esquina

Orgulho suburbano

Historiador diletante pesquisa as origens gloriosas de Irajá

Rafael Cariello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

O analista de sistemas aposentado e historiador diletante Ronaldo Luiz-Martins havia marcado o encontro em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação, em Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Foi direto ao assunto. “Meu jovem, você está diante de uma preciosidade histórica”, declarou, com o olhar dirigido ao frontispício do templo. “Aqui nasceu o subúrbio carioca.”

A igrejinha branca de torre única lateral não fica muito distante da inóspita avenida Brasil. Cercada por ruas largas, conjuntos habitacionais e o incessante tráfego de ônibus, a construção barroca, simples e elegante, traz no pórtico a data de erguimento da capela que lhe deu origem: 1613.

A data inscrita em pedra foi tomada por especialistas como marco inicial da ocupação local. Em seu Dicionário da Hinterlândia Carioca, o sambista e pesquisador Nei Lopes assinala que Irajá, no período colonial, era a mais importante freguesia rural do Rio. Daí o aniversário de sua igreja motivar as comemorações, neste ano, do quarto centenário do subúrbio. Mais especificamente da “Baixada de Irajá”, segundo Luiz-Martins uma região que compreende 38 bairros. Entre eles, muitos de renome, como Oswaldo Cruz, Madureira, Marechal Hermes e Penha.

Em meados do século passado, a área abrigava um importante parque industrial e funcionava como entreposto comercial metropolitano, ligado ao centro da cidade por trens de passageiros e de carga. Ao redor das fábricas espalhava-se – ainda se espraia – um mar de casas térreas, com quintais arborizados e forte presença da imigração portuguesa.

Quando se fala em subúrbio, mesmo para cariocas que moram longe dali, o que vem à mente é a imagem de um bairro de classe média baixa, como o descrito na canção Gente Humilde: “São casas simples/ com cadeiras na calçada/ e na fachada/ escrito em cima que é um lar.” A desindustrialização, a partir dos anos 70, trouxe decadência econômica, galpões abandonados, menor atenção por parte do poder público e altos índices de violência.

 

Ronaldo Luiz-Martins quer resgatar a história do subúrbio, que já foi marcada por riqueza e opulência. Nos séculos XVII e XVIII, senhores de engenho fizeram fortuna na região. Naquela manhã de junho, o pesquisador mostrou-me com orgulho, na capela-mor da Nossa Senhora da Apresentação, quatro camarotes voltados para o altar, em tudo semelhantes aos balcões de um sobrado. Era dali que a elite da época assistia à missa.

Na companhia de alguns amigos, historiadores e arquitetos, ele ajudou a criar, há pouco mais de dois anos, o IHGBI, Instituto Histórico e Geográfico da Baixada de Irajá. O instituto é inspirado no quase homônimo IHGB, a mais antiga instituição de pesquisa histórica do Brasil, fundada em 1838.

Nos capítulos iniciais de Dom Casmurro, Bento Santiago nos diz que também ele considerou escrever uma “história dos subúrbios”. Termina se dedicando à autobiografia, com a qual busca “atar as duas pontas da vida”, a infância e a velhice. Para Luiz-Martins, aos 71 anos, não há por que escolher entre os dois projetos. Eles são quase a mesma coisa.

O pesquisador nasceu na serra fluminense, mas antes mesmo de completar 1 ano veio com a família para a capital, radicando-se em Irajá. O pai, ferroviário, havia sido nomeado chefe da estação de Madureira. Da casa onde Luiz-Martins deu os primeiros passos era possível ouvir os sinos da igreja. Ele se lembra ainda do ribombar que anunciou o fim da Segunda Guerra Mundial e de sua mãe correndo para a rua, já em festa com a vitória dos Aliados. Passou quase toda a vida ali, mas há alguns anos mudou-se para Jacarepaguá, na Zona Oeste, por motivos profissionais e familiares.

Ao contar sua história, o pesquisador fechava às vezes os olhos e prendia o alto do nariz entre os dedos. Os cabelos que lhe restam nas têmporas são brancos; a ponta do nariz se inclina para baixo, projetando-se sobre a boca; o maxilar inferior é proeminente. Visto de perfil, faz lembrar um papa renascentista. Vestia jeans, tênis e uma camisa quase imperceptivelmente puída no colarinho e nas extremidades das mangas.

Ele contou que seu pai, nas folgas do trabalho na estação, também tinha o estudo da história como hobby. Uma das filhas de Luiz-Martins acabou se tornando historiadora profissional. O pesquisador descreve seu ofício como uma “luta entre a lenda e os fatos”.

Não são poucas as lendas que dão conta do passado da região. Diz-se, por exemplo, que os primeiros habitantes da Baixada de Irajá descenderiam dos conquistadores portugueses recém-chegados às terras americanas e das índias por eles tomadas aos tupinambás, que a rigor foram os primeiros suburbanos da história.

Segundo Luiz-Martins, essa raça de heróis mestiços, herdeiros das qualidades de brancos e indígenas, não passa de uma transposição, para as cercanias de Cascadura e Vaz Lobo, do mito fundador da Roma Antiga, o rapto das sabinas (as mulheres dos sabinos, povo que habitava a mesma região dos romanos, o Lácio). Entre a grandeza do subúrbio e os fatos históricos, Luiz-Martins fica com a verdade.

Mas também deseja que ela seja observada e conhecida para pôr fim a arraigados preconceitos contra a região. Sentado num dos últimos bancos da igreja, o pesquisador explicou, em voz baixa: “A palavra subúrbio tomou um quê pejorativo, de desqualificação e inferioridade. Mas ela vem de suburbe, fora do centro da cidade. Tudo o que não é centro é subúrbio. Todos os bairros do Rio de Janeiro são subúrbio.”

Quando nos despedimos, caía uma garoa fina. O pesquisador abriu um guarda-chuva e anunciou que daria uma volta pelo bairro, antes de tomar o metrô. “Eu não saio daqui. Fico perambulando, rodo, busco informações.” O subúrbio, como o sertão, é do tamanho do mundo. Mas Ronaldo Luiz-Martins ainda sonha em voltar para Irajá.

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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