poesia

Para o que ela não serve

Para o que, afinal, ela não serve?

Fabrício Corsaletti

SOBRE O CAVALO ÁRABE

1

a criação seletiva do árabe

vem sendo feita desde mil anos antes

de Maomé

 

o implacável rigor dos beduínos

quanto à pureza da linhagem

somado às adversidades

do clima desértico

foram os dois fatores que engendraram

o mais gracioso & o mais peculiar

cavalo do mundo

 

o alimento era escasso no deserto

a pastagem crescia só no inverno

e no início da primavera

 

no restante do ano

os cavalos se alimentavam

de leite de camelo

tâmaras secas

favas

e carne seca de camelo

 

só os mais fortes sobreviviam

 

2

Maomé estava tão convencido

da importância desses cavalos rústicos

que os comprou das tribos nômades

e pagou com escravos humanos

 

depois escreveu no Alcorão

uma irresistível prescrição aos homens

que alimentam bem seus cavalos

“quanto mais grãos de cevada

ofereceres a teu cavalo

mais pecados ser-te-ão perdoados”

 

o mandamento religioso reforçou

a paixão dos beduínos por esses animais

levando-os a uma relação homem–cavalo

inigualável nos dias de hoje –

isso durou treze séculos

 

o homem não só compartilhava

comida com seu cavalo

como dormia com ele

 

o que também estava de acordo

com o ensinamento de Maomé

“o Demônio jamais entrará numa tenda

em que é mantido um cavalo puro”

POEMA DOS 32 ANOS

 

em 2005

quando morei em Buenos Aires

fiquei amigo

da sobrinha de Mário Faustino

eu conhecia alguma coisa

do autor de O Homem e Sua Hora

meia dúzia de sonetos

transcritos na apostila do colégio

mas Fátima sua sobrinha era doce

como as medialunas que devorávamos

num café da calle Suipacha

nostálgicos e exultantes

ela com seu noivo portenho

eu com minha liberdade

 

Fátima voltou para Teresina

porque não aguentou de saudade dos filhos

eu voltei para São Paulo

porque estava louco –

 

depois me apaixonei pela Vaqueira Audaz

 

sinto que nunca mais serei feliz

Mário Faustino morreu aos 32 anos

PERGUNTA ERRADA

 

a questão não é

para que serve a poesia

mas sim para o que ela não serve

 

algumas hipóteses –

 

ao contrário do que se pensa

a poesia não ajuda na caça às mulheres –

no máximo elas se tornarão suas amigas –

nem é indicada para aumento de pênis

 

a poesia é ruim

no quesito ressurreição dos mortos

além de ser incapaz de evitar o luto

 

para fritar torresmos

ainda é melhor banha de porco

do que poesia

 

e quem escreve para ser eterno

mais cedo ou mais tarde se desapontará

até mesmo Shakespeare está com os dias contados

 

– para todo o resto a poesia serve

e serve muito bem

LÁ     

       

um dia vou para a Eslovênia

passar uns dias sem problemas

 

vivo uma fase desumana

acho que vou pra Liubliana

 

quero esquecer o meu trabalho –

me sinto um tipo de espantalho –

 

quero beber slivovica

comer prekmurska gibanica

 

caminharei ouvindo vozes

que não dirão coisas atrozes

 

lerei poesia numa praça

que ela diria que é uma graça

 

verei passar muitos casais

terei inveja dos meus pais

 

conhecerei uma menina

capricharei na pantomima

 

depois sozinho na taverna

anotarei “que lindas pernas”

 

visitarei alguns castelos

e torcerei meu tornozelo

 

irei parar num hospital

hei de sonhar com um milharal

 

e novamente andando ao léu

respirarei o azul do céu

 

serei tomado pela angústia

de estar no mundo sem astúcia

 

desejarei morrer agora

ou ser feliz por uma hora

 

me perderei num bairro antigo

onde haja fogos de artifício

 

chapado voltarei pro hotel

cheirando a óleo de pastel

 

então de bruços na calçada

vomitarei de madrugada

 

no dia seguinte – que perfeito –

ninguém que eu ame está por perto

um dia vou para a Eslovênia

atravessar pontes pequenas

 

a vida é soberana lá?

um dia vou pra Liubliana

Fabrício Corsaletti

Fabrício Corsaletti, poeta, é autor de Estudos para o Seu Corpoe Esquimó, da Companhia das Letras, e da novela Golpe de Ar, da Editora 34.

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