esquina

Onze casinhas engraçadas

De frente para o mar, sem janelas

Douglas Duarte
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2009

residência de Hugo Simas de Carvalho Filho parece ter saído daquela cançãozinha infantil de Vinicius de Moraes: “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada” – ou melhor, teto há, mas é um passeio público. O contratempo não impediu Carvalho de ter telefone fixo, água corrente e ar-condicionado, além de uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro – isto é, embora a casa não tenha janelas.

Carvalho – conhecido como Cabo, sua patente quando foi dispensado do Exército – mora no airoso bairro da Urca, ao lado do segundo marco mais importante do bairro (o primeiro é o Pão de Açúcar). Seu vizinho é o célebre Cassino da Urca, um prédio de estilo eclético que, entre 1922 e 1933, abrigou o Hotel Balneário, depois o Cassino e mais tarde a TV Tupi, entre 1953 e 1979, quando então foi entregue às traças. No momento, o prédio está sendo reformado pelo Istituto Europeo di Design, o IED, para abrigar a filial carioca da instituição, fundada em Milão.

Não se acha sua casa logo de cara. Primeiro, amarrado numa frondosa amendoeira, se avista um varal de roupas, depois uma mesa com algumas cadeiras de plástico e por fim um caiaque vermelho tostado pelo sol. É o quintal. O Cabo, um homem corpulento de 65 anos, mora há mais de três décadas ali.

“Ali” significa de frente para a Baía de Guanabara, debaixo da calçada elevada que circunda a Praia da Urca. É por isso que, ao acordar, o Cabo apenas cruza uma breve faixa de areia e já está no mar para cumprir seus 5 quilômetros diários de natação. Originalmente havia ali “cabines de vestir”, construídas pelo Hotel Balneário para que os hóspedes pudessem recatadamente vestir suas roupas de banho e nadar nas águas ainda límpidas da baía. Com o passar dos anos, entretanto, a pudicícia se tornou démodé e as cabines acabaram abandonadas. Isto é, até a chegada do Cabo.

Seu primeiro contato com o bairro foi no final dos anos 60, já quando ele trabalhava como salva-vidas. Entre um salvamento e outro – o que naquele espelho d’água devia acontecer a cada solstício de inverno –, investigou o território. Todas as cabines estavam vazias e caindo aos pedaços. Ele levou dez anos até decidir se mudar. Primeiro instalou um catre numa cabine, depois um fogareiro a gás na seguinte, até que começou a pôr abaixo as paredes entre elas para criar cômodos mais espaçosos. “Que é que eu ia fazer? Eu fui… tomando, né?”, diz ele, demorando a escolher o verbo. “Faz muito tempo, isso.”

Hoje a casa equivale a onze cabines. As paredes foram cobertas de ladrilhos, “para evitar a umidade”; a cor, azul-bebê, foi escolhida – curiosamente – para “dar a impressão de mais espaço”. É de fato apertado, mas há um quarto para ele e a mulher, outro para o filho, de 8 anos, e uma sala-cozinha com fogão, duas geladeiras e outras comodidades domésticas. Carvalho se apressa em mostrar o relógio de luz e uma conta, além de colar o gancho do telefone no ouvido do visi-tante para que ouça a linha. “Aqui não tem gato, não. Eu pedi e eles instalaram, ué. Como todo mundo.”

 

Há certa justiça poética em sua história. Um dia o Cabo deixou a vila de pescadores onde nasceu, na região de Niterói, para trabalhar no Rio. A casa que tinha lá passou anos fechada, até que as Forças Armadas anexaram o terreno ao Forte do Imbuí e todas as casas sem uso (como a dele) foram demolidas. O Cabo não associa a invasão da Urca a esse episódio, mas confessa que de vez em quando pega o caiaque e cruza a Baía de Guanabara até a praia onde morou: “E eu não posso descer na areia, dá para acreditar?”

O Cabo acredita na instituição da propriedade privada: “Não fosse eu para vigiar o prédio do cassino, isso aqui tinha virado um paiol de vagabundos”, garante. Forasteiros que tentassem pernoitar ou se drogar ali eram sumariamente escorraçados.

Ele conta ter recebido com alegria a notícia de que o prédio seria reformado – mas o IED não gostou de descobrir a vizinhança. No ano passado um funcionário interpelou o Cabo e, educadamente, disse que ele teria de sair dali.

A questão ainda é nebulosa. A escritura do prédio não estipula com exatidão se as cabines fazem parte ou não do conjunto. O Cabo, por sua vez, tem algumas taxas pagas, mas nenhum documento de posse. O complexo cabineiro habita um vácuo jurídico.

Está em curso uma polêmica fundiária que divide o bairro, mas, é bom que se diga, o Cabo não está no centro dela. Os olhos se voltam para o IED , acusado de se instalar ali sem avaliar impactos sobre trânsito, segurança e rede de esgoto. A associação de moradores encheu as ruas de cartazes bradando “IED não”. A obra, cujo custo total se estima em 17 milhões de reais, está no fim da primeira fase. Há algumas semanas, a Câmara de Vereadores decidiu por unanimidade tombar o imóvel, destinando-o ao uso cultural, decisão recebida como um nocaute pela turma do não.

Inspirado pela reação dos habitantes locais, o Cabo decidiu levar seu caso a instâncias extraordinárias. “O prefeito nem me deixa chegar perto”, ele diz, mas com Lula acha mais fácil. Já conseguiu até entregar três cartas ao chefe da nação, em diferentes eventos no Rio. “Sempre fiz de um jeito muito discreto”, sublinha.

O Cabo pediu que o presidente falasse com os militares para lhe permitirem voltar a morar com a parentela na antiga vila de pescadores. Recebeu três respostas com o timbre do Palácio do Planalto: entendiam seu pleito, mas não havia o que pudessem fazer. A idéia, então, é ser mais chamativo da próxima vez que Lula estiver na cidade. “Vou beijar o pé dele para vocês da imprensa tirarem foto”, avisa. “Aí eu quero ver.”

Douglas Duarte

Douglas Duarte é jornalista. Seu primeiro documentário é Personal Che, que foi exibido na Première Latina do Festival do Rio.

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