chegada

Ode ao chimpanzé de costas

A pesquisa que deu ao holandês Frans de Waal o Nobel das bizarrices

Claudio Angelo 
FOTO: SYLVIA AMSLER

O primatólogo Frans de Waal já mostrou, em mais de três décadas de carreira, que os chimpanzés são capazes de fazer alianças políticas, de iniciar guerras, de selar a paz, de elaborar e transmitir cultura e de velar seus mortos. No mês passado, De Waal ganhou manchetes mundo afora por ter demonstrado mais uma habilidade surpreendente desses primatas: a de reconhecer um companheiro só de olhar uma foto do seu traseiro.

Essa pequena revolução na etologia foi publicada em 2008 num periódico relativamente obscuro chamado Advanced Science Letters. Só agora, quatro anos depois, ganhou o reconhecimento que merecia da comunidade internacional. De Waal e sua aluna Jennifer Pokorny, condutora dos experimentos que originaram o estudo, foram agraciados com o Prêmio Ig Nobel, um troféu de gozação dado nos Estados Unidos a pesquisas que “primeiro fazem rir, depois fazem pensar”.

“É uma prova da mente superior do macaco”, brincou o cientista em seu discurso de aceitação do prêmio – uma cereja um tanto indigesta na trajetória de De Waal, pesquisador do Centro Nacional Yerkes de Primatologia, em Atlanta, e maior especialista do mundo em comportamento de chimpanzés em cativeiro.

Concebido pela revista de humor americana Annals of Improbable Research, o Ig Nobel é entregue todos os anos desde 1991 numa concorrida cerimônia no Teatro Sanders, um prédio do século XIX no campus da Universidade Harvard que lembra um castelo de Lego vitoriano. De início um escárnio à ciência esdrúxula (sua dedicatória original era às “pesquisas que não poderiam ou deveriam ser replicadas”), o Ig acabou sendo fagocitado pelo establishment científico e virou um item obrigatório no calendário da academia americana. É uma espécie de abertura do segundo semestre, antecedendo o Nobel, anunciado no começo de outubro.



Cientistas do calibre de De Waal pagam do próprio bolso suas viagens a Massachusetts para receber o galardão. A entrega acontece em meio a chuvas de aviões de papel, conferências científicas de 24 segundos e ao sorteio, entre as moças da plateia, de um encontro romântico com um ganhador do Nobel de verdade.

Entre os premiados já figuraram nomes ilustres da ciência, como o imunologista francês Jacques Benveniste – o primeiro bicampeão do Ig Nobel em 1991, ao demonstrar que a água tinha memória, e em 1998, ao propor que essa memória podia ser transmitida pela internet – e o formulador da Lei de Murphy, John Paul Stapp (2003, póstumo). Dois brasileiros, Astolfo Araújo e José Carlos Marcelino, da USP, levaram o Ig Nobel por demonstrarem como tatus são capazes de confundir arqueólogos. Eles não compareceram à premiação por terem tido dúvidas sobre como justificar o gasto da viagem à Fapesp, a fundação paulista de apoio à pesquisa.

Pelo menos uma vez o Ig Nobel chegou para um cientista antes do seu Nobel. Aconteceu com o russo-batavo-britânico André Geim, um físico experimental que em 2000 foi “ignobelado” por usar um ímã para fazer levitar um sapo. Em 2004, “só para irritar os físicos teóricos”, Geim inventou o grafeno, uma folha de carbono de um átomo de espessura. A brincadeira de Geim hoje é considerada o futuro dos chips de computador e lhe rendeu o Nobel de Física em 2010.

Os agraciados, claro, insistem na seriedade de seus estudos originais. É o caso da pesquisa de De Waal e Pokorny que levou o Ig de Anatomia este ano. Intitulado “Faces and Behinds” (algo como “Caras e Bundas”, numa tradução livre), o trabalho tinha um propósito relevante, ao menos para a primatologia: determinar se chimpanzés possuem construções mentais de gênero e se conseguem entender fotografias, que são representações bidimensionais, como imagens reais de seus companheiros de bando.

Para isso, a dupla mostrava a seis macacos, numa tela de computador, primeiro uma foto de um traseiro, depois a de duas faces: um macho e uma fêmea, ou um chimpanzé do bando e um desconhecido, ambos do mesmo sexo do traseiro na fotografia anterior. Nesse tipo de teste, chamado MTS (match to sample, ou combinação de amostras), os animais veem uma figura e depois as duas outras, e precisam mover um cursor na tela com um joystick para selecionar a imagem mais parecida com a primeira. O estudo era uma variação ousada do MTS, já que entre a face e o traseiro, como sabemos, há uma distância enorme.

Para espanto dos cientistas, porém, quando o derrière na fotografia era de um companheiro ou companheira, os chimpanzés conseguiam associá-lo corretamente ao sexo e à cara do(a) dono(a). O índice de acertos despencava com fotos de estranhos. “Se os humanos são capazes de fazer o mesmo é algo que ainda precisa ser testado”, brincou De Waal, apontando toda uma avenida de pesquisas pela frente – ou por trás.

 

Longe da teoria, há estudos premiados com o Ig Nobel de 2012 que atendem ao chamado mais nobre da ciência: melhorar a condição humana. Dois japoneses levaram o prêmio de Acústica este ano por inventarem um aparelho batizado “SpeechJammer”, ou “embaralhador de discurso”. A engenhoca retransmite a voz do falante para ele mesmo com um atraso de alguns milissegundos, fazendo-o perder o fio da meada – enfim uma perspectiva de solução para o incômodo fenômeno do “louco de palestra” (piauí_49, outubro 2010).

O médico francês Emmanuel Ben-Soussan foi premiado por ajudar a evitar uma das mortes mais horríveis que se pode imaginar: por explosão anal. Eles estudaram o fenômeno que ocorre quando gases acumulados no intestino entram em ignição devido ao calor de um colonoscópio a laser (pense em alguém riscando um fósforo numa mina de carvão). Vinte explosões colônicas já foram registradas na literatura, com pelo menos uma morte.

Nem todos levam a honra na esportiva. Benveniste, cujo estudo sobre a “memória da água” foi publicado e depois anulado pela revista Nature em meio a acusações de fraude, nunca perdoou o criador do Ig Nobel, o jornalista americano Marc Abrahams. Até morrer, em 2004, referia-se a Abrahams como “o talibã da ciência”.

O americano diz nunca ter sofrido ameaças de morte. “Já recebi todo tipo de porcaria, mas isso não.” Em um raro momento de seriedade, Abrahams rejeita insinuações de que o prêmio amoleceu na crítica à ciência inútil. “Mudei o lema simplesmente porque levou sete anos para bolar uma frase simples que comunicasse a ideia de maneira clara”, diz. Por via das dúvidas, ele faz questão de encerrar as cerimônias no Sanders com o mesmo bordão de 21 anos atrás: “Se você não ganhou o Ig Nobel esta noite – e especialmente se ganhou – melhor sorte no ano que vem.”

Claudio Angelo 

É jornalista e autor de A Espiral da Morte: Como a Humanidade Alterou a Máquina do Clima (Companhia das Letras)

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