coisas da guerra

O traidor

“Não chore”, disse-lhe o embaixador, “vamos mandá-lo para a Espanha. Você vai ser bem acolhido. Vai ser perdoado. Não é culpa sua se os russos fizeram de você um comunista quando ainda era um menino. Não chore”

Curzio Malaparte
“Está vendo aquele rapaz? Era comunista, foi capturado no <i> front </i> russo, combatia ao lado dos russos. Mas quis voltar, reconheceu Franco na Espanha. É um bom rapaz, um grande espanhol.”
“Está vendo aquele rapaz? Era comunista, foi capturado no front russo, combatia ao lado dos russos. Mas quis voltar, reconheceu Franco na Espanha. É um bom rapaz, um grande espanhol.” FOTO: RIA NOVOSTI

Em fevereiro de 1942, eu estava entre o lago Ladoga e Leningrado, seguindo a tropa do general Edqvist, que comandava uma divisão finlandesa naquele ponto delicado do front. Um dia o general Edqvist mandou me chamar. “Estamos com dezoito prisioneiros espanhóis”, me disse. “Espanhóis? Então o senhor está em guerra contra a Espanha?” “Não sei de nada”, disse ele, “o fato é que esta noite capturamos dezoito prisioneiros russos que se declaram espanhóis e falam espanhol.”

“Muito estranho.”

“Precisamos interrogá-los. Certamente o senhor fala espanhol.”

“Não, não falo espanhol.”

“Bem, o senhor é italiano, portanto é mais espanhol que eu. Vá, interrogue-os e depois veremos.” Vou, encontro os prisioneiros vigiados numa barraca, pergunto se são russos ou espanhóis. Falo italiano, lentamente, eles me respondem lentamente em espanhol, e nos entendemos à perfeição. “Somos soldados soviéticos, mas somos espanhóis.” E um deles me explica que são órfãos da Guerra Civil Espanhola, que seus pais foram mortos nos bombardeios, nas represálias etc., e que um belo dia foram postos num navio soviético atracado em Barcelona e mandados para a Rússia, onde foram alimentados, vestidos, instruídos, onde aprenderam um ofício e se tornaram soldados do Exército Vermelho. “Mas somos espanhóis.” É verdade, me lembro de ter lido em jornais, nos tempos da Guerra Civil Espanhola (eu estava em Lipari naqueles anos), que os russos tinham transportado para a União Soviética muitos milhares de filhos de espanhóis comunistas, para salvá-los dos bombardeios e da fome.

“Vocês são filiados ao Partido Comunista?”, lhes pergunto.

“Naturalmente.”

“Pois bem, não digam isso. Já o disseram a mim e isso basta. Não repitam a ninguém. Entenderam?”

“Não, não entendemos.”

“Isso não tem importância. Pensando bem, nem eu entendo mais nada. Só que, a meu ver, acho que é melhor se vocês não disserem a ninguém que são espanhóis, soldados vermelhos filiados ao Partido Comunista.”

“Não, não podemos aceitar esse acordo. Fomos educados a dizer a verdade. Não há nenhum mal em ser comunista. Não vamos esconder que somos comunistas.”

“Muito bem, façam como quiserem. De qualquer modo, saibam que os finlandeses são um povo honesto e humano, que até entre os soldados finlandeses há comunistas, mas estão combatendo pelo país deles, que a Rússia atacou em 1939. Quero dizer que ser comunista não tem nenhuma importância. Vocês me entendem.”

“Não, não entendemos. O que entendemos é que o senhor está fazendo propaganda. Isso é tudo.”

“Não, não é tudo. Saibam que farei o que for possível para que vocês não tenham problemas. Entenderam?”

“Sim.”

“Então, até mais. Amanhã virei visitá-los.”

 

Fui ao general Edqvist e lhe contei a minha conversa com os espanhóis. “O que devemos fazer?”, perguntou-me o general. “O senhor sabe, a situação deles é complicada. São comunistas espanhóis, voluntários no Exército Vermelho. Evidentemente, eram crianças quando os mandaram para a União Soviética. Não são responsáveis pela educação que receberam. Eu quero salvá-los. O melhor é que o senhor telegrafe a seu amigo Augustin De Foxá, o embaixador da Espanha. Peça em meu nome que ele venha até aqui, eu lhe entrego os prisioneiros e ele faz o que achar mais conveniente.”

Telegrafei a De Foxá nos seguintes termos: “Capturados dezoito prisioneiros espanhóis venha rápido resgatá-los.” Dois dias depois De Foxá chegou de trenó, sob um clima dos diabos e uma temperatura de 42 graus abaixo de zero. Estava morto de frio e de cansaço. Assim que me viu, gritou: “Em que você está se metendo? Por que me telegrafou? O que é que posso fazer por esses dezoito prisioneiros espanhóis e comunistas?”

“Mas você é embaixador da Espanha.”

“Sim, mas da Espanha franquista. E eles são vermelhos. Bem, no fim das contas, vou cuidar deles. É o meu dever. Mas eu queria saber em que você está se metendo.”

Estava furioso. Mas De Foxá tem um coração bom e eu sabia que faria de tudo para ajudar aqueles infelizes.

Foi ver os prisioneiros e o acompanhei.

“Sou embaixador da Espanha de Franco”, disse De Foxá. “Sou espanhol, vocês são espanhóis, vim ajudá-los. O que posso fazer por vocês?”

“Por nós? Nada”, responderam. “Não queremos ter nada a ver com representantes de Franco.”

“Ah, vão fazer birra? Viajei dois dias e duas noites para vir até aqui, e vocês me rejeitam? Farei o possível para ajudá-los. A Espanha de Franco sabe perdoar. Vou ajudá-los.”

“Franco é nosso inimigo, ele matou nossos pais; por favor, nos deixe em paz.”

De Foxá foi falar com o general Edqvist.

“São teimosos. Mas cumprirei meu dever, apesar deles. Vou telegrafar a Madri pedindo instruções e faremos o que Madri ordenar.”

No dia seguinte, De Foxá partiu de trenó para Helsinque. Estava sentado no trenó quando me disse: “Cuide de suas coisas, certo? Se agora estou nesta enrascada, é por culpa sua. Entendeu?”

Adiós.

Adiós.”

 

Passados alguns dias, um dos prisioneiros ficou doente. O médico disse: “Pneumonia. Muito perigosa.”

O general Edqvist me falou: “É preciso avisar De Foxá.” Então telegrafei a De Foxá: “Um prisioneiro doente, muito grave, venha logo com remédios chocolate cigarros.”

Dois dias depois De Foxá chegou de trenó. Estava furioso.

“Em que você está se metendo?”, gritou assim que me viu. “É culpa minha se esse desgraçado ficou doente? O que é que eu posso fazer? Estou sozinho em Helsinque, você sabe, não disponho de attaché, de colaboradores, nada, tenho de fazer tudo por conta própria. E você me faz vir de lá para cá, com este tempo dos diabos, girando pela Finlândia… mas em que você está se metendo?”

“Ele está doente, escute, está morrendo, é preciso que você esteja aqui. Você representa a Espanha.”

“Está bem, está bem, vamos vê-lo.”

Trazia consigo uma enorme quantidade de remédios, alimentos, cigarros, roupas para o frio. Tinha feito tudo regiamente, meu bom Augustin.

O doente o reconheceu e até lhe sorriu. Seus companheiros estavam taciturnos e hostis. Observavam De Foxá com um olhar de desprezo rancoroso.

De Foxá se demorou dois dias e depois voltou a Helsinque. Antes de subir no trenó, me disse:

“Mas por que você se mete em coisas que não lhe dizem respeito? Quando vai aprender a me deixar em paz? Seja como for, você não é espanhol. Não me atazane, entendeu?”

Adiós, Augustin.”

Adiós, Malaparte.”

Três dias depois o doente morreu. O general me falou: “Eu poderia simplesmente sepultá-lo aqui”, disse, “mas acho que é melhor avisar a De Foxá. Este homem é espanhol. O que o senhor acha?”

“É verdade, penso que é preciso comunicar a De Foxá. É um gesto de delicadeza.”

E telegrafei a De Foxá: “Doente morto venha logo sepultamento.”

 

Dois dias depois De Foxá chegou. Estava furioso. “Quer parar de me encher”, gritou assim que me viu, “em que você está se metendo? Quer me deixar doido? Naturalmente, se você me diz que o sujeito morreu, que é preciso enterrá-lo e que eu devo estar presente, óbvio, é impossível que eu não venha. Mas, e se você não me tivesse avisado, hein? Não vou ressuscitar o morto com minha presença!”

“Não, mas você é a Espanha. Não se pode enterrá-lo feito um cachorro, nestes bosques, longe de seu país, da Espanha. No entanto, se você está aqui, a coisa é diferente, compreende? É como se toda a Espanha estivesse aqui.”

“Naturalmente, compreendo”, disse De Foxá, “foi por isso que vim. Mas, de todo modo, por que você se mete nessas histórias? Você não é espanhol, válgame Dios!

“É preciso sepultá-lo com dignidade, Augustin. Foi por isso que lhe avisei.”

“Sim, eu sei. Está bem, está bem, não falemos mais disso. Onde está o morto?”

Fomos ver o pobre rapaz morto, que os companheiros velavam na pequena barraca em que o haviam estendido. Os prisioneiros olharam De Foxá com um ar sombrio, quase de ameaça.

“Vamos sepultá-lo”, disse De Foxá, “segundo o ritual católico. Os espanhóis são católicos. Quero que ele seja sepultado como um verdadeiro e bom espanhol.”

“Não vamos permitir isso”, disse um dos prisioneiros, “nosso companheiro era ateu, como todos nós. É preciso respeitar suas opiniões. Não vamos permitir que seja sepultado segundo o ritual católico.”

“Aqui eu represento a Espanha e este morto é espanhol, um cidadão espanhol, e vou sepultá-lo segundo o ritual católico, estamos entendidos?”

“Não, não estamos entendidos.”

“Sou embaixador da Espanha, vou cumprir meu dever. Se vocês não entendem, para mim é indiferente.” E De Foxá foi embora.

“Meu caro Augustin”, eu disse a ele, “o general Edqvist é um cavalheiro. Não vai gostar que você force as opiniões de um defunto. Os finlandeses são homens liberais, não vão entender seu gesto. É preciso chegar a um acordo.”

“Sim, mas aqui eu sou o embaixador de Franco e não posso sepultar um espanhol sem o ritual católico. Ah, por que não enterraram o morto sem mim? Está vendo, está vendo o que você fez com essa sua mania de se meter em coisas que não lhe dizem respeito?”

“Está bem, está bem, não se irrite, vamos fazer o que for melhor.”

Fomos falar com o general.

“Evidentemente”, disse o general Edqvist, “se o morto era ateu, como seus companheiros afirmam – e como eu acredito, visto que era comunista –, não se pode sepultá-lo segundo o ritual católico. Entendo, o senhor é embaixador da Espanha, e não pode…”

Propus que chamássemos o padre católico italiano de Helsinque, o único padre católico que havia em Helsinque (lá também havia um bispo católico, um holandês, mas não era possível fazer o bispo vir até aqui). Então se telegrafou ao padre católico. Dois dias depois o padre chegou. Era um padre da alta Lombardia, um montanhês muito simples, muito sagaz, muito puro.

 

No dia seguinte houve o funeral. O caixão estava sendo levado por quatro companheiros. Uma bandeira da Espanha de Franco estava estendida no fundo da cova, escavada com dinamite na terra gelada. Uma divisão de soldados finlandeses se perfilava num dos lados da cova, no pequeno cemitério de guerra finlandês, em uma pequena clareira no bosque. A neve brilhava suavemente na tênue claridade do dia. O caixão era acompanhado pelo embaixador De Foxá, pelo general Edqvist, por mim, pelos prisioneiros vermelhos e por alguns soldados finlandeses. O padre estava a cinquenta passos da cova, com a estola e um livro de orações na mão. Seus lábios se moviam em silêncio, recitando a prece dos mortos, mas à parte, para não contrariar as convicções do morto. Quando o caixão desceu à cova, os soldados finlandeses, todos protestantes, dispararam os fuzis no ar. O general Edqvist, eu, os oficiais e os soldados finlandeses fizemos a saudação levando a mão ao quepe. O embaixador De Foxá estendeu o braço, à maneira fascista. E os companheiros do morto ergueram o braço, com o punho fechado.

 

De Foxá tornou a partir na manhã seguinte. Antes de se sentar no trenó, me puxou de lado e disse: “Agradeço muito por tudo o que você fez. Foi muito gentil de sua parte. Desculpe se fui meio rude, mas você entende… Você sempre se mete em coisas que não lhe dizem respeito!”

Passaram-se alguns dias. Os prisioneiros vermelhos continuavam esperando a resposta de Madri, que não vinha. O general Edqvist já estava um tanto nervoso.

“O senhor entende”, me dizia, “não posso manter eternamente esses prisioneiros aqui. É preciso tomar alguma decisão. Ou a Espanha os chama de volta, ou teremos de mandá-los para um campo. A situação deles é delicada. É melhor mantê-los aqui. Mas não posso cuidar deles eternamente.”

“Tenha mais um pouco de paciência, a resposta com certeza vai chegar.”

A resposta chegou: “Serão reconhecidos como cidadãos espanhóis apenas os prisioneiros que se declararem espanhóis, que aceitarem o regime de Franco e que manifestarem o desejo de regressar à Espanha.”

“Vá explicar a situação a eles”, me disse o general Edqvist.

Fui até os prisioneiros, expliquei a situação. “Nós não reconheceremos o regime de Franco, não queremos voltar à Espanha”, responderam todos.

“Respeito a lealdade às suas opiniões, mas quero enfatizar que a posição de vocês é muito delicada. Se admitirem que estão combatendo os finlandeses na condição de espanhóis comunistas, serão todos fuzilados. Leis de guerra são leis de guerra. Façam o possível para que eu possa ajudá-los. Peço-lhes que reflitam. No fundo, vocês são espanhóis. Todos os espanhóis comunistas que se encontram na Espanha terminaram aceitando o regime de Franco. Os vermelhos perderam a partida, a lealdade deles não os impede de reconhecer que Franco venceu. Façam como os comunistas que vivem na Espanha. Aceitem a derrota.”

“Não há mais comunistas na Espanha. Foram todos fuzilados.”

“Quem lhes contou essa história?”

“Lemos nos jornais soviéticos. Nunca reconheceremos o regime de Franco. Preferimos ser fuzilados pelos finlandeses do que por Franco.”

“Ouçam bem, eu não estou nem aí para vocês, para a Espanha vermelha, para a Espanha de Franco, para a Rússia, mas não posso abandoná-los, não vou abandoná-los. Farei o possível para ajudá-los. Se não quiserem reconhecer o regime de Franco, expressem o desejo de regressar à Espanha, pronto, e eu assino a declaração por vocês. Faço um documento falso, mas salvarei suas vidas. Entendidos?”

“Não, nós protestaremos, vamos declarar que o senhor assinou abusivamente por nós. Por favor, nos deixe em paz. E cuide do que lhe diz respeito. O senhor é espanhol? Não. Então por que está se metendo nisso?”

“Não sou espanhol, mas sou um homem, sou um cristão, não os abandonarei. Vou repetir: permitam que eu os ajude. Vocês vão voltar à Espanha e, lá, vão fazer como todos os outros, como os comunistas que lealmente aceitaram a derrota. Vocês são jovens, não vou deixar que morram.”

“Por favor, quer nos deixar em paz?”

Fui embora com tristeza. O general Edqvist me disse: “É preciso avisar o embaixador De Foxá, telegrafe a ele dizendo que venha tratar pessoalmente deste assunto.” Telegrafei a De Foxá: “Prisioneiros recusam venha logo convencê-los.”

 

Dois dias depois De Foxá chegou. O vento do norte soprava com violência, De Foxá estava coberto de pedacinhos de gelo. Assim que me viu, disse: “Você de novo?” E gritou para mim: “Mas posso saber em que você está se metendo? Como acha que vou conseguir convencê-los se eles não querem? Você não conhece os espanhóis, são teimosos que nem as mulas de Toledo. Por que me telegrafou? O que você quer que eu faça agora?”

“Vá falar com eles”, disse-lhe, “quem sabe…”

“Sim, sim, já sei, foi para isso que eu vim. Mas, afinal de contas, você entende…”

Foi ver os prisioneiros e eu o acompanhei. Os prisioneiros se mostraram irredutíveis. De Foxá pediu, suplicou, ameaçou.

Nada a fazer.

“Vão nos fuzilar. Pois bem. E daí?”, diziam.

“Depois vou enterrá-los segundo o ritual católico!”, gritava De Foxá, espumando de raiva, com lágrimas nos olhos. Porque meu caro Augustin é um homem bom, e sofria daquela magnífica e terrível teimosia.

“O senhor não faria isso”, diziam os prisioneiros, “usted es un hombre honesto.

Eles também estavam comovidos. De Foxá foi embora arrasado. Antes de partir, pediu ao general Edqvist que mantivesse os prisioneiros por mais um tempo, que não decidisse nada sem antes lhe avisar.

Estava sentado no trenó e me disse: “Está vendo, Malaparte, a culpa é sua se estou neste estado.” Tinha lágrimas nos olhos e a voz tremia. “Não posso pensar no destino desses pobres rapazes. Eu os admiro, tenho orgulho deles, são verdadeiros espanhóis. Sim, verdadeiros espanhóis, altivos e valorosos. Mas você entende…? É preciso fazer o possível para salvá-los. Conto com você.”

“Farei o possível. Prometo que não vão morrer.”

Adiós, Augustin.”

Adiós, Malaparte!”

 

Eu ia encontrar os prisioneiros todo dia, tentava persuadi-los, mas em vão. “Agradecemos ao senhor”, me diziam, “mas somos comunistas, nunca aceitaremos reconhecer Franco.”

Um dia o general Edqvist mandou me chamar. “Vá ver o que está acontecendo com os prisioneiros. Quase mataram um companheiro. E não conseguimos entender por quê.”

Fui ver os prisioneiros. Um deles estava coberto de sangue, sentado no chão, num canto da sala, protegido por um soldado finlandês armado com sua suomi konepistooli, a famosa metralhadora finlandesa.

“O que vocês fizeram com este homem?”

“É um traidor”, me responderam, “um traditor.”

“É verdade?”, perguntei ao ferido.

“Sim, sou um traditor. Quero voltar à Espanha, não aguento mais. Não quero morrer. Quero voltar à Espanha. Sou espanhol. Quero voltar à Espanha.”

“É um traidor! Um traditor!”, diziam os companheiros, mirando-o com um olhar cheio de ódio. Mandei prender el traditor numa barraca à parte e telegrafei a De Foxá: “El traditor quer voltar à Espanha venha logo.” Dois dias depois De Foxá chegou. A neve caía. Estava cegado pela neve, ferido no rosto pelos fragmentos de gelo que os cascos dos cavalos levantavam da pista congelada. Assim que me viu: “Em que você está se metendo? Posso saber por que insiste em tratar de coisas que não lhe dizem respeito? Ainda não terminou de me exasperar com suas histórias? Onde está esse traidor?”

“Está ali, Augustin.”

“Bem, vamos vê-lo.”

El traditor nos recebeu em silêncio. Era um rapaz de 20 anos, olhos claros, muito pálido. Era louro como os espanhóis louros, tinha olhos claros como os espanhóis de olhos claros. Começou a chorar. Disse: “Sou um traidor. Yo un traditor. Mas não aguento mais. Não quero morrer. Quero voltar à Espanha.” Chorava e nos olhava com os olhos cheios de medo, de esperança, de súplica. De Foxá estava comovido. “Não chore”, disse-lhe, “vamos mandá-lo para a Espanha. Você vai ser bem acolhido. Vai ser perdoado. Não é culpa sua se os russos fizeram de você um comunista quando ainda era um menino. Não chore.”

“Sou um traidor”, dizia o prisioneiro.

“Somos todos traidores”, disse de repente De Foxá, em voz baixa. No dia seguinte, De Foxá o fez assinar uma declaração e partiu.

Antes de ir embora, dirigiu-se ao general Edqvist: “O senhor é um cavalheiro”, falou, “me dê sua palavra de que salvará a vida desses infelizes. São bons rapazes. Preferem morrer a renegar sua fé.”

“Sim, eles são bons”, disse o general Edqvist, “e eu sou um soldado, também admiro a coragem e a lealdade nos inimigos. Dou minha palavra. Aliás, já entrei em acordo com o marechal Mannerheim. Eles serão tratados como prisioneiros de guerra. Pode partir tranquilo, eu respondo pela vida deles.”

De Foxá apertou a mão do general em silêncio, com a garganta apertada de emoção. Quando se sentou no trenó, sorria. “Finalmente”, me disse, “finalmente você vai parar de me encher com suas histórias! Vou telegrafar a Madri e, assim que tiver uma resposta, veremos. Obrigado, Malaparte.”

Adiós, Augustin.”

Adiós.”

Alguns dias depois chegou a resposta de Madri. O prisioneiro foi acompanhado a Helsinque, onde o aguardavam um oficial e um suboficial espanhóis. El traditor partiu de avião para Berlim e, de lá, para a Espanha. Era claro que as autoridades espanholas queriam enaltecer o evento. O prisioneiro ia repleto de atenções, partiu feliz.

Dois meses depois, retornei a Helsinque. Era primavera, as árvores do Parque da Esplanada estavam cobertas de folhas novas, de um verde tenro, e os passarinhos cantavam entre os ramos. Até o mar, ao fundo da Esplanada, estava verde, parecendo igualmente coberto de folhas novas. Fui buscar De Foxá em sua mansão no Bruneparken, caminhamos juntos ao longo do mar, em direção ao Kemp. A ilha de Suomenlinna estava branca das asas de gaivotas.

“E o prisioneiro, el traditor? Tem notícias dele?”

“De novo”, gritou De Foxá, “mas em que você está se metendo?”

“Eu também fiz algo por aquele homem, para salvar a vida dele.”

“Quase perdi o posto por causa daquele sujeito! E por culpa sua.”

Então ele me conta que el traditor tinha sido acolhido muito bem em Madri. Desfilavam com ele nos cafés, nos teatros, nas arenas, nos estádios, nos cinemas. E as pessoas o apontavam e diziam: “Está vendo aquele belo rapaz? Era comunista, foi capturado no front russo, combatia ao lado dos russos. Mas quis voltar, reconheceu Franco na Espanha. É um bom rapaz, um grande espanhol.” Mas el traditor dizia: “Isto aqui é um café? Precisam ver os cafés de Moscou.” E ria. Dizia: “Isto é um teatro? Um cinema? Precisam ver os teatros e os cinemas de Moscou.” E ria. Levaram-no ao estádio. Disse em voz alta: “Isto, um estádio? Precisam ver o estádio de Kiev.” E ria. Todos se viravam e ele dizia em voz alta: “Isto, um estádio? O estádio de Kiev, ah, aquilo é que é estádio!” E ria.

“Compreende”, me disse De Foxá, “compreende? E por culpa sua. Mais uma vez, culpa sua. Em Madri, no Ministério, estavam furiosos comigo. E tudo por culpa sua. Isso é para você aprender a não se meter mais em coisas que não lhe dizem respeito.”

“Sim, mas e aquele rapaz… O que fizeram com ele?”

“O que você acha que fizeram? Não fizeram nada”, disse Augustin com uma voz estranha, “em que você está se metendo?”

Compreendi. Foi enterrado segundo o ritual católico.

Curzio Malaparte

Curzio Malaparte (1898–1957) é o pseudônimo do escritor italiano Kurt Erich Suckert, autor de A Pele, publicado pela Civilização Brasileira, e Kaputt, da Bertrand Brasil.

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