esquina

Ossos do ofício

Descubra Puffy, o novo astro dos palcos paulistanos

Fábio Fujita
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Às 10 horas da manhã de um sábado, os que ainda podem dormem o sono justo de quem se esfalfou durante a semana. Ator de peça infantil não goza desse privilégio, como atesta o elenco de O Domador de Férias, que chega aos bocejos ao teatro Alfa, em São Paulo, para um ensaio. A peça estreara há apenas uma semana e ainda precisava de ajustes. As olheiras do ator Tucci Fattore deixam claro que ele consideraria muito mais natural estar na cama. Não é o único.

Em contraste com a massa sonolenta, uma única exceção, e que exceção: não é possível estar mais em vigília. A disposição é contagiante. O astro entra batido nos camarins e deles sai no mesmo pique alucinado. Não se trata de método, técnica de aquecimento, imersão no personagem ou assemelhados. Nenhuma dessas explicações elucidaria o fato de o artista trazer na boca uma bolinha de borracha azul que achara num canto qualquer.

Trata-se de Puffy, um pastor de Shetland – uma espécie de Collie tamanho P –, cujos talentos, notadamente a sociabilidade, o levaram a ser escolhido como grande estrela do cast pelo diretor Marcelo Zurawski. Na trama da peça, um grupo de artistas circenses, de férias na praia, conhece um cachorrinho cheio de habilidades. Tamanha é a desenvoltura do cão, que o líder da trupe tem a ideia de encenar no circo a história de Laika, a cadela que foi literalmente para o espaço – do qual nunca voltou – a bordo do foguete russo Sputnik 2.

Talvez influenciado pelo desprendimento de Edson Celulari, que não se constrangeu em viver a exuberante Edna Turnblad em Hairspray, Puffy topou deixar de lado sua vaidade macho-alfa para viver a bela, heroica e trágica vida de uma personagem que veste coleira cor-de-rosa. Puffy é artista e se opõe a todo tipo de preconceito.

O cão se juntou ao projeto aos 45 do segundo tempo, quando a produção estava prestes a desistir de encontrar, se não um Lawrence Olivier canino, ao menos algum totó minimamente dotado de presença cênica. Zurawski tentou de tudo. Consultorias de adestramento fracassaram. Foi atrás de um vira-lata pego pela carrocinha, até para salvá-lo de virar sabão – “Teria mais a ver com o espírito da nossa proposta.” Mas nem sempre as boas intenções são recompensadas: só encontrou pobres coitados desprovidos de tudo, inclusive de talento. Partiu-se para o nepotismo: os dois cachorros de Regina Lopes, uma das atrizes do elenco, foram testados – Bidu e Tchuco, vira-latas que ela recolhera nas ruas, acabaram reprovados nos testes, sob o argumento de que “não faziam muita coisa”.

Já se considerava a hipótese de um boneco em forma de cão quando uma amiga de Zurawski, a veterinária Débora Gidali, ofereceu o cachorro dela para um teste. Foi um assombro. Parece que nem Procópio Ferreira teve início tão auspicioso. Jamais foi tão adequada a expressão “ele é um animal de teatro”.

Puffy é o primeiro a chegar no palco. Dois contrarregras começam a jogar bolinhas para o alto. Com saltos de meio metro, o cachorro as abocanha no ar. Parece capaz de ficar o dia inteiro fazendo isso, e é com certa contrariedade que para, de modo que a figurinista possa medir o seu pescoço – em cena, ele veste uma medalha de honra ao mérito. Terminada a função, Puffy volta a saltar atrás das bolas como se não houvesse amanhã. “Ele é tão viciado em bolinhas quanto Elvis e Joplin”, desdenha o ator Tucci Fattore, quem sabe mordido pela concorrência.

A denúncia é vazia, pois bolinhas são o único vício de Puffy, cujo caráter exemplar alegraria qualquer sogra. Bicho fino mesmo. Só faz as necessidades quando passeia na rua, mal late e não estranha ninguém. O diretor assegura que é mais fácil um bípede do elenco perder as estribeiras e sair mordendo Puffy do que vice-versa.

Quem a princípio teve alguma dificuldade foi a atriz Renata Maciel, justamente a quem cabe o papel de dona do bicho. Renata tinha um medo atávico de cachorros. Preparou-se psicologicamente para contracenar com Puffy, até descobrir que seu colega de trabalho é praticamente um Gandhi. No dia do teste, o elenco inteiro já havia brincado com ele, menos o ator José Eduardo Rennó, que preferira se sentar sozinho num canto para pensar com seus botões. Puffy achou aquilo estranho e foi lá se apresentar, levando a inseparável bolinha como cartão de visitas. “Parece que ele olha no olho da gente”, diz Renata, que, como cada um do elenco, hospedou Puffy em casa por dois dias, a fim de se conhecerem melhor. O medo passou, e todos os cães passaram a ser julgados com mais candura.

 

Durante a peça, o cachorrinho domina o palco por cerca de 20 minutos (a peça dura 80). É tempo suficiente para causar uma saudável histeria na criançada, sobretudo porque ninguém sabe o que ele fará, fato muito bem-vindo, pois o improviso é uma premissa do espetáculo, que critica o perfeccionismo circense imposto pelo Cirque du Soleil. Puffy, portanto, personifica, ou talvez canifique, o imponderável artístico e a anarquia em cena.

Num momento-chave, espera-se que suba a rampa e entre no foguete. Naquela tarde, talvez por já conhecer o destino de Laika, Puffy fez a parte da rampa, mas, como um azougue, escapuliu por baixo da aeronave e disparou em direção ao público. Natália Kwast, no papel de KGBete, apontou para o foguete e disse, sem titubear: “Finjam que Laika está lá dentro!” Todos riram, a peça seguiu em frente, Puffy fez vários amiguinhos e evitou-se que crianças chorassem na plateia, como acontece quando elas se dão conta de que Laika partiu para o espaço sem bilhete de volta.

Ao que se saiba, ninguém processou os soviéticos por terem submetido a cadelinha a tamanha barbaridade (Laika morreu depois de seis horas de viagem). Aqui é diferente. A ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais –, uma ONG muito atenta aos suplícios caninos, manifestou-se severamente contra a produção, alegando que Puffy “foi obrigado a ensaiar durante três meses antes da estreia”. É preciso perguntar qual a definição da anda para “ensaiar”. Caso seja o de forçar Puffy a abocanhar bolinhas no ar, eles terão razão, embora, em substância, a acusação não seja muito mais grave do que denunciar Mano Menezes por obrigar Neymar a jogar futebol, ou o técnico do jamaicano Usain Bolt por forçá-lo a correr. Sem poder abocanhar bolinhas no ar, Puffy perderia grande parte do que considera uma boa razão para viver.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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