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Operação Fields

Matemáticos se encontram no Rio da intervenção

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

Na manhã de 20 de julho, uma sexta-feira, o matemático Marcelo Viana tomou um avião no Rio de Janeiro rumo ao aeroporto de Guarulhos. Não ficaria mais que algumas horas em São Paulo: seu único compromisso seria encontrar um colega russo que, na véspera, embarcara de Toronto, no Canadá, trazendo na bagagem de mão uma encomenda valiosa que lhe seria confiada. O russo foi parado por um agente aduaneiro que lhe perguntou o que portava. “São apenas condecorações a serem entregues num congresso”, resumiu o viajante, liberado em seguida.

O que o russo não especificou na alfândega é que as quatro peças que trazia eram medalhas de ouro maciço 14 quilates, valendo cada uma cerca de 15 800 reais. Sem muito alarde, acabavam de entrar em território brasileiro as medalhas Fields, o prêmio mais importante da matemática, comparadas amiúde ao Nobel (a academia sueca não contempla a disciplina). Na borda de cada uma delas constava gravado o nome de seu futuro ganhador, que a receberia dali a menos de duas semanas durante o Congresso Internacional de Matemáticos (ICM, na sigla em inglês). O evento, realizado a cada quatro anos, este ano acontece no Rio.

De Guarulhos, o russo iria a Foz do Iguaçu em viagem de lazer, antes de seguir para o congresso. Temendo algum contratempo, Viana – o organizador do evento – achou prudente interceptar as insígnias tão logo entrassem em território nacional. Para não correr o risco de ser parado ao passar com elas pelo raio x do aeroporto, o brasileiro saiu do terminal de Guarulhos e ainda naquela manhã voltou de carro para o Rio, onde depositou as medalhas num cofre.

Orquestrar a entrada das Fields no Brasil foi apenas um dos desafios logísticos enfrentados por Viana. O mais delicado foi manter em sigilo a identidade dos agraciados, objeto de intensa especulação entre seus pares. O organizador cercou-se de cuidados enquanto preparava a vinda dos laureados, seus familiares e acompanhantes. “Neste momento tenho duas dúzias de quartos reservados em meu nome na rede hoteleira do Rio”, disse Viana quando a piauí o encontrou semanas antes do evento.

 

No caso de ao menos um medalhista, a precaução talvez não fosse tão necessária: o alemão Peter Scholze era dado como favorito à Fields em quase todas as projeções. “Esse era uma barbada”, reconheceu Viana. Depois de assumir o cargo de professor titular da Universidade de Bonn aos 24 anos e enfileirar uma sucessão de prêmios, o prodígio germânico se tornou um dos pesquisadores mais jovens a receber a medalha, aos 30.

“Atualmente Scholze é o cara mais badalado da área de geometria algébrica e de teoria dos números”, disse o carioca Artur Avila, que levou a Fields em 2014 (e continua sendo o único medalhista formado num país em desenvolvimento). Avila conheceu o alemão na última edição do ICM, em Seul, quando o nome de Scholze já gerava burburinho entre os matemáticos. “Seus trabalhos tiveram um impacto muito grande e ele trabalha em direções ambiciosas.”

Pesquisador do Instituto de Estudos Avançados em Princeton, nos Estados Unidos, o australiano nascido na Índia Akshay Venkatesh também aparecia bem cotado nas bolsas de apostas para a Fields, assim como o italiano Alessio Figalli, do Instituto Federal de Tecnologia (ETH) de Zurique, na Suíça. “Em Zurique o Figalli era dado como um nome certo para ganhar a medalha”, disse Avila, que em setembro se transferirá para a Universidade de Zurique (o brasileiro manterá em paralelo o posto de pesquisador do Impa, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, no Rio).

O medalhista menos citado nas especulações era o britânico de origem curda Caucher Birkar, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. “Ele foi a surpresa da lista”, disse Viana.

 

Esta é a primeira vez que o ICM, realizado desde 1897, ocorre no hemisfério Sul. Quando foi escolhido como sede, quatro anos atrás, o Brasil ainda respirava os últimos sopros do otimismo que marcou a década passada. Desde então, eclodiu a crise política que culminou com o impeachment de Dilma Rousseff; na saúde pública, vieram a epidemia de zika e a ameaça da febre amarela urbana; na segurança, o aumento da violência motivou a intervenção militar no Rio de Janeiro no começo do ano.

“Foi uma sequência ininterrupta de notícias ruins”, resumiu Viana. “Ninguém previu essa debacle.” A repercussão negativa da crise tornou o Rio um destino menos convidativo para os matemáticos estrangeiros e motivou algumas baixas. Viana, que estudou em Portugal, chegou a articular com ex-colegas de graduação um encontro durante o evento, mas não conseguiu quórum para promover a reunião. “Sobrou um só que vem.” A organização previa receber cerca de 2 500 matemáticos, menos da metade do número de participantes do último congresso.

Viana admitiu que o número de inscritos estaria abaixo do previsto inicialmente, mas disse não estar frustrado. “Como não temos controle sobre essas coisas, não perdi meu sono.” Em vez disso, esforçou-se para preparar um evento que chamasse a atenção do mundo para a matemática brasileira, que ainda festeja a recente promoção do país à elite mundial da disciplina – o grupo 5 da União Matemática Internacional, que reúne outros dez países.

A boa notícia, no entanto, não reflete o estado catastrófico do ensino da disciplina no Brasil – num ranking de 2016 que avaliou o desempenho de alunos de setenta países, conquistamos um miserável 65º lugar. Vai ser difícil manter o alto nível da pesquisa nacional em matemática no cenário de terra arrasada da ciência brasileira, que vem perdendo recursos do governo federal ano após ano. “Realizar esse congresso era uma oportunidade única para o avanço da matemática no Brasil”, disse Artur Avila. “Bastante trabalho foi feito, mas muito dele servirá apenas para que não andemos para trás.”

O ICM também deixará um gosto amargo para aqueles que apostavam numa Fields para o alagoano Fernando Codá, frequentemente citado entre os favoritos para levar a medalha. “Não foi por falta de mérito”, avaliou Viana. “Com a composição que calhou de ter, o comitê que escolheu os medalhistas tinha mais sensibilidade para outros tipos de matemática.” Pesquisador da Universidade de Princeton, o brasileiro disse que não iria ao Rio para o congresso. Aos 38 anos, Codá não terá outra chance de levar o prêmio, concedido a matemáticos com menos de 40.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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