esquina

Pálpebras rendidas

No curso do Exército para jornalistas, o inimigo é o sono

Clara Becker
ANDRÉS SANDOVAL_2011

“Olha pra baixo!”, “Quer dar uma de Tim Lopes?”, “Vocês vão todos morrer queimados!” As ameaças eram dirigidas a um grupo de jornalistas encapuzados e algemados. Minutos antes, haviam sido sequestrados na avenida Brasil, no Rio de Janeiro. No terreno que lhes serviu de cativeiro naquela noite fria de maio, ouviam tiros e gritos de bandidos. A sessão de xingamentos e intimidação durou duas horas e meia. “E essa patricinha aqui?”, perguntou, sarcástico, um dos algozes, cutucando uma repórter loira. “Separa ela pra mim que hoje vou comer galinha ao molho pardo!”

Apesar da perspectiva amedrontadora, muitos não conseguiram segurar as gargalhadas. Não era um riso nervoso: alguns jornalistas simplesmente não conseguiram entrar no espírito da encenação armada por sessenta militares. Tudo não passava de um grande teatro. O script previa uma cena nervosa, digna de Tropa de Elite. Mas o resultado ficou mais parecido com Zorra Total.

O grupo estava ali para aprender como se comportar em caso de sequestro. A simulação era parte de um curso de preparação para a prática do jornalismo em áreas de conflito. Promovido pelo Exército, o curso reuniu 34 profissionais de sete estados. Durante cinco dias, eles ficaram confinados na Vila Militar, na Zona Oeste carioca.

A iniciativa reflete os ares que sopram pelas casernas brasileiras desde que o Brasil passou a liderar uma missão de paz no Haiti, em 2005. Para treinar os soldados deslocados para Porto Príncipe, a cúpula militar montou o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil. Há quatro anos é oferecido ali um estágio para jornalistas que queiram se aventurar por zonas hostis.

A carta de boas-vindas enviada aos participantes da quarta edição do curso foi clara: eles deviam chegar ao Centro até a meia-noite do dia 22 de maio, um domingo. O curso começaria no dia seguinte, às seis e meia da matina. Qual um hotel cinco estrelas, o Exército ofereceu aos participantes de outros estados o transporte dos aeroportos do Rio até o longínquo local das aulas. Na chegada à Vila Militar, o choque de realidade: as acomodações e a alimentação oferecidas aos jornalistas lembravam mais as de um albergue de meia estrela. Separados por sexo, os repórteres foram acondicionados em contêineres com quatro beliches e armários de ferro trancados a cadeado – e cada um que trouxesse o seu.

Os participantes foram instruídos a trazer também roupas leves e indumentárias específicas para alguns exercícios, como “trajes para corrida de aventura”. Ao Exército coube fornecer a parafernália para a sobrevivência no campo: cantis, capacetes, protetores auriculares, talheres articulados e puídas toalhas de banho, para os que esqueceram que quartel não é hotel.

 

Às cinco horas da manhã do primeiro dia do curso, quando o corneteiro pôs-se a tocar o hino nacional para despertar o quartel, secadores e chapinhas de cabelo já agitavam o contêiner feminino. “É mal de repórter de televisão, não posso sair sem arrumar o cabelo e me maquiar, prefiro acordar às 4 horas”, justificou-se Iane Cruz, repórter de Cascavel, no Paraná, que encarou a água glacial sem dar um gritinho sequer. Os repórteres achavam que o banho gelado era parte do pacote. Não ocorreu a ninguém ligar a chave de energia do lado de fora do banheiro – detalhe só descoberto no dia seguinte. Zona hostil, sim, mas com água quente.

Os jornalistas foram recepcionados com uma sequência de seis palestras consecutivas. O único conflito que se viu ali foi o que opôs as pálpebras dos repórteres que teimavam em fechar. Manter-se acordado parecia missão mais difícil do que a retomada da favela Cité Soleil, em Porto Príncipe. Na aula inaugural, o coronel Pedro Aurélio de Pessôa discorreu sobre hierarquia e subordinação com fala mansa e um jeito quase tímido que destoava da sua patente e do tema da palestra.

O sono que dominou a audiência foi uma constante durante todo o curso. Os dias começavam com os primeiros raios de sol e acabavam de madrugada. A jornada puxada era essencial para os repórteres saberem como o corpo se comporta em situações de intenso cansaço, garantiu o major André Luiz Silva.

No segundo dia, a imprensa aprendeu a se orientar com bússola e GPS. A lição foi seguida de uma gincana: a “ração”, como os militares chamam o almoço, estava escondida. Para encontrá-la, foi preciso decifrar pistas com coordenadas e azimutes. Os jornalistas provaram que seu faro costuma ser mais apurado para notícias do que para a caça à ração. Mas todos acabaram por achar o almoço. O menu consistia em lombo com arroz ou salpicão de frango com batata. À guisa de sobremesa, uma bala de café.

Os participantes foram instruídos sobre como andar por um campo minado. É preciso ajoelhar-se e, usando um objeto pontiagudo em inclinação diagonal, certificar-se de que não há obstáculos pela frente. Aprenderam também a identificar uma arma pelo barulho do tiro. Se for um estampido seco ao longe, trata-se de um reles revólver, e o repórter pode continuar a escrever a matéria. Se o som for o de uma bala traçante, é melhor deitar no chão e rezar. O cardápio de palestras incluiu ainda sobrevivência no mar, negociação de reféns e outras lições que jornalistas decerto terão muitas ocasiões para pôr em prática. As redações, como se sabe, estão cada vez mais hostis.

Clara Becker

Clara Becker é jornalista e vive no Irã. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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