esquina

Onze horas de harmonia conjugal 

De ovulação a decotes, tudo que se deve aprender antes do casamento

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Quem pretende se casar na Igreja católica tem que se submeter a um curso de noivos. Não há jeito. Os nubentes podem escolher a paróquia que desejarem. Basta ter vagas. A oferta é variada e tem curso para todos os gostos.

Na Igreja São José do Mandaqui, em São Paulo, o curso é de dois dias inteiros, sábado e domingo. Na Paróquia Santa Teresinha, na zona norte, as aulas começam num sábado às 18h30 e se estendem por outros três dias. O Santuário Nossa Senhora da Salette oferece praticamente um mestrado: são dois sábados e domingos, sem choro nem vela. Já a Paróquia São Gabriel Arcanjo, nos Jardins, está mais para supletivo: segunda-feira das 12 às 19 horas. E se curso de noivos tivesse provão do Enem, a Igreja Nossa Senhora Mãe do Salvador, em Pinheiros, mais conhecida como Cruz Torta, levaria bomba. No esquema geral da pedagogia matrimonial, ela equivale às faculdades nas quais o aluno se forma summa cum laude sem jamais pôr os pés na sala de aula: o corpo docente da Cruz Torta é famoso por seus cursos instantâneos de três horas.

Às oito da manhã de um sábado, dezenove jovens casais se sentaram em círculo no salão da Igreja Nossa Senhora Achiropita, no Bixiga, bairro italiano de São Paulo. As mesas de plástico e as bandeirinhas juninas estavam sendo arrumadas para a Noite da Pizza. O curso tomaria o dia inteiro. Primeiro, algumas orações, músicas e chá de maçã. Depois, era respirar fundo e enfrentar o currículo: direito canônico, sexualidade no matrimônio, sacramentos, paternidade responsável, Bíblia e Igreja, oração na vida do casal e comunicação.

 

O primeiro palestrante foi o psicólogo José Roberto Franzen, com experiência de 25 anos em cursos de noivos. Começou com uma imagem: ninguém faria um curso para ir ao Playcenter, mas se fosse permanecer no parque por mais tempo, certamente gostaria de conhecer melhor os brinquedos. Os alunos se entreolharam. Franzen não estava ali para acalentar certezas, mas para provocar dúvidas. Afirmou que, quando jovem, desistiu de se casar no primeiro dia do curso. Não explicou a razão, mas conseguiu plantar a insidiosa semente da desconfiança. “Seria mais fácil chegar aqui e dizer: ‘Quando a gente ama para valer, bom mesmo é ser feliz e mais nada.’ Mas não é tão simples assim.” Lá atrás, um noivo assustado cochichou que iria ligar para a gráfica que fez os convites “agora mesmo”.



Nenhum dos casais tinha menos de dois anos de namoro. Alguns possuíam seis, sete, treze e havia os que chegavam a quinze anos de convivência sem trocar alianças. Seria o caso de perguntar por que tomavam a decisão agora, já que pareciam a léguas da harmonia conjugal. Incitados por Franzen, discordaram acerca dos convites, do salão de festas e das sogras. Alguém acusou seu parceiro de viajar subitamente sem avisar. A acusação tocou num nervo coletivo, pois outros alunos se disseram vítimas de ultraje semelhante. Por pouco o curso de noivos não se transformou numa terapia conjugal, ou, pior, numa audiência de Vara de Família para separação de corpos. “A ‘gráfica’ aqui não sabia que era para mandar os convidados chegarem meia hora antes”, ironizou uma das noivas, referindo-se ao homem sonolento à sua esquerda. Pressionado, um noivo confessou que mentira para a noiva: não viajou a negócios, saiu mesmo com os amigos.

A organização do curso se apressou em trazer à frente o casal Gardim e Lucy, casados há 46 anos. Os dois exaltaram o sacramento do matrimônio e contaram uma história de passarinhos, bebês e borboletas. Leram bilhetes afetivos que se escreveram ao longo das décadas, e lembraram que a responsabilidade do casal é procriar, mas que se deve preparar o sexo bem cedo, desde as primeiras horas do dia. Os casais voltaram a se entreolhar.

 

Depois do almoço, foi a hora do ginecologista Paulo Fernando Veinert falar sobre sexo no casamento. Explicou noções técnicas da anatomia genital masculina e feminina e disse que “ânus não é órgão genital, se bem que está na moda”. Embalado, esclareceu a diferença entre vulva e vagina, desenhou enormes diagramas na lousa e discorreu sobre ovulação e fertilidade. Terminou com o conselho tranqüilizador: “Divirtam-se, pois todo casal casado tem o direito de se divertir.”

Todos desceram depois para a missa na capela. Eram quase sete da noite e, na nave da igreja, tocam a música triunfal que indica que uma noiva entrou no recinto sagrado. Ouve-se o tema de Titanic, escolha peculiar dado o destino dos protagonistas da fita. Ao fim, a longa jornada tem sua recompensa: os noivos têm seus nomes lidos em voz alta, e sob aplausos, fotos e lágrimas, recebem os atestados de que estão prontos para se casar. Só uma noiva escapa pelos fundos, sem seu par, que debandou em algum ponto entre as borboletas e os ciclos da ovulação.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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