questões botânicas

Os subterrâneos

Uma viagem fascinante ao subsolo das florestas

Robert Macfarlane
A Floresta de Epping, nos arredores de Londres: os fungos frustram nossas noções costumeiras dos limites entre a parte e o todo, das definições de organismo, dos significados de descendência e herança genética; é difícil, até, dizer onde um fungo começa ou termina, e quando nasce ou morre
A Floresta de Epping, nos arredores de Londres: os fungos frustram nossas noções costumeiras dos limites entre a parte e o todo, das definições de organismo, dos significados de descendência e herança genética; é difícil, até, dizer onde um fungo começa ou termina, e quando nasce ou morre FOTO: DIANE BARKER_WWW.DIANEBARKER.NET

De vez em quando – uma ou duas vezes na vida, se der sorte – você encontra uma ideia de implicações tão poderosas que ela chega a desestabilizar o chão em que você pisa. Na primeira vez que ouvi alguém falar de wood wide web, já há mais de uma década, estava fazendo força para não chorar. Um amigo que eu adorava estava morrendo, jovem demais, rápido demais. Eu tinha ido fazer o que supus ser uma última visita. Ele estava cansado por causa da dor e dos remédios. Ficamos os dois conversando. Meu amigo trabalhava com árvores. Elas brotavam em sua vida e em sua mente. Ele morava numa casa de madeira que ele mesmo construiu e tinha plantado milhares de árvores com as próprias mãos, e o sobrenome de seu avô era Wood (madeira, bosque, floresta, em inglês). “Corre seiva nas minhas veias”, ele escreveu uma vez.

Naquele dia, eu li em voz alta um poema que era importante para nós dois, Birches (Bétulas), de Robert Frost, em que escalar os troncos das bétulas, brancos como a neve, se transforma tanto num ato de preparação para a morte quanto numa declaração de vida. Então, ele me falou de uma pesquisa nova que tinha lido recentemente sobre as inter-relações das árvores: falava de como as árvores, quando uma delas estava adoecendo ou passando por dificuldades, compartilhavam nutrientes através de um sistema subterrâneo que unia suas raízes no subsolo, conseguindo assim fazer com que a árvore doente recobrasse a saúde. Era típico da generosidade de espírito do meu amigo – que estava tão perto da morte – conseguir falar sem inveja desse fenômeno de cura. Ele não teve naquele momento a força necessária para me contar os detalhes de como funcionava essa partilha subterrânea – como uma árvore podia se estender às cegas por dentro da terra até chegar a outra árvore. Mas não pude esquecer a imagem daquela misteriosa rede subterrânea, que transformava árvores isoladas em comunidades florestais. Ela ficou plantada em minha mente, e ali se enraizou. Com o passar dos anos, encontrei outras menções a essa mesmíssima ideia extraordinária, e gradualmente esses fragmentos separados começaram a se conectar e gerar algo que parecia uma compreensão do conceito.

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Robert Macfarlane

Professor e escritor, é autor de Montanhas da Mente: História de um Fascínio, da editora Objetiva

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