esquina

O treinador

Um gamer de Hong Kong no Brasil

Luigi Mazza
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Sem desviar os olhos da tela, Tabe acompanha os movimentos de seu time. A partida já completou trinta minutos e os jogadores se preparam para emboscar o Barão Na’Shor, um verme de três cabeças cuspidor de ácido. “Eu tô fog aqui, mano”, avisou um deles. Outro elevou a voz, eufórico: “Eu tô dando 800 de dano, 800 de dano!”, repetiu, clicando freneticamente o mouse. “Ataca e sai!”, respondeu o primeiro. A estratégia funcionou: a execução da criatura gratificou o time com um bônus de poder. Fortalecidos, liquidaram os inimigos e garantiram a vitória.

Assim que a partida acabou, Tabe – nickname do honconguês Wong Pak Kan Martin, de 28 anos – começou a analisar o desempenho do time. Desde dezembro, ele é o treinador da KaBuM!, equipe profissional brasileira de League of Legends. O jogo de computador, hoje com 100 milhões de usuários no mundo, consiste numa batalha entre dois times de cinco jogadores que tentam aniquilar o coração da base inimiga, o Nexus. Para tanto, precisam lutar contra tropas adversárias, despachar dragões e destruir torres de defesa no Vale dos Invocadores, o terreno do jogo.

Naquela tarde de janeiro, a equipe fazia o último treino antes da estreia, no dia seguinte, pelo Campeonato Brasileiro de League of Legends. “Gostei do jogo”, disse Tabe. Sentado numa cadeira ergonômica, o técnico assistia ao replay da partida. Volta e meia pausava e fazia comentários críticos, sempre em inglês. Avaliou que o time havia corrido riscos desnecessários. “Você tem um problema: é ganancioso pra cacete”, disse a um dos jogadores. Em seguida, contemporizou: “Aposto que não usa camisinha.”

Ex-jogador profissional, Tabe é um rapaz de baixa estatura e cabelos pretos lisos. Atuou por times chineses e foi vice-campeão mundial em 2013. Ao final daquele ano, decidiu se aposentar e seguir como treinador no mercado asiático. Desde então, passou por seis times. Comandava uma equipe na província independente de Taiwan, no meio do ano passado, quando recebeu o convite da KaBuM!. Recusou por pressão dos pais e da namorada, mas acabou cedendo a uma segunda abordagem. Foi a primeira vez que saiu da Ásia.

 

Tabe mora e trabalha numa casa de sete quartos, com mais de 600 metros quadrados, na Lapa, Zona Oeste de São Paulo. Lá funciona a gaming house da KaBuM!, onde vivem todos os jogadores e a comissão técnica, num total de dez pessoas. O espaço, equipado com computadores e cadeiras adequadas, tem piscina, jacuzzi, sauna e churrasqueira. O aluguel de um imóvel como esse no bairro varia de 10 mil a 15 mil reais.

“A vida aqui é mais saudável”, diz o treinador. “Na China, acordava ao meio-dia e dormia às quatro da manhã.” O valor do contrato é sigiloso. As cifras, porém, são cada vez mais altas no universo de League of Legends. Nos Estados Unidos, o salário médio de um jogador da liga profissional em 2018 foi de 320 mil dólares anuais, ou cerca de 100 mil reais por mês.

É na sala de estar que acontecem os treinos. A equipe reúne rapazes de diferentes regiões do país, que praticam do meio-dia às dez da noite, com duas horas de intervalo na hora do jantar. Fica cada um em seu computador e falam alto entre si enquanto jogam. As paredes são pintadas de preto para evitar reflexos de luz nas telas; a cor se repete nas cortinas e no sofá. Na cozinha, uma empregada – única mulher da casa – prepara as refeições.

“É uma rotina que pode ser estressante”, admite Tabe. Toda segunda-feira, dia de descanso, os jogadores deixam a casa, mas o treinador fica. Sem parentes no Brasil, passou até o Natal e o Réveillon na gaming house. “A equipe sabe que fico sozinho e se esforça para ajudar”, comenta. “Agora planejamos jogar futebol e ir a um parque aquático quando possível.”

 

A função de um treinador de League of Legends, como em todos os esportes coletivos, é definir as estratégias que melhor aproveitem as qualidades da equipe. O problema é que nesse game as condições estão sempre mudando. Cada jogador encarna um “campeão”, com forças e fraquezas particulares (há desde feiticeiros até bobos da corte demoníacos). Como a lista de personagens já beira os 150 e cresce a cada ano, as possíveis combinações de time chegam às centenas de milhões. “Tentamos transformar isso em dados e concluir algo”, afirma Tabe.

O Campeonato Brasileiro de League of Legends – realizado em São Paulo, nos estúdios da Riot Games, empresa americana desenvolvedora do jogo – tem duas etapas por ano e é disputado por oito equipes. Ao todo, são 61 jogadores profissionais, todos homens entre 17 e 27 anos. O campeão recebe 70 mil reais e uma vaga no “mundialito” – torneio internacional que pagou mais de 500 mil dólares ao primeiro colocado em 2018, o equivalente a 1,9 milhão de reais.

A KaBuM!, atual campeã brasileira e favorita para conquistar o tetra-campeonato, enfrentaria o Flamengo e-Sports na partida de abertura, a mais esperada daquela tarde de sábado. Os dois times protagonizaram a final do ano passado, quando os rubro-negros perderam por uma margem apertada. Desde então, o time fez contratações de peso e na atual temporada é considerado um perigoso oponente.

Andando de um lado para o outro, de terno e gravata, Tabe distribuía instruções. Enfileirados numa longa mesa e vestindo o uniforme preto e laranja da KaBuM!, os jogadores alongavam os dedos, enquanto os adversários se preparavam numa mesa contígua. Quando o jogo começou, o treinador foi para uma sala à parte com o restante da comissão técnica. De lá, incomunicável, assistiu ao duelo. Após uma sequência de lutas em que chegou a matar vários oponentes de uma vez, os jogadores do Flamengo avançaram sem piedade sobre o Nexus do arquirrival. Em menos de trinta minutos a KaBuM! sucumbiu.

Antes do segundo jogo do dia, Tabe saiu com os jogadores e a comissão técnica. “A gente deu snowball para eles”, lamentou o assistente do treinador, referindo-se a um “efeito bola de neve” – um erro acarreta outro e assim por diante. Tabe ouviu calado. Cabisbaixos, voltaram para a casa. Uma longa noite os aguardava no Vale dos Invocadores.

Luigi Mazza

Luigi Mazza é estagiário de jornalismo da piauí e produtor da rádio piauí

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