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Os órfãos de Cristina

Josefina Licitra
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

No domingo passado, quando ocorreu o segundo turno das eleições argentinas, a contagem dos votos foi acompanhada por um multidão subdividida em três grandes grupos. Milhares de pessoas se apinhavam no bunker do Cambiemos [mudemos], a coalizão de oposição ao governo, cuja sede havia sido montada na Costanera Norte, a nobre avenida beira-rio da capital. Outros milhares estavam na Praça de Maio, a poucos metros do hotel onde o núcleo duro da candidatura kirchnerista aguardava os primeiros resultados. E milhões de cidadãos, entre os quais me incluo, integrávamos uma cena íntima e ao mesmo tempo coletiva: esperávamos a divulgação dos dados em casa, na frente de uma televisão com a tela dividida ao meio. De um lado, os canais mostravam os balões coloridos do Cambiemos. Do outro, as bandeiras argentinas da Frente Para la Victoria (FPV).

Em casa, o clima era estranho. Meu companheiro e eu temos diferenças políticas – e isso, numa Argentina polarizada, é uma coisa bem delicada. Eu votei nulo. Integro o minúsculo grupo de pessoas – apenas 305 229, ou 1,19% do eleitorado – que impugnou o próprio voto por não concordar com nenhum dos dois candidatos. Mas meu companheiro, Gustavo Nielsen – escritor e arquiteto –, apoiou Daniel Scioli. Poucos dias antes, inclusive, ele havia assinado uma carta aberta, publicada no jornal governista Página/12, em que parte do espectro intelectual declarava dar respaldo ao candidato kirchnerista. Embora muitos tivessem ressalvas em relação a Scioli, apoiaram a candidatura oficialista para manifestar seu desejo de continuidade do modelo vigente nos últimos doze anos.

Milhões de pessoas, ainda hoje, continuam a amar Cristina Kirchner. Na mesa de trabalho de Gustavo há um pequeno altar com uma foto da presidente rodeada de bonequinhos de super-heróis. Aprendi a achar graça nessa brincadeira, mas foi isso mesmo: um aprendizado. Um exercício de tolerância que tem sua contrapartida – os kirchneristas, às vezes, precisam suportar argumentos absurdos da oposição – e que me obrigou a pensar nas razões pelas quais, passada mais de uma década, quase metade da população continua apoiando o kirchnerismo. Em linhas gerais, os motivos são os seguintes: ampliação dos direitos sociais (como o Subsídio Universal por Filho, uma ajuda mensal – equivalente a cerca de 50 dólares – destinada às famílias mais pobres, hoje beneficiando mais de 3,5 milhões de crianças e adolescentes); política de direitos humanos (que, entre outras coisas, reabriu os processos por crimes de lesa-humanidade durante o terrorismo de Estado da década de 1970 e, entre 2006 e 2015, condenou 592 repressores); recuperação da soberania econômica (com medidas controversas como a restrição às importações e a recusa em pagar aos “fundos abutres”); investimento em ciência e educação (entre 2003 e 2010 foram criadas, ainda que com falhas, nove universidades federais e há 51 universidades financiadas com recursos públicos); estatização, entre outros, dos fundos de pensão e aposentadoria (AFJP), da companhia petrolífera YPF e das Aerolíneas Argentinas; e uma polêmica economia com dólar desdobrado que manteve rebaixados os preços do consumo interno.

Os antigovernistas leem esses avanços em letra miúda, relativizando e problematizando muitas das vitórias alardeadas pelo governo. Mas isso é irrelevante quando se pensa nos eleitores K, que defenderam Scioli até as raias do fanatismo – o ator Gerardo Romano, por exemplo, comparou Macri a Hitler e disse que, se o oposicionista ganhasse, ele se mataria… Agora tem gente pedindo que ele cumpra a promessa – e assistiram à vitória de Mauricio Macri como se ela marcasse o início de uma orfandade. Assim que os números definitivos foram anunciados, na Praça de Maio, os militantes de La Cámpora – a juventude kirchnerista – e do Movimiento Evita se abraçaram aos prantos. Em casa, primeiro houve silêncio e, depois, uma piada. “Amanhã vou começar as aulas de escultura com balões. Já sei fazer o cachorrinho”, escreveu Gustavo nas redes sociais, numa referência aos balões coloridos – principalmente amarelos – que a coalizão Cambiemos usou em sua campanha. Mas também houve comentários mais bombásticos de outros kirchneristas: “Vou dormir. Me acorda em janeiro de 2020”; “Já chorei, agora vou vomitar”; “As ruas são nossas, e o amor também”. Frases como essas começaram a tomar conta da Web.

Foi uma noite difícil, seguida de uma manhã sombria. No dia seguinte à eleição, o jornal La Nación – de oposição ao governo – causou escândalo ao publicar um editorial que, de certo modo, justificava o terrorismo de Estado dos anos 70. Com o título “Chega de vingança”, um texto sem assinatura, pois expressava a linha ideológica do jornal, pedia a libertação de alguns genocidas presos e equiparava os crimes de Estado com a atuação da esquerda armada durante a ditadura. “Olha aí, já Cambiamos”, ironizou Gustavo depois de ler o texto. Muitos fizeram o mesmo e lançaram a boa parte dos cidadãos – não só entre os eleitores kirchneristas –, uma pergunta crucial: Cambiemos integra a “nova direita”, conservadora mas democrática, ou é a reencarnação de um velho monstro que momentaneamente havia trocado de roupa? No fim das contas, seríamos todos órfãos da Cristina?

Nesse mesmo dia – segunda-feira, quando eu ainda escrevia artigo – surgiram as primeiras respostas. Mauricio Macri rompeu uma tradição de anos e deu uma entrevista coletiva como presidente eleito – fazia muito tempo que Cristina não se expunha às perguntas dos jornalistas –, afirmando, entre outras coisas, que daria continuidade aos julgamentos de crimes de lesa-humanidade. E, num gesto sem precedentes, os empregados de La Nación se organizaram para divulgar um comunicado de repúdio ao editorial do diário. Recorrendo a um expediente insólito, o jornal cedeu suas páginas para seus funcionários publicarem o texto. Com essa decisão, deu uma guinada simbólica que talvez nos permita acreditar numa mudança positiva. Que não é um slogan de campanha, mas uma profunda transformação coletiva que vem de muito antes, continua agora e segue em direção ao futuro: esse único mistério que é de todos e ao mesmo tempo de ninguém.

Josefina Licitra

Josefina Licitra, jornalista argentina, é autora de El Agua Mala: Crónica de Epecuén y las Casas Hundidas, da editora Aguilar

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