tipos brasileiros

O tiozão conquistador

Rodolpho Parodi é o criador da consagrada fórmula para determinar a idade ideal de uma namorada: dividir a idade do homem por dois e somar quatro anos. Ele seguiu o método até o momento em que o resultado começou a exceder 30. Foi quando decidiu aperfeiçoar a equação com a inclusão de um teto

Marcos Caetano
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2012

Em primeiro lugar, preciso esclarecer que só aceitei publicar este depoimento porque uma estagiária bem jeitosinha aqui da imobiliária, que acaba de completar 23 primaverinhas, me disse – com aquele jeitinho de estagiária jeitosinha que acaba de completar 23 primaverinhas – que acharia irado ver o meu nome estampado nas páginas desta revista, cujas capas, segundo ela, são sinistras. Confesso que não conhecia. Minhas leituras vão mais na direção de Cigar Aficionado e Yachts & Boats.

Não sou dado à promoção de minhas conquistas amorosas, mesmo nutrindo um inegável orgulho por jamais ter pago um drinque para mulher com mais de 28 anos. Foi assim quando eu era jovem, é assim agora que eu estou do lado errado dos 50, ou seja, com mais de 55. O título da matéria, ideia dela, teria que mencionar um certo tiozão, expressão que odeio: sou filho único e solteirão convicto, de forma que morrerei sem passar perto de me tornar tio. Mas ela é estagiária. E é jeitosinha. E tem 23 aninhos. Vinicius de Moraes e Bill Clinton sabiam, como eu, apreciar o valor de uma estagiária.

Diante do dilema de ter que discorrer sobre a minha garanhice sem macular meus arraigados preceitos de discrição, queimei as grisalhas pestanas para encontrar um ângulo capaz de pingar uma nota de humildade no relato de um homem já deveras pelancudo, mas que jamais teve o desprazer de deparar-se com pelancas alheias nesta vida. Não abordarei a parte prazerosa de ser um conquistador veterano, mas do altíssimo custo pago por alguém que decide levar uma vida como a minha. Não estou falando de custo no sentido financeiro, embora ele evidentemente exista. Só de medicamentos voltados à facilitação erétil eu costumo deixar cerca de 2 mil reais por mês na farmácia. Aliás, já está mais do que na hora de o governo quebrar a patente, subsidiar ou baixar bem o preço desses santos remédios. Depois do bolsa-escola, do bolsa-família, do bolsa-agricultura, por que não o bolsa-saliência? É tão óbvio.

Mas deixemos de lado o custo financeiro para falar do enorme custo pessoal de ser um playboy depois dos 50. Cortejar mulheres muito jovens é uma arte que exige enorme estoicismo. Coisas que vão muito além de ter que ouvir o motorista de táxi do ponto perto de casa te dizer que pela manhã levou tua filha até a faculdade. Ou ainda ser apresentado ao sogrão, um carinha que, salvo engano, você entrevistou para uma vaga de trainee, muitos anos atrás.



Há uma lista interminável de coisas humilhantes que um homem com mais de 50 anos tem que fazer para ter alguma chance com as pré-balzaquianas, mas mencionarei aqui apenas as que mais me ofendem. No topo da lista vem o uso de camisas xadrez de mangas curtas. Não sei por que demônios as moçoilas pensam assim, mas elas só aceitam namorar um velho se houver o consentimento social de que se trata de um velho descolado. De forma que, da próxima vez que virem um veterano usando camisa xadrez, andando num daqueles rídiculos skates longboards (tenho dois, um deles motorizado), usando óculos de veado, tênis laranja e outros acessórios constrangedores do mesmo jaez, tenham certeza: ali vai uma alma humilhada, que se submete a tamanhos ultrajes apenas por não conseguir viver sem uma namorada trinta anos mais jovem. O mesmo se aplica aos pobres coitados que desfilam por aí com cachorrinhos fofos, preferencialmente da raça pug, ou dirigem veículos engraçadinhos, como os Mini Coopers, enquanto sonham com um Porsche Cayenne (ou ao menos um honesto Hyundai Santa Fe). Um amigo chegou a fazer uma tatuagem do Restart no braço, e até hoje, antes da dose diária de hamamélis para as varizes, chora convulsivamente diante do espelho.

Quantas vezes este pobre apreciador das biografias de gigantes como Warren Buffett foi obrigado a varar noites discutindo o último livro da saga Crepúsculo? A quantos shows de sertanejo universitário eu tive que ir, apenas para mostrar como sou antenado? E as viagens? Que tristonho é ir para Lumiar quando se quer estar com a neve de Aspen batendo no nariz. Que desperdício frequentar as baladas de Florianópolis, ou Floripa, como elas querem, quando seria tão melhor gastar os cobres num bom show do Tony Bennett em Atlantic City. Quanta inveja dos que podem apreciar um puro malte em vez de ter que encher a cara com uma bebida chamada de ice, hediondamente estocada em uma geladeirinha cilíndrica batizada de cooler. Que maravilhosa deve ser a vida das pessoas cujo conceito de jantarzinho gourmet jamais as levaria a um mexicano divertido  ou a uma hamburgueria mega hype. Não vou nem comentar outros hábitos bizarros das moças, como fazer curso de respiração, Power Yoga, tomar suco de uva com água de coco e correr na praia. Só de ouvir falar eu chego quase a sentir atração pelas quarentonas.

Para piorar, inventaram esse negócio de internet. Ai do cinquentão que não tiver perfil no Twitter, conta no Facebook e fotinhos descoladas no Instagram. Se já é difícil um velho faturar uma gatinha, imaginem um velho offline. De forma que, mesmo odiando profundamente essas baboseiras tecnológicas, sou forçado a pensar em posts criativosos para as redes sociais. Algo como “saca só o meu pug andando de skate”, apenas para dar um exemplo que me rendeu vários likes, ainda que nenhum deles tenha se convertido em sexo. Uma foto que também gerou muitos comentários foi a do meu salto de bungee jump na Nova Zelândia. Passei três dias internado num hospital de Auckland, com a cervical trincada, mas valeu a pena – rendeu um sexozinho. Minha jovem acompanhante achou tudo muito, sim, lá vem ela, irado. Falei em irado e lembrei que nada pode ser mais ultrajante para um homem da minha idade e posição do que ter que usar expressões como “demorô, véi!”, “esse show tá muito top”, “tô de boa” e ficar repetindo “tipo” como se fosse vírgula.

Preciso terminar por aqui. Uma gatinha, tipo que conheci outro dia num show do Luan Santana, está tipo passando aqui em casa para pegarmos tipo um cineminha. Eu tentei emplacar a última fita da Meryl Streep, mas ela achou coisa de velho, tipo nada a ver comigo. Assim, ficamos tipo entre Madagascar 3 e Os Vingadores – e ela vai deixar a decisão tipo por minha conta. Demorô, véi!

Marcos Caetano

Marcos Caetano é especialista em comunicação, comentarista esportivo e colunista do Meio e Mensagem

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