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    ILUSTRAÇÃO: EML_6D

anais do marketing político

Pancadaria na rede

Restrições legais, receio de fazer doações on-line e infraestrutura precária impedem que a internet ocupe um lugar relevante nas eleições presidenciais. Enquanto a modernidade não chega, usa-se o meio para insultar e desmoralizar o adversário.

Daniela Pinheiro | Edição 47, Agosto 2010

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A menos de dois meses das eleições presidenciais, quem buscasse alguma informação sobre o candidato do PSDB no Google, receberia, como é usual, sugestões de expressões muito procuradas com o nome do pesquisado. No menu em cascata que se abre à medida que as letras são digitadas, o internauta leria “josé serra biografia”, “josé serra twitter”, “josé serra presidente”, “josé serra wikipédia” e “josé serra blog”, nessa ordem. Caso escrevesse o nome do tucano sem o acento agudo, as sugestões eram ligeiramente diferentes: em primeiro lugar, “jose serra twitter”, seguido de “jose serra biografia”, “jose serra presidente” e “jose serra ficha criminal”. Caso se interessasse por Dilma Rousseff, o Google lhe sugeriria: “dilma rousseff biografia”, “dilma rousseff terrorista”, “dilma rousseff twitter” e “dilma rousseff blog”.

Para propor a lista, um algoritmo desenvolvido pelo Google leva em conta, entre outras variáveis, incidência da procura, relevância do termo e sucesso da busca. Quando uma combinação de palavras é muito procurada, uma ferramenta as registra e a expressão é apresentada ao internauta para facilitar a pesquisa.

Não significa que ao digitar “Jose + Serra + ficha + criminal” aparecerá o documento em questão. Não haveria como. Serra não tem ficha criminal, apenas um registro no Dops da época em que era presidente da União Nacional dos Estudantes.

Dilma Rousseff também não é terrorista. Ela foi militante do Comando de Libertação Nacional e da Vanguarda Armada-Palmares, ambas organizações clandestinas que lutaram contra a ditadura militar. Mas não há prova de que tenha participado de alguma ação armada.

A assessoria do site de busca informa ser impossível contabilizar o número de vezes que a combinação de palavras “Dilma + terrorista” precisa ser digitada para “viciar o Google”. Concorda, entretanto, que é possível fazê-lo: basta ter paciência e mão de obra para digitar e redigitar incansavelmente a expressão desejada no campo de busca. O fato pode indicar um fenômeno político inaugurado nas eleições de 2010: a ação concertada e em massa de uma militância adormecida, que passou a ter voz graças à internet.

Há apenas quatro anos, quando Lula foi eleito pela segunda vez, menos de 25% dos brasileiros tinham acesso à rede. Nesse curto espaço de tempo, o número de usuários no país quase dobrou, sobretudo graças à entrada das classes C e D no mundo virtual, que hoje correspondem a 52% dos internautas brasileiros.

Corolário desse crescimento, os brasileiros invadiram as chamadas redes sociais – Orkut, Facebook, YouTube, Twitter. Não só estão lá, como se tornaram o grupo que mais tempo navega nesse tipo de serviço em todo o mundo.

É a reboque desse arrastão digital que a nova ação política se enquadra. No final do ano passado, a Revista de Sociologia e Política publicou um estudo sobre a importância da internet nas eleições que aponta a transformação da militância tradicional “de off-line para on-line”.

“Se o efeito disso é positivo ou não para a democracia, ainda não se sabe”, disse Marcelo Coutinho, um dos autores da pesquisa, professor da Fundação Getulio Vargas. “Mas o que se constata é que não há um incremento no debate político, mas apenas uma repetição de ideias que já circulam pela rede.”

 

“Bom diiiiiilmaaa!!”, trinou Marcelo Branco, coordenador da campanha de Dilma Rousseff na internet, numa manhã de junho, para as cerca de 150 pessoas reunidas no auditório de um modesto hotel no centro do Rio de Janeiro.

Estavam ali para participar de mais uma caravana digital, nome dado pelos petistas à série de conferências em que Branco ensina como a internet pode ajudar a candidata do partido à Presidência.

Havia estudantes, blogueiros, jornalistas, militantes e curiosos, mas a maioria dos presentes era constituída de assessores e estafetas ligados a candidatos fluminenses a vereador e deputado estadual.

De camiseta branca com a estampa de Edward Mãos de Tesoura, calça xadrez e tênis de corrida, Branco respondia a perguntas sobre a importância do Orkut na campanha (“Muita. Classes C e D estão em peso ali”); de se promover uma enxurrada de mensagens simultâneas com o nome Dilma (“Na convenção do PT, ficamos em primeiro lugar nos trending topics [principais tópicos do Twitter] durante três horas. Isso chama muita atenção”); e de os internautas falarem da candidata sem parar (“Como a campanha ainda não está liberada, para nós é crime eleitoral, mas vocês podem escrever o que quiserem!”)

Em seguida, trouxe à baila um dossiê contra José Serra que vazara na semana anterior. O tucano culpava o comando da campanha petista, o qual, por sua vez, negava a autoria. “Nesses casos é preciso responder com rapidez”, disse Branco. Ensinou que organizar flash mobs – concentrações-relâmpago convocadas através da blogosfera – era uma arma poderosa de contra-ataque.

“Vocês devem organizar uma manifestação rápida, com o objetivo de filmar o protesto. Produzir um documento com cena de rua e colocar na internet. Se o vídeo for bem-feito, será visto por milhares de pessoas. O movimento vai nascendo daí. Todo o mundo fazendo a mesma coisa e colocando na web”, instruiu.

Não foi dito explicitamente, mas deduzia-se que o evento podia ser pequeno – poucas pessoas bastam para uma lente fechada. O essencial era a imagem do grupo na rua protestando.

Um rapaz na plateia comentou com um colega: “É isso aí. Cria a situação, o desmentido. Não precisa nem o candidato se defender. Vira um movimento de defesa popular contra a calúnia.” O outro assentiu.

Com forte sotaque gaúcho, Branco encadeou: “Não vamos deixar passar nada. Vamos matar os rumores ainda na rede. O trabalho é esse: cada um, com sua voz, vai produzindo conteúdo e postando.”

Alguém lembrou que a estratégia da “tuitagem coletiva” – quando várias pessoas espalham simultaneamente uma mesma mensagem – havia surtido efeito no caso “do 45 da Globo”. Marcelo Branco, que se alternava entre conduzir a palestra e tuitá-la pelo celular, ajeitou-se na cadeira e comentou o episódio.

Em abril, menos de 24 horas depois do jingle de comemoração dos 45 anos da Rede Globo entrar no ar, Branco retuitou uma mensagem que recebera de madrugada: “Jingle de comemoração dos 45 anos da TV Globo embute, de forma disfarçada, propaganda pró-José Serra.”

Em pouco tempo, a frase foi passada adiante por boa parte de seus 6 500 seguidores no microblog. Todas enxergavam intenções ideológicas no número 45, o mesmo de Serra na campanha, e no slogan global “A gente pode mais”, muito parecido com o usado pelos tucanos, “O Brasil pode mais”.

Às cinco da tarde, a mensagem de Branco já era o assunto principal de sites e blogs e, no começo da noite, a Globo anunciou a suspensão da campanha, mas esclareceu que a peça publicitária fora feita há meses e não tinha nada a ver com a eleição presidencial. “Foi uma tuitada minha entre o xixi e o banho e deu no que deu”, disse o marqueteiro, fazendo a plateia cair na gargalhada.

 

O papel que a internet desempenhará nas eleições presidenciais ainda é incerto. Como a experiência é inédita, mesmo os analistas mais aventureiros acreditam que qualquer aposta seja mera especulação.

Mas há um consenso: para quase todos os especialistas, o grande momento da articulação política on-line aconteceria nos dois primeiros meses de campanha, antes da estreia em 17 de agosto da propaganda eleitoral gratuita. A partir dali, com os candidatos diariamente na televisão e no rádio, a eficiência da rede perderia importância.

Isso porque a televisão chega a todos os eleitores, e a internet não. Uma pesquisa recente feita pelo Datafolha mostrou que apenas 7% dos brasileiros usam a internet para se informar sobre os candidatos. A maioria (65%) ainda prefere a televisão e os jornais (12%).

Outra enquete, conduzida pelo portal UOL no começo de julho, perguntou a 2 880 internautas: “Você acha que a campanha na internet pode mudar o seu voto?” Ao todo, 76% deles responderam que não. O resultado corrobora a ideia de que a rede serve principalmente para reforçar convicções já sedimentadas. Quem navega busca sites e blogs que apenas confirmam certezas anteriores. Não seria outra a razão pela qual 40% das pessoas, em levantamento do Vox Populi, consideram a credibilidade da internet “muito alta”, só perdendo para o rádio. Quem repete o que acreditamos tende a contar com a nossa confiança.

Porém, é exatamente essa capacidade de aglutinar pessoas que pensam da mesma maneira – geralmente com intensidade apaixonada – que pode transformar a internet em um veículo útil ao marketing político, mas à moda brasileira.

 

Quando a campanha de Dilma Rousseff anunciou a contratação da empresa americana Blue State Digital, uma das responsáveis pela campanha de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, criou-se a expectativa de que o “efeito Obama” se repetiria no Brasil.

O episódio é considerado um dos casos de maior sucesso de marketing político recente. Em 18 meses, o jovem senador de Illinois, um azarão no páreo, estabeleceu uma vasta rede de apoio popular graças à mobilização de eleitores pela internet. O fenômeno foi responsável por bater recordes de arrecadação de recursos e reacendeu o poder da militância voluntária.

Ocorre que a onda obamista na rede atendia às particularidades da política americana. Além de 75% da população dispor de acesso à rede (no Brasil, não chega a 40%), os desafios dos marqueteiros sempre foram de ordem mais prática do que ideológica.

O principal era fazer com que a população saísse de casa e comparecesse às zonas eleitorais, já que o voto lá é facultativo. Na eleição de George W. Bush, em 2000, 50% dos americanos foram às urnas. Com Obama, o comparecimento foi de 57%, ou seja, 27 milhões de pessoas a mais. E o contingente étnico que mais votou, proporcionalmente, foi o dos negros.

É diferente no Brasil, onde o voto é obrigatório. Aqui, a missão do marqueteiro é convencer o eleitor a votar no candidato fulano ou beltrano. Nos Estados Unidos, há uma linha relativamente clara que separa democratas de republicanos. A escolha costuma vir do berço – salvo exceções, como a eleição de Ronald Reagan, um republicano que atraiu democratas.

Dinheiro é outro obstáculo que o candidato americano enfrenta. Como não existe horário eleitoral gratuito nos Estados Unidos, os candidatos dependem totalmente de doações para custear os fenomenais gastos de propaganda. Obama se beneficiou do fato de existir no país uma cultura já enraizada de pôr a mão no bolso, quase o oposto do que se passa por aqui. Não é fácil convencer um brasileiro a dar o número do cartão de crédito para doar uma fatia – ainda que ínfima – de seu salário para um político. Soa a pegadinha.

 

Numa tarde de junho, a marqueteira política Cila Schulman, uma mulher alta, magra, vestida com roupas compradas em boas lojas, acabara de sair de uma reunião do comando de campanha digital do PSDB, em uma casa em Pinheiros, bairro de São Paulo.

Também estavam lá Eduardo Graeff, ex-secretário-geral da Presidência da República à época do governo Fernando Henrique Cardoso, Sergio Caruso, chefe da equipe de internet, e dois jovens executivos, responsáveis pela tecnologia dos sites e blogs ligados à campanha.

“Internet não elege ninguém”, disse ela. “No Brasil, não dá para concorrer com o horário gratuito. A rede serve para monitorar. É uma espécie de pesquisa qualitativa gigantesca em que a gente sente o cheiro das coisas”, explicou sentada num sofá.

Há um ano ela faz parte de uma equipe que planeja a exposição de Serra na blogosfera. O tucano foi um dos primeiros políticos brasileiros a abrir uma conta no Twitter, onde, até o final de julho, amealhara 314 mil seguidores. Nos posts, comenta fatos da sua agenda pública, dá dicas de músicas e cinema e responde a dúvidas – só as inofensivas – dos internautas.

Se a internet tem tão pouca utilidade, por que o PSDB havia investido quase 3 milhões de reais na estrutura da campanha on-line? Cila Schulman desconversou. Semanas depois, em Brasília, um dos coordenadores da campanha de Serra foi mais claro: “Se a gente não entra, parece que somos atrasados e não estamos antenados.” Em época de Jetsons, Serra não quer se parecer com os Flintstones, e está disposto a gastar dinheiro para isso.

A cúpula da campanha também é cética quanto a doações por parte de eleitores. Todas as tentativas de pedir contribuições por e-mails, telefonemas ou cartas se frustraram. Em geral, a resposta era curta e grossa: “Vocês querem meu voto e ainda que eu dê dinheiro?” Na reeleição de Fernando Henrique Cardoso, o volume arrecadado de pessoas físicas através de correspondências diversas – cartas, folders etc. – não cobriu sequer as despesas com os correios.

Já nos Estados Unidos, três milhões de pessoas doaram, via internet, 500 milhões de dólares para a campanha de Obama – 63% do total arrecadado –, a maioria fazendo contribuições de até 20 dólares. O adversário John McCain arrecadou menos de 75 milhões em contribuições on-line.

No livro A Audácia para Vencer, o estrategista-chefe da campanha democrata, David Plouffe, escreveu que, embora não se possa desprezar o papel das redes sociais para a campanha, o que realmente contou foi bater na porta, telefonar e enviar e-mails. Sem mencionar o mais importante. Nada teria surtido efeito não fosse a presença de um componente subjetivo e intransferível: o carisma pessoal de Obama.

Aqui, os dois candidatos principais são Dilma e Serra.

 

Previsivelmente, Cila Schulman sustenta que a atuação do PT no Twitter “é totalmente aparelhada”. “Quem está lá é para agredir, para espalhar boatos, para alimentar rumores”, asseverou. “No Blog do Noblat, por exemplo, os comentários a favor do PT entram sempre no horário comercial, assinados pelas mesmas pessoas, basta ver os nicknames recorrentes.”

Deu como exemplo um episódio recente no qual um tuiteiro postou uma mensagem afirmando que Serra iria acabar com os concursos públicos. “Eles inventam uma coisa e retuitam a mentira infinitamente. E, sabe-se que uma mentira dita muitas vezes pode parecer verdade em pouco tempo”, comentou.

“Serra: ‘Vou criar o Ministério do Acarajé’”, dizia uma mensagem que se multiplicou pela internet no final de julho, logo após a visita do candidato tucano a Salvador. A manchete acompanhava uma reportagem, atribuída ao jornal A Tarde, da Bahia, descrevendo a passagem de Serra pelo estado e as promessas que havia feito durante um comício.

A notícia foi reproduzida, a sério, em sites governistas, como Conversa Afiada, Blog da Dilma e Amigos do Presidente Lula. Dois dias depois, soube-se que a notícia era apócrifa, uma invenção do site Cloaca News, que se dedica a postar comentários contra os tucanos.

Nos círculos da militância digital, o glossário político inclui neologismos como PIG e petralha. O primeiro é um termo usual de Conversa Afiada, site de Paulo Henrique Amorim, para se referir ao que chama de “Partido da Imprensa Golpista”, uma associação entre os tucanos e a grande imprensa. Petralhas, trocadilho com os Irmãos Metralha de Walt Disney, saiu do teclado do Reinaldo Azevedo, do portal da revista Veja, e liga petistas a bandidos. Em Conversa Afiada, Serra é chamado de “charlatão”. No blog de Azevedo, Lula é “apedeuta”, sinônimo de ignorante.

 

Apenas nos três primeiros dias de funcionamento do site oficial de Dilma Rousseff (www.dilma13.com.br), foram registrados 7 mil ataques de hackers, provenientes de uma conta registrada na Alemanha – manobra recorrente da guerrilha virtual. O mesmo ocorreu com o portal oficial de José Serra (www.serra45.com.br).

Responsável por uma comunidade no Orkut com 100 mil integrantes – a Apoiamos Lula –, o aposentado mineiro Beto Mafra, 56 anos, solteiro, ex-filiado ao PT, passa mais de 12 horas por dia na rede trabalhando pela candidatura de Dilma. “Eu sou do exército de Brancaleone”, disse.

No saguão de um hotel em Belo Horizonte, onde mora, Mafra contou que integrantes da comunidade foram à convenção do PSDB que lançou Serra com o intuito de observar as tropas adversárias, e descobriram que a claque presente havia sido paga.

“O Serra conseguiu fazer um comício na Bahia sem pretos. Fomos atrás e vimos que a maioria tinha ganho 35 reais para passar o dia lá. Disseminamos a história na rede imediatamente”, contou.

E com ar brincalhão: “Temos a turma que entra de madrugada para atazanar a vida do Serra no Twitter dele. Nesse caso de Salvador, mandamos várias mensagens. Obviamente, ele não respondeu a nenhuma.”

Segundo Mafra, uma das funções da militância on-line é esclarecer imediatamente aparentes tropeços ideológicos, tais como coligações que possam soar esdrúxulas a petistas de truz. “Não se trata de defender a ideia de que a Roseana Sarney vale a pena, mas explicar por que o nosso projeto inclui o apoio a Roseana no Maranhão”, explicou.

Mafra jura não ganhar nada pelo trabalho. “Me perguntam quanto eu ganho para fazer isso. Eu pago para fazer isso. É a minha militância, é algo que faço para mim e para os meus filhos. É isso que um tucano jamais vai entender”, concluiu.

 

No livro Sim, Nós Conseguimos: um Olhar Crítico de Como as Redes Sociais Criaram a Marca Obama, escrito pela consultora política Rahaf Harfoush, as estratégias digitais usadas na eleição do presidente americano foram dissecadas. Segundo ela, um dos maiores méritos da campanha foi ter conseguido se dirigir a uma massa indistinta de voluntários como se cada um deles fosse único. Isso só foi possível graças a um imenso banco de dados construído a partir de informações detalhadas do perfil dos eleitores.

Ferramentas de segmentação de banco de dados têm uso disseminado no mercado. Uma das mais conhecidas chama-se CRM, sigla em inglês para Gestão de Relacionamento com o Cliente. A legislação eleitoral americana permite a compra de lista de clientes. Aos olhos da Justiça de lá, não há diferença entre um partido ou uma operadora de cartão de crédito. No Brasil, isso é (teoricamente) proibido. As Lojas Americanas podem comprar informações sobre você; o PSDB, não.

A Blue State Digital, que trabalhou para Obama e foi contratada pelo PT, é uma das empresas que desenvolveram a tecnologia capaz de fatiar o banco de dados, agrupando pessoas com interesses culturais, situação social, profissional e padrões de consumo semelhantes.

De posse desses dados, a campanha enviava ao potencial eleitor uma mensagem fadada a chamar a sua atenção. Um simpatizante de Obama com um filho combatendo no Iraque, por exemplo, recebia um e-mail em que o candidato explicava as suas posições acerca da guerra.

Era possível identificar quem tivesse aberto, digamos, 70% dos e-mails enviados pela campanha, feito uma doação, encaminhado mensagens de apoio ao candidato ou – e isso era vital – quem tinha um vizinho democrata, a quem a mensagem pedia que o destinatário contatasse.

De acordo com Harsfoush, foram redigidos mais de 7 mil e-mails diferentes e enviadas 2 bilhões de mensagens. Ao final, cerca de 13 milhões de eleitores franquearam seus dados pessoais para a campanha e se propuseram a ajudar na eleição de Obama.

Sócios da Blue State Digital se reuniram com coordenadores da campanha de Serra antes de serem contratados pelo PT. “Não havia nada que eles fizessem que não pudéssemos realizar com softwares de outras empresas”, disse a marqueteira Cila Schulman.

O PSDB optou pela plataforma de dados Salesforce, usada, por exemplo, pela rede Starbucks e pela empresa Dell para gerenciar as relações institucionais com seus clientes. “A diferença é que a Blue State traz consigo o nome Obama. Daí, todo o bochicho de que o PT faria uma campanha como a dele”, desdenhou a estrategista tucana.

Segundo Sergio Caruso, o coordenador de comunicação digital de Serra, a diferença entre as ferramentas da Blue State e da Salesforce são os critérios de segmentação dos eleitores: “Eles têm um pacote pronto. Nós demoramos um mês para customizar a nossa ferramenta. No entanto, os americanos não sabem o que é pão de queijo, então o PT fica engessado numa plataforma que nada tem a ver com as nossas particularidades.”

 

Uma das estratégias de maior efeito na campanha de Obama ficou conhecida como “Vizinho a Vizinho”. Um voluntário cadastrado recebia por e-mail ou celular uma lista de cinco moradores das redondezas de sua casa, potenciais eleitores de Obama, seja por terem votado nos democratas em eleições passadas, seja por haverem acessado o site em busca de informações do candidato.

Os voluntários telefonavam, ou iam até a casa do vizinho para conversar sobre o projeto de governo, esclarecer dúvidas e convidar o sujeito a participar da campanha. “Aqui é difícil imaginar alguém saindo de casa e batendo na porta do vizinho para propor algo assim”, comentou Caruso.

Outra diferença entre a estrutura americana e a brasileira diz respeito à mobilização de eleitores via torpedos, as mensagens de celular. Nos Estados Unidos, 285 milhões de pessoas têm o aparelho e dois terços delas usam SMS, fatores que fizeram do torpedo uma arma de campanha. Meses antes da eleição, os eleitores podiam se cadastrar para receber em primeira mão, no celular, o nome do vice da chapa democrata. E assim foi feito. Alguém nas lonjuras de Dakota do Norte recebeu a informação junto com o New York Times – isso, claro, caso o jornal tenha se cadastrado.

No Brasil, 92% da população tem celular, mas o custo do SMS é um dos mais altos do mundo. “Imagine o preço de se enviar 10 mil mensagens – o que não é nada – para um grupo de eleitores. Não posso falar pelas outras campanhas, mas a nossa não tem dinheiro para isso”, disse Caio Túlio Costa, coordenador da campanha digital da candidata do PV.

 

O QG de campanha de Marina Silva funciona em uma casa no bairro boêmio de Vila Madalena, em São Paulo, com pé-direito alto, paredes pintadas em tons de roxo e verde, decorada com mobiliário de Sergio Rodrigues e Carlos Mota.

Numa manhã recente, um senhor engravatado de aspecto aristocrático lia os jornais na rede. Na mesma sala, via-se um antropólogo grisalho, vestido com um blazer de tweed e colete vermelho, com ar de quem acabara de ministrar uma aula no Collège de France. Moças modernas e bem-vestidas circulavam em passo mesurado para lá e para cá. Todos falavam baixo e o café servido era adoçado com estévia ou açúcar mascavo.

O jornalista Caio Túlio Costa tem 56 anos e assumiu a coordenação da campanha eletrônica de Marina Silva com a experiência de quem foi presidente de dois dos maiores portais brasileiros,  o UOL e o IG. “A internet tem uma importância menor para os candidatos clássicos”, disse. “No nosso caso, frente a 58% dos eleitores que não têm noção de quem é a Marina, ela se torna muito relevante.”

Com um minuto e vinte e quatro segundos de propaganda eleitoral, Marina Silva deve aproveitar o tempo na tevê para divulgar o seu site e os seus endereços em redes sociais. A torcida é para que o público aceite o convite e, uma vez na rede, possa ouvi-la explicar o que não terá tempo de dizer no horário gratuito.

Fazia uma semana que o site oficial da candidata (www.minhamarina.org.br) entrara no ar. Costa ainda estava às voltas com problemas de ordem legal e burocrática para acionar a ferramenta de doações on-line.

Havia a expectativa de que, até o dia da eleição, 1,5 milhão de pessoas contatadas pela rede pudessem se tornar doadores, o que, nas contas da campanha, significaria 20 milhões de reais a mais na contabilidade. No fim de julho, entretanto, o contrato com as administradoras de cartão de crédito ainda estava emperrado.

Semanas antes, em mais uma ação de estratégia digital, 22 jovens internautas haviam sido convidados para um debate com a candidata do PV. Estavam ali por serem considerados “formadores de opinião na rede”, o que pode significar muita coisa: assinavam blogs muito acessados, tinham milhares de seguidores no Facebook e Twitter ou eram eminências da cultura nerd. Não eram, necessariamente, seus eleitores.

O objetivo era que, ao travar contato com Marina e suas propostas, reverberassem comentários favoráveis pela rede. Alexandre Inagaki, de 36 anos, consultor de comunicação digital para empresas e agências publicitárias, era um dos convidados. Autor do blog Pensar Enlouquece, é visitado por 180 mil pessoas todo mês, e tem 18 700 seguidores no Facebook.

“Foi uma experiência interessante”, diria tempos depois do encontro, duvidando, porém, da eficácia da estratégia. “Não consigo imaginar que blogueiros possam se mobilizar para ajudar um candidato. Duvido que alguém mude de voto porque o cara que ele segue na rede faz campanha para esse ou aquele candidato.”

 

Aproximava-se a hora do almoço e muitos ouvintes se serviam de suco longa-vida, café e biscoitinhos no auditório da caravana digital do PT, no Rio. O microfone rodava pela plateia e, como é de praxe nessas ocasiões, perguntas se alternavam com discursos militantes.

Um jovem sindicalista conclamou os presentes a iniciar um movimento contra a “mídia imperialista”, cujo primeiro passo era, desde já, deflagrar um boicote à Globo. A professora Ivana Bentes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sugeriu que o governo parasse de “distribuir dinheiro para os meios de comunicação que detonam a democracia”.

Perguntou-se a Marcelo Branco por que a imprensa volta e meia noticiava a sua demissão. Ele não atribuiu o fato a trapalhadas da campanha – por exemplo, postar a foto de Norma Bengell na Passeata dos Cem Mil, dando a entender que era a jovem e combativa Dilma Rousseff, que não estava lá –, mas a certa “pobreza jornalística”: seus adversários também cometiam deslizes, mas não eram atacados com a mesma fúria.

“A campanha de Serra”, ele contou, espalhara um texto adulterado da cronista Danuza Leão, com ataques a Dilma Rousseff, como se fora da jornalista Marília Gabriela. “Isso foi feito por um deputado da coordenação da campanha dele!”, reclamou Branco, referindo-se ao site do deputado baiano José Carlos Aleluia, do Democratas. A notícia morreu. Mencionou também a existência de blogs mantidos pelo PSDB para atacar os adversários. “Colocam o presidente Lula com nariz de Pinóquio, atacam a Dilma abertamente e ninguém faz nada”, desabafou.

Estão no ar já há algum tempo dois blogs criados pelo PSDB para atacar o PT: Gente que Mente e o Brasil de Verdade. O primeiro traz uma seção chamada Pinoquioteca, onde se vê o presidente Lula com nariz comprido. Acompanha uma lista do que consideram inverdades do governo. Lia-se com referência ao leilão da usina de Belo Monte: “Modelo Dilma: empreiteira fica com lucro, contribuinte paga conta.”

Em abril, a autoria de Gente que Mente ainda era um mistério. A distribuição de tabefes no PT continuava farta, mas a estratégia era sugerir que se tratava de um site independente. Uma nota da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, levantou o véu: o endereço eletrônico estava registrado no nome do PSDB do Distrito Federal.

A partir daí – e só a partir daí – o site passou a estampar na página inicial a informação de que era um canal oficial do PSDB, e seu objetivo seria “combater o uso da mentira como arma política”.

O site foi multado em 10 mil reais pelo Tribunal Superior Eleitoral. Do ponto de vista dos serristas, não foi de todo mau. “A notícia da multa triplicou a audiência”, disse, satisfeito, um dos coordenadores da campanha de Serra. A internet tem sido útil, avalia. “Pelo nosso monitoramento, criamos mais fatos positivos do que eles, e reverberamos com sucesso o que eles fazem de errado. Esse é um objetivo bom”, disse. Deu como exemplo de fato negativo bem explorado o vídeo em que Dilma Rousseff dizia a Marcelo Branco que os nordestinos migravam “do Nordeste para o Brasil”.

O fato ocorreu durante uma entrevista produzida por Branco para ser exibida no YouTube. O vídeo foi colocado no blog da então pré-candidata e alastrou-se como fogo na palha. Logo comentários sobre a incompetência de Branco chegaram aos jornais, que deram como certa sua demissão.

O programa Fala Dilma, para o qual a entrevista fora gravada, anunciado como diário, de segunda a sexta-feira, não passou do terceiro episódio. Mas Branco permaneceu no cargo.

O estrategista tucano traçou o caminho tomado pela informação naquele episódio. “Nós também temos a nossa militância”, disse. Alertou-se um jornalista blogueiro, que espalhou a notícia em seu Twitter. “No dia seguinte, o caso estava nos jornais.”

Recentemente, por um erro, um dos mais populares hashtags pró-Dilma, #ondavermelha, publicou um vídeo sobre o caso do mensalão, em que Lula, seus ministros e deputados da base aliada aparecem como personagens da série de animação South Park. Em menos de dez minutos, a militância de ambos os lados estava histérica.

O mineiro Beto Mafra, fiel escudeiro da petista, postou em letras garrafais: “ALERTA GERAL NO TWITTER: O perfil @nortonlimajr está divulgando material ofensivo, caluniador, bilíngue, e deve ser denunciado. Bloqueie.”

 

Em Brasília, Marcelo Branco se servia de salada, arroz integral e legumes no bufê de um restaurante natural. Aos 49 anos, com cachos grisalhos que lhe caem no rosto, ele é simpático e tem uma aparência jovial. Fala com entusiasmo usando gírias antigas, o que lhe confere um ar mais de parceiro de Raul Seixas do que de executivo com salário de cinco dígitos.

Construiu sua carreira na área de tecnologia da informação em cargos ligados à administração pública do Rio Grande do Sul. Por 18 anos, foi funcionário da Embratel. Morou com a namorada na Espanha e na Itália, trabalhando com softwares.

Alcançou a luz da ribalta cibernética quando ajudou a fundar o Campus Party, que viria a se tornar o maior evento de tecnologia digital do país. Passou a ser convidado para dar palestras sobre como empresas podem usar a rede para estreitar relações com seus clientes.

Branco se juntou à campanha a pedido não só de Dilma Rousseff, mas também de Lula, que o conhece há décadas, desde os tempos de militância petista em Porto Alegre, cidade natal do marqueteiro. “Quando o Lula esteve com Obama, ele ficou impressionado com a estrutura de redes sociais da Casa Branca”, contou Branco. “Um dia ele me chamou e disse: ‘Ô bicho-grilo, vamos fazer igual aqui no Brasil?’ Não deu muito certo. O portal da Presidência ainda é muito ruim”, disse.

Numa determinada ocasião, a proximidade com Lula provocou um sismo no mercado financeiro. Branco participava de uma reunião de governo e, com a anuência do presidente, passou a relatá-la pelo Twitter. Uma das informações que divulgou foi a intenção do governo em reduzir o preço da banda larga no país. Ao deixar a reunião, as ações da Telebrás haviam saltado 20%.

“O jogo político nessa campanha está sendo muito pesado. Tem colunista que fala que sou um hippie fedorento. Essa coisa é agressiva. Nem sabe se sou cheirosinho ou não, nunca me viu. Querem me colocar sempre como a bola da vez”, reclamou.

“Pega a polêmica da foto da Norma Bengell”, disse. “Ninguém colocou a foto para parecer que era a Dilma. Bastava passar o mouse em cima para ler ‘movimento dos anos 60’, mas a tucanada divulgou a coisa como se fosse uma descoberta incrível doze dias depois de o site entrar no ar.”

Naquela tarde, na sede do PT, em Brasília, o secretário de Comunicação do partido, André Vargas, festejava o trabalho da militância petista na internet: “Essa mão de obra honesta e voluntária é ouro numa campanha!” Vargas acredita que a rede serve sobretudo para que o partido rompa com o filtro da mídia tradicional que, segundo ele, é desfavorável a Dilma.

“Já imaginou uma campanha na qual ela possa falar direto com os eleitores, sem interpretação de jornalista?”, animou-se. “A Dilma não tem que falar com jornalista. Qualquer coisa que ela disser na internet vai repercutir. Ela é candidata. Dando ou não dando entrevista, eles terão de dar espaço pra ela.”

É uma estratégia que vem sendo usada com sucesso. Dilma cria fatos controlados e jornais e emissoras de televisão são obrigados a repercuti-los. Fazia pouco tempo, ela recebera o cineasta americano Oliver Stone, que lançava um filme sobre Hugo Chávez. Não foi permitida a presença da imprensa. A equipe de campanha gravou as cenas, colocou-as no site e no YouTube, e o encontro, nas palavras de um assessor da campanha, “foi noticiado de maneira maravilhosa”. Sem o inconveniente de se expor ao contraditório, Dilma respondeu, entre outros assuntos polêmicos, ao caso do dossiê sobre Serra e à sua decisão de não participar de debates.

 

Os internautas que navegam pelo site oficial de José Serra são convidados a responder um questionário que inclui nome completo, número de celular, CEP, quanto tempo está disposto a trabalhar e como pensa em ajudar a campanha.

Quem se cadastrou há mais de um mês, recebe boletins com os chamados “desafios Mobiliza PSDB”. Num dos primeiros, pedia-se ao internauta que fornecesse cinco endereços eletrônicos de simpatizantes de Serra.

Numa noite de julho, marcou-se um bate-papo on-line com os coordenadores do movimento para avaliar a quantas andava a coleta. Às oito e meia da noite, um rapaz chamado Rafael Crespo, de forte sotaque carioca e vocabulário de surfista, apareceu na tela. Estava no comitê de Serra no bairro do Leblon e perguntava aos internautas quem havia cumprido a tarefa.

O desânimo dos interlocutores virtuais era notório. Pareciam alunos que não fizeram o dever de casa. “Gente, só um endereçozinho, vai. Eu pedi para a minha mãe, para a minha irmã e para três amigos no MSN. Vocês podem fazer isso também!”, chiou. A transmissão era ruim e o som falhava.

No dia seguinte, a tarefa era tuitar #serra45” à exaustão, até a mensagem aparecer na lista de tópicos mais vistos do Brasil. No comitê e nas telas, porém, o que se via eram jovens zanzando pelo comitê ao som de uma música de Beyoncé. “A gente devia estar trabalhando com ações mais efetivas, estamos batalhando melhorar isso aí”, disse o publicitário tucano Sergio Caruso.

Enquanto as ações mais efetivas não chegam, os simpatizantes do PSDB podem buscar ideias para espantar a pasmaceira no Manual do Voluntário, disponível na página oficial do candidato. Ali, ele recebe dicas de como espalhar de forma mais eficaz o nome e a biografia de Serra. É orientado a escrever para os jornais e rádios de sua cidade dizendo que Serra vai ampliar o Programa Bolsa Família. É instado a se comprometer com uma meta pessoal de 45 votos para o candidato até outubro.

Há até um guia de diálogo para vencer os argumentos de um petista – tratado ali de “desinformado” – durante uma discussão política.

Desinformado: Ué, o Serra é contra o Bolsa Família…

Resposta: Não é nada disso! O Serra e o PSDB não podem ser contra o que eles mesmo criaram…

Desinformado: Como assim?

Resposta: Você não sabia? O Bolsa Família é o resultado da união dos programas Bolsa Escola, Alimentação e Auxílio Gás, todos implementados durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Desinformado: Mas e o Lula?

Resposta: O que o Lula fez foi basicamente aumentar a quantidade de dinheiro destinada ao programa.

 

No site de Marina Silva, as propostas de mobilização são mais afeitas ao espírito bucólico dos eleitores. Incluem piqueniques coletivos “para que as pessoas possam fazer contato, conversar, trocar e inventar juntas outras formas de ação”, como propõe o site. O eleitor também aprende a confeccionar camisetas e bolsas, e sugere-se a disseminação de cata-ventos de papel, qualificados como o “objeto-referência da campanha”. “Peça para todos dentro de um ônibus segurarem os cata-ventos pela janela”, orienta o site.

No primeiro tuitaço da internet brasileira – um bater de panelas eletrônicas, por assim dizer – a campanha desafiou os militantes a, em 24 horas, fazer o número de seguidores de Marina no Twitter saltar de 80 mil para 200 mil. Chegaram a 100 mil, o que foi considerado muito positivo.

Até o final de julho, quem se cadastrou no site de Dilma Rousseff recebia por e-mail apenas a agenda da candidata e um pequeno resumo do que ela havia feito ao longo do dia. Não havia tarefas ou ações formais a serem cumpridas.

No dia 25 daquele mês, a página mais editada da Wikipédia de língua portuguesa foi a biografia de José Serra. Em menos de oito horas, as informações contidas no texto foram alteradas 56 vezes. Para o bem e para o mal.

A campanha oficial se arrasta na internet, mas o marasmo é só aparente. À meia-luz, as caneladas proliferam e os hematomas só devem aumentar.