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O vigilante de Astorga

As estátuas acéfalas de Chitãozinho e Xororó

Allan de Abreu
ANDRÉS SANDOVAL_2018

Os filhos mais ilustres de Astorga, cidade de 26 mil habitantes no norte do Paraná, são Chitãozinho & Xororó. Mas quando José Lima Sobrinho, o Chitãozinho, tinha 5 anos, e seu irmão Durval, o Xororó, apenas 2, a família se mudou definitivamente para Rondon, também no norte paranaense – e é Rondon que eles costumam evocar em suas reminiscências de infância.

Embora os cantores não visitem a cidade natal com frequência, em 2010 o prefeito – Arquimedes Ziroldo, conhecido como “Bega” – anunciou a construção de um complexo turístico em homenagem a eles. O projeto previa um portal em formato de violão, bem como um barracão com restaurante, feira de artesanato e uma estátua de cada um, a serem erguidos na principal entrada da cidade, a 3,5 quilômetros da malha urbana, numa área onde Bega e sua família possuem terras.

Em 2016, a dupla sertaneja foi convidada para a inauguração do portal e do barracão. As obras ainda estavam em curso, mas a cerimônia serviria de pretexto para que o prefeito – que naquele ano tentava eleger seu sucessor, Antônio Carlos Lopes, ambos do PTB – tirasse fotos ao lado dos ídolos. No dia da visita, Xororó vestia uma camiseta com um chimpanzé que, de óculos e gravata, tampava os ouvidos, e a frase Go ape sh*t crazy – algo como “Joga m*rda nessa p*rra toda”.

Aquela foi a última vez que os cantores estiveram na cidade. Não chegaram a ver o esboço das estátuas. A obra já sugou 2,4 milhões de reais dos cofres públicos e segue inacabada.

Em setembro, um vídeo-denúncia de seis minutos endereçado aos cantores foi postado no Facebook, apontando as irregularidades do complexo turístico. No vídeo, Charles Weslei Gasparino – um empresário de 35 anos que trabalha com compra e venda de madeira – visita a área do complexo e passa na frente de um galpão fechado. De celular em punho, indiferente aos veículos que cruzavam a estrada, o empresário não economizou a indignação. “Por favor, peço que vocês entrem em contato com o prefeito, com o ex-prefeito, para paralisar isso daqui, porque nosso povo não é idiota, não precisa de portal”, disse. “É uma falta de respeito com o nosso povo de Astorrrga!”, continuou, com o erre caipira pronunciado que faz a língua dobrar na boca.

 

Gasparino é um homem corpulento de olhos miúdos e inquietos. Numa entrevista à piauí, em Astorga, ele contou que em 2013 o então prefeito Bega lhe fez uma proposta: que vendesse por 800 mil reais um barracão construído em terreno cedido pela prefeitura e dividisse o valor com o mandatário. Caso contrário, a prefeitura reivindicaria a posse da área. O empresário se negou – “Aquele galpão vale mais de milhão” – e denunciou o prefeito ao Ministério Público. A investigação segue inconclusa – Bega nega ter proposto o acordo.

O paranaense ingressou nos Vigilantes da Gestão Pública, uma ONG capitaneada por Sir Carvalho, empresário que, após dissabores no trato com o poder público, vem infernizando prefeitos do Paraná. Em 2016, Gasparino filiou-se ao PP e tentou uma vaga na Câmara de Vereadores de Astorga. Sem votos suficientes, desfiliou-se e decidiu dedicar-se à fiscalização do poder público municipal.

Nas tardes de segunda-feira, o único cidadão a acompanhar as sessões do Legislativo local costuma ser o empresário, que define os onze vereadores como “a bancada do amém”, por respaldarem quase sempre as decisões do prefeito. Todas as noites, dedica de uma a duas horas ao exame das licitações da prefeitura e da Câmara. Calcula já ter formalizado quarenta denúncias no Ministério Público – quatro resultaram em ações na Justiça por improbidade administrativa.

Arroz de festa nos gabinetes dos três promotores da cidade, Gasparino conhece todos os funcionários e entra sem pedir licença. Certa vez telefonou às 6h50 da manhã de um sábado para um deles para denunciar uma caçamba deixada sobre uma vaga para idosos. Gasparino tampouco poupou uma namorada, funcionária comissionada do Executivo municipal, de sua cruzada pela moralidade dos gastos públicos. “Quando vi que ela havia sido contratada para fazer o site da Câmara mesmo com uma carga horária de quarenta horas na prefeitura, denunciei”, disse. O namoro acabou no mesmo dia.

 

O empresário vem tendo sucesso em sua mais notória batalha, a denúncia de mau uso dos recursos públicos no centro turístico em homenagem a Chitãozinho & Xororó. Ao investigar o projeto, ele descobriu que obras associadas ao complexo receberam 1,4 milhão de reais do Ministério do Turismo, por meio de três convênios. Em 2015, toda a verba havia sido gasta e a obra seguia inacabada e abandonada. O prefeito Bega rescindiu o contrato com a construtora responsável e contratou uma nova empresa, agora com dinheiro da prefeitura. Embora se tratasse de outra pessoa jurídica, a nova firma estava sediada no mesmo endereço da anterior.

Como o caso envolve verbas da União, Gasparino formalizou denúncia ao Ministério Público Federal em Maringá, que por sua vez determinou abertura de inquérito pela Polícia Federal. “Foi tudo superfaturado”, disse o empresário e citou um exemplo: os cabos de aço com 50 milímetros que formam as oito cordas do violão que emoldura o portal na entrada da cidade custaram 285 reais o metro – um preço “fora da realidade” segundo um engenheiro civil consultado pela reportagem.

O capítulo mais recente do imbróglio teve início com a publicação, em 4 de setembro, de um contrato de 8 mil reais para a feitura das estátuas – com dispensa de licitação, dado o valor baixo. Ao tomar conhecimento de que as esculturas já estavam quase prontas quando o contrato foi publicado, Gasparino convocou seu mentor, Sir Carvalho. No dia seguinte, foram até o galpão, onde encontraram semiprontas as peças feitas em concreto armado – faltavam apenas as mãos e as cabeças. Rumaram então para o gabinete do promotor Lucílio de Held Júnior.

Na tarde de 21 de setembro, o promotor determinou a apreensão das estátuas e instaurou uma investigação contra a diretora do Departamento de Turismo, o presidente da comissão de licitação e o escultor, para apurar os crimes de formação de quadrilha e fraude na dispensa de licitação, além de abrir um inquérito civil por improbidade – já são cinco investigações na área cível para apurar irregularidades ligadas ao centro turístico.

Em nota enviada à piauí, Chitãozinho & Xororó disseram ter recebido a notícia “com tristeza” e que esperam que “os responsáveis sejam punidos” caso as denúncias se confirmem. A prefeitura negou malfeitos e alegou que o centro turístico vai gerar renda para setenta famílias de agricultores e artesãos. O ex-prefeito Bega considerou as acusações “infundadas e mentirosas” e atribuiu-as à “oposição inconsequente e irresponsável”, sem citar Gasparino.

À espera de um desfecho, as estátuas acéfalas da dupla e os dois violões estão encostados no Fórum de Astorga. No fim de outubro, o portal seguia às moscas, com alguma sujeira acumulada. À noite, um vigia da prefeitura impede que o complexo seja alvo de vândalos.

Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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