tribuna livre da Copa

Obrigação e retrocesso

Felipão, o intuitivo, e Parreira, o racional, são profissionais competentes, mas encarnam um status quo velho que o futebol brasileiro precisa superar

Tostão
O obsoleto José Maria Marin fez o gesto previsível ao apontar o dedo para Felipão e Parreira. No ambiente que foi criado, não será surpresa se aparecer uma nova versão do “ame-o ou deixe-o”
O obsoleto José Maria Marin fez o gesto previsível ao apontar o dedo para Felipão e Parreira. No ambiente que foi criado, não será surpresa se aparecer uma nova versão do “ame-o ou deixe-o” ILUSTRAÇÃO: CÁSSIO LOREDANO_2013

No dia 14 de outubro de 2012, um domingo, escrevi para a Folha de S.Paulo uma coluna de enredo fictício, com o título “Mano no divã”. O então técnico da Seleção Brasileira manifestava ao psicanalista sua preocupação com Luiz Felipe Scolari: “O que mais me preocupa é a escolha de Felipão para assessor do Ministério do Esporte. Isso parece um recado para o Marin, presidente da CBF, de que o técnico preferido do governo e do povo é Felipão.” Mano desconfiava que Felipão já estivesse de sobreaviso.

No mesmo dia da publicação do texto, para minha grande surpresa, recebi, no celular, um telefonema de José Maria Marin, com quem nunca tivera contato. Um secretário perguntou se eu poderia atendê-lo. Com enorme curiosidade, disse que sim. Marin disparou a falar sobre muitas coisas, que não eram novidades, especialmente a respeito de Ronaldinho, fazendo elogios. Escutei mais do que falei. Após alguns minutos, a ligação caiu. Ele não voltou a ligar. Terá pensado que eu desliguei o telefone? Não acredito, pois o tratei com educação.

Mas por que teria me telefonado? Teria sido apenas um impulso, depois de ler minha coluna, especialmente o parágrafo que falava de Felipão? Será que queria me dizer algo, ouvir minha opinião, mas desistiu no meio do caminho? Será que quis me agradar com elogios? Em colunas anteriores, eu havia criticado Marin pelo fato de a Confederação Brasileira de Futebol pagar altíssimo salário ao ex-presidente Ricardo Teixeira – assessor para assuntos paralelos e nebulosos –, por gastar uma fortuna com os presidentes das federações estaduais e acompanhantes na Olimpíada de Londres e, principalmente, por representar o continuísmo. Será que ele já tinha decidido dispensar Mano Menezes e contratado Felipão quando me telefonou? Não teria sido esse o motivo de Felipão ter saído do Palmeiras em setembro? Imagino que tudo já estivesse acertado, mas nunca terei certeza.

A ligação do presidente da CBF me fez lembrar da Copa de 2002. Fui convidado por Ricardo Teixeira, depois da dispensa de Leão, em 2001, para ser o diretor técnico da Seleção. Fui contatado, primeiro, por um secretário, como fez Marin. Teixeira me disse na ocasião que eu escolheria o técnico. Perguntou se eu gostava de Levir Culpi. Respondi que não era técnico para uma Copa do Mundo. Pensei, sem dizer ao presidente da CBF, que o técnico teria de ser Felipão. Fiquei com vontade de aceitar, pelo desafio, pela vaidade de ocupar uma posição de destaque no futebol, por me considerar capaz de fazer um bom trabalho. Mas não aceitei. Não me sentiria bem, pois era um cargo de confiança de Ricardo Teixeira, por quem não tinha nenhuma admiração, pelo contrário. Fiquei também na dúvida se o gesto tinha motivos técnicos ou servia apenas para agradar a imprensa e o público, como tinha sido feito com Zico, na Copa de 1998, contra a vontade do técnico Zagallo, que teve de engoli-lo.



Exerci três diferentes profissões – atleta profissional, médico-professor e comentarista-colunista –, mas poderia ter tido outras atividades, se aceitasse algumas propostas. Recusei – por convicção, por não ter nada a ver com minhas ambições, para não perder a liberdade e a independência.

Não tenho ilusões de que a saída de Mano Menezes e as contratações de Felipão e Carlos Alberto Parreira foram muito mais decisões políticas, comerciais e de marketing do que uma questão de necessidade e segurança técnica. Investidores, marqueteiros, parceiros da CBF e o governo estavam preocupados com a pouca credibilidade da Seleção. Queriam um técnico mais experiente, que já tivesse sido campeão e fosse capaz de empolgar o torcedor, como Felipão já tinha feito em Portugal, antes da Eurocopa de 2008.

Mano Menezes é um treinador científico, racional, que sorri pela metade. Felipão é carismático, espontâneo, vibrante, um ótimo comunicador. A seu lado, para diretor técnico, outro campeão do mundo. Interessante que Parreira seja a cara de Mano. Talvez isso tenha pesado em sua escolha. Quem vai mandar na parte técnica e tática é, evidentemente, Felipão, como o próprio Parreira já disse. Mas espero que Parreira não seja como Antônio Lopes, em 2002, uma figura decorativa, cuja única função era a de beijar a medalhinha, milhares de vezes, durante as partidas.

Na maioria dos casos, o diretor técnico não tem função. Ele não participa da escalação nem das decisões técnicas e táticas. Zagallo, em 1994, foi exceção, porque Parreira tinha muita admiração por seu mestre. O ideal seria que o diretor técnico escolhesse o treinador e tivesse, hierarquicamente, uma posição superior. Os dois participariam das decisões. A última palavra seria do treinador. Na prática, isso não ocorre e dificilmente daria certo. No futebol, a vaidade e a ambição costumam ser muito mais fortes que a razão.

 

A apresentação da nova dupla de comandantes da Seleção Brasileira foi uma demonstração de nacionalismo exacerbado. As palavras de Parreira pareciam ser de Zagallo. Daqui para a frente, não será surpresa se surgir uma nova versão do “Ame-o ou deixe-o”, como na época da ditadura. Quem criticar a Seleção será antipatriota. Felipão e Parreira disseram que ganhar a Copa no Brasil é “uma obrigação”. Era o que Marin queria ouvir. Se não der certo, ele fez sua parte. Dizer que vencer é uma obrigação pode ser entendido como uma declaração otimista e corajosa. Mas também como algo ufanista e autossuficiente, muito próximo da soberba.

Discordo da ideia de que Felipão esteja ultrapassado porque foi mal nos dois últimos times de prestígio que comandou, Chelsea e Palmeiras. Todos os treinadores têm sucessos e fracassos. Por sua experiência e por ter características para jogos mata-mata, Felipão foi uma boa solução para quem pensa apenas no título. Reprovo porque achei injusta a saída de Mano Menezes – o time brasileiro começava a agradar – e porque há outras maneiras de vencer, com mais encanto.

Felipão é um técnico controverso, difícil de se definir. É emotivo – alterna momentos carinhosos, de ternura, com outros, agressivos e destemperados. Às vezes é surpreendentemente ousado e ofensivo. Em outras ocasiões é retranqueiro. Ele é estudioso, conhece bem os detalhes técnicos e táticos, mas costuma agir, durante as partidas, por impulso e intuição. É sua maior qualidade e seu principal defeito. Muitas vezes dá certo. Parreira é o oposto: sóbrio, previsível, monótono, linear.

Antes da Copa de 2002 fiz uma entrevista com Felipão. Ele era técnico do Cruzeiro e estava entusiasmado com a maneira de jogar da seleção argentina, dirigida pelo “Loco” Bielsa. A Argentina tinha chegado em primeiro lugar nas eliminatórias, com enorme vantagem técnica sobre os demais. Era uma das favoritas para ganhar a Copa, mas, para surpresa geral, foi eliminada na primeira fase.

Felipão armou a Seleção Brasileira para jogar como os argentinos: uma linha de três zagueiros, outra de três armadores (um ala-direito, um volante e um ala-esquerdo), e um meia de ligação (Juninho Paulista), próximo de uma linha de três atacantes (Ronaldinho, Ronaldo e Rivaldo). Um esquema bastante ofensivo (3-3-1-3). Só os times de Bielsa jogam assim. O Barcelona, com Pep Guardiola, às vezes também adotava essa formação. Após a primeira fase da Copa, quando o time jogava mal, Felipão trocou o meia ofensivo Juninho Paulista pelo volante Kléberson, que marcava como volante e avançava como meia. O time se organizou e ganhou o mundial, em parte pela pouca qualidade dos adversários, mas, principalmente, porque tinha três craques na frente.

 

Parreira já havia se aposentado quando recebeu o convite para ser o atual diretor técnico. Além de empresário, era assessor da Secretaria de Estado Extraordinária para a Copa do Mundo, uma mistura de garoto-propaganda e de lobista, muito bem remunerado, com a função de convencer uma grande seleção a ficar em Minas Gerais. Como as decisões das seleções só ocorrem em dezembro de 2013, após o sorteio dos grupos, datas e locais das partidas, nada tinha sido resolvido.

Já houve trocas de treinadores mais próximas de uma Copa do Mundo. Em 1970, poucos meses antes da disputa, Zagallo substituiu João Saldanha. Sempre imaginei que esse seria o desfecho. O comunista Saldanha dizia sempre o que queria e era muito mais que um treinador de futebol. Nunca entendi sua indicação. Não poderia dar certo à frente da seleção de uma ditadura militar que caçava e matava esquerdistas e tinha, além disso, militares na comissão técnica.  Pelo que eu percebia nas entrelinhas, sua saída foi planejada ou, no mínimo, desejada pela ditadura. É possível também que Saldanha, constrangido com a situação, tenha contribuído para isso.

Penso que o episódio envolvendo Dario, preferido do presidente Médici, foi irrelevante para a saída de Saldanha. O técnico disse à imprensa que Médici escalava os ministros, e ele, o time. Zagallo, logo que entrou, convocou Dario e Roberto porque, na sua concepção, o time não tinha um centroavante, já que eu era um ponta de lança no Cruzeiro. Não foi porque Médici pediu, como diz a lenda. Zagallo explicou que eu, por minhas características, tinha de ser reserva de Pelé.

Após várias semanas de treinamentos e jogos amistosos, ele mudou de opinião. Perto do início do Mundial, me chamou e perguntou: “Dá para você jogar mais à frente, de pivô, sem voltar tanto, como faz no Cruzeiro?” Respondi: “Não há nenhum problema. Vou jogar como Evaldo, centroavante do Cruzeiro. Vou tentar facilitar para Pelé, Jairzinho, Rivellino e Gerson, como Evaldo, de costas para o gol, facilita para mim e para Dirceu Lopes, quando chegamos de trás com a bola.” Na Copa, não fui um típico centroavante, como Dario e Roberto, nem um ponta de lança, como atuava no Cruzeiro. Fui um centroavante armador.

Como eu tinha ficado seis meses sem nenhuma atividade técnica e física, por causa do descolamento de uma das retinas, em outubro de 69, precisei fazer, durante várias semanas, exercícios especiais. Parreira, auxiliar da preparação física, foi meu personal trainer. Treinávamos todos os dias, no mesmo horário dos outros jogadores, separados do grupo, em outra parte do campo. Parreira era bastante educado e disciplinado. Já mostrava conhecimentos teóricos, não apenas da preparação física, mas também de detalhes técnicos e táticos.

Na Copa, ele se tornou também “olheiro”, observador dos adversários a serviço da Seleção Brasileira. Foi ele quem assistiu ao jogo da semifinal, entre Itália e Alemanha. Na partida final, participou ativamente da preleção antes do jogo. Mostrou dezenas de fotos em sequência, com toda a movimentação da marcação italiana. Ajudados por suas informações, combinamos que, quando Jairzinho saísse da direita para o meio, e seu marcador, Fachetti, o acompanhasse, já que fazia marcação individual, Carlos Alberto avançaria pelo flanco. Combinamos também que eu jogaria mais adiantado, atrás dos quatro defensores e próximo ao zagueiro livre (o líbero), que tinha a função de fazer a cobertura dos outros. No quarto gol do Brasil, de Carlos Alberto, o líbero, preso por minha presença à sua frente, não saiu na cobertura de Fachetti. A imagem da tevê mostra quando eu, de costas para o gol e de frente para Pelé, aponto o braço na direção de Carlos Alberto, que vinha em disparada, ainda fora do quadro. Foi também uma vitória tática.

Depois Parreira se tornou treinador. Na Copa de 1994, era o técnico, e Zagallo, o diretor técnico. Parreira armou a equipe à moda inglesa, no tradicional 4-4-2, com duas linhas de quatro e dois atacantes. Deu certo. Na Copa de 2006, repetiu o esquema. Foi seu grande erro. Quando buscam as razões para o fiasco, as pessoas costumam citar a falta de comprometimento do grupo. Pouca gente menciona o equívoco tático. Ao colocar Kaká e Ronaldinho, um de cada lado, com a função de também marcar o avanço dos laterais, Parreira prejudicou os dois. Eles não marcavam e ficavam longe do gol adversário. (No Barcelona, Ronaldinho atuava pela esquerda, porém mais adiantado. Kaká sempre foi um meia-atacante, mais atacante que armador.)

 

Tempos atrás, Parreira organizou na CBF um curso para treinadores. A Folha de S.Paulo, em uma reportagem de Paulo Cobos, de 2005, mostrou que a apostila era idêntica, nas palavras e expressões, ao que estava publicado no livro de um ex-treinador, funcionário da Federação Inglesa de Futebol, Charles Hughes, escrito 32 anos antes de Parreira dar o curso. Na obra, o inglês descrevia vinte maneiras de se posicionar nas jogadas aéreas, ofensivas e defensivas. Compreendi então por que os técnicos brasileiros são tão obcecados por esses lances. Parreira argumentou que não fez a cópia por interesse pessoal, mas apenas para facilitar a vida dos alunos. Não deixa de ser antiético. Pior ainda foi plagiar os conceitos de um treinador inglês, que adorava as jogadas aéreas, os chamados chuveirinhos. Isso atrapalhou a evolução do futebol inglês. Os times jogavam a bola na área e, na sobra, alguém a empurrava para as redes. Os ingleses chamavam de pequenos gols. Pequenos e feios. Deveriam valer meio gol. Essa é hoje uma das principais jogadas do futebol brasileiro.

O sonho de Parreira, nunca realizado, seria treinar um grande time inglês ou a seleção inglesa. Teria grandes chances de dar certo, com seu inglês perfeito, sua racionalidade e formalidade. Já Felipão, que tem características opostas às de Parreira e não domina tanto o inglês, não daria certo em nenhum time anglo-saxão, como não deu no Chelsea. Eles nunca entenderiam seus trejeitos e improvisações durante as partidas.

A saída de Mano Menezes do comando da Seleção foi um retrocesso. Depois de muito tempo, o Brasil começava a mostrar um futebol interessante, diferente, com mais posse de bola, mais troca de passes, de marcação por pressão, com volantes que também atacavam, sem chutões e sem um típico centroavante. Prefiro uma equipe com vários jogadores que fazem gols a ter um único artilheiro, que não tenha outras qualidades. Além do mais, o Brasil tem Neymar, craque-artilheiro. O time não era ainda uma realidade, mas a esperança de um futebol eficiente e encantador.

Apesar dos riscos de não suportar a responsabilidade de decidir uma Copa em casa – o fantasma de 1950 continuará no ar –, o Brasil, diante de sua torcida e com um bom treinador, como é Felipão, possui boas chances de ser campeão, mesmo sendo hoje inferior a algumas seleções.

A grande dúvida é se o torcedor brasileiro vai ficar feliz apenas com a vitória ou vai também reivindicar um futebol que o encante, como já encantou. Tudo a partir de agora, e cada vez mais, vai girar em torno da “obrigação de vencer”. Há muitos interesses em jogo. Marin, um comandante antigo e obsoleto, fez o gesto previsível ao apontar o dedo para a dupla pragmática. O que se tenta é a reciclagem de um passado vitorioso. Seria melhor se estivesse em curso uma modernização efetiva no estilo de jogo e na organização mais geral do futebol brasileiro, independentemente do resultado na Copa.

Tostão

Tostão é o apelido de Eduardo Gonçalves de Andrade, ex-jogador da Seleção Brasileira, médico, comentarista de futebol e colunista da Folha de S.Paulo.

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