esquina

Obra das preguiças

Animais pré-históricos põem em xeque mitologia de cidade gaúcha

Cristine Kist
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Ninguém visita Santa Cruz do Sul, cidade gaúcha de colonização alemã, na qual os Schmitt são mais comuns que os Silva, sem passar pelo Parque da Gruta. Ali há zoológico, pracinha, teleférico e restaurante. Mas a atração principal é a caverna de 30 metros de comprimento e 21 de largura que dá nome ao lugar. A gruta fica no topo de um morro e, para alcançá-la, é preciso subir 78 degraus de tábuas cuja aparência não inspira muita confiança. Escura e úmida, é iluminada por quatro lâmpadas (a quinta, numa manhã de agosto, estava queimada). As paredes estavam cobertas por assinaturas de visitantes e casais de namorados. Algum desbravador movido a álcool havia esquecido uma garrafa de cerveja vazia no chão.

Não há registros da descoberta da gruta. A região foi ocupada em 1908, quando lá foi erguido o primeiro reservatório de água da cidade. Desde crianças, os santa-cruzenses aprendem a chamar o local de Gruta dos Índios e a celebrá-la como parte da herança indígena da cidade. O folclore sustenta que a caverna teria sido usada no passado como abrigo para povos nativos.

Mas a tradição não resistiu ao escrutínio da ciência. Nos anos 80, a prefeitura de Santa Cruz do Sul pediu a pesquisadores que buscassem indícios da passagem de índios pela caverna. Flechas e restos de cerâmica foram encontrados nas imediações, mas nada em seu interior. Desde então, a origem da atração turística foi oficialmente atribuída à erosão causada pela chuva.

A revelação, porém, não abalou a crença da população no mito que une a história da cidade à dos habitantes originais daquela região. O poder público contribui para perenizar o equívoco. No site da Secretaria Estadual de Turismo, por exemplo, a atração do parque ainda é chamada de “Gruta dos Índios”. Para a historiadora Maria Luiza Schuster, coordenadora de um museu local, o mito foi criado propositalmente, a fim de atrair turistas e excursões escolares: “No parque tem até um medalhão de bronze em que está gravada uma poesia alusiva aos índios feita pela mesma mulher que compôs o hino da cidade.”

Em 2005, um grupo de cinquenta caingangues visitou a cidade por ocasião do Dia do Índio, para celebrar a memória de antepassados que teriam vivido na gruta. Alguns deles causaram apreensão quando manifestaram à imprensa local o desejo de voltar a morar na caverna. A cacique Maria Antônia, então com 45 anos, dizia inclusive ter nascido dentro da gruta – no que foi contestada por um antigo morador, que jurava que a gruta era estreita demais naquela época.

A rotina voltou à Gruta dos Índios, até que ela recebeu, no fim de abril deste ano, a visita do geólogo Heinrich Frank, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

Desde 2008, Frank dedica parte de seus fins de semana para percorrer cavernas, grutas e buracos suspeitos que ele mesmo mapeou em pesquisas pela internet. O professor está em busca das tocas usadas por espécies extintas de grandes mamíferos que viveram no Brasil durante a pré-história. Frank tem interesse especial pelas preguiças gigantes, animais que chegavam a 2 metros de altura, pesavam mais de 1 tonelada e eram comuns no sul do Brasil há milhares de anos.

Parte das tocas cavadas por esses animais se mantém relativamente conservada, e Frank decidiu pesquisá-las depois de descobrir um desses abrigos acidentalmentenuma viagem. “Até agora já encontramos 2 quilômetros de paleotocas abertas”, conta o professor. Não é uma pesquisa desprovida de riscos. Numa incursão por uma caverna desconhecida, Frank se deitou sobre um pó branco aparentemente inofensivo para observar marcas no teto e depois precisou de dois meses para curar uma dermatite de contato nas nádegas.

Quando soube pela internet da existência da Gruta dos Índios, o pesquisador suspeitou que se pudesse tratar de uma paleotoca. Resolveu investigá-la. Não deu outra. Convencido de que tinha encontrado mais um abrigo pré-histórico, enviou um comunicado à imprensa local. A Gazeta do Sul embarcou na história e anunciou o achado com um título provocador: “Gruta dos Índios foi escavada por preguiças gigantes.”

 

Ao visitar o lugar na companhia de uma aluna, Heinrich Frank encontrou indícios que pareciam confirmar sua hipótese. As dimensões da gruta e seu posicionamento, próximo a uma fonte de água e ao abrigo de uma eventual inundação, eram similares aos de outras paleotocas. Nas paredes, foram encontradas possíveis marcas de garras feitas na escavação das galerias pelas preguiças – animais cujos fósseis já haviam sido encontrados na região.

Para o geólogo, a teoria da erosão usada para explicar a formação da gruta não se sustenta. Não há fendas no teto e somente a existência de um arroio passando dentro da gruta explicaria o formato elíptico das câmaras internas. A ideia da escavação por povos nativos lhe parece ainda mais absurda. “Os índios não tinham nem ferramentas e nem motivo para abrir aquela gruta”, explicou. “As escavações são antigas, de um tempo em que eles não conheciam o ferro.”

Previsivelmente, nem todos reagiram bem à notícia. Na internet, um leitor do jornal que anunciou a descoberta disse ter “medo” de pensar que alguém poderia levar essas teorias esquisitas a sério. Outro, fazendo troça, perguntou se agora o local ia se chamar “Gruta das Preguiças”.

O aposentado Antônio Caetano, de 54 anos, se lembra de ter visitado a gruta com o pai na infância e, mais tarde, na companhia de namoradas. “A gruta anos atrás era um ponto de encontros amorosos”, confidenciou. Cético, ele segue acreditando que o antigo ninho de amor é resultado da ação da natureza com uma ajudinha dos índios e ironizou a hipótese da escavação pelos animais pré-históricos. “E preguiça lá assina o nome e faz desenho?”

Cristine Kist

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