equatorial, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos relacionou alguns de seus bens: uma propriedade com quase 50 mil metros quadrados em Malibu, um jatinho Gulfstream, sete Rolls-Royces, oito Ferraris e uma luva branca que pertenceu a Michael Jackson.

Jacksonville não é Malibu, mas no decorrer das investigações Fox e sua equipe descobriram que Mamadie Touré havia comprado uma casa imensa à beira de um canal, além de várias propriedades menores nas cercanias.

 

Quem desembarca em Conacri sente de imediato o impacto do calor e da corrupção. No aeroporto, um guarda uniformizado detém o visitante e, sem levantar nenhuma objeção em particular, deixa claro, com a linguagem corporal, que só o liberará mediante algum acerto. Nas ruas repletas de detritos, tomadas pelo fedor do lixo que entope os esgotos a céu aberto, a presença militar é menos ostensiva que no passado – a reforma do setor de segurança tem sido uma das prioridades de Condé –, mas à noite jovens soldados postam-se despreocupados nas esquinas, armados de submetralhadoras; debruçam-se nas janelas dos carros que interceptam e, com isso, embolsam algum dinheiro. Em 1961, Frantz Fanon escreveu sobre a África Ocidental no período que se seguiu ao fim das colônias: “As concessões são arrebatadas por estrangeiros; os escândalos são numerosos, os ministros enriquecem, suas mulheres se enfeitam, os parlamentares forram os bolsos e não existe ninguém, da cúpula ao mais simples policial ou agente alfandegário, que não integre a grande procissão dos corruptos.” Essa descrição já não se aplica mais à região como um todo – Gana, por exemplo, é hoje uma democracia próspera –, mas na Guiné pouca coisa mudou.

Uma tarde, dirigi-me a um edifício no bairro administrativo da capital a fim de entrevistar Nava Touré, ex-professor de engenharia a quem Condé confiou a direção do comitê técnico sobre as minas. Touré (nenhum parentesco com Mamadie Touré, a quarta esposa do general), com seu rosto redondo e a voz agradável, se apresenta com modos cerimoniosos. Durante os meses em que preparei esta reportagem, ele era uma das poucas autoridades sobre quem não pairava a menor suspeita de corrupção. Tinha sido encarregado de criar um novo Código de Minas destinado a estabelecer um equilíbrio mais justo entre os interesses empresariais e os da população. Além disso, recebeu a tarefa de rever todos os contratos de mineração, a fim de recomendar uma eventual renegociação ou rescisão. No entanto, ao examinar Simandou, como não contava com inspetores preparados, recorreu à DLA Piper, a firma de advocacia, e a Steven Fox, o investigador. “A fiscalização foi terceirizada”, disse ele.

Em outubro de 2012, Touré enviou uma carta incendiária a representantes da joint venture formada pela Vale e pela BSGR, apontando “possíveis irregularidades” na concessão de Simandou. Citava Frédéric Cilins como “representante secreto” de Steinmetz, levantava suspeitas sobre a aliança entre Cilins e Mamadie Touré, e mencionava os presentes recebidos pelas autoridades, como o relógio e a miniatura de carro de corrida cravejados de brilhantes. A carta acusava a BSGR de, desde o início, ter planejado passar adiante seus direitos à exploração de Simandou, visando a “lucros imediatos e substanciais”.

As denúncias de Nava Touré também envolviam um homem que ele conhecia bem: Mahmoud Thiam, ministro das Minas no governo da junta que controlou a Guiné depois da morte do general Conté. Na época, Touré era um dos assessores de Thiam, que no início de 2009 assumiu o cargo com credenciais extraordinárias. Depois de obter um diploma de economia em Cornell, trabalhou nos bancos Merrill Lynch e UBS. É um homem bem-apessoado, muito cortês, paladino incondicional de Beny Steinmetz. Em 2010, numa entrevista ao programa americano Closing Bell with Maria Bartiromo, no canal CNBC, Thiam louvou “esta jovem empresa bastante agressiva, a BSGR, que chegou e empenhou-se tanto a ponto de tornar sua concessão atraente a um parceiro do porte da Vale”. A jazida de Simandou iria “catapultar o país à posição de terceiro maior produtor mundial de minério de ferro”. Como ministro, compareceu ao suntuoso casamento da filha de Steinmetz em Israel, representando a junta guineana de governo.

Segundo a carta de Touré, Thiam não só levou dinheiro da BSGR como ainda atuou como pagador da empresa, tendo recebido no aeroporto de Conacri um jato da companhia, do qual descarregou maletas de dinheiro – que em seguida distribuiu entre os membros da junta. Steven Fox, o investigador americano, descobriu que, em seus tempos de ministro, Thiam costumava percorrer a capital a bordo de um Lamborghini. Antes de deixar o cargo, em 2010, Mahmoud Thiam comprou um apartamento no Upper East Side, em Nova York, por 1,5 milhão de dólares e uma propriedade no Condado de Dutchess por 3,75 milhões. Pagou as duas transações em dinheiro vivo.

O ex-ministro vive hoje nos Estados Unidos, onde abriu uma empresa de assessoria a investidores. Visitei-o no primeiro semestre de 2013 em seu elegante escritório da avenida Madison. Thiam nega qualquer malfeito. O apartamento de Manhattan teria sido pago com dinheiro que ganhou em seu trabalho na área bancária, e a propriedade no campo foi comprada em nome de um amigo moçambicano que procurava bons investimentos nos Estados Unidos. (Thiam recusou-se a dar o nome do amigo.) O Lamborghini não era um carro esporte, mas um veículo com tração nas quatro rodas. “Ninguém ocupa o Ministério das Minas sem ser acusado de corrupção”, explicou. E ainda declarou que a revisão do contrato com a BSGR era praticamente uma caça às bruxas, acrescentando porém que continuava tendo Nava Touré na mais alta consideração.

Em nosso encontro, perguntei a Touré como ele se sentia ao tomar conhecimento de acusações como aquelas contra antigos colegas de governo. Ele fez uma pausa. “O sentimento é de vergonha”, disse, afinal. “Porque, no fim das contas, o dinheiro que eles acumularam pessoalmente – vamos dizer que sejam 10 ou 12 milhões de dólares – representa o quê, em comparação com a vida dos habitantes do país?” As luzes de sua sala se apagaram de repente, e o ar-condicionado rateou. Touré não deu sinal de ter percebido. “Não que isso seja tolerável ou aceitável por parte dos investidores”, continuou. “Mas fico mais chocado diante da atitude e do comportamento dos membros do governo nacional, os responsáveis pelo destino do país.”

Ao receber a carta de Touré, a BSGR reagiu agressivamente, qualificando a investigação como uma tentativa, por parte do presidente Condé, de expropriar o patrimônio da empresa. A BSGR insistia que nunca presenteara o general Conté com nenhum relógio; já a história do carrinho de Fórmula 1 procedia, mas o modelo não custava mais que mil dólares, e para a corporação era rotina “dar presentes dessa ordem a empresas do mundo todo”. Frédéric Cilins havia de fato trabalhado para eles, mas “a BSGR nunca declarou ao senhor Cilins que estivesse almejando a Lua”. Cilins pode ter distribuído agrados entre seus contatos em Conacri, no entanto a empresa negou qualquer conhecimento prévio da iniciativa. Estranhamente, a resposta escrita da BSGR reiterava, em vários momentos, que Mamadie Touré nunca havia sido de fato casada com o general Conté.

A BSGR ainda acusou o governo de Condé de não ter indicado os nomes das fontes de suas alegações, assinalando que todos os pagamentos feitos a funcionários públicos “poderiam ser facilmente identificados pelo rastreamento de transferências bancárias, ordens de pagamento, cópias de cheques etc.”. Em várias passagens, a BSGR voltava a mencionar “a ausência de provas em apoio às acusações” de Condé.

Mas como provar a existência da corrupção? Por sua própria natureza, a corrupção é sempre oculta, os pagamentos são efetuados de modo a dificultar seu rastreamento. O sistema financeiro internacional passou a abrigar uma vasta gama de atividades ilícitas, empresas de fachada e refúgios bancários capazes de camuflar transferências, ordens de pagamento e cópias de cheques. Segundo Paul Collier, em toda transação corrupta existem três partes: a que suborna, a que aceita o suborno e os advogados e intermediários financeiros que possibilitam o sigilo da negociação. O resultado, diz ele, é “uma teia de opacidade empresarial” urdida majoritariamente por prósperos profissionais nas grandes capitais financeiras do mundo, como Londres e Nova York. Um estudo recente constatou que o país onde é mais fácil criar uma empresa de fachada não é nenhum dos refúgios bancários dos trópicos, mas os Estados Unidos da América.

 

Na primavera de 2012, um dos ministros do presidente Condé viajou para Paris. No hotel Hilton Arc de Triomphe, foi abordado por um empresário do Gabão. Segundo declarações do ministro, o gabonês lhe teria dito que estava em contato com Mamadie Touré, e que esta lhe entregara alguns documentos que poderiam interessar ao presidente Condé. “Madame Touré está aborrecida com o senhor Beny Steinmetz”, disse o empresário. “Acredita que tenha sido enganada.”

O ministro ficou impressionado com a papelada. Pareciam vários contratos, com assinaturas e selos oficiais, entre altos funcionários da BSGR e Mamadie Touré. Os documentos traziam a assinatura de Asher Avidan, chefe das operações da empresa na Guiné. Avidan pertenceu ao serviço de segurança interno de Israel, o Shin Bet. Os contratos haviam sido assinados em Conacri em fevereiro de 2008 – cinco meses antes de o general Conté cassar parte da concessão da Rio Tinto, e dez meses antes de transferir a Beny Steinmetz a área setentrional da mesma concessão. Os contratos estipulavam que caberia a Mamadie Touré uma participação de 5% nos “blocos” setentrionais de Simandou, além de “dois (2) milhões de dólares” que lhe seriam pagos por uma empresa de fachada. Em troca, Mamadie Touré se comprometia a “fazer todo o necessário” para ajudar a BSGR a “obter a assinatura das autoridades para a concessão dos referidos blocos”.

Um advogado americano envolvido no caso declarou: “Venho trabalhando com corrupção empresarial há trinta anos, e nunca tinha visto nada parecido. Um contrato de suborno assinado por um alto executivo? Com selos e carimbos de cartório?” O empresário gabonês deu a entender que os documentos teriam o valor potencial de milhões de dólares. E não pretendia se desfazer de graça dessa preciosidade. Estava ligado a uma empresa de investimentos, a Palladino, que havia emprestado 25 milhões de dólares ao governo Condé para instalar um projeto de mineração. Agora, em troca dos papéis, o próprio empresário gabonês reivindicava uma participação em Simandou. (A Palladino reconhece que o encontro de Paris realmente aconteceu, mas nega que o empresário gabonês tenha exigido alguma coisa.)

O presidente Condé se recusou a fazer qualquer concessão em troca dos documentos, mas pelo menos o governo da Guiné tomou conhecimento da existência deles. Caso fossem autênticos, poderiam ser apresentados como provas de corrupção.

Quando perguntei ao investigador Fox por que uma empresa assinaria um contrato como aqueles, ele aventou que pode ter sido por insistência de Mamadie Touré. “Na África francófona, existe a tradição de formalizar determinados acertos por meio de documentos legais”, explicou ele. E a mulher estaria preocupada em cercar-se de garantias. “Seu único trunfo era ser casada com o presidente.” No momento em que os contratos foram assinados, a saúde do general estava em rápido declínio, e Mamadie “sabia que assim que ele fechasse os olhos ela não teria absolutamente nada”. À primeira vista, parece estranho que tenha confiado cópias desses documentos ao empresário gabonês. Mas várias pessoas que já conversaram com Mamadie Touré insinuam que na época ela sentia muito medo de Steinmetz. Aqueles contratos – que, se levados a público, poderiam pôr em risco a posição do empresário na Guiné – equivaleriam a uma espécie de apólice de seguro.

A essa altura, o presidente Condé também começara a temer por sua segurança. Em 2011, escapou por pouco de uma tentativa de assassinato em que soldados alvejaram sua residência com rajadas de metralhadora. Condé persistiu em seus esforços para reformar o país, mas sua situação foi ficando cada vez mais difícil. A chefe do Tesouro, encarregada de investigar o enriquecimento ilícito de membros do governo, certa noite voltava de carro do trabalho quando foi fechada por outro veículo e acabou morta a tiros. Segundo Bernard Kouchner, Condé “ficou realmente isolado”. Depois do atentado contra a sua casa, mudou-se para o palácio presidencial, uma verdadeira fortaleza. Condé é casado, mas à noite quase sempre come sozinho, distraindo-se ocasionalmente com um jogo de futebol na tevê. Nunca tocou no assunto comigo, mas várias pessoas com quem já falou sobre o tema dizem que ele acredita estar sendo grampeado por Steinmetz. (A BSGR nega.)

Condé também precisava lidar com uma capital instável. A violência que irrompeu logo que as eleições parlamentares foram adiadas não cedeu mais. Facções rivais se digladiavam na rua, manifestantes atiravam pedras na polícia. Em mais de uma ocasião, as forças de segurança de Condé abriram fogo contra os revoltosos. Houve mais de duas dúzias de mortes. Para alguns analistas, Condé estaria replicando os tristes padrões de tantos líderes pós-coloniais africanos, que começaram como reformadores, mas acabaram atolados na tirania. Em setembro de 2011, a Anistia Internacional declarou que “o presidente Alpha Condé vem recorrendo aos mesmos métodos brutais de seus antecessores”.

 

O ex-ministro israelense Ehud Olmert me disse que Steinmetz é “o pior inimigo que uma pessoa pode ter”. A BSGR – talvez percebendo a vulnerabilidade política de Condé – lançou-se ao ataque, definindo seu governo como um “regime desacreditado” que tenta “apoderar-se ilegalmente” das reservas de Simandou. A empresa também salientou que a Rio Tinto havia reassegurado os direitos sobre a metade meridional das montanhas, num acordo em que pagou 700 milhões de dólares ao governo de Condé.

Mas terá sido um novo caso de corrupção? O pagamento da Rio Tinto se deveu, em parte, à adoção de um novo Código de Mineração que impõe taxas mais altas às empresas internacionais envolvidas na exportação dos recursos naturais da Guiné. E a Rio Tinto ainda concedeu ao governo uma participação de 35% na mina. O governo Condé tentou imprimir ao setor de mineração termos condizentes com os acordos mais equitativos firmados na indústria do gás e do petróleo. (Dag Cramer, o executivo que supervisiona os interesses empresariais de Steinmetz, me disse: “Não à toa famílias árabes são hoje donas de meia Londres. O grosso do lucro sobre o petróleo está indo para os países produtores, o que ainda não acontece com a mineração.”) O acordo com a Rio Tinto foi transparente: o contrato foi divulgado, na íntegra, pela internet. “Isto é algo que nenhum outro governo da Guiné jamais teria feito, em nenhuma época da história do país”, declarou-me Patrick Heller, que trabalha na Revenue Watch. “É um sinal inequívoco de progresso.” Além disso, o dinheiro não foi parar em contas de titularidade secreta, mas diretamente no tesouro da Guiné.

Ainda assim, muitos funcionários da BSGR deram a entender que esses 700 milhões de dólares equivaliam a um suborno colossal. Especulavam também que Condé teria “vencido de modo ilícito” as eleições de 2010, provavelmente manipuladas com a colaboração de ricos banqueiros sul-africanos. Amigos de Steinmetz comparam Condé a Robert Mugabe, do Zimbábue, e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã. (Tanto o Centro Carter quanto a União Europeia, que fiscalizaram as eleições, concluíram que, a despeito de algumas irregularidades processuais, a vitória de Condé foi “convincente” e “limpa”.)

Em setembro de 2011, pensando em aliviar o clima tenso, Condé convidou Steinmetz para uma visita ao palácio. Os dois se reuniram no gabinete do presidente e conversaram em francês, língua que o empresário fala fluentemente.

“Por que o senhor está contra nós?”, perguntou Steinmetz. “Onde foi que erramos?”

“Não tenho nenhum problema pessoal com o senhor”, respondeu Condé. “Mas preciso defender os interesses da Guiné.”

Steinmetz não sossegou. Cramer me disse que a empresa precisava rebater as acusações com o maior vigor possível, porque para Steinmetz é crucial ser percebido como uma pessoa honesta. “No negócio de diamantes, um aperto de mão é mais importante que qualquer contrato”, ele explicou.

A BSGR ampliou a campanha contra Condé, recorrendo para tanto a uma empresa chamada FTI Consulting, com sede em Palm Beach mas atuante no mundo inteiro. A FTI pratica uma forma agressiva de relações públicas, buscando não só suprimir o noticiário nocivo a seus clientes como ainda plantar histórias contra seus adversários. Um porta-voz da FTI desacreditou o processo de revisão dos contratos pelo governo, qualificando a iniciativa de “campanha grosseira de difamação”. A empresa ainda estimulou jornalistas a publicarem matérias negativas sobre Condé; em pouco tempo, o presidente começou a sofrer ataques por seu atraso em marcar eleições parlamentares e por várias transações aparentemente dúbias de pessoas que lhe são próximas, entre elas seu filho, Alpha Mohamed Condé. Não é difícil imaginar que pelo menos algumas das pessoas ligadas a Condé tenham se envolvido em negócios paralelos. “Eu pratico a teoria política dos relógios”, declarou-me um diplomata ocidental em Conacri. “Quando um ministro aparece com um relógio mais caro que meu carro, fico preocupado.” Durante minhas entrevistas com as autoridades de Conacri, identifiquei mais de um relógio obviamente caríssimo.

Dentro da FTI, a decisão de trabalhar em prol de Steinmetz provocou controvérsias. Em 2012, a empresa contratou um novo executivo para supervisionar parte das suas contas na África; ao descobrir que sua firma representava Steinmetz e Dan Gertler – outro magnata israelense de diamantes, envolvido em polêmicos negócios na República Democrática do Congo –, o executivo protestou e em seguida pediu demissão. Mark Malloch-Brown, ex-vice-secretário-geral da ONU, é hoje o presidente da FTI para a Europa, o Oriente Médio e a África. Preocupado com os potenciais danos à reputação da empresa pela associação com Steinmetz, no final de 2012 ele desfez os vínculos. O comando da BSGR ficou enfurecido.

Enquanto os problemas da empresa se acumulavam, Steinmetz e seus pares passaram a soltar farpas contra George Soros, que havia financiado o começo da investigação de Condé e providenciara o capital inicial para a DLA Piper. Soros também sustenta a Revenue Watch, a organização que deu assistência a Nava Touré na revisão do Código de Mineração da Guiné, e apoia a Global Witness, um grupo de vigilância anticorrupção que vem examinando as atividades de Steinmetz na Guiné. Os executivos da BSGR convenceram-se de que Malloch-Brown havia encerrado o contrato da FTI com a empresa por insistência de um velho amigo: Soros. Cramer me mostrou um documento interno, intitulado “A Aranha”, no qual Soros e Condé aparecem no centro de uma teia de influência, e Soros é identificado como alguém “que odeia Israel”. A BSGR enviou uma carta enraivecida a Soros, dizendo: “Não podemos continuar em silêncio enquanto o senhor não se cansa de atacar a nossa empresa e tenta, com má-fé, prejudicar nossos investimentos.”

No começo de 2013, os advogados de Steinmetz mandaram uma carta a Malloch-Brown, exigindo que ele reconhecesse ter uma “vendeta pessoal” contra Steinmetz e assinasse um pedido formal de desculpas cujo rascunho lhe enviaram, “isentando” a BSGR de qualquer malfeito em terras africanas. Malloch-Brown se recusou a fazê-lo, e a BSGR abriu um processo contra ele e a FTI. A ação argumenta que Soros nutre uma “obsessão pessoal” contra Steinmetz; diz ainda que Soros passou adiante um boato terrível – afirmou que Steinmetz tentou promover o assassinato do presidente Condé, dando seu apoio a um ataque de morteiros contra a sua residência em 2011. (A BSGR afirma que esse rumor é inteiramente infundado; o processo foi finalmente encerrado por um acordo extrajudicial, sem que Malloch-Brown ou a FTI tenham admitido qualquer erro.)

Quando falei com Soros sobre Steinmetz, ele reafirmou não ter qualquer ressentimento contra o empresário. Importante filantropo, Soros vem se dedicando a promover a transparência e a combater a corrupção, financiando várias organizações com essa finalidade. É verdade que as atenções de alguns desses grupos ultimamente convergiram para as atividades de Steinmetz. O que pode significar que Soros seja de fato obcecado por Steinmetz, ou que Steinmetz seja de fato corrupto.

Soros me contou que nunca viu Steinmetz. Cramer me garantiu que isso é falso. Em 2005, os dois estiveram presentes a um jantar em Davos, e conversaram. Confrontado com esse relato, Soros disse que frequentara muitos jantares em Davos ao longo dos anos. Se realmente tinha estado com Steinmetz, não guardara lembrança do encontro.

 

Um dia, em abril de 2013, Frédéric Cilins – o francês acusado de orquestrar os subornos na Guiné – desembarcou em Jacksonville para um encontro urgente. Mamadie Touré foi recebê-lo no aeroporto. Sentaram-se numa lanchonete na área de embarque, e ela pediu um sanduíche de frango. Cilins não estava tão apresentável quanto de costume; sofre de pressão alta e mostrava-se extremamente ansioso enquanto conversavam em voz baixa. Tinha ido à Flórida com uma missão: dizer a Mamadie Touré que ela precisava destruir os papéis – e que estava disposto a lhe pagar por isso. Ela respondeu que talvez fosse tarde demais: pouco antes agentes do FBI lhe haviam informado que um inquérito judicial fora aberto, e as autoridades esperavam que ela testemunhasse depois de lhes entregar “todos os documentos”.

“É preciso destruir tudo!”, disse Cilins. Era “muito, muito urgente”.

Cilins não percebeu que tinha caído numa armadilha. Mamadie estava com um microfone oculto. Efetivamente, havia sido procurada pelas autoridades americanas e, por causa de seus próprios problemas legais, concordara em colaborar com o FBI. Conforme ela explicou depois numa entrevista às autoridades da Guiné, Cilins e seus colegas tinham “uma única preocupação”, que era “recuperar aqueles documentos a qualquer preço”.

Os agentes federais americanos a tudo observavam de vários pontos ao redor da lanchonete, e o microfone oculto de Mamadie Touré gravava cada palavra. Ela então perguntou a Cilins como deveria agir se fosse convocada a comparecer perante a Justiça. “Precisa mentir, é claro”, ele respondeu, como registra um documento legal que menciona o teor da conversa entre os dois. E sugeriu que ela devia inclusive negar ter sido casada com o general Conté.

Antes do encontro em Jacksonville, Mamadie Touré e Cilins haviam se falado por telefone, e a certa altura da conversa ela lhe perguntou se a compra de seu silêncio tinha sido sancionada por um indivíduo identificado na documentação do inquérito apenas como “CC-1”, em que “CC” é a abreviatura de “coconspirador”. Duas fontes próximas às investigações me disseram que CC-1 se refere a Beny Steinmetz.

“É evidente”, foi a resposta de Cilins. Essa ligação também foi gravada pelo FBI.

No aeroporto, Cilins contou que tinha estado com o CC-1 – Steinmetz – na semana anterior. “Fui lá especialmente para falar com ele”, explicou. Baixou a voz e, num sussurro, disse que havia garantido ao chefe que Mamadie Touré “jamais iria traí-lo”, tampouco “entregaria a alguém qualquer documento”. A resposta de Steinmetz, segundo Cilins, teria sido: “Ótimo… Mas quero que você destrua esses papéis.” Mamadie Touré disse que os documentos estavam num cofre e garantiu-lhe que se livraria deles. Mas Cilins não sossegou, explicando que tinha sido instruído a assistir à queima dos papéis.

Se concordasse com o plano, ela receberia 1 milhão de dólares. Cilins havia trazido uma declaração legal, em francês, para ela assinar (ao que tudo indica, Cilins estendia a prática de formalizar acordos também para a esfera do acobertamento de provas). “Nunca assinei nenhum contrato com a BSGR”, dizia a declaração. “Nunca recebi dinheiro algum da BSGR.” E ainda havia uma bonificação, disse Cilins. Se ela assinasse o documento, destruísse a papelada e mentisse perante o tribunal americano, e se a BSGR conseguisse conservar o controle de sua área em Simandou – “se a empresa continuasse a fazer parte do projeto” –, ela receberia mais 5 milhões de dólares.

Antes que pudesse deixar Jacksonville, Cilins foi detido. A BSGR se viu numa posição extremamente desconfortável. A transcrição da conversa parece uma confirmação cabal de suborno. Os documentos de Mamadie Touré estão de posse do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O governo da Guiné também obteve uma gravação em vídeo, feita durante a inauguração da sede da BSGR em Conacri, em 2006, que parece confirmar a existência de uma relação íntima entre a empresa e Mamadie Touré. Nas imagens, vemos Cilins sentado ao lado de Asher Avidan, que se dirige a um grupo de guineanos. Em seguida, surge uma resplandecente Mamadie Touré, de turbante e um amplo vestido branco, ladeada por membros da guarda presidencial – com sua presença, conferia ao evento a aprovação tácita do marido agonizante.

Quando correu a notícia da prisão de Cilins em Jacksonville, a Vale divulgou um comunicado em que afirmava estar “profundamente preocupada com tais acusações”, dispondo-se a colaborar com as autoridades americanas. A essa altura, pode-se supor, sem medo de errar, que a empresa brasileira deve estar amargando certo remorso pela compra de parte do projeto de mineração na Guiné. Quando estive em Conacri no escritório da VGB – a joint-venture reunindo a Vale e o grupo de Beny Steinmetz –, ela operava com o mínimo de pessoal e o projeto estava claramente suspenso, embora os executivos nada declarassem.

“Para a Vale, a pergunta é: vocês pensavam o quê?”, resumiu um diplomata em Conacri. “Acreditavam de fato que poderiam iniciar um projeto de exportação de ferro, por 50 anos, na área mais remota da Guiné, com base num acordo claramente duvidoso?”

 

Em meados de junho de 2013, tomei um avião até Nice, na Riviera francesa, e de lá peguei um táxi para Cap d’Antibes, refúgio de veraneio muito apreciado por bilionários. Tinha passado vários meses tentando um contato com Steinmetz. Estivera nos escritórios da BSGR em Londres, e lá me disseram que o empresário me receberia em Paris. Quando desembarquei em Paris, ele tinha ido para Israel em seu jato. Eu me dispus a pegar um avião para Israel, mas não me garantiram que poderia encontrá-lo quando chegasse lá. Ao cabo de semanas de negociação, finalmente consegui falar com Steinmetz, e ao final de uma breve conversa telefônica – na qual anunciou, sem meias palavras, que não dava entrevistas – ele acabou concordando em me receber.

Encontramo-nos num hotel erguido num penhasco à beira do Mediterrâneo. Steinmetz estava hospedado a bordo de um dos seus iates – um modelo italiano. Elegante embarcação branca com vários andares, o iate flutuava majestoso a pouca distância. Quando cheguei ao saguão do hotel, deparei-me com um homem esguio e muito bronzeado vestindo uma camisa de linho azul aberta até o meio do peito. Era ele.

“Obrigado por ter vindo”, disse ao se apresentar. Apertou minha mão com a força de alguém que dá muita importância aos apertos de mão. Saímos do hotel e subimos uma ladeira íngreme na direção de um conjunto de escritórios. Steinmetz avançava quase trotando; eu penava para não ficar para trás.

“Sou uma pessoa totalmente aberta,  totalmente transparente”, declarou o empresário assim que nos sentamos. “Por uma questão de princípio, nunca minto.” Ele se aborrece quando dizem que é dado a segredos, apenas zela por seu direito à privacidade. “Não me considero uma figura pública”, disse ele.

Conversamos por quase três horas, até Steinmetz ficar rouco. Sentia-se alvo de ataques desleais na controvérsia em torno de Simandou. Para ele, as pessoas que consideram extravagante um lucro de bilhões de dólares a partir de um investimento de 160 milhões simplesmente não entendem que a exploração de recursos naturais é um jogo de azar. “É uma roleta”, ele disse: se o sujeito trabalha muito e aceita correr riscos, às vezes “tira a sorte grande”. Empresa pequena, arrojada, a BSGR investiu em locais onde as grandes mineradoras adotaram uma postura mais prudente. Perdeu dinheiro na Tanzânia. Perdeu na Zâmbia. Mas ganhou na Guiné.

Steinmetz afirmou que o acordo da BSGR com a Vale não foi uma tentativa de passar adiante a jazida, mas uma parceria que projetos ambiciosos de mineração, com alta demanda de recursos, frequentemente articulam. “Quem disse que passamos a concessão adiante? Desde quando firmar uma parceria é a mesma coisa que transferir a concessão?”

Na nossa conversa telefônica, Steinmetz havia descrito a saga de Simandou como “uma história muito africana”, e quando nos vimos eu lhe perguntei de que maneira a empresa tinha lidado com a quase onipresença da corrupção na África. “Com instruções e diretrizes muito estritas para o pessoal na área”, respondeu, reafirmando que, mesmo em jurisdições notórias pela corrupção, sua empresa não paga subornos. “Administramos nosso negócio como a mais transparente das empresas públicas”, declarou.

A julgar pelo que diz Steinmetz, os antigos governantes da Guiné não merecem a condenação unânime de que são alvo. O general Conté era “mais honesto” que o presidente Condé. O capitão Dadis, chefe da junta militar que comandou o massacre do estádio, era um “sujeito honesto” que simplesmente “queria o melhor para o seu país”. Condé é o verdadeiro vilão de toda essa história, segundo Steinmetz. O ódio que sente pelo presidente é tão palpável que, toda vez que menciona seu nome na conversa, a musculatura de seu pescoço se retesa. O empresário ainda diz que as acusações contra ele são produto de uma campanha de difamação iniciada por Condé e financiada por George Soros. “Para a religião judaica, culpar alguém sem provas é uma coisa muito, muito ruim”, diz Steinmetz. E os documentos mencionados em Jacksonville não provam nada, segundo ele – porque foram forjados.

Antes, em Paris, quando tentava falar com Steinmetz, tomei um drinque com Asher Avidan, presidente das operações guineanas da BSGR. Apresentei-lhe a foto de uma assinatura que aparecia num dos contratos, e ele reconheceu que era idêntica à sua, mas que aquilo era “coisa de Photoshop”. Em Cap d’Antibes, Steinmetz foi ainda mais longe, declarando que os documentos de Mamadie Touré eram falsos e que muito antes do começo das investigações do FBI ela já vinha tentando chantagear a BSGR com base nesses contratos fraudulentos. “Nunca pagamos nada a ela”, reiterou Steinmetz. “Nem jamais lhe prometemos alguma coisa.”

Steinmetz sacou fotocópias coloridas dos documentos e mostrou anotações em sequência feitas supostamente em cada contrato por um tabelião de Conacri. Essas anotações, disse ele, não acompanhavam a ordem cronológica dos fatos [como normalmente ocorre nos contratos] – prova de que seriam inautênticas. Eu lhe disse que conseguia imaginar um cenário em que os documentos fossem forjados, e admiti que Mamadie Touré não era exatamente uma testemunha acima de qualquer suspeita. Mas nem assim a transcrição da conversa de Jacksonville o deixava em boa situação. E havia ainda mais um fator que me levava a supor que os documentos eram reais: se fossem falsos, por que Frédéric Cilins tomaria um avião do outro lado do Atlântico, oferecendo 5 milhões de dólares a Mamadie Touré para destruí-los? Fiz essa pergunta a Steinmetz de várias maneiras, mas sua resposta foi que se recusava a “especular” sobre Cilins enquanto o caso estivesse submetido à Justiça americana.

Insisti. “Cilins disse a Mamadie Touré: ‘Conversei com Beny. E foi isso que ele me mandou fazer.’ Não é verdade?” E Steinmetz respondeu: “Nunca pedi a ele que destruísse esses documentos falsos ou quaisquer outros papéis.” Estaria Cilins mentindo ao falar das ordens do chefe? Será que se equivocava? Steinmetz, cada vez mais impaciente, reiterou que não iria especular sobre Cilins. Queria, sim, falar sobre a responsabilidade de Condé pelas mortes de manifestantes na Guiné. “O homem tem as mãos sujas de sangue”, disse Steinmetz.

No exato momento em que conversávamos na França, os líderes do G-8 participavam de uma reunião de cúpula na Irlanda do Norte. Um dos principais objetivos do encontro era avaliar as regras que controlam o comportamento dos executivos das nações ricas em seus empreendimentos no mundo em desenvolvimento. Antes da reunião, o primeiro-ministro inglês David Cameron publicou um artigo na página de opinião do Wall Street Journal em que dizia: “Precisamos levantar o véu de mistério que muitas vezes permite que empresas corruptas e autoridades corruptas de alguns países ajam ao arrepio da lei. O G-8 precisa propor a adoção de um padrão global comum para as empresas de extração de recursos naturais, obrigando-as a declarar todos os pagamentos feitos a governos estrangeiros e obrigando esses governos, por sua vez, a prestar contas desses pagamentos.”

Na formulação dessa pauta ambiciosa, Cameron contou com o aconselhamento próximo de Paul Collier. “É a grande oportunidade da África”, declarou-me Collier. “Mas é uma oportunidade que não irá se repetir.” Se às empresas for facultada a exploração de recursos naturais sem total transparência, o resultado será a mera pilhagem – ou, nas palavras de Collier, “uma tragédia de imensas proporções”. A convite de Cameron, o presidente Condé viajou a Londres antes do encontro. “Se vamos lutar contra a exploração desregrada e impor a transparência, precisamos da ajuda do G-8. As empresas de mineração são quase todas do Ocidente”, disse Condé num discurso na Chatham House, sede do grupo de trabalho sobre política externa. Steinmetz se declarou chocado com a mitificação do presidente da Guiné. O governo atual seria uma versão “sofisticada” de um regime corrupto, porque “posa de honesto”. Repetiu a acusação já feita por alguns de seus colegas – de que Condé só tinha conseguido vencer as eleições de 2010 porque havia prometido cassar a licença da BSGR em Simandou e transferir o direito de exploração para as empresas que o apoiaram. “Ele vendeu o que nos cabia a interesses sul-africanos que lhe deram suporte financeiro para manipular as eleições”, sustenta. Antes mesmo de tomar posse, Condé já tinha decidido que “ia tirar Simandou de nós”. Segundo o relato do empresário, Condé é igual ao personagem-título de Nostromo de Conrad:o homem “perfeitamente incorruptível” que, devido à vaidade e ao fascínio da sua mina, finalmente sucumbe à corrupção.

“Somos as vítimas”, diz Steinmetz. “Só fizemos coisas boas pela Guiné, e em troca eles nos cospem na cara.” E com essas palavras se despediu. Anoitecia. Desci a ladeira enquanto ele se dirigia a seu iate para jantar.

 

Pouco depois da prisão de Frédéric Cilins na Flórida, estive em Conacri e me avistei com o presidente Condé no palácio do governo. Ele usava uma conjunto branco de mangas curtas – traje comum na Guiné – e parecia cansado. As violentas manifestações da oposição não davam sinal de trégua, e não estava muito claro se Condé conseguiria permanecer no poder por tempo suficiente para levar a cabo as reformas programadas. Tendo adiado a convocação das eleições parlamentares, corria também o risco de perder a credibilidade como governante genuinamente democrático. “Ele tomou posse imbuído da ideia de ter lutado pela Presidência, e de merecer algum crédito para governar o país da maneira que quisesse”, disse Alexis Arieff, especialista na Guiné no Serviço de Pesquisa do Congresso americano. Um relatório da União Europeia culpou “o estilo de governo de Condé” pela escalada da tensão no país. Condé, por sua vez, vê o dedo de Steinmetz na criação do clima de intranquilidade; na Chatham House, insinuou que a BSGR estava financiando o movimento oposicionista. Steinmetz sustenta que tal afirmação não tem fundamento.

Quando perguntei a Condé se ele se sentiu vingado no momento em que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos começou a investigar o acordo de Simandou, ele se recusou a morder minha isca. Em última instância, é a ele que caberá decidir – com base no parecer do Ministério das Minas – se irá ou não cassar a licença da BSGR e da Vale para explorar Simandou, e por isso não quer dizer nada que possa prejudicar esse processo. Preferiu sorrir e declarou: “As iniciativas dos Estados Unidos podem me ajudar a avançar no combate à corrupção na Guiné.”

A fiança de Cilins foi fixada em 15 milhões de dólares, pelo perigo de que ele possa fugir dos Estados Unidos. Em maio de 2013, Cilins se declarou inocente das acusações de obstrução à Justiça. Até agora ele não concordou em cooperar com as autoridades americanas, e seu julgamento está previsto para o final deste mês de março. Em suas declarações ao tribunal, Cilins não negou ter oferecido dinheiro a Mamadie Touré para destruir os documentos, tampouco que não o tenha feito por ordens de Steinmetz. A BSGR continua a afirmar que nunca pagou nada a Mamadie Touré nem assinou qualquer contrato com ela. Mas Asher Avidan me disse uma coisa interessante naquele bar de Paris. Repetiu a alegação de que Mamadie Touré não era casada com o general Conté no momento em que ele assinou a concessão dos direitos à exploração de Simandou. “Ela não era casada com ele”, disse Avidan. “E nem mesmo dormiam juntos.” E então acrescentou: “Na verdade, ela é só uma lobista. Como tantos outros.”

E de repente me dei conta da razão pela qual os dirigentes da BSGR podem estar tão empenhados em reiterar que Mamadie Touré não era casada com o velho general. Sem laços de família entre os dois, a ela só restava o tráfico de influência – não passaria de mais uma lobista. E, do ponto de vista legal, pagar um lobista é muito diferente de pagar suborno. Se um dia a BSGR se vir forçada a admitir que deu dinheiro a Mamadie Touré, eles têm aqui o embrião de uma defesa.

Embora o Departamento de Justiça dos Estados Unidos se recuse a comentar o caso, Cilins certamente não é o alvo final das investigações. Quando o tribunal de Manhattan começou a emitir ordens de convocação no início de 2013, pediu informações não só sobre “a concessão de Simandou”, mas sobre o próprio Steinmetz. Recentemente, o FBI enviou duas equipes de investigadores a Conacri. Segundo o Wall Street Journal, o Serious Fraud Office, de Londres, também abriu uma investigação sobre as atividades da BSGR. Já que tanto a França quanto Israel se mostraram relutantes no passado em extraditar seus cidadãos, talvez Steinmetz nunca venha a ser julgado nos Estados Unidos, mesmo que seja indiciado. Ainda assim, segundo o advogado Horton, “as opções de viagem do empresário podem ficar limitadas”. Quando conversamos em Cap d’Antibes, Steinmetz não parecia preocupado. “Nada temos a esconder”, ele disse.

Para Steven Fox, o investigador, Steinmetz e seus colegas são “muito bons em improvisar, pensam criativamente e reagem com rapidez em situações de incerteza. É o que explica grande parte do que conseguiram. Mas provavelmente é o que irá causar a queda deles”.

 

Por enquanto, o minério de ferro continua encerrado nas montanhas de Simandou, e a área ainda se encontra isolada do resto da Guiné. “Todos querem Simandou”, comentou Condé comigo quando conversamos no palácio. “Aquelas reservas se transformaram na obsessão de todo mundo.”

E continuou a falar, sempre em seu tom professoral, agora modulado por uma nota de espanto. “Se você examinar o minério de ferro, verá que o teor é de primeira classe. A qualidade é de primeira classe. E mesmo assim, durante tantos anos, não conseguimos extrair nenhum benefício desses recursos incríveis.” O presidente Condé faz uma pausa. E depois murmura, quase para si mesmo: “Como podemos ser tão ricos e ao mesmo tempo tão pobres?”

Patrick Radden Keefe

Patrick Radden Keefe é repórter da revista The New Yorker, na qual a reportagem foi originalmente publicada. É autor de The Snakehead: An Epic Tale of the Chinatown Underworld and the American Dream, da Doubleday.

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