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Os estreantes da Rocinha

Os velhos poderes assediam os jovens que lideraram manifestação de junho na favela

Claudia Antunes
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

No início de julho, pela primeira vez na vida, Denis Neves teve que desligar o celular para almoçar. Sendo um dos jovens da Rocinha que convocaram a passeata da favela até o Leblon, em junho, ele não parava de receber telefonemas de assessores de vereadores, de deputados, dos governos estadual e municipal. Queriam conversar, convidá-lo a se filiar. No Facebook, Denis digladiava-se com antigas lideranças comunitárias. Ele e os colegas descobriram que aquilo que antes consideravam difícil – desafiar o pânico dos ricos de ver o morro descer – acabou sendo o mais fácil. Complicado está sendo lidar com as tentativas dos velhos poderes de cooptá-los e devorá-los.

Denis, um rapaz de 27 anos, bonito e com físico de atleta, se formará em design pela PUC no fim do ano. Filho de uma enfermeira e um gari comunitário, tem bolsa de estudos por trabalhar como técnico de informática na universidade. Ele e a amiga Érica Santos, bolsista do curso de administração, tiveram a ideia de levar à favela os protestos que tomavam o país. Criaram no Facebook o evento Manifestação Pacífica – Favela da Rocinha, Vidigal e Adjacências. A página foi ilustrada por um elefante branco com a inscrição “teleférico” – o carro-chefe do governo do estado para a segunda fase das obras do Programa de Aceleração do Crescimento no morro.

Em um dia, 2 mil pessoas tinham confirmado a presença. “Decidimos que seria a primeira manifestação sem nenhum tipo de quebra-quebra”, disse Denis, um simpatizante do anarquismo em sua versão pacifista. Apesar do cuidado, os arredores do morro amanheceram em alerta no dia 25 de junho, uma terça. O shopping Fashion Mall foi cercado por tapumes. “Galera! Somos da comunidade carente, mas somos um povo educado. Então, por favor, nada de máscaras, nós não precisamos cobrir a cara. Vamos mostrar para a sociedade quem somos”, respondeu Érica ao dar a largada na passeata, no fim da tarde.

A marcha ainda estava na rua quando Denis foi procurado por assessores de Sérgio Cabral. O governador queria recebê-los dois dias depois. Era preciso mandar uma lista de quem iria ao encontro, e foi aí que Simone Rodrigues, uma morena de 25 anos, mignon e de cabelos longos, entrou em cena. Filha de uma dona de casa e um porteiro, ela fez parte de um grupo jovem católico, estuda direito com bolsa do ProUni e estagia no Ministério Público. Há seis anos, participa do Rocinha sem Fronteiras, grupo de debate dos problemas locais.



Simone argumentou que os interlocutores do governador tinham que ser definidos democraticamente. “Virei a chata porque insistia que tem que ter reunião aberta, tem que ter ata.” Na assembleia convocada, foram escolhidas dez pessoas que doravante formariam a Comissão de Moradores. Decidiu-se que a prioridade seria cobrar de Cabral a conclusão de uma creche e outras obras inacabadas do PAC 1. Em vez do teleférico, pediriam saneamento em toda a favela. Um plano diretor da Rocinha encomendado em 2006 pelo próprio governo estadual prevê resolver o transporte no morro com planos inclinados. O arquiteto Luiz Carlos Toledo, coordenador do projeto, diz que é uma solução muito mais barata e que integra melhor a comunidade, porque permite mais paradas.

Na reunião, Cabral deu prazos para terminar as obras atrasadas, mas desconversou sobre o teleférico. Já ia se retirando quando lançou uma ideia bombástica. Propôs que os jovens indicassem cinco pessoas para uma comissão de fiscalização do PAC. Elas receberiam um salário, disse, para se dedicarem ao trabalho. Seus secretários informaram o valor: 1 500 reais. Na ata da reunião, a Comissão de Moradores registrou ter recusado a oferta: “Um vínculo trabalhista com o governo poderia atrapalhar as reivindicações, pois passaríamos a ser empregados do mesmo.”

 

O próximo desafio foi preparar o encontro com o prefeito Eduardo Paes, marcado para 12 de julho. Os jovens convocaram outra assembleia, no salão de uma igreja. A ideia era discutir saúde, educação, transportes e lixo, mas não foi fácil manter a disciplina. Ex-candidatos a vereador fizeram tumulto, insistindo em também se reunir com Paes. “A gente quer uma comissão apartidária, mas tem que fazer política, ouvir, sorrir”, comentou Denis, já calejado.

Numa carta levada ao prefeito, a comissão reivindicou “participação direta da comunidade nos temas que envolvem seu cotidiano”. Pediu mais médicos especialistas e coleta seletiva de lixo. Paes marcou uma visita à Rocinha, mas EXIGIU – como escreveu, assim em caixa alta, um dos jovens – que as duas associações de moradores fossem chamadas, como “representantes legais” da comunidade.

Os jovens aceitaram, mas se viram sob fogo cruzado. Para eles, estava em jogo o limite tênue entre buscar resultados e reproduzir o que chamam de “velhos vícios”. O prestígio das associações tende a zero porque, nas últimas décadas, elas atuaram como mediadoras dos interesses de traficantes e autoridades. O presidente da maior delas foi investigado no ano passado por distribuir cestas básicas em troca de votos e pela suposta proximidade com Nem, o dono do tráfico na favela, preso há dois anos.

O caso de Amarildo de Souza irrompeu no meio da polêmica. Em 17 de julho, a família e os amigos do ajudante de pedreiro trilharam o caminho da manifestação de junho e fecharam o trânsito no asfalto. Ele estava sumido havia três dias, depois de detido por policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora. Os jovens, que até então evitavam o tema delicado da segurança, entraram na campanha “Cadê Amarildo?” quando ela já dominava as redes sociais. No final do mês, Simone, sempre a mais crítica, dizia que o movimento sobreviverá aos contratempos. “Querem nos dividir, mas a gente está se esforçando para manter a unidade.”

Claudia Antunes

Claudia Antunes é jornalista. Foi editora de piauí entre 2012 e 2015

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