negócios da África I

O tesouro, o mercador, o ditador e sua amante

Como um bilionário israelense conquistou o controle de uma jazida colossal na Guiné e o dividiu com a Vale

Patrick Radden Keefe
O solo vermelho das montanhas Simandou, na paupérrima Guiné, revela uma das maiores reservas de ferro do mundo; objeto de uma investigação de suborno e de uma disputa internacional que envolve grandes mineradores como a Rio Tinto e a Vale, a jazida permanece inexplorada
O solo vermelho das montanhas Simandou, na paupérrima Guiné, revela uma das maiores reservas de ferro do mundo; objeto de uma investigação de suborno e de uma disputa internacional que envolve grandes mineradores como a Rio Tinto e a Vale, a jazida permanece inexplorada FOTO: RIO TINTO

Uma das maiores jazidas mundiais de minério de ferro ainda inexploradas se encontra sob um maciço coberto de florestas na pequena República da Guiné, na África Ocidental. No sudeste do país, longe de qualquer cidade ou estrada relevante, as montanhas Simandou se estendem por mais de 110 quilômetros, elevando-se acima da selva como uma imensa coluna vertebral de dinossauro. Alguns dos picos receberam apelidos dos geólogos e engenheiros de minas que trabalharam na região; um é o Iron Maiden, outro é conhecido como Metallica. O minério de ferro é a matéria-prima do aço, e o minério de Simandou é de uma riqueza incomum, podendo ser levado quase diretamente aos altos-fornos após um processamento mínimo. Ao longo da década passada, à medida que megacidades se erguiam por toda a China, o preço desse minério disparou e os investidores saíram à procura de novas fontes da matéria-prima. A poeira vermelha que reveste a vegetação ao redor de Simandou, concentrando-se em filões por entre as pedras das montanhas, tem um valor fabuloso.

A extração do minério de ferro é um processo complicado, que demanda grandes somas de capital. Simandou, a cerca de 650 quilômetros da costa, fica em meio a uma floresta tão impenetrável que os primeiros equipamentos de perfuração foram transportados de helicóptero. O território permanece praticamente em seu estado natural – a extração do minério não começou. O transporte até a China e outros mercados irá exigir não só a abertura de uma mina, mas também a construção de uma ferrovia robusta o suficiente para suportar o peso de vagões abarrotados de minério. Também será preciso abrir acesso até um porto marítimo de águas profundas, que não existe no país.

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Patrick Radden Keefe

Patrick Radden Keefe é repórter da revista The New Yorker, na qual a reportagem foi originalmente publicada. É autor de The Snakehead: An Epic Tale of the Chinatown Underworld and the American Dream, da Doubleday.

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