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Os Silva

Menor casal do mundo mora em Curitiba e dirige com os pés

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Douglas e Claudia vivem brigando por assuntos banais. “Coisas pequeníssimas!”, ela diz, chacoalhando os pés do alto de seu banquinho. Eles estão juntos há oito anos. São o menor casal do mundo, atestado pelo Guinness Book.

Claudia Pereira Rocha da Silva tem 34 anos e 92,5 centímetros de altura, o tamanho de uma criança de três anos. Ela nasceu em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre, e aos oito anos conheceu o futuro marido, que é menor do que ela: tem 89,5 cm. Na época, Douglas Maister Breger da Silva se mudou para Curitiba e perdeu o contato com a amiga. Décadas depois, voltaram a se encontrar.

Após dois anos de namoro, casaram-se na televisão, ao vivo, numa cerimônia no Programa do Gugu. Distribuíram bloquinhos e ímãs de geladeira com a foto dos dois, e cada lembrancinha recebeu um toque de Douglas, que é artista gráfico. “Na verdade, sou pau pra toda obra. Cozinho, passo e lavo”, afirma o maridão, triunfante, ao que a esposa concorda. “É verdade! O feijão dele é muito bom.”

O casal mora nos fundos de uma casa simples em Capão Raso, na periferia de Curitiba. O imóvel é pequeno e pertence ao chefe de Douglas. “Há algumas semanas, eles pediram a casa. Estamos pensando em voltar pro Rio Grande”, diz, contrariado. Eles gostam de Curitiba. Os ônibus ali não têm degraus tão altos como em Porto Alegre. “Quantas vezes eu não ficava com os nervos esticados porque tinha que fazer ginástica pra subir”, protesta Claudia. “Como nós temos bem menos de 1 metro, dificulta.”



Alguém bate palma no portão. Douglas sai correndo, sobe num banquinho e olha pela janela, esticando o pescoço. “Ah, é a Josi e a Salete!”. Salete Fernandes Alves, de 38 anos, é de longe a mais alta da turma: mede 1,24. Trabalha no departamento financeiro de uma empresa onde começou há cinco anos, como telefonista. Joseane Maria do Nascimento, a Josi, de 26 anos, é mais tímida. Está desempregada e vive da pensão que recebe do pai.

Em estatura, Douglas e Claudia batem no ombro das duas amigas. Para eles é ainda mais difícil arrumar roupas e sapatos do tamanho certo. “Comprei uma vez um sapatinho maravilhoso”, conta Claudia, que calça 25/26. Depois de anos, quando o sapato enfim furou, ela não descobriu mais nada parecido. Hoje, quando acha alguma coisa que lhe agrada, já vai comprando duas ou três peças, e ainda avisa as amigas. É ela quem costura as roupas básicas do casal, feitas de malha. “Aprendi com minha mãe, que era costureira.”

O casal vai se adaptando como pode nesta terra de gigantes. Para eles, é difícil alcançar os telefones públicos e caixas eletrônicos. “Os elevadores modernos estão mais acessíveis”, segundo Claudia, mas Salete protesta: “É, mas às vezes você tem que levar um objeto comprido na bolsa para alcançar o botão”. As prateleiras de supermercados quase chegam ao céu. Os balcões dos estabelecimentos comerciais – de padarias a lojas de roupas – exigem que eles pulem para chamar atenção. Muitos os confundem com crianças. “Às vezes, você está na fila, chegam outras pessoas atrás, fingem que não vêem e passam na frente. Você só é atendido quando se esforça um pouquinho mais”, diz Salete.

Na casa de Douglas e Claudia muitos móveis têm o tamanho regular, outros são adaptados. Na sala, duas mesinhas de centro fazem as vezes de mesa de jantar. A televisão também é pequena. Na cozinha, uma pia baixa de banheiro foi adaptada para lavar a louça. A geladeira é um frigobar. O balcão principal é fixo e, por isso, quando eles querem cortar legumes, por exemplo, usam uma escada de dois degraus com rodinhas. “A gente leva essa escada para todo lugar, até para o fogão. Mandamos fazer sob medida”, conta Douglas. Para o quarto, eles conseguiram módulos baixos que servem como guarda-roupas. Claudia fez de um banquinho a sua cômoda de maquiagem. “Ela é maquiadora, costureira, dançarina.”, diz Douglas. E, como muitos anões, chegou a trabalhar no teatro. “Adivinhe a peça”, desafia Claudia. Vem o silêncio, ela abre os braços e responde: “A Branca de Neve!”.

Os quatro concordam que o país está mais atento para os deficientes, mas, ainda assim, eles sofrem com o preconceito. Segundo Claudia, é normal as crianças perguntarem: “Pai, por que é que ele não cresceu?”. E o pai responde: “Porque ele não come feijão, não come verdura”.

Mas os quatro dizem que há vantagens em ser pequeno. Na opinião de Douglas, só depende do ponto de vista. Assim como os cegos desenvolvem melhor o tato ou a audição e os surdos aprendem a ler os lábios, os anões adquirem maior agilidade. Para Douglas, isso acontece porque eles precisam de um banquinho para tudo. “Então, no ato de subir e descer para fazer as coisas, a gente se torna mais rápido. Na rua, no centro da cidade, no meio da multidão, se a gente pára ou anda no nosso ritmo, o povo passa em cima. Nós temos então que andar no ritmo deles. E, para nós, esse ritmo é mais rápido.” Claudia acha que eles também têm mais equilíbrio. Nos ônibus, por exemplo, não precisam segurar nas traves. “Quanto mais alto você é, mais difícil”, diz Douglas. Na hora de tropeçar e cair, ser pequeno também é vantagem, pois o tombo é menor.

No início de fevereiro, Douglas deu um grande passo. Concluiu as aulas práticas para tirar a carteira de motorista. Ele mostra na câmera digital os vídeos de seus passeios com o instrutor da auto-escola. Em geral, os anões dirigem automóveis adaptados. Os pedais recebem extensões. No carro de Douglas e Claudia – que são muito menores do que a maioria dos anões -, todos os comandos ficam na direção. O carro tem de ser automático; o motorista controla o acelerador e o freio com a mão. “A Salete usa os pedais porque tem mais agilidade e é mais comprida. No meu caso, mesmo com o alongador, os pés não alcançam, e eu uso então o pé aqui em cima, na alavanca. Facilita para usar as duas mãos e ainda posso apoiar os pés aqui do lado, no volante, para ajudar.” Josi observa que é quase como se ele dirigisse com quatro mãos.

Como já está ficando tarde, Salete se levanta, pega as chaves do carro e chama todos para dar uma volta no shopping. No caminho, voltam a reclamar dos pais que assustam os filhos com histórias de anões. Espremido no banco de trás com Claudia e Josi, Douglas exemplifica o absurdo: “Eles chegam a dizer que os anões comem criancinha, você acredita?”.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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